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Do que me fui lembrar: Wilson Phillips - Hold On


Não foi uma lembrança verdadeiramente espontânea. Estava a ver um filme daqueles muito, muito parvos que não servem para nada a não ser para nos distrair e deixar de pensar e as duas amigas da história adoravam esta música. Lembrei-me que eu também. Já não sei ao certo em que fase parva. Talvez na fase em que tinha uma qualquer paixão platónica e achava que ninguém gostava de mim e dificilmente a situação ia mudar. Daí o hold on. Tinha de esperar. Mas a música era uma espécie de tónico de força para a espera. Serviu durante os tempos. Não terão sido muitos porque, se não fosse o filme, já nem conseguia chegar às Wilson Phillips, quanto mais ao Hold On. Mas recordar é bom. Mais alguém se lembra disto?

Those dancing days


Foi a Sílvia Silva que se lembrou e eu não podia deixar passar em claro porque, como ela, continuo a vibrar com estas músicas, a achar que podia ter sido bailarina, que dançar me faria feliz.

Não, nos anos 80 não haviam estrelas Disney, nem DVD e canais de televisão para criança e eu, como ela, vibrava com estes filmes de dança: o Footloose, o Flashdance e, sobretudo, o Fame. Há uns anos fui ao Coliseu ver um musical do Fame que nem sei se era bom ou mau, mas saí de lá para o metro a levantar as duas pernas como se fosse bailarina profissional e a abanar-me como uma doida. Não é só revivalismo. É outra coisa um bocadinho diferente, talvez o voltar a vibrar com o sonho da dança.

Ainda hoje ensaio uns passos de ballet, copiados de tudo o que passou na televisão e que incluia bailarinas. Não sei se havia escolas de ballet na cidade onde eu vivia quando era criança. Os meus pais nunca se lembraram de tal. Eu também nunca pedi. Mas dançava. Muito. Porque tinha vontade, porque me alegrava a alma, porque me fazia feliz. Também tinha umas perneiras, cor-de-rosa, que a minha tia me fez. 

Para além destes três filmes de dança que a Sílvia cita, foi também importante para mim um outro, já mais próximo dos anos 90 e um bocadinho diferente, muito romântico, daquele dos amores impossíveis que tudo superam, outra coisa também bastante típica na altura, pelo menos do que me passou pelas vistas na época. No caso, que é o do filme Dirty Dancing, o amor, ou a dança, não sei bem, serviram até para superar a inabilidade da introvertida Baby, o que só fez com que me identificasse totalmente com ela, que era tímida, sem uma beleza óbvia e conseguiu conquistar aquele figurão que era o Patrick Swayze. Era tudo o que eu sonhava, naquele tempo em que me sentia um patinho feio, um amor daqueles, a fazer acreditar que tudo é possível, Thoseque o amor basta, que não se mexe, que existe a pessoa perfeita para cada um de nós. O filme, e outros do género, fizeram-me acreditar em tudo, ainda que nada acontecesse. Durante mesmo muito tempo. 

Crescemos assim, e depois, puf. Não é necessariamente mau, talvez possa ser melhor, mas é muito diferente. A música que ainda hoje me faz tremer, ao ouvi-la e ao ver a dança, é o Time of my Life. Vi o filme várias vezes de cada vez que o aluguei (sim, naquela altura havia clubes de vídeo onde alugávamos filmes)  para aprender todos os passos. 

Na altura serviu-me de pouco, talvez apenas para os meus pais pensarem que estava tolinha, embora a mania das danças já viesse de muito cedo. Há uns dez anos, mais coisa menos coisa, consegui personalizar o salto do Time of my Life (ao som de outra música qualquer) com o meu mais que tudo (em vez de lhe saltar para os braços esticados ao alto, como os do Patrick, fazia a corrida e saltava-lhe para o colo, foi uma emoção).  Há umas semanas, enquanto viajávamos de carro, numa rádio local passou o Hungry Eyes, do mesmo filme. Pedi silêncio, comecei a cantar, emocionada, até. Repetia cada detalhe como quem há muito tempo não respirava. "Nem vou perguntar como é que conheces isto", disse ele. Toda a gente que viu o Dirty Dancing conhece isto, respondi.

Este corte de cabelo sou eu

A fotografia não é lá daquelas coisas, sou muito má a tirar selfies e a deixar-me fotografar, portanto foi um exercício complicado. Mas quis mostrá-la porque, depois de semanas a hesitar, num vai-não-vai irritante de tão picuinhas e fútil, decidi. No dia em que escrevi o texto em que já tinha encontrado o meu estilo para os dias de verão sem calor, ficou efetivamente calor. Muito. Quando pus os pés (enfiados nuns sapatos quase fechados) e as pernas (dentro dumas calças pretas) na rua, percebi que estava mesmo calor, comecei a transpirar, o cabelo a ficar melado, decidi-me. E isto só não é absolutamente fútil e picuinhas e sem importância porque este corte de cabelo sou eu, como disse uma amiga no Facebook. E é bom sentirmo-nos nós também por fora. Às vezes parece que ajuda a arrumar as coisas lá dentro.

Oito crises habituais (só para falar de roupa, cabelo e estética)

São tão frequentes que começo a não lhes dar importância. Mas a tentação está sempre lá. Pode ser que seja só uma questão de controlo e um dia passa. Estas são as minhas crises habituais:

1. Não sei o que hei-de fazer ao cabelo (fase atual e a mais recorrente)

2. Talvez o melhor seja cortar o cabelo bem curto, fica sempre bem. Sim? Não? E o esforço que tive para o deixar crescer (como se alguma vez nas duas últimas décadas tivesse ficado verdadeiramente grande...)

3. Não sei o que hei-de calçar (de tão simples, o problema é complicado: tenho toneladas de calçado, mas calço quase sempre os mesmo pares, que por norma são de modelos similares e, a dada altura, canso-me. A outra questão é o tempo: mas será que chove? Muito ou pouco?)

4. Não sei o que hei-de vestir amanhã. Nem depois. Nem depois. (sim, as possíveis combinações e a metereologia dos dias seguintes condicionam o que escolho vestir no dia seguinte, quando escolho o que, por norma, altero na manhã seguinte - a não ser que tenha de me levantar mesmo muito cedo).

5. Nenhuma das t-shirts/camisolas/blusas giras e diferentes de verão me serve

6. As marcas agora não fabricam camisolas de meia estação? Com mangas que não sejam até meio dos braços?

7. Porque é que não consigo pintar as unhas de outra cor para além do vermelho e do rosa avermelhado? Podia variar, às vezes experimento, mas nunca dura muito tempo. O vermelho e o quase vermelho acabam por ter o maior número de combinações (admito que possa ser mania).

8. Para que tenho aqui estes cremes e esta maquilhagem se quase nunca tenho paciência para os usar?


Nem tudo tem de ser óbvio

Não eram as sandálias óbvias para este vestido (na minha cabeça, pelo menos). Mas ontem, quando o escolhi, não pensei no calçado. E hoje, 7h30 e muita pressa, a decisão teve de ser rápida. As brancas estão velhas, não, só em último caso. Estas ficam mal, este verde não combina, estas demasiado formais... E, de repente, as azuis esquecidas por baixo de uma cadeira. É isto. Provavelmente nem me teria lembrado. Mas assim de repente o que não era nada óbvio era a combinação ideal.

Comigo as mochilas não resultam

Já experimentei de tudo e o problema continua, não sei o que faça, talvez não seja apenas problema meu: a minha carteira parece ter sempre um bloco de cimento escondido no forro. Sim, já tentei tirar o que não faz falta e deixar só o essencial, mas, caramba, para mim é essencial trazer na carteira uma montanha de coisas: lenços de papel, porta-moedas e documentos (que muitas vezes mais parece um arquivo de talões e faturas), caneta, baton, chaves de casa e do carro, telemóvel, garrafa de água (sim, a água é uma necessidade básica, se não tivesse uma garrafa de água sempre comigo tinha de gastar fortunas a comprá-las em cafés), às vezes um iogurte e umas bolachas, que o miúdo pode ficar com fome e eu também.

Também já testei a hipótese de trocar de carteira, durante anos (décadas?) a última que encontrava era sempre a ideal, aquela que me ia resolver o problema, olha tantos bolsinhos, com esta arrumação toda a minha vida vai mudar. Tretas. São todas iguais. Não há carteiras perfeitas, pelo menos não para mim. Desisti de procurar. É difícil resistir, admito: a mais recente que vejo e me agrada e as que, pelo caminho, vou idealizando na cabeça, parecem sempre melhores do que a(s) minha(s). Mas estou calejada, não vale a pena, mais tarde ou mais cedo aquela super prática que não é minha vai trazer-me os mesmos problemas da(s) anterior(es).

Sim, faço frequentes limpezas "desta vez é que é, vou-me livrar de tudo o que não faz falta", mas por mais que tire e arrume é sempre um peso bruto. Também já andei de mochila, era nisso que estavam a pensar, não era? Se te pesa tanto e se isso te incomoda, porque não te deixas de vaidades e trocas a carteira por uma mochila? Pois, já experimentei, mas é o caos. A mochila pode ser prática para transportar o computador, o equipamento do ginásio, mil e uma coisas, mas não foi feita para levar o que uma mulher leva habitualmente na carteira.

O problema das mochilas reside exatamente na sua grande vantagem - foram feitas para usar às costas, não para estarem constantemente a ficar penduradas no ombro e a deslizarem por ele abaixo enquanto tentas localizar o que precisas de tirar lá de dentro a cada instante (sim, os essenciais da nossa carteira/mochila têm de estar acessíveis rapidamente e sem necessidade de grandes manobras, tudo o que obrigue a grandes trabalhos tira-nos a compostura, faz-nos parecer maluquinhas à procura duma agulha num palheiro).

Basta receberes um telefonema e percebes que está tudo estragado: por mais bolsos, bolsinhos ou departamentos que a mochila tenha, se precisares de tirar de lá o telemóvel que está a tocar e que queres atender, tens de a pousar no chão (pouco prático) ou pendurar no ombro (também nada funcional, sobretudo quando escorrega e vai parar ao chão onde não a querias pousar) para alcançar o sítio onde guardaste o aparelho, isto se te lembrares exatamente em qual dos bolsos escolheste guardá-lo.

Não, comigo as mochilas não resultam, nem as carteiras, talvez seja mesmo problema meu, acho que um dia vou experimentar uma mini mala de viagem com rodinhas, mas depois também tinha de a abrir no meio do chão, não, não ia dar jeito nenhum. Talvez desvie as energias do problema para encontrar uma solução, se calhar vou desenhar a carteira perfeita, em tempos achei que podia ser feliz a desenhar acessórios de moda, talvez tenha sido pena ter pensado que isso não era profissão.

Ou então vou andando assim, na expetativa de um dia poder andar na rua na rua de mãos a abanar - talvez quando me reformar, o que não deverá ser difícil pelo caminho que o país leva e porque, nessa altura, os telemóveis e os cartões e o dinheiro e quase tudo já devem ser apenas um chip instalado por baixo da pele. Mas, sem uma carteira na mão, ou no ombro, uma mulher perde o chique, deixa de ter um bocadinho do seu 'je ne sais quoi', não acham? 

Crise? Que tontice, estava só a pensar.

Tive uma crise, cansada da mesma coisa todos os dias, que foi feito dos sonhos, ainda por cima estou cheia de brancas, tudo me irrita e já estou suficientemente irritada comigo própria. Mas tenho um amor maior, às vezes os sonhos que sonhamos nem são os que nos fazem mais felizes, afinal a crise era só eu a pensar. Andei a viajar, cheguei a casa e foi preciso arrumar para continuar.

Estou com uma crise, não sei se é de meia idade, acho que aos 36 não existem crises dessas (se os 30 são os novos 20, qual é a idade da meia idade?), mas estou, sem dúvida, com uma crise qualquer. Tenho muitos e variados pensamentos ao mesmo tempo, sobre muitas coisas ao mesmo tempo: a vida, a carreira, a ambição, os sonhos, a profissão, nem sequer sei bem o quê. Estou cansada de fazer todos os dias a mesma coisa, talvez seja só do tempo, com o sol fica tudo melhor, será?

O meu cabelo está nojento, quer dizer, hoje até não está mal, ontem empastelei-o com um produto hidratante encontrado perdido no armário - estava de fugir, acordou todo no ar, amanhã depois da hidroginástica vai ficar pior. Tenho brancas espalhadas por todo o lado, podia pintá-lo, mas não sei se quero. Também está curto, o cabelo, cortá-lo mais é arriscado. Que indecisões estúpidas, miúda! Se não gostas das brancas pinta, pronto, assunto arrumado. Vais deixá-lo crescer? Se não vais, dá-lhe um corte de jeito, que diferença faz cortar se nunca vais ter paciência para o deixar crescer? 

Ainda assim hesito, as brancas afligem-me mas a pintura também, se estiver constantemente a cortar fica sempre na mesma, vejo-me ao espelho e não sei bem quem sou, não é pela estética, é que tinha tantos sonhos e... a sério que vais falar de coisas sérias? A vida perdeu-mos, aos sonhos, acho que foi isso, não consigo encontrar expressão melhor. Queria ser tantas coisas e parece que estou sempre no mesmo, a comer o mesmo, a repetir todos os gestos, todas as rotinas, todos os dias. Ao mesmo tempo, tenho muito mais do que alguma vez podia imaginar. Nunca se consegue dar a dimensão certa ao que é um ter um filho. Se não se faz ideia do que custam as noites sem dormir, as papinhas, as sopinhas, as fraldinhas, as cólicas (não há diminutivo para esta coisa, quem passou por ela sabe do que estou a falar) ou as birrinhas, muito menos se alcança este amor maior. Às vezes os sonhos que sonhamos nem são os que nos fazem mais felizes.

Ontem ou há uns dias, já não sei, estava assim, irritada comigo, com o cabelo, com as brancas, com a passagem do tempo, até com saldos de 50% que deixam peças de roupa com preços superiores a 50 euros (como é que o preço da roupa chegou a este ponto?). Tentando melhorar as maleitas, decidi levar amaciador do cabelo para usar no banho pós-hidroginástica, antes o peso na mochila que o cabelo feito palha. Caiu-se-me o raio da embalagem não sei quantas vezes durante o duche, tantas vezes a apanhei que descobri: usei uma embalagem inteira de champô a pensar que era amaciador. Ri-me, que patetice, será da velhice? E, com isto, tão simples, só porque me fez rir, acho que me passou tudo, o Porto fica tão lindo com sol, sou a mulher-maravilha outra vez.

Não te digas sem ambição, sem projetos, sem sonhos. Se os consegues concretizar é outra coisa, mas pior do que não conseguir é nem os ter. Afinal, a crise era só eu a pensar, que tonta, não faz mal nenhum. Foi como se estivesse a viajar e parasse para organizar ideias antes de prosseguir caminho. Ou como se tivesse chegado a casa. A vida, mesmo sem viagens, também se faz assim, com partidas, chegadas e arrumações.



Este texto da Divine Shape foi publicado no site Porto 24, e também pode ser lido aqui

Por favor não incomodar

Dia mau. Pedi para sair mais cedo do trabalho para ir a uma consulta, chego e estava tudo atrasado, espero na esperança de que a coisa se componha, mas a primeira consulta atrasou tanto que antes de chegar a minha vez já eram mais do que horas de ir buscar a criança à escola, vim-me embora sem consulta, apressada, stressada, irritada, tudo a correr como pensava que iria ser, mas para nada, nada de consulta.

Vou buscar a criança, que fica feliz por me ver mas amua logo a seguir porque não levei na carteira o lanche que ele costuma comer em casa. Discurso: mas então a mãe esteve todo o dia sem te ver e agora vem-te buscar e ficas amuado, quem é mais importante, a mãe ou o lanche? Ele disse "a mãe", eu ouvi "não sei". "Não sabes? Sem mãe não há lanche!". Que despropósito. Ele lá se explicou, pedi desculpa por não ter ouvido, mas mantive a reivindicação: nada de amuos por coisas que não têm solução. O lanche está em casa, temos de lá chegar. Se estivesses com muita fome comias o pão que te quiseram dar na escola.

No caminho, uma imensidão de trânsito e, sem o lanche para o entreter, um milhão de perguntas e eu nem sequer sabia se ia ter ou não de fazer o jantar, tínhamos combinado jantar em casa da avó que fazia anos mas nada do filho dela, a que horas ia sair do trabalho, se sempre ia comprar o bolo, se sempre ia chegar a horas de irmos todos jantar. Até que ele ligou, espero por ti na bomba de gasolina quando acabar de arrumar isto.

Estaciono, já não há-de tardar muito, um bocadinho do vidro aberto e do outro lado um senhor com uns papeis na mão, vinha pedir alguma coisa, percebi logo. "Escusa de falar comigo, vá falar com outra pessoa, estou aqui com o meu filho". Não podia ser, o senhor da bomba de gasolina não o deixava. "Pois, mas não adianta, a sério, olhe que eu não estou bem". Pois, nem eu, disse ele. Primeiro achei que queria boleia depois pediu-me dinheiro. A carteira pousada no banco de trás e as portas destrancadas, só me apercebi depois, nem sequer tive medo, apostei tudo na cara "por favor não incomodar, não estou boa das ideias, se estás mal eu não estou melhor". "Não tenho, não posso, não queira saber da minha vida". Ó mãe, queres que abra o vidro? E nisto o homem já tinha ido embora, não é preciso, filho, obrigada.  

Arrumações

Deve ter sido do sol, só pode, porque de repente toda a gente começou a falar em arrumações - aqui e aqui, por exemplo - e no "inconseguimento" (créditos à Assunção Esteves) que têm em destralhar. Eu já fui uma pessoa muito organizada, ou arrumada, agora sou muito pouco, ainda que possa não parecer (não faço ideia se pareço ou não, mas ninguém tem comentado, não devo parecer mesmo nada). Enquanto escrevo, percebo que a minha fase mais arrumada correspondeu precisamente à minha fase de maior tralha. Duas mudanças de casa e um filho depois, metade ficou pelo caminho. 

Aparentemente, ninguém muda para uma casa mais pequena, mas foi o que eu fiz quando fui viver com o meu marido. Um ano depois, mais coisa menos coisa, fiquei grávida e o que era o meu escritório teve de ser transformado em quarto para a criança. Só foi possível graças a um grande poder de destralhamento e isso só se consegue percebendo que não se pode ter tudo: ou queremos o espaço, ou queremos a tralha. Eu guardava tudo, jornais antigos, alguns inteiros, outros catalogados por temas, separava artigos de opinião de reportagens, dividia as reportagens por áreas, enfim, aquilo nunca mais acabava. Percebi, muitos anos de arquivo depois, que nem com muitas etiquetas e organização ia conseguir encontrar o que queria quando quisesse encontrar alguma coisa naqueles jornais. Fora. Nem sei ao certo o que tinha guardado, nunca lhes senti a falta. 

A roupa é um problema eterno, mas a estratégia é a mesma: não visto, não vou precisar, mas vale dar ou vender, só está a ocupar espaço. Durante anos tive amplas oscilações de peso e acumulei inúmeras peças em não sei quantos tamanhos diferentes. Os tamanhos mais pequenos dei-os, quando fiquei grávida do meu filho, achei que nunca mais ia caber neles. Não podia ter-me enganado mais, cinco anos depois estou consideravelmente mais magra. Tanto que, não estando magra, estou a vestir o tamanho de roupa mais pequeno que alguma vez me lembro de vestir. Claro que me sobra roupa no armário. Não me livro dela porque não sei se vou voltar a precisar, a maior parte está nova. Apesar disso, estou hoje muito para lá da fase em que tinha no armário roupa para todos os estilos, do clássico ou desportivo, para poder "variar", como se pudesse ser tudo, em vez de ser só eu. Livrei-me do que não gosto, só tenho aquilo com que me sinto bem, ainda que não seja no tamanho certo, mas nunca estive tão feliz com isso como agora. 

As arrumações, essas, chegam-me com os nervos. Quando menos espero, dou por mim a por coisas de lado, a limpar, levo tudo à frente. Na verdade, o que me aconteceu foi que me destralhei das arrumações, deixaram de ser obsessão, não preciso de ser organizada para ser feliz, ver tudo ao monte e deixar-me estar no sofá sem me incomodar, ou sair porta fora sem peso na consciência foi um dos mais importantes trabalhos interiores dos últimos anos. 

Brancas, sonhos, ambições e outras crises

Estou com uma crise, não sei se é de meia idade, acho que aos 36 não existem crises de meia idade, mas estou, sem dúvida, com uma crise qualquer. Tenho muitos e variados pensamentos ao mesmo tempo, sobre muitas coisas ao mesmo tempo, a vida, a carreira, a ambição, os sonhos, a profissão, nem sequer sei bem em que estou a pensar. Estou cansada de fazer todos os dias a mesma coisa, talvez seja só do tempo, agora vem o sol e fica tudo melhor, será? O meu cabelo está nojento, quer dizer, hoje até não está mal, ontem empastelei-o com um produto hidratante que encontrei perdido no armário, estava de fugir, acordou todo no ar, amanhã depois da hidroginástica vai ficar pior. Tenho brancas espalhadas por todo o lado, podia pintá-lo, mas não sei se quero. Também está curto, o cabelo, de maneira que cortá-lo mais é uma hipótese arriscada. Que indecisões estúpidas, miúda! Se não gostas das brancas pinta, pronto, assunto arrumado. Vais deixá-lo crescer? Se não vais dá-lhe um corte de jeito, que diferença faz cortar se nunca vais ter paciência para o deixar crescer? 

Ainda assim hesito, as brancas afligem-me, se estiver sempre a cortar fica sempre na mesma, vejo-me ao espelho e não sei bem quem sou, não é pela estética, é que tinha tantos sonhos e... a sério que vais falar de coisas sérias? A vida perdeu-mos, aos sonhos, acho que foi isso, não consigo encontrar expressão melhor. Queria ser tantas coisas e parece que estou sempre a fazer o mesmo, a comer o mesmo, a repetir todos os gestos, todas as rotinas, todos os dias. E ao mesmo tempo tenho muito mais do que podia alguma vez alcançar, nunca se consegue dar a dimensão certa ao que é um ter um filho, se não se faz ideia do que custam as noites sem dormir, as papinhas, as sopinhas, as fraldas, as cólicas, as birras, muito menos se imagina este amor maior.

Ontem ou há uns dias, já não sei bem, estava assim, irritada comigo, com o cabelo, com as brancas, com a passagem do tempo, até com saldos de 50% que deixam peças de roupa a custar mais de 50 euros (bolas, o raio da roupa encareceu mesmo). Entretanto, tentando melhorar as minhas maleitas, decidi que era melhor levar amaciador do cabelo para usar no banho pós-hidroginástica, antes o peso na mochila que o cabelo feito palha. Caiu-se-me o raio da embalagem não sei quantas vezes durante o duche (estava mesmo no fim), até que descobri: usei uma embalagem inteira de champô a pensar que era amaciador. Ri-me, que patetice, será da velhice? E, com isto, tão simples, só porque me fez rir, acho que me passou tudo, o Porto fica tão lindo com sol, sou a mulher-maravilha outra vez. Não te digas sem ambição, sem sonhos, se os consegues concretizar é outra coisa, mas pior do que não conseguir é nem os ter. 

O Inverno do Porto mudou a minha roupa

Tenho problemas com a chuva desde que vim morar para o Porto. Há invernos piores, claro, e este é um deles. Quando surge um bastante mau, lembro-me dos outros (e não me conforta). O primeiro que me fez mossa, há 14 anos, podia ter-me feito mudar de cidade, mas fez-me mudar de roupa. Era dezembro, houve uma derrocada nas Fontainhas. Eu nem sequer sabia o que isso era, nem onde ficava e aquilo quase que ruía mesmo, fios de eletricidade presos às casas, os bombeiros a cortar o que podiam para o chão não levar as casas, não sei quantos desalojados, lama, chuva, eu de sapatos, calças de tecido e canadiana (na altura chamava-lhe casaco de fazenda). Ficou tudo ensopado: ou escrevia ou segurava no guarda-chuva e, pensando bem, não sei como consegui tirar apontamentos no meio de tanta água.

Depois era preciso verificar se funcionaria o botão da festa de passagem de ano, que já não se sabia se era de milénio ou não, chuva miúdinha a noite toda e eu ainda de sapatos, calças de tecido e casaco de fazenda. Naquela noite percebi que, se queria ser jornalista no Porto, tinha de mudar de roupa. 

Houve ali algum exagero, mas foi ele que me levou a comprar um dos melhores casacos que já tive, quente e impermeável, bom para o frio e para a chuva, exatamente o que precisava. Era comprido, com carapuço, não acolchoado (maldita moda dos kispos que parecem edredões e falo mal de mim própria, atualmente tenho um: corri as lojas todas, fui à mesma onde comprei o outro e nada, nunca mais encontrei igual). Usei-o tanto, chovesse ou não, que o preto ficou cinzento, como o tempo, até ficar tão gasto que já não se podia usar.

A determinação era muita, até comprei uma carteira impermeável – a sério, era mesmo, e tinha tantos bolsinhos, tanto potencial de arrumação que não fui capaz de lhe ficar indiferente, parecia perfeita (como todas as que comprei desde então, e não, nunca são). Aproveitando o embalo, devia também ter investido numas botas, mas aí nem o inverno do Porto me convenceu. 

Não sei que raio de moda era aquela, minha, de usar sempre sapatos (a esta distância, adivinho que, com outro tipo de calçado, as calças que usava não assentavam bem, achava eu). Primeiro eram uns sapatos de pala rasos, pretos (what else?), tive várias variações. Depois, numa fase mais calças de ganga, passei para um modelo mais “sapatilha”, primeiro uns azuis (que ousadia) , depois uns em tons de rosa, que alternava de acordo com a cor das camisolas. Também tive (ainda tenho) uns vermelhos, também rasos, também no estilo sapatilha, também pouco eficazes em casos de muita chuva, mas pessoas de ideias fixas são difíceis de contrariar.

Naquele primeiro inverno mau, e no outro, naquele em que choveu de outubro a março e a ponte caiu, podia ter-me posto a milhas desta cidade chuvosa, onde a minha genética transmontana está sempre a morrer de frio, porque este é diferente, húmido e gélido, entranha-se na roupa, nos armários, cheira a mofo. 

Acontece que a chuva não me incomodava. Caramba, tinha um casaco impermeável e quente, giro como nunca mais encontrei nenhum, todos os dias descobria coisas novas, trabalhava de chuva a chuva e depois…. havia aquela luz, a do céu do Porto, com sol, quando se desce a avenida da Boavista em direção ao mar, foi ela que me fez sentir em casa pela primeira vez.

As primeiras botas a sério que comprei no Porto (as primeiras mesmo é melhor esquecer, eram ligeiramente pontiagudas, usava-as com as tais calças de tecido – que raio de mania –, davam-me um ar “senhora” mas passou-me depressa) coincidiram com o início da minha fase “vestidos”. Com “a sério” quero dizer de cano alto e pele (outros tempos), quem usa vestidos no inverno do Porto precisa de proteção nas pernas. 

Entretanto, o tempo, cronologicamente falando, tornou-me mais exigente. Mudei de estilo, passei a precisar de botas a sério (mas já não de pele a sério) também com calças (já não de tecido, pelo menos não naquele tecido). No ano passado, comprei umas galochas. Nunca me tinha passado pela cabeça, achava-as uma coisa de borracha feita, desconfortável, com tudo para deixar os pés gelados. Mas estava na loja a acompanhar alguém que ia realmente comprar alguma coisa, elas olharam para mim, tão cor-de-rosa, que tive de as experimentar. Foi a primeira vez que gostei de me ver com botas por fora das calças, eram tão giras e leves e rosa, trouxe-as, foram companhia quase diária, distingui-as como uma das melhores compras de sempre.

Este ano já não as acho confortáveis, atrapalham-me a condução, o andar também não é dos melhores, e não tapam a chuva toda, que tem chovido mesmo a sério. Não sei se é deste inverno, se é de mim, fiquei tão mais friorenta e vulnerável à chuva que não sei onde irei parar. Até comprei, logo no verão, umas botas de cano alto de feltro até ao joelho, tão quentes e impermeáveis que me convenceram como nenhumas outras (as mais recentes são sempre as melhores). 

Acontece (acontece sempre qualquer coisa) que se revelaram menos bonitas e elegantes do que pareciam. Dizem-me que só umas galochas de pescador me podem salvar. Brincam com as minhas cautelas com o tempo (metereologicamente falando) e eu bem gostava de voltar a usar sapatos ou sapatilhas no inverno, porque, agora sim, está na moda e desta eu gosto. 

Mas se chove, se dizem que vai chover, se parece ameaçar chover, se há alertas de ondas e ventos e chuvas, já não consigo. E, por isso, fico-me em relação às botas como em relação às carteiras: tenho muitas, mas nenhuma serve, as que ainda não comprei são sempre as que me fazem falta, maldita chuva.

Este texto da Divine Shape foi publicado no site Porto 24, e também pode ser lido aqui


Vou de férias

Porque a Divine Shape também precisa de férias e de "desligar" (incluindo computadores e telemóveis), a rubrica WHAT' S IN YOUR CLOSET do blog vai descansar a partir de hoje, para voltar às publicações semanais em setembro, no dia 6. 

Apesar disso mantenham-se atentos ao blog, porque programei vários artigos para publicar neste querido mês de agosto e porque nunca se sabe se as férias não me vão dar uma vontade imensa de escrever. 

Trabalho doméstico? Não. Sem culpas!

Menos de uma semana. Foi quanto tempo consegui estar sem lavar a roupa. Podia ter sido um teste, mas não foi. E a máquina também não está avariada. O ralo que existe na marquise e que, aparentemente, devia escoar a água da máquina para a canalização, sim. A meio da lavagem, lá vem a água para cima. Não uses a máquina, disse-me ele, depois de ter passado uma destas madrugadas a recolher a água com uma esfregona. Ninguém pode.  Depois arranjo. Pois, faltou isso, as ferramentas não estão em casa. 

A roupa foi-se acumulando, já era um monte jeitoso. Anteontem não aguentei mais.Preferi o trabalho de limpar a água do que o martírio de olhar para o monte de roupa suja. Menos de uma semana foi quanto aguentei se lavar roupa. Podia ter sido menos, se o miúdo estivesse em casa. E talvez pudesse ter sido mais, se estivesse sozinha em casa. Ou não: um dos motivos que me levou a ligar a coisa foram umas calças verdes e uma camisola branca e verde que fica lindamente com elas que me estavam a fazer falta mas que acabei por não usar porque entretanto o tempo aqueceu e quando é assim eu sou mais adepta de vestidos. 

Talvez pudesse, portanto, esperar mais um pouco, não fosse esta coisa de achar (de acharmos todos, digo eu) que temos de ir todos os dias com roupa diferente para o trabalho. Já me deixei disso quando estou de férias, sobretudo quando o destino é a praia e tenho de fazer malas para lá chegar. Umas leggins, um casaco de ganga, um casaco de malha, dois ou três vestidos, umas calças para o caso de apanhar algum dia mesmo frio, umas sapatilhas, umas sandálias. Já está. E mesmo assim sobra. Se vou de férias para a praia é lá que passo a maior parte do tempo e não faço questão nenhuma de mudar de indumentária todos os dias. Sou capaz, aliás, de fazer uma temporada de praia sempre com o mesmo vestido. Para mim férias e praia são sinónimo de despreocupação. Escolher o que vestir é menos uma coisa em que tenho de pensar de manhã, antes de me besuntar a mim e ao miúdo com protetor solar, preparar o lanche e correr para o mar (ele vai muito mais depressa do que eu).

Voltando à máquina, no início foi bom: a criança fora, de férias com a avó, eu a trabalhar e com menos umas quantas coisas para fazer depois de chegar a casa. Sim, porque o melhor de não lavar roupa foi não ter de a estender, apanhar e passar a ferro.  Estar sem o miúdo é que não foi assim tão diferente. Tive saudades, muitas, mas constatei que o que me rouba tempo não é ele, são as tarefas domésticas. Claro que pude adormecer no sofá sem me importar com as horas e com o jantar, claro que o jantar foi uma coisa qualquer para não dar trabalho, mas não fiz metade das coisas que imaginei poder fazer: ler um livro, ir para uma esplanada, ir aos saldos, visitar lojas só porque sim, ir ao cinema, etc. Podia tê-las feito, mas para correria já bastam os dias "normais", preferi descansar que é disso que estou mesmo a precisar. 

Se a minha mãe visse não teria sido bom. Ela teve empregada doméstica, eu não. Mas isso não lhe retirou um bichinho (vício? obsessão?) por ter tudo direitinho e limpinho e arrumadinho. Eu não tenho. Já tive, percebi o desperdício de tempo, já não tenho e quando me apanha tento assobiar para o lado o mais que puder. Mesmo sem empregada e estando de férias, ela aspira, passa a esfregona, limpa o pó e mais não sei quantas mil coisas numa casa que é o triplo da minha, ou mais. Eu só arregaço as mangas quando já estamos para lá do caótico. E não, não me importo que pensem que sou uma preguiçosa, uma desleixada, uma péssima dona-de-casa. Antes o primor no cuidado da casa fazia parte das mulheres, hoje, tenham paciência, só quem tem empregada ou não trabalha fora de casa é que consegue ser assim sem se culpabilizar e morrer de remorsos. Não trabalhar fora de casa está fora de hipótese para mim, ter empregada também, portanto resta-me lidar com os afazeres domésticos sem culpas, que a minha casa não é um museu e o tempo que lá passo também deve ser tempo de descanso.  



 

A festa dele, numa antecipação muito antecipada

Há largos meses que andamos à volta deste assunto, a tentar contornar a hipótese avançada por ele de trazer os amigos da escola para a festa de aniversário de casa. Não é por mal, a casa é pequena e os filhos dos amigos e familiares já são suficientes para o caos no quarto, com a cama que invariavelmente vai abaixo porque alguém se senta lá com demasiado entusiasmo, com os brinquedos e com a circulação nos corredores. 

Ele tem 4 anos, vai fazer 5, e o usual é levar bolo para assinalar o aniversário na escola, com os amigos. Tivemos no ano passado um primeiro convite de um amigo da escola para uma festa de aniversário num daqueles contentores horríveis e a música estava tão alta que a criança (a minha) se quis vir embora. De modo que fazer festa num contentor está fora de hipótese - o aniversariante seria o primeiro a fugir.

Eu até gosto mais das festas em casa e sou super prática na coisa: não cozinho nada, a não ser uma sopa e arroz, eventualmente, prefiro comprar o bolo para evitar desgraças, vai-se buscar uns frangos, a família traz sempre alguma coisa, copos e pratos de plástico para todos e está resolvido. Mas depois nunca é bem assim, porque há sempre solicitações na cozinha - arranja isto, traz-me um copo de vidro, e um prato, põe isso antes numa travessa de cerâmica que fica melhor e falta um talher, e mais isto e aquilo. E assim rapidamente a máquina de lavar loiça acaba por não chegar para as encomendas, é preciso lavar loiça à mão, não sais da cozinha, conversaste com alguém? Quem, eu?

Ainda faltam quatro meses para o aniversário e ele não desarma. Largos meses a falar nisto, largos meses a dizer-lhe que não é preciso convidar os amigos lá para casa porque também vai comemorar com eles na escola. "Mas no dia de anos não há escola, é sábado". Não há resposta para isto, realmente. E se comemorássemos na casa da avó, a não sei quantos quilómetros de distância, "assim os meus amigos podiam tomar banho na piscina [de plástico, com capacidade máxima para três crianças e já é estar a pedir muito]". Não pode ser, em novembro já é outono, está frio, é melhor festejar na escola, "mas ao sábado não há escola". 

E ontem, quando o vou buscar, vejo que não será possível dar a volta à história: "Estava a convidar o D. para ir à minha festa, disse que ele podia comer os chupas que vamos comprar, também podemos comprar Ice Tea de lata, com palhinhas, também quero convidar a E., porque ela se porta bem, e a M. e a outra M. e o V., o A....". Não há maneira de dar a volta a isto, até porque o entusiasmo dele me faz lembrar de mim, num ano em que, com meses de antecedência, resolvi iniciar a missão de escrever à mão convites para toda a gente que conhecia e para aquela que mal conhecia também, todos decorados com carimbos da Hello Kitty. 

Tenho ideia de andar a mostrar aquilo que me pareciam obras de arte à minha mãe e ela me dar a entender que a festa não poderia ter aquela gente toda, até porque aquela gente toda não estaria disponível para ir à minha festa. A verdade é que eu, aniversariante de agosto, mês em que nunca ninguém está disponível para festas porque nessa altura é mais férias, não quero estragar ao miúdo o prazer que nunca tive, de ter uma festa cheia de amigos da escola.


Os meus trinta e tais são melhores do que os meus 16

Alguma coisa muito estranha se andou a passar na minha vida. Há uns dias desencantei roupas que achava que já nem tinha, dos meus 16/18 anos. Servem-me na cintura e ficam largas no rabo, na anca e nas pernas, donde se concluiu que desde a infância que não tinha as pernas, as coxas e a anca tão elegantes. Consigo finalmente enfiar-me num tamanho S ou 36 e ainda acho que é mentira, que devem ser tamanhos grandes. Estas roupas antigas só vieram baralhar-me mais. E fazer-me ficar um bocado zangada. 

Lembro-me bem de me sentir a abarrotar naquelas roupas que agora me servem e que são tamanho 40/42. Desde os 16, senão antes, que o meu tamanho sempre foi este, quando não foi maior. Mas acho que me andaram a enganar... Ou isso ou as roupas da minha juventude, com as cinturas estreitas e cortes direitos, eram mesmo muito mal amanhadas para o meu corpo. E fizeram-me sentir muito mal durante muito tempo. Gorda. Complexada. Para o resto da vida. Que se lixe a moda, não há nada como crescer.

Entre o que gosto e o que me fica bem vai uma grande distância

Aprecio imensas coisas simplesmente porque sim e outras porque me fascina o design e/ou a inovação, mas muitas delas sou incapaz de usar apesar de gostar. Não acontece só com roupa. Nos sapatos, nas carteiras, na decoração da casa acontece a mesma coisa. Por isso, o que mostro no blog ou nas composições do Polyvore são sugestões e não a minha vida real. Não mostro nada de que não goste, mas não uso tudo o que gosto. Acho um piadão a estes dois primeiros pares de sapatos, e os terceiros parecem-me um must de elegância no pé, mas não os usaria. Preconceito? Talvez. Mas acho que se trata de ser mais eu.

 
Entre o que gosto e o que sinto que me fica bem, aquilo que é "a minha cara" e "mesmo o meu estilo" vai uma grande distância. Isto é uma coisa difícil de concretizar, pelo menos para mim. Mas essa é uma das razões pelas quais digo que nem gosto de moda (do que "está" na moda), gosto é de ter estilo e de quem tem estilo. E isso tem muito pouco a ver com moda. Odeio as "Litas" (estas são de fugir, de tão feias que são), os calçõezinhos demasiado curtos e os vestidos mais compridos atrás e demasiado "prepara-aí-as-sedas-que-vamos-a-um-casamento" (até já fui grande fã desta loja, mas estes vestidos, para mim, são um horror - cinderela? agora vamos todos ao baile?).

Há uns dez anos, quase só usava calças de ganga e achava que ter estilo era ter sapatos e carteiras de várias cores para ir combinando com as diferentes camisolas. Não sei se tinha ou não, mas isso passou-me quando encontrei o meu estilo. Acho que tudo começou há uns sete anos, precisamente quando entrei naquela loja e me enfiei nuns quantos vestidos, sapatos e relógios de design deslumbrante que eram mesmo aquilo que eu queria e que me fizeram sentir "esta sou eu, não preciso de tanta tralha, só precisava de me encontrar".

Claro que não mudei o guarda-roupa todo e ainda hoje ele não é composto só de marcas "giras". Mas os sapatos de Inverno são quase todos pretos, porque é isso que uso. Este ano comprei umas galochas cor-de-rosa porque as experimentei só por experimentar e adorei. Foram das melhores compras que fiz, são ótimas, super-confortáveis, não deixam os pés gelados e a cor garrida dá mais cor às roupas pretas, cinzas, azuis e pouco mais. 



Estava tudo a correr lindamente até comprar estas sandálias Camper. Não foi propriamente uma compra por impulso: já as tinha experimentado duas vezes, noutras lojas, e quando entrei naquela ia decidida a comprar. Mas foi uma compra por teimosia. Queria umas sandálias com salto, confortáveis, prontas para calcorrear o dia-a-dia, aquelas foram as que mais se aproximavam do que queria. Acontece que cheguei a casa e consegui combiná-las com duas peças de roupa - um vestido e umas calças de ganga. É pouco, muito pouco. E à medida que fui olhando mais para elas comecei a achar que não tinham mesmo nada a ver comigo, que ia usá-las pouquíssimas vezes a não ser que voltasse a enfiar-me nas calças de ganga todos os dias e mesmo com elas talvez me fartasse. Ouvi algumas opiniões no Facebook e quando comecei a sentir que os comentários que me confortavam eram os que diziam "deita isso fora" percebi que não havia volta a dar. 

Fui trocá-las. Tê-las-ia devolvido, mas estamos em saldos, não dá. Sim, até eram giras, confortáveis, ficavam-me bem no pé mas eu não me sentia bem com elas. E há coisas que não precisamos de complicar, sobretudo aos 35 quase 36, numa altura em que já percebemos que não vale a pena insistir em determinadas peças, porque elas não nos representam e vão acabar por ficar encostadas no armário. E porque - já fiz o teste várias vezes - nem sequer precisamos de sapatos de "cerimónia" nem as cerimónias têm de ser feitas apenas de saltos altos. Quando se consegue um visual top sem saltos que nos deixa perfeitas porque nos sentimos e estamos bem, lamento, mas não preciso de insistir, vou muito mais eu.

Troquei, por duas (coisas de saldos, outra vez, mas as primeiras eram caras e pude multiplicá-las). Aquele verde não corresponde bem ao verde real e as amarelas podem parecer sandália de turista estrangeiro ou caminhante, mas ode o mundo inteiro achá-las feias que eu sinto-me bem com elas e elas têm tudo a ver comigo e com a roupa que uso. Isto não é sinónimo de ter estilo, mas talvez o estilo seja coisa que não se explique. Porque também há coisas pelas quais não daria um tostão e, depois de vestidas ou calçadas, são uma surpresa. Sim, eu sou uma complicação. Não preciso de comprar coisas caras e tenho muitas peças que são da Lefties, mas tenho de gostar delas. Comprar por comprar, porque é ou está mesmo barato, não. Se não gostar MESMO, não compro, não lhes vou dar uso, e eu compro calçado para durar umas estações. Quem não compra "demasiado moda" pode comprar a longo prazo. 

A escola dos baloiços com vista para a montanha

Voltamos à escola e ao piquenique. Menos gente do que no ano passado, desta vez só cinco alunos,  todos contentes pela repetição da experiência, um piquenique à noite, na escola, os amigos e a família, a professora, até a família da professora veio para as sardinhas e as febras, o pão, as sobremesas e o vinho.

Desta vez eram apenas cinco meninos, tão cúmplices, tão amigos, havia imagens deles pequeninos, a entrar na primária, agora dois já fizeram a quarta classe, os outros três sabem lá onde a vão concluir, se ali se noutra escola, são só três, dificilmente a escola ficará aberta, pode ser que por ser tão longe alguém se esqueça dela e os deixe ali perto de casa, na escola dos bancos de pedra e dos baloiços com vista para a montanha. 

Falou-se e riu-se alto mais uma vez, o meu filho já é amigo do irmão de uma aluna, comeu-se e bebeu-se, ninguém faz cerimónias, espere, não se vá embora que agora é que vem o mais lindo, eles vão dançar ao som da Waka Waka da Shakira, os rapazes vão estar meios envergonhados com as leggins vestidas e as fitas coloridas nas pernas, mas dançam, dançam todos e a família já não se surpreende com a atuação dos meninos, que pena talvez não haja mais, a professora discursa, obrigada a todos, cheguei aqui há sete anos e fizemos muitas coisas, vocês sabem onde fica a minha casa, quer-se reformar há anos, parece que agora chegou a hora, embora não se saiba muito bem quando, mas não há-de passar de outubro, cala-te boca, não vá o Governo inventar alguma coisa nova, que raio, se querem despedir não sei quantos funcionários públicos por que motivo não a deixam reformar-se. 

O presidente da junta que também é professor lembra o que disse aos alunos dele, no dia anterior, na festa que fez com eles: nós somos como vossos pais, quero que sejam todos boas pessoas, amigos, o que levam daqui não são só as letras. Depois a gravata, se depender de mim não fecha, mas não depende, a conversa do costume, tenho a impressão de que os meninos esperavam ouvir coisa diferente, quando damos por eles estão a chorar, uns de lágrimas nos olhos, outros com as lágrimas a correr-lhes pela cara, outros a chorar mesmo, aos soluços, vem o pai e pega nela ao colo, oh minha menina não chores, fazes-me lembrar de mim, toda espevitada nas danças, já sabes que podes ir a casa da professora e levar uns livros para ler que eu não me importo, tu e os teus colegas, já sabes que podes. 

As famílias também: a mãe com a criança de colo e a avó que ficaram à minha frente na mesa estavam a chorar, percebi quando me virei de costas para o palco, quando já era quase tudo silêncio e ninguém sabia bem o que dizer, olhos cabisbaixos para não ver os outros entristecidos, os pais dos meninos que já acabaram a quarta classe estão sossegados, os outros não, diabo, por um ano, só falta um ano, os miúdos podiam acabar ali a escola primária, na escola dos bancos de pedra e dos baloiços com vista para a montanha, pronto, vamos embora, este ano foi bom mas no ano passado foi melhor, porque não havia fim nenhum à vista. A tristeza vai passar. E quando crescerem espero que se lembrem da minha mãe, a professora, e da escola dos bancos de pedra e dos baloiços com vista para a montanha que eu não vou esquecer e que faz inveja a muitas escolas do Porto, sabeis que aqui o neto da professora não tem um brinquedo que seja no recreio, e ainda só anda na pré? 

A culpa não é minha!


Manhã livre de trabalho, não sei bem o que fazer, decido ver montras e prateleiras de loja, mesmo que não compre fico atualizada. Cruzo-me com umas sabrinas que são também uma espécie de alpargatas, parecem confortáveis e aparentemente têm uma sola especial para caminhadas. São da Ugg, hum, vou experimentar. Calço o 37. Apertado. Mesmo. O peito do pé quase a saltar de dentro do sapato. Percebo logo que não são nada de genial mas ainda assim peço o 38. Largos. A sair dos pés. Lembrei-me que já tive várias experiências do género no ano passado. E que talvez por isso tenha a casa cheia de sapatos do género que não calço, ou que muito raramente uso, porque acabam sempre por me magoar. Ou sair dos pés. É por estas e por outras que prefiro sapatilhas e sapatos com cordões. Não é uma questão de gosto.  É uma questão de ter um pé que nem é um número nem é outro. Talvez seja um número intermédio. Ou um pé que não foi feito para ser enfiado nestes modelos. Mas percebo agora que não é minha a culpa de ter não sei quantos pares de sapatos do género enfiados numa caixa quase sem uso (os sapatos, não a caixa). Quer dizer, a culpa é minha, que os comprei, mas começava a achar um capricho dizer que não me serviam sapatos que eu própria escolhi, depois de os ter experimentado. 



Mãe Mãe Mãe Mãe Mãe Mãe Mãe Mãe Mãe


O meu filho diz mãe como quem respira, ou seja, está sempre a chamar por mim. E é uma tortura. "Mãe". Sim. "Sabes que bla bla bla". Ok, agora vou à casa de banho. Viro costas e "Mãe!". O que foi? "Quero uma bolacha". Sim senhor, toma. "Mãe". Diz. "Huuumm". O que é? "Mãe". Sim, diz, o que se passa. "Mãe". Agora vou fazer o jantar. "Mãe". Despe-te para tomares banho. "Mãe". A minha sempre me disse no início que o pior estava para vir. Eu feita zombie a dar de mamar de duas em duas horas, ele a chorar o tempo todo, muitas cólicas, ela a dizer que o pior era depois, com as birras e ele sempre a chamar por mim. Lembro-me vagamente do meu irmão chamar muito pela minha mãe, mas não tantas vezes.  Mãe, mãe, mãe. Parece tortura. A palavra fica a ecoar-me nos ouvidos o dia todo como as músicas mais parvas que se possa imaginar (que são as que mais se colam ao ouvido). E depois estou com ele e "Mãe, mãe, mãe" (já para não falar que anda atrás de mim para todo o lado o que ainda não motivou um acidente por mero acaso - entro no quarto para pousar um casaco, dou a volta para sair e está ele a entrar; entro na marquise para pôr roupa na máquina, meia volta e está ele à minha frente, vou à cozinha buscar pratos e talheres, estou a sair e ele a entrar, parece cola).