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Ana Segurado: conforto e versatilidade

















Peças confortáveis, femininas e versáteis. É assim que a designer de moda Ana Segurado descreve a sua nova coleção de outono e inverno, que tem nos cortes assimétricos e nas sobreposições imagens de marca. Estes foram dois dos aspetos que retive mal vi as primeiras imagens dos artigos, a par das cores: branco, cinza e azul. Tudo simples mas com aquele toque especial que faz a diferença entre mais uma peça de roupa e algo bastante original. Em resumo: tudo aquilo de que gosto, numa coleção que seria capaz de levar toda para casa (particularmente os casacos com detalhes azuis, que amei!).

Mas a coleção e a marca, relançada em 2015 depois da passagem pelo Espaço Bloom do Portugal Fashion em 2012, são bastante mais do que isso: há uma clara aposta nos produtos "cruelty-free, com design orgânico e exclusivo". Isto porque a designer procurou "opções mais sustentáveis e ecológicas, com eco numa ideologia slow-fashion em oposição à cultura fast-fashion". Por isso, com excepção da lã, nenhum outro material de origem animal é incorporado no processo de confecção da marca. 

Na atual coleção, a criadora quis manter a aposta em peças confortáveis, sem descurar o lado feminino e versátil da marca. 

O destaque vai para as "texturas ricas e granulados naturais em cortes assimétricos e sobreposições". Nas matérias, predominam as fibras orgânicas e aspectos de lã conjugados com materiais aéreos e fluidos. As peças interiores funcionam a par dos casacos, para "criar uma proteção mais estruturada". 

A coleção vai comercializada online, através do site da marca, na loja CRU e na Galeria Ivo Maia Designers, em Santa Maria da Feira. As peças são de produção limitada, fabricadas em atelier. Do desenho à modelagem e confecção, todo o processo é feito em Portugal.

Pisca: Dá vontade de lhe piscar o olho e muito mais


Nasceu em 2004 (foi mesmo assim há tanto tempo?), no Mercado Mundo Mix, no Porto. Já chegou a Barcelona. E merece. A Pisca inclui peças de homem e senhora, essencialmente em jerseys e felpas - algodão, modal, viscoses -, combinados com outros materiais como redes, franjas e brilhos inesperados, sempre produzidas em edições limitadas.

Atualmente, a marca está à venda na "Muuda" (Rua do Rosário - Porto), no "Rosa 78" (Rua da Rosa, 78 - Lisboa - Bairro Alto) na "Cus´n´kiss" (Rua do Encontro - Guarda) e no "GallaBCN" (Calle Capellans - Barcelona)

Wek: Um simples fio transformado em arte




os tinha visto na montra da Scar.id Store e eles piscaram-me o olho (eu pisquei de volta, não sei se repararam). Felizmente, a loja estava fechada quando por lá passei. O encerramento é breve, para almoço, e até deixam contacto na porta, mas eu não podia entrar na loja. 

Ver tanta coisa gira do lado de fora convenceu-me que o melhor era fugir. Correr dali, sair rápido, virar costas, fazer de conta que não tinha lá ido, evitar saber dos horários, contornar qualquer vontade de lá passar a outra hora ou noutro dia, imaginar que nada daquilo existe, arrumar tudo no mais oculto dos ocultos lados da parte racional do meu cérebro - aquela que me diz, tantas vezes escusadamente, que não posso deixar-me levar por todas as minhas paixões. 

Se assim não fosse, e entrasse, dificilmente conseguia sair sem um monte de coisas lindas mas com os bolsos a voar de tão vazios e um sentimento de culpa pronto a transformar-me rapidamente em algo bem maior do que prazer da aquisição (ou aquisições - lá está, eram mesmo muitas coisas giras). 

Estava tudo muito bem até me cruzar hoje, sem querer, com os colares da Wek no Facebook. Despertou-se toda a vontade outra vez, ainda mais do que antes, porque não fui capaz de evitar espreitar o site da marca de joalharia contemporânea criada em junho de 2104 por Telma Oliveira e, lá chegada, deparei-me com uma diversidade e criatividade ainda maiores do que as que tinha visto do lado de lá da montra. Fiquei conquistada. Seria capaz de usar quase tudo, admiro todas as combinações e detalhes, é mesmo paixão. 

A Wek, wearable compliments, tem sede no Porto e explora materiais não convencionais. Reinventa outros e reconcilia a tradição com a inovação, misturando o trabalho manual com a produção industrial. O resultado é design exclusivo e edições limitadas.

A coleção atual junta um fio de atar habitualmente usado nas vinicultura com a modulação e a impressão a três dimensões. Interessante, não?

Os produtos estão à venda na Scar-id Store, na rua do Rosário, Porto, e na IvoMaia [designers], na rua Comendador Sá Couto, em Santa Maria da feira.






A dificuldade dos meios termos

Demasiado calor, depilação feita, há que aproveitar para usar um vestido, que o tempo vai arrefecer e entretanto os pelos crescem. Uma mulher tem demasiadas coisas para gerir e não é fácil fazê-lo numa cidade como o Porto, nomeadamente na primavera ou no verão, em que tanto está um calor tropical como está ameno, chove ou a temperatura desce abruptamente e até fica frio. 

Há que estar sempre de olho nas previsões metereológicas, porque o tempo aqui muda quando menos esperamos. A meteorologia nem sempre acerta, mas mais vale saber o que ela reserva para não dizermos que não nos avisaram. 

Pois hoje, apesar dos avisos de trovoadas e aguaceiros, estava demasiado calor para me enfiar numas calças. Mais do que isso, ontem fiz a depilação e, para amanhã, a previsão é que o tempo arrefeça. Concluo que mais vale usar um vestido de verão enquanto posso, não vá ficar frio ou não vá ter tempo para livrar as pernas dos pelos quando voltar a estar calor.

Enfio-me num vestido com três ou quatro anos, mais coisa menos coisa, o mais fresco que me aparece no armário. Já no ano passado estava mais larguinho do que quando o comprei, mas ainda assim era usável. Hoje fazia-me um fole nas costas, puxei o tecido que sobrava e cabia outra de mim lá dentro. Tira, veste outro. Comprado este ano. Talvez demasiado curto, ou demasiado marcado para um dia de trabalho. Mas agora que o comprei, tenho de o usar, era o que faltava deixá-lo apodrecer no armário. Olho ao espelho, não me parece mal. 

Diz que fica demasiado apertado, quase como se as costuras fossem rebentar - o comentário chegou quando já estava no trabalho, não tenho agora alternativa senão mantê-lo no corpo até chegar a casa. Não me sinto assim tão apertada, aliás nem me sinto nada apertada, mas fiquei a pensar naquilo. 

Talvez sejam demasiados anos a sentir-me olhada pelo que supostamente são as piores razões - ser gorda. Nunca gostei que fizessem comentários sobre o meu aspeto ou a minha roupa porque me sentia olhada. E ao sentir-me olhada sentia-me mal. 

Ter peso a mais não tem mal nenhum se a pessoa se sentir bem com isso. Eu não sentia. Agora nem sei bem que peso tenho (aquilo da balança da médica de família não é mesmo fiável, mas essa histórica fica para amanhã), mas há inseguranças difíceis de ultrapassar. Às vezes o melhor é passar por cima: eu sinto-me bem comigo e com o vestido, e isso é tudo o que, para o caso, realmente importa. 

Não há sabonetes na escola

Chego à escola à hora do costume. O miúdo, como de costume, está no recreio a jogar a bola. O recreio é de cimento, irregular, não percebo por que motivo os parques infantis têm de ter um piso especial para as crianças não se magoarem e os recreios das escolas podem ter um qualquer. Para o efeito não interessa muito e a verdade é que o pai da criança já caiu num parque infantil (coisas da vida) e ficou todo esmurrado. Contas feitas, não há pisos à prova de miúdos, e, como disse, para o caso não importa.

Desta vez o miúdo não chora ao ver-me chegar porque "ainda agora acabei de fazer os deveres, tinha mesmo começado a brincar" (mãe que tenta não se atrasar para ir buscar o filho sofre). Mostra-se conformado com a ideia de ir para casa, talvez por ter decidido não fazer os deveres no ATL "porque eram poucos".

Está com a cara com manchas castanhas, da mistura do suor e da sujidade das mãos que andaram a jogar à bola e a esfregar-se no chão durante a aula de educação física. As mãos estão pretas, quase que dá para lhe tirar a impressão digital. Vai lavar as mãos. Ele começa a dirigir-se ao centro do recreio. Onde vais? "Vou lavar as mãos". Não, vais lá dentro lavar as mãos bem lavadas com sabonete. "Não há sabonete na escola", responde-me, com a assertividade e indignação de quem acha que eu devia saber disso há muito tempo. Realmente devia. Não há sabonete na escola? Olho em volta, acenam-me que sim, que é verdade. Também não há toalhas, toalhetes ou o que quer que seja onde se possam limpar ou secar. Não há sabonete na escola? 

Não consigo sair daquilo. Fiquei bloqueada. Não há sabonete na escola. Os meninos vão almoçar e limitam-se a passar as mãos por água, se é que o fazem? Fazem cocó e passam as mãos por água? Sem sabonete? E eu nunca me apercebi disto. Se não me apercebi talvez seja porque não faz assim tanto mal. Eu até sou adepta de que ele se suje todo na terra e nunca fui obcecada com bactérias e afins. Mas não ter sabonete/gel para lavar as mãos? Numa escola do Porto? Em 2015? Quanto mais penso nisso menos faz sentido. 

Não era suposto a escola pública ser promotora da igualdade? Não era suposto que dessa igualdade fizesse parte o ensino de algumas coisas que alguns meninos não aprendem em casa? Não é suposto a higiene ser uma regra básica em qualquer parte do mundo civilizado? 

Quase que aposto que existe uma razão para não haver sabonete na escola. Quanto mais não seja, uma razão para explicar a quem possa colocar a questão. Não há dinheiro para ele, os meninos brincavam com o sabonete em vez de o usarem para limpar as mãos, os sabonetes desapareciam, quem tem competência para isso já prometeu há séculos instalar um dispensador de gel... Imagino uma série de justificações e nenhuma me convence. Os meninos daquela escola andam há um ano, ou mais, a lavar as mãos sem as lavar. 

Antes não havia sabonetes, no tempo dos meus avós e pais nem sapatos havia e sobreviveram todos, bem, os que conseguiram. Há coisas piores, o melhor é fazer queixa, talvez o mais aconselhável seja ignorar, andar para a frente, analisar se isso é mesmo um problema. Estou já em fase de delírio sobre possíveis respostas. Na verdade não espero nenhumas. Quer esteja calada quer aborde o problema. Só precisava que o mundo soubesse que sim, seja lá por que motivo for, há pelo menos uma escola pública onde não há sabonetes. No Porto. Em 2015.  

O inverno mata-me

Já tenho saudades do último verão que não chegou a sê-lo, com as temperaturas dúbias, a chuva e o calor que não houve, que nem chegou para me deixar a transpirar, a sentir-me farta da pouca roupa, a ansiar pelos dias de dias de outono em que ficaria confortavelmente enroscada numa mantinha no sofá da sala, a beber chá e comer bolachas. Não houve nada disso, mas outubro teve dias de praia sem vento e céu perfeitamente azul e agora que o inverno chegou trocava aquela indefinição toda por este frio intercalado com chuva. A sensação que tenho , não há corpo que aguente tanta roupa, nem dona de casa que se conforme com o cesto da roupa cheio todos os dias, apensar de usar a máquina de lavar todos os dias. E a de secar também. Como é que se junta tanta roupa? 

Odeio o inverno, o inverno mata-me, com o frio, a chuva, não sei quantas camadas em cima de mim e da cama, que sou avessa a aquecedores enquanto conseguir sobreviver sem eles. Ou talvez o mal seja deste mês de janeiro, ou qualquer outro de outro ano qualquer. Não gosto de janeiro, pronto. Tem os mesmos 31 dias de julho ou agosto mas parece-me sempre interminável. Não é só um dia de janeiro que me parece o mais infeliz do ano, é todo o mês que me atormenta por parecer infindável, por ser um mês de nada, a não ser de espera - vejam-se as urgências, tanta gente doente, tanta gente à espera de médico, tanta falta de médicos ou sei lá de quê, se há sítio onde se pode tomar um banho de realidade é nas urgências de um hospital público, todos devíamos por lá passar de vez em quando. 

E, apesar disso, continuamos os dias, cortam o abono a quem ganha mais de 600 e tal euros, não sei agora ao certo o valor, a coisa estava tão preparada que recebi a carta do aviso menos de uma semana depois de ler a notícia do anúncio, quase perdida em plena crise de "ai que não nos metem medo, que somos todos pela liberdade de expressão e pelo Charlie Hebdo". Pelo abono ninguém disse um ai. Ainda há disso? Por muitas outras coisas também não. Quem se levanta por quem morre à espera na urgência de um hospital?  

Ainda assim, descobri recentemente, na urgência pediátrica do Porto do Serviço Nacional de Saúde nem se espera tanto como nos hospitais privados, quentinhos e com parque de estacionamento privado. Pelo menos ao fim de semana, pelo menos quando lá fui, e já fui duas vezes. Primeira vez: privado - umas 3 horas de espera para insistirem num teste que o miúdo não deixou fazer e que lhes ia permitir cobrar mais uns trocos. No dia seguinte o miúdo na mesma, privado outra vez - 8 horas de espera. Nem pensar. vamos ao público. Em 20 minutos ficou tudo tratado, quase diria que perdi mais tempo à espera de ser atendida na farmácia. Segunda vez, domingo, 7h, 38 graus, diretos ao público: uma hora e meia de espera. 

Não gosto de janeiro, pronto. Chove, faz frio, a roupa não seca, está tudo húmido e há tanta gente a viver tão pior, às vezes levar umas chapadas de pobreza ajuda-nos a colocar muita coisa em perspetiva. À pobreza também. O tempo mais quente ainda demora e as férias também, há sempre demasiado cotão a passear no chão da casa, a única vantagem é que, de toda a roupa que se lava, só é preciso passar a ferro a que se veste por fora, e só se for mesmo preciso. Sim, sou uma dona de casa moderna, sem empregada e reconhecidamente sem jeito, quero lá saber se os lençóis e as camisolas interiores têm vincos. Na verdade até consigo dobrá-las bem dobradinhas de modo a que não se note. Até o pinheiro de Natal continua a enfeitar a sala, já sem enfeites. A caixa parece-me sempre demasiado pequena para conseguir lá guardá-lo e vou eternizando a tarefa com a esperança de que alguém a faça, ou de que ele (o pinheiro) desapareça daquele canto da sala, até me dar o repente do "não aguento mais" e lá vai ele, com caixa ou sem caixa. Puf, até para o ano. 

"Ó papá, não quero ir para a escola, não quero!"

Segunda-feira, manhã tristonha de chuva a avisar que o verão que não chegou a ser acabou de vez, a fila de carros habitual no sítio do costume, começar a manhã a pensar quanto tempo por dia passo presa no trânsito, era tão bom que fosse tudo perto, sair de casa ir ali ao lado e já está, qualquer dia mudo-me para o campo, até já aprendi umas coisas sobre plantas e relva, mas nada que me permita ter um ordenado ao fim do mês, nada é assim tão fácil como queremos. Somos novos e sonhamos com a cidade, o movimento, a agitação, o frenesim, a infindável oferta de atividades de lazer e diversão e, de repente, só nos apetece andar com roupa velha a chafurdar no quintal, beber chá com bolo caseiro, ir ao vizinho pedir limões, deixar o carro parado dias a fio. 

Chegamos à escola a tempo do toque, de mais uma conversa através da rede, desta vez foi rápido, adeus, mãe, até logo. Mais à frente vira-se, procura-me com o olhar, mais um aceno, até logo. Fico, como sempre que posso, a observá-lo até chegar à fila meia desordenada que em três semanas aquelas quase 30 crianças de uma das três turmas do primeiro ciclo já aprenderam a fazer, a ver com quem conversa e se sorri ou parece triste. Ao meu lado começo a ouvir o choro, "ó papá, não quero ir, não quero". O pai do lado de fora da rede, a miúda do lado de dentro, desesperada, que não, não quero ir. Ele, paciente, lembrou-lhe a conversa que tiveram no carro, falou-lhe baixinho, tentou ir embora, ela virou costas a chorar mas olhou outra vez e ele ainda lá estava, chorou mais forte, ele teve de se afastar e virar costas, finalmente apareceu uma auxiliar que lhe deu a mão para a levar para dentro, a ela e a outro que também não saía do sítio, fora os outros que passaram com os olhos rasos de água. 

São difíceis, as segundas-feiras, para eles também. E eu ainda estou de coração apertado com o choro daquela criança. Podia ser a minha. E não há regra ou método ou lá o que lhe queiram chamar mais cruel do que virar costas com os filhos a chorar na escola, com base no "isto passa já" e no "mal os pais se vão embora eles calam-se". Não é bem assim. A menina continuou a chorar, já o pai tinha ido embora, dei com ele dentro do carro com o telemóvel na mão, acho que só não estava a chorar por mero acaso, tenho a impressão de que era isso que lhe apetecia, desabar, entrar pelo portão dentro, agarrar-se à filha e dar-lhe colo, mas há toda uma teoria que obriga os pais a não fazer o que querem, porque não se pode deixar os meninos fazer o mesmo. 

Sim, é verdade, não podemos deixar os nossos filhos fazerem o que lhes apetece, mandarem em nós e terem todas as vontades satisfeitas. Mas virar costas a um filho na escola com a criança a chorar é das coisas mais dolorosas que pode acontecer a um pai ou a uma mãe. O meu sempre gostou da escola, nunca disse que não queria ir, mas também começou sem ter sequer outra maneira de se expressar que não fosse o choro. Entrou na creche com quatro meses. Quando cheguei à tarde para o ir buscar, sem direito a redução de horário, continuava a chorar. Tinha estado a chorar o dia todo. Quanto mais me diziam que era normal, que os pais é que sofrem mais, que com o tempo passa, mais eu tinha vontade de chorar também e de sair dali a correr com ele para casa. Realmente passou, depois houve uma fase em que voltou a acontecer, depois passou. 

A caminho do carro, ainda antes de me cruzar com o pai da menina que não parava de chorar, ouço duas mães conversar sobre os trabalhos de casa:
- "Ai, eu num tenho paciência. Sabes o que ela quer? Que sejas tu a ensinar-lhe as coisas em casa.  Era o que faltava! Ainda bem que tenho a minha cunhada, elas é que fazem com ela"
- "Eu ainda tenho paciência, sabes, mas às vezes até me sinto mal, tenho de lhe bater"
- "Ai, a minha também leva, que ela não quer mesmo fazer aquilo".

Não me estou a sentir muito bem, talvez seja por ser segunda-feira e me faltar um café a sério. Vou tomá-lo e não, o aperto continua. Não gosto de ver e ouvir crianças a chorar de desespero, nem pais a ter de virar costas. Nem de pais que batem. De segundas-feiras e de filas de carros também não. 

A terminar o verão (ou lá o que isto foi)


Comecei o dia de leggins, mas antes de sair de casa já estava cheia de calor. Esteve quente, ontem, pelo menos em Trás-os-Montes, até chegarmos a meio da tarde e começar a trovejar (e chover - ainda que nada que se pareça com o dilúvio do Porto). Tirei-as (as leggins) e fui para a rua de sol quem e folhas caídas no chão. Parecia verão/outono, no boletim metereológico aparecem indicações de 26 graus para o meio da semana, mas aquela coisa não é de confiar, está sempre a mudar, a curto e longo prazo. Assim nos foi enganando durante todo o verão deste ano. Não sei se foi o menos quente dos últimos não sei quantos anos, ou se o que em que choveu mais. Sei que não passei por dias de calor, daqueles em que se abafa, não se aguenta, nem com um vestido bem levezinho e umas sandálias que não se sentem nos pés, em que não se consegue dormir, se vêm à rua depois de jantar tentar apanhar ar, se entra em casa a transpirar. Nem gosto muito desses dias - gosto dos vestidos e das sandálias - mas desespero que são muitas as noites em que não se consegue estar em lado nenhum. Mas este ano não houve disso. Ainda fiz praia durante uma semana, estava tão maravilhosa como já não me lembro, a maré estava alta e o mar do Minho parecia uma lagoa, há anos (décadas?) que não o via assim. Foi em setembro, acho que vai voltar a ser a minha aposta de férias nos próximos anos. Os vestidos frescos ficaram no armário, não vesti metade da roupa de verão que tenho porque sempre que acordava estava a chover, ou parecia que ia chover, ou a previsão era de chuva, e o calor era pouco ou nenhum. Claro que é diferente quando estou a trabalhar. Não posso (não consigo) destapar-me toda só porque é suposto estarmos no verão quando me vou enfiar num edifício de pedra que às vezes gela ou quando sei que posso ter de andar na rua a qualquer momento, não sei durante quanto tempo nem em que circunstâncias. Nas férias é mais fácil. Põe casaco, tira casaco, de repente já estás na praia de biquini. Afinal parece que o tempo não está assim tão mau. Talvez não tenha estado, mas eu não estive todo o tempo de férias, a metros de distância de casa, sempre disponível para lá ir buscar o que for preciso, se for preciso alguma coisa, mas na maior parte das vezes não é. 

Primeiro ano da escola? Que nervos (mas sem lanche ou atividades, ainda que mais velha e feliz)


Não me sinto a envelhecer, mas sim, é algo assustador: o miúdo já vai para a primária, trabalhos de casa, chegar mesmo a horas, preparar a mochila, convencê-lo de que a casa precisa de espaço as coisas da escola, arrumar brinquedos e material escolar de forma funcional numa casa que não cresce, não desesperar quando o que apetecer é deitar tudo ao lixo porque sabemos que aquilo se vai voltar contra nós (eles vão-se lembrar daquele brinquedo com que nunca brincaram, que andou sempre perdido, mas que sabem que sabem que têm e que um dia vão querer - e vão-nos pedir ajuda para procurar). 

Não vai ser fácil convencê-lo que não pode continuar a brincar em cima da mesa da sala, porque os horários vão ser mais apertados e continua a ser preciso fazer o jantar, comer, tomar banho, agilizar tudo, ter a certeza de que a mochila está pronta, se amanhã é dia de ginástica ou de música, procurar lápis e borrachas e peças de brinquedos debaixo do sofá quando já se está a morrer de sono. Ainda por cima, saber que os próximos quatro anos vão passar num instante e, qualquer dia, ele está um adolescente a dizer e fazer coisas muito parvas. Será pior do que as birras? Se calhar é apenas diferente. Mas nós já estivemos lá nas cólicas, nos choros com motivos que não conseguíamos desvendar, nas primeiras febres, nos vómitos, nas noites sem dormir porque está doente ou porque ainda não saiu da fase do "mama, arrota, muda a fralda, deita, tenta adormecer, voltar acordar para mais mama, arroto, fralda, e depois choro por coisa nenhuma". Bem soube o que fez quem inventou a tortura do sono, não deixar dormir não é coisa que se faça a ninguém, só quem por lá passou sabe a confusão que pode instalar-se nas nossas cabeças, passam-se anos e ainda estamos a tentar descobrir como conseguimos fazer tudo sem muitas asneiras. 

Começa na segunda-feira, mas na segunda-feira ainda não há lanche. O início do ano letivo está marcado há meses, a escola do meu filho inicia-se no último dia do período definido, mas a Câmara não se lembrou do lanche das crianças. Talvez terça e quarta também não haja, não se sabe (vá lá que não se esqueceu dos almoços). Os pais levam, é só um dia ou dois, ninguém se chateia. E nas outras escolas, também é assim? As atividades extra-curriculares, que este ano vão todas ser feitas depois do horário letivo (até às 16h), também ainda não começam para já. O que irá a escola (ou devia ser a Câmara?) fazer às crianças cujos pais só podem ir buscá-las às 17h15, a hora a que as tais atividades vão terminar durante o resto do ano (a partir do momento em que começarem, coisa que não se sabe quando pode acontecer). Para conciliar a vida profissional dos pais com o percurso escolar das crianças (ou vice-versa), não deviam estar asseguradas com elas atividades até às 17:30, pelo menos? É que a essa hora talvez eu conseguisse estar na escola para o ir buscar. 

Um quarto de hora mais cedo faz diferença, pode até fazer toda a diferença se for essa a hora a que saio do trabalho. "Ele pode ficar no recreio, mas sem vigilância. Quer dizer, se acontecer alguma coisa nós vamos ver, mas não estamos a tomar conta". Pois, uma criança que ainda não fez seis anos, no recreio, sozinho, à espera que o vão buscar depois de ver os colegas irem para casa ou para o ATL. Cenário fantástico. Mas é no recreio exterior?, pergunto. "É no recreio, a senhora conhece a escola?". Conheço, o recreio é na rua, se for desse que me está a falar ele ficará à chuva, nos dias em que chover, e no Porto não chove pouco. Matricule-se então a criança no ATL, e pague-se o dito cujo, o mês completo, por 15 minutos que seja, mais não sei quanto só pela inscrição. Veremos depois se se farão atividades de tempos livres depois das outras atividades (extra-curriculares?) ou só haverá apenas uma grande confusão de crianças cansadas a precisar e a querer ir para casa. Ainda há quem se questione sobre os motivos da quebra da natalidade. Não é preciso grande teoria. Basta ver a vida dos outros.    

Um dos meus receios, com a entrada na escola, nem é gerir horários. É uma angústia velha, já não me faz mossa. A minha aflição é não saber ajudar a fazer os trabalhos de casa. Há coisas de que já não me lembro. Coisas tão simples como a caligrafia, aquelas letras todas desenhadas que, por acaso, eu até fazia muito lindas. O tempo que eu demorei, anos mais tarde, a tentar tornar a minha letra menos infantil, mais cool, a tentar desviar-me o mais possível do que me tinham ensinado. As letras desenhadas são complicadas de fazer, demoram tempo. Pior do que isso, quando andamos no ciclo ou no secundário ficam completamente "out", são foleiras que se fartam, ninguém consegue passar por essa fase com essas letras sem levar com umas valentes bocas (um bocadinho daquilo a que agora se chama bullying, raio de língua, não se encontram traduções fiéis para determinadas palavras? design, por exemplo, tem o mesmo problema: não é desenho, é design). A tal letra que trabalhei enquanto estudava, essencialmente para tentar pertencer ao lote das miúdas fixes (a malta porreira tem letra de adulto, não tem letra de primeira classe) ficou a minha letra até hoje. A desenhada foi-se.

Começa na segunda-feira. Estive lá ontem. A sala fica ao lado do sítio onde passou dois anos de jardim de infância durante os quais sempre teve a ambição de ir brincar para a primária. Não quis entrar em lado nenhum nem cumprimentar ninguém. Admitiu que estava a ficar nervoso. Isso é bom, reconhecer o que sente em vez de engolir ou fazer de conta que se é muito forte e que nada nos afeta, dizer "eu já sou grande" e pensar que se pode conquistar o mundo. Dizer que se está nervoso não é ser picuinhas. É ser verdadeiro. E identificar o que se sente: perceber que este friozinho na barriga são nervos, este aperto no coração quando se pensa nisso, são nervos. Vão voltar muitas vezes ao longo da vida. Eu também tenho, e sim, é por causa da primária. Não tem mal nenhum. A partir do momento em que sabemos como estamos, o resto vai-se fazendo e construindo todos os dias.

Estas crianças fazem de nós gente mais rija, nem eu sei bem quanto. Não são só os choros, também são os banhinhos em casa de banho ou quarto bem quentinho, seres que não se podem largar logo enquanto se lavam, quando conseguem virar-se, quando rebolam na cama, quando se começam a sentar mas ainda não ficam estáveis, quando começam a gatinhar e a andar aos tropeções e quando começam a correr e... nunca mais, na verdade. Mas este salto de cinco anos (no meu caso) trouxe-me de volta umas férias em que voltei a conseguir usufruir da praia. Sim, estive esticada na toalha umas horas, cheguei a passar pelas brasas, fiz caminhadas, não passei todo o tempo com as mãos na areia a construir castelos e escavar buracos, ou dentro de água gelada a tentar fazer de conta que me estava a divertir. Também saltei de dunas sem saber como, que quando era mais nada era pouco dada a este tipo de arrojos e atividades físicas, e defendi três penaltis num jogo de futebol em que fui guarda-redes. Também marquei um golo na cara do miúdo, mas não foi nada de grave. Se envelhecer também é isto, envelhecer é bom. 

Saldos, outra vez, bons negócios e horários por cumprir

O Facebook da loja anuncia a contagem final para os saldos. Ainda falta um mês, mais coisa menos coisa, mas contagem final dá ideia de muito bons preços. Na montra, há papéis com a palavra saldos em todo o lado e quase posso garantir que vi um a dizer "até 70%". Não procuro nada em particular, mas entro seduzida pelo marketing. Encontro uma peça a menos de 20 euros (20 euros era, aliás, o preço inicial), o que nem é mau, tendo em conta a loja que é, as marcas que vende e os respetivos preços. A funcionária aparece ao meu lado sorridente, contente até. Diz-me "hoje estamos com uma promoção de 30% em tudo". Eu fico uns segundos a pensar: Mais 30% sobre os preços de saldo marcados ou o que está marcado já são os 30%? A primeira opção até seria lógica, pelo entusiasmo da funcionária e pela informação dada verbalmente quando já havia papéis a falar de saldos em todo o lado, mas pareceu-me demasiado boa para ser verdade. Perguntei. Confirmou-se. Era 30% em tudo. Grande coisa, quando se fala em 50 e 70% e contagem final...  30% não é nada em peças que custam um balúrdio. Ficam apenas a custar um balúrdio mais pequenino. Só compra quem quer, claro. Mas se perdi o meu impulso e/ou poder de compra para pagar acima de determinado valor, acho que também desapareceram as minhas paixões à primeira vista que até se revelam amores duradouros. Uma coisa há-de estar relacionada com a outra. Mas, sobretudo nos saldos, fico pasmada com o preço da roupa. O que fazem ao que não vendem? Tentam vender na estação seguinte como se fosse novo (sim, tentam, há artigos que me ficam no olho e sei que o fazem)? Mas e se não vendem? E se nunca vendem? Será que vendem sempre, que há sempre alguém que compra. Sempre que entro em lojas em saldos onde já está tudo amontoado ou onde os preços continuam significativamente altos fico com a certeza de que a roupa e o calçado estão estupidamente caros e com a dúvida sobre o destino do que não se vende. 

Umas botas de 180 euros, mais coisa menos coisa, por 70 euros, são um bom negócio? Aparentemente sim. Mas, caramba, continuam a ser 70 euros. Prefiro (ou não tenho outra hipótese que não seja) dar 20 por algo que custava 69 e que vou ter de aprender a gostar do que aterrar de cabeça numa das tais paixões. Podia juntar vários 20 euros e comprava melhor? Podia. Mas não preciso apenas das botas, tenho uma criança que cresce muito e faz-lhe falta roupa nova todas as estações. De toda a forma, acho quase escandaloso que algo custe tanto dinheiro. E os horários? Passo por lá às 13h e está fechada, às 13h30 está fechada, às 14h fechada, às 14h30 fechada. Já estou a falar de outra loja do Porto e as passagens foram em dias diferentes. Numa zona de comércio e serviços, onde muita gente aproveita a hora de almoço para ir às compras, não consigo compreender estas novas lojas onde está afixado um horário contínuo que não é cumprido. Nem que elas não entendam o lucro que podiam ter se estivessem abertas, sobretudo quando estão mesmo ao lado dos restaurantes onde vai almoçar quem trabalha por perto. Também não gostos das mais antigas, que assumidamente fecham para almoço. Mas nestas, pelo menos, sabemos com o que podemos contar. Nas outras é uma questão de sorte. 

Chuva no verão

Uma pessoa (eu, neste caso) queixa-se da chuva no inverno e esquece-se de que, no Porto, também chove na primavera e no verão. Nunca se sabe se no ano anterior também foi assim, mas este tem sido. Parece que choveu toda a noite, eu já só me apercebi do dilúvio de manhã cedo, agora parou mas não está com ar de que vai passar e de que vai ficar um dia maravilhoso. 

Não me lembro de um cenário assim no meu primeiro verão no Porto. Cheguei em julho e lembro-me de andar sempre fresca, não tenho ideia de ter parkas no armário e até tenho a impressão de que não sabia o que isso era. Tenho memória de dias chatos de chuva em verões seguintes, foram eles que me obrigaram a ceder às parkas, objeto de roupa de que continuo a não gostar por aí além: normalmente, quando chove e não faz sol, fica mais frio (mesmo no verão, a não ser que seja um daqueles dias abafados pelos quais já não me lembro de cruzar) e aquela coisa é um pedaço de tecido supostamente impermeável que não aquece nem arrefece.  

De maneira que, seja verão ou inverno, no Porto, escolher o que vestir é um problema. Pelo menos para pessoas friorentas como eu. Pelo menos para quem não gosta de andar de sandálias quando está a (ou parece que vai) chover . Pelo menos para quem cresceu em Trás-os-Montes e o calor era calor, de abafar, de dar vontade de fugir, de não se poder estar em lado nenhum, de só dar vontade de tomar banho de mangueira, de não se conseguir dormir, de apenas querer para ir para perto da praia. Mesmo que, depois, na praia do litoral minhoto que frequentei desde pequena, fizesse vento muitas vezes e houvesse uns quantos dias de chuva. 

Sim, recordo-me de outros invernos no Porto com chuva ou temperaturas demasiado amenas para a altura do ano, mas confesso que nunca tantos como este ano. É que estamos a meio de julho e ainda não passou por mim um daqueles dias de calor de dar vontade de fugir, que a mim até me pode deixar cansada, prostrada, mas ao mesmo tempo me dá energia, me tira o sono, me deixa com vontade de fazer coisas, até de trabalhar, porque no escritório há ar condicionado e está-se sempre bastante melhor do que na rua. Na praia, habitualmente, está demasiado vento para sequer estar calor.

Hidroginástica municipal, quase de madrugada

Depois de meses de pesquisas e telefonemas, desisti dos ginásios, os meus horários são incompatíveis com as modalidades que oferecem. Ou melhor, que vendem, a bom preço, porque me falaram de muitas promoções, mas não encontrei nenhum valor simpático nessas coisas que são os centros comerciais do exercício físico. 

Tenho aulas de hidroginástica às 8h. Levanto-me antes das 7h para lá estar. Sim, eu sei, é de loucos. Sempre disse que nunca seria capaz de fazer tal coisa, levantar-me de madrugada para fazer ginástica. Mesmo durante o resto do dia, pensar nisso era um sacrifício. Mas a malta tem filhos, anda com eles ao colo, dá cabo das costas, envelhece um bocado, fica com o pescoço torcido, começa a precisar destas coisas.

Fiz a primeira aula no Inverno, era quase Primavera, pensei que se fosse tornando cada vez mais fácil. Foi, realmente, na parte que diz respeito aos exercícios. Quanto à metereologia e à dificuldade de sair da cama de manhã, não, não melhorou muito. Eu achava que ficava melhor quando viesse o calor, mas o calor não chega. Pode ser que chegue em agosto, mas em agosto não há aulas - estou numa piscina municipal, e sim, foi o único sítio onde encontrei aulas de hidroginástica a esta hora, a única que me dá jeito.

Acresce que as piscinas municipais do Porto estão com uma promoção tão boa que o meu filho começou também a fazer natação e os dois juntos pagamos menos do que seu eu fosse sozinha. E cada um vai à sua piscina. São piscinas diferentes as que nos convêm e o Porto tem três, há que aproveitar. Por isso é que, depois de meses de pesquisas e telefonemas, desisti dos ginásios, os meus horários são incompatíveis com as modalidades que eles oferecem. Ou melhor, que vendem, a bom preço, porque falaram-me de muitas promoções, mas não encontrei nenhum valor simpático nessas coisas que são os centros comerciais do exercício físico.

E, na verdade, estou a adorar. Quanto mais enérgicas, quanto mais vigorosa e sorridente estiver a professora, melhor. Às vezes é difícil seguir-lhe o ritmo, é quase como se ainda estivesse a dormir e os exercícios fossem parte de um sonho. Não gosto quando não me consigo coordenar com a ela, e isso acontece muitas vezes, de forma prolongada, tanto que, às vezes, o exercício já acabou e eu ainda não consegui dar um passo em condições.

Também não gosto de não conseguir acertar o passo com ela, porque isso é meio caminho andado para me descoordenar (e depois, já se sabe, acaba o exercício e eu nada). Admito também dificuldades em me manter equilibrada dentro de água, estou sempre a sair do sítio, qualquer dia atropelo ou mando uma valente patada nos colegas da fila de trás.  Mas gosto, venho de lá a sentir-me bem melhor, com metade dos nervos e sem dores nas costas, ou quase.

Não comecei motivada. Apenas determinada. Agora sim, acho que estou a ficar. Se não me desse tanto trabalho ia todos os dias, mas voltamos ao início: àquela hora, nem sequer há hidroginástica naquela piscina municipal todos os dias. Questiono-me se todos os outros pais do Porto não gostam de hidroginástica, se não praticam exercício físico, se o fazem à hora de almoço ou se esta é uma modalidade para quem não tem filhos, ou para quem não tem filhos na escola pública. Ou se os outros tem coragem para levar os filhos para a hidroginástica ou para qualquer que seja a modalidade que praticam. Sei apenas que, ao contrário do que esperava, na minha aula das 8h não me cruzo com ninguém da minha idade, que comente ter filhos da idade do meu. Isto é um detalhe, o importante é que hoje tenho os mesmos problemas de ontem mas o meu corpo sente-se melhor. 

WHAT' S IN YOUR CLOSET # 51 Tânia Santos (facebook.com/cru.cowork)









Não sair de casa sem um agasalho é regra de ouro para a Tânia Santos, sócia da empresa CRU, uma loja de criadores e um espaço de co-working situado no centro do Porto. A preocupação é simples e não só a percebo como a partilho: Mesmo quando está calor, há sempre a possibilidade de o dia ficar mais frio e se tornar desconfortável. Coisas de mulheres friorentas.

Tânia admite que "seria muito mais prático" deixar a roupa preparada no dia anterior mas o que acontece é que, sempre que o faz, acaba por mudar de ideias e vestir outra coisa. Encomendar roupa online não faz parte das rotinas, porque esta que é também uma das organizadoras do Mercado Mini Porto Belo gosta de ver ao vivo as peças, as cores, os acabamentos, os forros, tudo. Também prefere experimentar antes de comprar, para não sofrer desilusões. 

Claro que Tânia tem a grande vantagem de trabalhar na CRU e, como ali tem "acesso privilegiado" a marcas de que gosta muito, perde-se depois de fechar as portas da loja para experimentar tudo o que chega de novo. O resultado é que acabar por encontrar sempre peças especiais que vêm parar ao meu armário.


1. Qual é o primeiro momento do dia em que pensas na roupa que vais vestir? 
Depois de acordar penso no que vestir. Deixar a roupa preparada no dia anterior seria muito mais prático mas quando o faço acabo quase sempre por mudar de ideias e vestir outra coisa. 

2. Preocupas-te com isso ou vestes a primeira coisa que te aparecer à frente? 
Depende do meu humor, que está estreitamente relacionado com a hora a que acordo. Se tiver de acordar cedo, o mais certo é ficar na cama até à última, atrasar-me e sair vestida de qualquer maneira, por maquilhar e por pentear. Quando tenho mais umas horas de sono, estou mais tranquila e tento compor-me um bocadinho.

3. Qual a tua principal preocupação estética antes de sair de casa? Não sair maquilhada ou ter a certeza de que não te esqueceste de nenhuma peça de roupa fundamental? 
Tento nunca sair sem um agasalho. Mesmo quando está calor, temo sempre que o dia esfrie e fique desconfortável…sou friorenta.

4. Qual é o teu estilo? 
Free-style. Cada dia é um dia, cada fase é diferente da outra… Visto-me de acordo com o que me sinto. Ultimamente tenho tido mais vontade de me projetar noutros ambientes e experimentar estilos novos para mim.

5. Como é o teu armário? Cheio, arrumado, desarrumado, caótico? 
Cada vez seleciono mais a roupa que compro e uso e por isso acabo por ter poucas peças de roupa e ser relativamente fácil tê-las arrumadas. É possível que estejam cheias de pelo de gato e encontrá-los lá dentro a dormir em cima de uma das minhas camisolas…

6. Quais as peças/artigos que tens em maior número? Sapatos, vestidos, camisolas? 
Não tenho ideia, penso que sou muito equilibrada nas compras. Ora preciso de sapatos, ora de saias…não acumulo um número de peças que se sobreponha a outras.

7. Como é que escolhes/compras a tua roupa? 
Como na CRU tenho acesso privilegiado a marcas de que gosto muito, depois do fecho da loja experimento TUDO o que chega de novo e acabo por encontrar sempre peças especiais que vêm parar ao meu armário.

8. Encomendas roupa online? 
Não. Gosto de ver as peças, as cores, os acabamentos, forros, enfim, tudo ao vivo. Também prefiro experimentar antes de comprar, para não sofrer desilusões.

9. Qual a tua loja preferida? 
A minha! É verdade, as minhas peças preferidas têm vindo da CRU. As marcas que temos foram escolhidas a dedo e por isso sei que sempre tenho muito por onde escolher, entre diversos estilos. Além disso tenho ainda a tentação dos acessórios, malas, joalharia de autor…tudo num só sítio! É bom para a logística e é mau para a carteira…

10. Qual a tua peça de roupa preferida? - neste momento e de toda a tua vida (algum artigo que tenhas amado perdidamente e que morreu de velho) 
Bem, a cada fase uma peça…umas botas AirWalk, nos anos 90. Toooda a gente tinha umas iguais, mas como foram difíceis de obter, tiveram mais valor…Um casaco comprido de malha verde, que ainda tenho para andar em casa porque se o vestir na rua pensam que ando a pedir esmola…e agora ando enamorada por uma camisa preta da Nomad, penso que a vou vestir por muitos anos, é intemporal.

11. Há alguma pessoa (conhecida ou não) cujo visual "invejas"? Gostavas de ser como quem? 
Sempre fui muito distraída quanto ao visual das pessoas. A maior parte das vezes não reparo no que vestem. Se reparasse, talvez me vestisse melhor, não nego.

12. Já houve alguma altura da tua vida em que querias vestir-te como alguém? Quem? 
Não procuro assemelhar-me a ninguém, mas é certo que as pessoas que me rodeiam acabam por me influenciar num ou noutro aspecto. Acho que o meu visual, bem como a personalidade, terá tanto de minha criação como dos pequenos inputs de pessoas que estimo ou admiro.

13. Alguma vez saíste de casa sem sapatos, com uma meia de cada cor, com a camisola do avesso ou outro episódio semelhante? Qual? 
Não me recordo de nada muito embaraçoso…talvez… ter batom nos dentes, é algo que me acontece com frequência.

14. O que trazes vestido neste momento? 
Uns jeans e uma t-shirt às riscas largas azuis da LadyBug.

15. Se hoje tivesse sido um dia perfeito, com tempo para tudo o que precisas, o que terias vestido? 
Provavelmente estaria vestida da mesma forma mas teria o cabelo mais arranjado…

16. O que achas que devias eliminar do teu guarda-roupa de uma vez por todas? 
O pelo de gato – definitivamente, tira a pinta a qualquer indumentária esmerada.

17. O que devias vestir mais vezes, mas não vestes? 
Biquinis ou outros fatos de banho…seria sinal de mais tempo para mim e para descontrair ao sol. 

18. Se tivesses de dar um conselho de estilo a ti própria, qual seria?
Estás de preto, Tânia, não pegues nos gatos!


O problema do Porto não é o trânsito, é o estacionamento

Os carros param em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e de riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Param onde calha desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso. E é por isso que grande parte das ruas de duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra até é uma chicane, e não é só à porta das escolas.

O Porto não tem um problema de trânsito, tem um problema de estacionamento. Em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Os carros param onde calha, desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso: é só um minutinho, tenho mesmo de descarregar estes vinte vidros com o carro parado no meio da rua, não faz mal, a malta é pacífica e espera, que remédio. 

À conta do "é só um minuto, nem sequer incomoda muito", grande parte das ruas do Porto com duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra é mais uma chicane: os automóveis estacionados onde não devem alternam entre o lado esquerdo e o direito da faixa de rodagem. Quem circula que ande aos ziguezagues, perdendo tempo a ficar constantemente preso atrás de carros mal estacionados, para mais à frente ser retido na faixa do lado.

Não me atirem com o argumento de que o problema são os paizinhos que só não estacionam os carros dentro da escola porque não podem. Também já pensei assim, até ter um filho na creche com quatro meses e precisar de deixar o carro mal estacionado porque não, não havia alternativa. Se podia ir de transporte público? Podia, mas a distância da paragem mais próxima era tanta que, em caso de chuva (coisa que, por acaso, nem sequer é rara no Porto) ou o molhava todo ou me molhava toda ou, quase de certeza, nos molhava aos dois. Transportar cadeirinhas ou carrinhos de bebé e demais acessórios não é lá muito compatível com o uso de guarda-chuva, não sei se sabem. A verdade é que podemos todos andar de transporte público, mesmo quem não tem filhos, não é? Nem percebo porque é que tanta gente continua a usar o carro. E a deixá-lo mal estacionado.

O problema não são os paizinhos, são as escolas do Porto e respetivas imediações: quando foram construídas não havia tantos carros e nunca ninguém se preocupou em tentar ajustar a situação à evolução dos tempos. E o problema não é, de todo, exclusivo das zonas escolares. Na rua da Boavista, por exemplo, há carros em segunda fila junto ao colégio, é verdade, mas também os há pelo resto da rua. E até é aí, mais abaixo, que as viaturas alternam a paragem entre o lado direito e o esquerdo da estrada, às vezes com um ou dois metros de distância. Ao menos arrumavam-se para o mesmo lado, sempre era mais fácil. 

Na rua do Almada não há nenhuma escola e os carros estacionam diariamente dos dois lados da rua, quando o aparcamento só é permitido num deles. Há, aliás, riscos amarelos bem visíveis do lado esquerdo e os carros estão lá parados todos os dias. Como estão onde mais calhar e for preciso. 

O problema do estacionamento junto às escolas existe e devia ser resolvido. Mas há muito mais quem estacione fora do sítio. O problema do Porto não é o trânsito, é muito mais a falta de estacionamento, que enerva quem precisa de parar o carro e não encontra onde, conduz ao estacionamento indevido, atrapalha a circulação, bloqueia quem quer passar e faz com que tudo na nossa vida de portuenses demore muito mais tempo do que a nossa felicidade merece. 

Oporto Lobers: comercializar um sentimento











É uma marca, registada e tudo. Mas não é bem isso. É mais. É um sentimento. De amor ao Porto. De orgulho por frases e expressões que apenas lá se dizem. Do trabalho que por lá fazem muitos criativos, desde crafters a escritores. Cabe tudo no projeto Oporto Lobers, desde que haja Porto. A ideia surgiu apenas há uns meses, mas já cresceu o suficiente para acolher uma casa cheia de divisões.

A "Pensão" é uma residência digital para designers, artesãos e gente de outros ofícios. Por enquanto é "espaço de partilha de ideias sobre o Porto", mas pode um dia "abrir as portas da loja". Na "Alfândega" estão reunidos os parceiros comerciais da marca. São grandes marcas e empresas que se associam aos "lobers" através da criação de edições especiais sobre o  Porto. Na "Loja" vendem-se produtos exclusivos, feitos por pessoas de diferentes áreas de trabalhos e de vários pontos do país, com a cidade do Porto como tema, incluindo o merchandising com pronúncia criado pelos "lobers". Existe ainda o "Salão", onde a ideia é organizar novos eventos e apoiar outras iniciativas, através dos serviços de relações públicas e comunicação da marca. 

A mais recente novidade é uma Guest House, na rua da Boavista, no Porto, claro. A casa de férias do casal que se mudou para Lisboa transformou-se em espaço de acolhimento de turistas, montra dos produtos comercializados pela marca e sede da empresa. A fase seguinte será contactar algumas marcas do Norte para se associarem à Oporto Lobers e vender, em conjunto, produtos de qualidade já reconhecida, associados a um sentimento que parece aos mentores do projeto "cada vez mais comum a um mar de gente".

O senhor Pina

Eu voltei a ter vontade de ler e o meu filho aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por senhor Pina, descobriu a imaginação e a consciência. "Eu digo uma coisa e o meu cérebro repete. Ó experimenta".

Foi a melhor prenda dos últimos anos. Não ma deram a mim, foi ao meu filho. Coisa tão simples, um livro, para crianças, que comecei a ler em voz alta num dia em que estava constipada, num esforço tremendo para fazer as vozes, manter o ritmo e o tom certos, com a entoação necessária para que tudo se percebesse. Quando se lê em voz alta não se pode voltar atrás, reler, perceber melhor, ainda por cima quando se lê para uma criança, ao mínimo deslize ela distrai-se, ou começa a fazer muitas perguntas.

Valeram-me talvez todos os anos em que li muito, mesmo agora que quase deixei de ler, não sei bem por quê. Quer dizer, sei: fui mãe, tenho mil e uma tarefas por dia, quando a criança não está acordada eu tento dormir também, falta-me tempo livre, acontece, não serei a única. Faltou-me o tempo, a vontade, ou talvez me tenha faltado o livro certo. Porque este só o queria ler mais e mais, só queria que todos os livros fossem assim, há tanto tempo que não lia.

Chama-se "O Senhor Pina", o livro, foi escrito pelo Álvaro Magalhães, e editado em setembro de 2013, já depois da morte do Manuel António Pina. Conta a história dele, mas só um pouco, que o livro é pequeno e o Pina era tudo muito, muito escritor, muito imaginativo, muito pensador, muito portuense, muito inspirador. 

A história é para crianças e o meu filho está habituado a que lhe contemos uma história todas as noites, antes de se deitar. Mas foram sempre coisas mais simples, frases curtas, ideias mais ou menos feitas, o básico. Aquele livro não, exigia leitura atenta, não podia lê-lo a pensar noutra coisa, tinha de me concentrar para fazer as vozes, até misturava sorrisos e risos à medida que lia - não para forçar nada, apensa porque me estava mesmo a diverti. Talvez tenha sido o momento alto da minha inexistente arte expressiva e teatral, aquela leitura.

Até posso ter usado o tom perfeito, mas o mérito não foi meu, só pode ter sido dos dois, do Álvaro e do Pina. Lê-se o livro e está-se mesmo a ver o Pina aqui e ali, no Porto, no Convívio, na rotunda da Boavista, sempre atrasado, sempre à volta com as palavras. O miúdo entusiasmava-se a reconhecer os sítios do Porto que já conhece bem, ria-se, sorria, queria sempre saber mais. Aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por "senhor Pina" e descobriu a imaginação. Ou começou a ter consciência dela.

Uns tempos depois de acabarmos o livro, ao jantar, informou-me: "Sabes, eu digo uma coisa e o meu cérebro imita-me". E dizia a coisa e ficava calado, com o olhar de quem estava silenciosamente a repetir para si mesmo o que tinha dito em voz alta. Como se fossemos nós que o comandássemos e não o contrário. Às tantas é. "Eu digo e ele repete. Ó experimenta".

A moda do Porto precisa de um mapa

A sério que não sei como é que o Porto ainda não se lembrou disto. Um mapa, normal, daqueles turísticos, que assinale as lojas de moda e design “alternativos”. Nem sequer lhe faltam estabelecimentos destes, parecem cada vez mais, os que fogem aos roteiros dos shoppings.E espaços como estes são sempre diferentes, seja em que ponto do globo estiverem. A coisa é poderosa, à custa dela cruzei Santiago de Compostela quase de uma ponta à outra arrastando marido e filho, sem carrinho, tinha ele dois anos, quase três, e não andava, corria, ou então ia ao colo.

A ideia anda na minha cabeça há anos, até podia vendê-la, mas acho que as ideias não dão muito dinheiro por estes dias. Ou talvez as ideias que dão dinheiro sejam as que já o têm para se concretizar. Não sei, é uma ideia que tenho. Também não me estou a ver num balcão de atendimento a sussurrar ao funcionário: "Sabe, tenho uma ideia para vender". É que ele respondia-me: "Ó menina, aqui ninguém compra nada!". Nem sequer há balcões para isto, pois não? Onde é que uma pessoa se dirige quando tem uma ideia? Pelo menos que o funcionário me trate por menina, não gosto do "ó minha senhora", parece agressivo e nem sequer combina com a minha roupa.

Sempre pensei que alguém acabaria por colocar a ideia em prática, mas acho que não. A coisa é poderosa, à custa dela cruzei Santiago de Compostela quase de uma ponta à outra arrastando marido e filho, sem carrinho, tinha ele dois anos, quase três, e não andava, corria, ou então ia ao colo. Tudo para descobrir lojas diferentes, de moda alternativa e tudo depois de descobrir o mapa. Uma coisa simples, um mapa turístico, que em vez de assinalar monumentos indicava as lojas de moda e design "alternativo" da cidade.

Fiz o percurso todo, passei por coisas que não interessavam e outras que me interessaram muito. Nas lojas perguntavam-nos sobre o Porto, que gostavam muito, que iam lá (vinham cá) ver concertos, que se dizia que a noite estava muito animada, e nós, o que achávamos? Bem, com uma criança de dois anos nos braços não achávamos muita coisa e eu só conseguia pensar que o Porto tinha de ter um mapa daqueles. À custa dele conheci o Fran, que nos ofereceu aos três uma peça da loja "A Reixa" só porque sim. Obrigada, não era preciso, olha que simpático, nem sequer somos de cá, podemos nunca mais voltar.

Não foi por isso, mas regressamos, e da última vez até fiquei a saber que ele é namorado da Eva da "Matrioska" (bastou perguntar se já não vendia roupa de mulher), onde, uns metros à frente (quilómetros?), lá fomos nós outra vez, estavam uns lindos botins vermelhos de uma marca de Barcelona que não conhecia e que trouxe para casa. Não, não os podia ter encomendado online. Mesmo que conhecesse a marca e que soubesse o nome do site, os botins, aqueles botins, não estão lá (já fui ver, claro, e a compra foi perfeita, porque não vi à venda nada que achasse mais genial do que os que comprei).

A sério que não sei como é que o Porto nunca se lembrou disto, lojas não lhe faltam, já nem sequer estão todas concentradas na rua ou no quarteirão de "Miguel Bombarda", e muitas delas apostam em criações nacionais e locais, de designers, criadores de 'crafts' ou joalharia contemporânea. Podem até ter marcas comercializadas mundialmente, mas interessam na mesma: às vezes basta a distância para encontrar o vestido ou o casaco ou o calçado perfeito. Quem é de fora vai mais contente e o comércio agradece. Numa cidade que se diz cada vez mais cosmopolita, onde nos cruzamos com turistas até nas manhãs de domingo cinzentas em que só saímos à rua porque temos de trabalhar, a ideia podia mesmo resultar.

Aparentemente, não custa nada: um mapa, normal, daqueles para turistas, que assinale a localização das lojas. No verso, uma breve descrição do conceito e das marcas. Assim, quando forem à procura de um monumento, da Ribeira, dos Clérigos ou dos Aliados, os turistas sabem que ali ao lado está aquela loja que eventualmente lhes pode interessar. Foi à falta de uma coisa do género que nem com o guia Lonely Planet nas mãos encontrei em Paris o café da fabulosa Amélie Poulin. Dessa vez também andei muito, mas regressei com uns quantos quilómetros perdidos nos pés.

Pickpocket: detalhes e personalização em carteiras e mochilas para os vários contextos urbanos




A missão da marca é criar objetos únicos, funcionais e duráveis, pelo que os produtos são concebidos, testados e feitos tendo em conta a diversidade dos contextos da vida urbana. Criada em 2012, em Aveiro, a Pickpocket produz linhas limitadas de acessórios feitos em pele e todas as peças são feitas à mão pelos mentores da empresa, André Rosário e Teodolinda Semedo. Cada objeto criado é autónomo e dirigido a clientes que apreciem os detalhes, a personalização, o rigor e a qualidade nos seus quotidianos.

A Pickpocket usa um couro específico que não tem continuidade na indústria, ao mesmo tempo que trabalha numa escala que permite a venda dos seus produtos sem excedentes, contribuindo para diminuir os excessos das grandes fábricas industriais.

Eu amei o modelo da primeira fotografia e tê-lo-ia trazido para casa quando me cruzei com ele no Urban Market que se realizou no sábado no Porto, se os preços não fossem tão proibitivos que até tive medo de lhes pegar. Talvez seja só mais uma carteira. Eu sei que a última que descobrimos parece sempre mais perfeita do que a anterior, mas gostei do modelo, dos detalhes, das cores, apreciei o material aparentemente leve, flexível, confortável (lá está, nem sequer tive coragem de as experimentar), resistente e durável. Percebo que tudo isto pesa no preço, sei que são peças feitas em pele, produzidas à mão e em escala limitada. Não duvido da qualidade. Mas o preço está ao alcance de poucos, e é pena, porque elas parecem valer mesmo a pena.

Lemon Jelly para o calor



Cores claras e leves, entre o rosa bebé, o lilás, e o azul céu, mas também brancos, vermelhos, azuis escuros, misturas de cores, em sapatos, sandálias e botas pelo tornozelo: a primeira coleção da Lemon Jelly para a primavera/verão já está a chegar ao mercado. Lançada em março 2013 com uma coleção de outono/inverno, a marca do Porto apresenta agora uma linha de propostas para o calor. 

Eu ando com um certo fetiche por sandálias brancas, por isso foi esse o artigo que escolhi como preferido nesta coleção. Elas, e as botas azul bebé. Nem sequer costumo usar botas na primavera, mas a primavera do Porto também é feita de chuva e aquelas, ainda por cima naquele azul, parecem uma excelente aposta. 

Foi depois de 40 anos no mercado do calçado, a desenhar e a fabricar solas injetadas para marcas de todo mundo, que os responsáveis da marca decidiram que era altura de vender o produto da sua imaginação. Para lá chegarem, ao que podia resultar, durante uma semana deixaram de ser "apenas uma jovem equipa de criativos" para se transformarem em "pessoas em busca da fórmula de felicidade", tentando descobrir algo mais sobre a alegria de viver. No brainstorming, vasculharam os sentimentos para "escolher os sabores, as cores e as formas dos mais simples prazeres da vida". No fim, fizeram sapatos com isso.

O calçado da Lemon Jelly inspira-se em gelados, gomas, rebuçados, chupa-chupas, geleia e outras coisas doces e agradáveis. Desenhados, desenvolvidos e produzidos em Portugal, são um produto de alta tecnologia, mas que depende da sensibilidade humana para a escolha de materiais e para a atenção aos detalhes.