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A carteira com personalidade

Desfiz-me de todas as carteiras pequenas que tinha, muito à custa dos Do's & Dont's que a Jo quer abolir (e eu também), mas também porque sou (tenho sido) mulher de carteiras grandes, para lá enfiar o que preciso e o que posso vir a precisar, que a minha mãe ensinou-me a prevenir todas as eventualidades (lenços de papel - pode ser preciso, garrafa de água - posso ter sede, as chaves de casa dela - para efetivamente as levar quando lá for, caixa para os óculos, lentes de contacto substituta, líquido das lentes, paracetamol - pode-me dor a cabeça ou qualquer coisa, e o resto super básico - telemóvel, porta-moedas, auricular, documentos, etc, etc, etc).

Também me desfiz delas, das carteiras pequenas, porque fui mãe e ter espaço onde guardar as coisas mais imprevisíveis tornou-se imperioso. Sobretudo depois de o bebé ter perdido direito ao seu próprio saco, com fraldas, mudas de roupa e mais de mil e uma coisas que é preciso ter sempre à mão. Mesmo depois de perder direito ao seu próprio saco, uma criança precisa da carteira de sua mãe - para guardar o chapéu, o brinquedo, os cromos, as pedras, os bugalhos. Pudesse ela ser boazinha o suficiente para carregar lá dentro uma bola (não sou tanto, acho que já perceberam)... 

Cheguei a andar com as carteiras grandes tão pesadas que comecei a deslocar-me para o trabalho acompanhada de uma mochila onde coloco os objetos não essenciais - papéis que é melhor ter à mão do que arrumados (nunca os encontro quando é preciso) mas que não preciso de carregar quando estou fora em serviço, pensos rápidos, pensos para as bolhas nos pés, elástico para o cabelo, uma lima para as unhas, uma pinça (não há luz como a luz do espelho retrovisor), desodorizante, baton. 

Tive, durante uns três anos, uma existência pacífica com a inexistência de carteiras pequenas na minha vida. Até ao dia (à noite) em que fui jantar fora e quis deixar a tralha em casa. Nada. Não havia carteiras pequeninas. Descobri uma perdida em casa da minha mãe (numa das vezes que lá fui e levei chave), talvez a tenha mantido por achar que era uma peça para durar para sempre, que a voltaria a usar se, lá pelos 60, me tornasse mais coquette. Esqueçam, as coisas estragam-se com o tempo e a falta de uso (se alguém souber de algum produto que se possa aplicar na carteira para impedir a perda de bocadinhos de algo que um dia foi parecido com pele preta, agradeço a dica). 

Andei uns dois meses à procura da carteira pequena ideal e ela não aparecia nas lojas. Era tudo demasiado clássico, formal ou "senhora" para o meu gosto, e ainda assim estive quase quase a achar que devia comprar uma, porque elas estão em todo o lado. Foi só até me cruzar pessoalmente com a da fotografia (Skunkfunk) - cabe lá dentro bem menos do que supunha no meu suspeito conceito de carteira pequena, mas era isto que procurava, uma carteira toda preta, o símbolo da marca bem discreto (se não estivesse lá não me importava), super original e a minha cara. 

Estive quase para comprar umas botas da Prof "super-in" porque estão em saldos e porque achava que precisava de umas botas bejes, em vez de comprar a carteira. Ia usar as botas raras vezes e combiná-las ia ser todo um exercício - apesar de serem bejes e de, supostamente, combinarem com tudo. Já tive episódios suficientes com coisas bejes e castanhas para saber melhor do que isto. Também sei muito bem que prefiro não ter "as botas que qualquer mulher deve ter no armário" só para tê-las no armário. 

Mesmo que não tivesse encontrado a carteira, nunca me devia ter passado pela cabeça comprar aquelas botas. Não eram feias. Mas não eram "eu". 

Continuo sem saber explicar bem o que é isto de uma coisa que é "a nossa cara", mas julgo que se trata de escolher aquilo de que gostamos mesmo, aquilo que nos seduz e fascina por uma questão de empatia, não porque vem nas revistas e nos blogs de moda, porque toda a gente diz que é o 'Must Have' do momento ou porque outro alguém usa e lhe fica a matar. Talvez tudo se resuma ao que diz outra Joana:  "o melhor que podemos vestir é a personalidade"

#39


Deixei crescer a franja porque sim e pintei o cabelo porque não gostava de me ver com brancas. Já foi em dezembro, não me interessa o que os outros pensam, não quero disfarçar a idade, nem tenho tanta idade assim, quis pintar e pintei, pronto. 

Hoje faço 39, ofereci-me umas sandálias cor-de-rosa porque me apaixonei e ando um bocadinho irritada com o cabelo estupidamente giro da miúda da fotografia (Dakota Johnson), apenas porque gostava que o meu ficasse com este ar sem lhe passar uma escova. Era levantar-me da cama e tê-lo assim, direitinho e elegante com uma pitadinha de rebeldia que não chega a ser desordenada, isso é que era bom.

Tudo isto parece fútil, e é, mas a verdade é que só me preocupa na medida certa, ou seja, muito pouco. Faço 39 anos e, há dez, já tu me tinhas visto bem mais longe do que eu me via a mim própria. Obrigada por isso. E por mais um milhão de coisas.


As sandálias cor-de-rosa



São tão confortáveis que, às vezes, dou por mim a olhar para os pés para ter a certeza de que não saí de casa descalça. As tiras cor-de-rosa (também há branco e preto, no site da Camper) são tão suaves que quase não se sentem. A tira que aperta a sandália, atrás, é em velcro, que não é dos meus materiais preferidos. Mas o formato da sandália, o conforto e a combinação maravilha do rosa perfeito com o verde-água e o laranja da 'almofada' que serve de apoio ao tornozelo conquistaram-me. A mim, a senhora joga-pelo-seguro-é-melhor-comprar-branco-porque-dá-com-tudo. 

Há muito tempo que um par de calçado não me seduzia assim. Precisava de umas sandálias brancas, gostei deste modelo, mas depois de ter visto as cor-de-rosa nos pés da Joana Barrios fiquei a achar que aquelas é que eram mesmo lindas. Quando experimentei umas e outras, não tive dúvidas: as brancas são bonitas,. são igualmente confortáveis, mas não são lindas de morrer.

As rosa sim, ainda que não fiquem bem com tudo, que não tenha praticamente nada na mesma cor e que já me tenham feito experimentar praticamente todas as peças de vestuário para saber o que combina e o que nem pensar. Podem não ficar bem com tudo, mas com aquilo que combinam são perfeitas. 






Sandálias, coisas cor-de-rosa e saldos

Já tinha piscado o olho às brancas, antes dos saldos, mas nem chegou a transformar-se num problema. Esquece isso, quase nem usas sandálias, pensa noutra coisa. Até ontem, quando descobri as cor-de-rosa nos pés da Joana. São lindas, são ainda mais fantásticas do que as brancas e estão em saldo. 

Fiquei de olho nas brancas porque tive umas brancas que usei até morrerem de velhas e agora tenho umas de plástico que não devia ter comprado porque o plástico não é coisa boa para o calor, tudo desliza, parece que estou a caminhar com um balde de água nos pés, devo ficar muito pouco graciosa a caminhar daquela forma. E para que preciso eu de umas sandálias se não as posso usar quando está calor? 

Dizia, então, que as ditas sandálias ganharam vida na minha vida quando vi as cor-de-rosa nos pés da Joana. São perfeitas. Há uns anos, tê-las-ia comprado sem hesitações. Tive montes de sapatos super originais de todas as cores, porque me apaixonava por eles. Acho que, em parte, isso justifica o meu guarda-roupa ainda bastante preto e liso. Preto e liso dá com tudo, e o meu "tudo" que precisava de combinações seguras sempre foram os sapatos. 

Os anos tornaram-me mais comedida (retraída?) e comecei a preferir apostas mais transversais. Sapatilhas brancas, botins brancos estilo sapatilha e as ditas sandálias brancas que se estragaram para conjugar com cores claras (ou com preto) nos dias mais quentes. Botas altas pretas, botins pretos, sapatos oxford pretos para vestir com preto ou cores mais vivas, durante a época fria. Miúda, tornaste-te num aborrecimento.

As sandálias cor-de-rosa são a minha cara mas não as consigo virtualmente conjugar com toda a roupa que tenho (sim, é esse o ponto a que chego, se não combina com tudo, ou quase, não vale a pena). As brancas também não, mas neste caso a dificuldade seria apenas combinar estilos, porque o branco é como o preto, dá com tudo. É oficial, o branco transformou-se no meu novo preto, 

A emoção leva-me para as cor-de-rosa, e o meu lado mais racional leva-me para as brancas. Sinto que seriam a escolha mais "segura" e, por isso, um melhor investimento. O melhor é deixar-me ficar nesta indecisão, a ver se a paixão passa. E os saldos também. 

Portugal

Vi a seleção estar "quase lá" muitas vezes. As suficientes para ter ficado um bocado cínica, mas talvez me tenha tornado assim em relação a tudo. Ontem tive a televisão ligada enquanto via "Master of None" no computador. Calhou estar a olhar para o ecrã (grande) quando Portugal marcou o golo. Estava sozinha, quando dei conta tinha o braço no ar. Tolinha, parece que vamos ganhar, desta vez. Só comecei a vibrar quando percebi que esta era a primeira vitória "a sério" a que o meu filho assistia. Que, possivelmente, se ia lembrar disto para o resto da vida. Quis fazer parte do momento dele. Liguei-lhe no fim do jogo. Estás contente? Estava. Isto é importante, sabes, Portugal tinha ficado sempre pelo menos a um passo de lá chegar e o que me irritava mais era o paternalismo parolo dos que diziam "pelo menos chegámos até ali, já foi muito bom". Não foi, agora é que sim.

O cabelo cresceu. E agora?

















Deixei crescer o cabelo. Para lá dos ombros. Entretanto, cansei-me. É demasiado cabelo, só tenho vontade de o apanhar para não me atrapalhar. Assim sendo, mais vale cortar. Acho eu. De que serve ter um cabelo grande se só incomoda? Não estou é bem certa do que fazer com ele. Estou à procura de inspiração. Alguém tem sugestões? 




Changing...


Não é uma mudança radical, mas é daquelas que gosto de fazer - uma mudança assim-assim, daquelas que me tornam diferente sem me deixar desconfortável. Estes botins fogem ao 'completamente rasos e redondos à frente' que mais uso, mas também não são um salto alto. Têm um tacão de uns centímetros e são bicudos à frente, mas o ar 'clean' e básico faz com que não dêem demasiado nas vistas e, ao mesmo tempo, combinem com quase todo o meu guarda-roupa, tanto com as versões mais alternativas como nas mais clássicas, tanto com calças como com vestidos (como é o caso, hoje). 

A precisar de renovar as almofadas...

Era esta almofadinha Ikea amarela, preta e branca para mim, sff. E umas capas brancas novas para as que tenho em casa mas já estão velhinhas...

Perdidos

Não, nas mudanças não aparecem todas as coisas que não sabemos onde estão. A mim, desaparecem-me coisas. Depois da antepenúltima mudança, nunca mais vi um tabuleiro azul, redondo, giríssimo, que me tinham oferecido. Por altura da penúltima mudança, sumiu-se um relógio lindo, azul petróleo, que eu adorava. Nunca mais o vi. Desta vez estou confusa, porque parte das coisas que tinha na casa antiga foram encaminhadas para casa da minha mãe. É por isso que não sei se o que não apareceu se perdeu ou se está em casa dela. Uma coisa essencial anda desaparecida desde setembro, altura em que tive de renovar o cartão de cidadão: o senhor do registo disse-me para guardar as senhas bem guardadas e deitar fora as anteriores; eu, que não sabia onde tinha as anteriores, encontrei-as e não me lembro onde coloquei as que guardei de forma a não conseguir perder. Pois, as senhas do cartão de cidadão são importantes para alterar a morada, que é coisa que agora preciso de fazer. Ah, e se não souberem da senha atual, não deixem o senhor do registo tratar do procedimento todo como se soubesse, à espera de conseguir evitar que ele mencione a necessidade da senha. Foi o que eu fiz e gastei três euros desnecessariamente. Vou ter mesmo de tirar outro cartão. Ou isso ou desarrumo tudo o que andei a arrumar para tentar encontrar o raio do papel.   

Mudanças. O melhor e o pior.

Carreguei muitos caixotes e sacos (constatei que os sacos grandes, daqueles dos supermercados, são bem mais práticos para transportar do que os caixotes - consigo mexer-me com vários sacos enfiados nos braços, mas não sou capaz de transportar mais do que um caixote, por mais leve que seja), mas o mais difícil não foi perder a conta às vezes que desci elevador, enfiei coisas no carro, tirei coisas do carro, enfiei tudo no elevador e tirei tudo outra vez. 

O pior, nestas mudanças, foi tudo. Não me lembro de outras que me tenham custado tanto, talvez porque o tempo nos faz ter cada vez mais coisas. É bem provável que tenha agora mais objetos do que há cerca de cinco anos, mas ninguém me volta a ver metida numas mudanças sem uma empresa com uma grande carrinha a ajudar. 

Ainda assim, o que me custou mesmo muito foi tirar da casa antiga tudo o que foi ficando para trás. Não cabe neste caixote? Fica para depois. O resultado foram vários sacos e caixotes, tantos que parecia estar a fazer tudo outra vez a partir do zero, tantos que me deram vontade de chorar, de deixar estar. 

Não é que as coisas me fizessem falta, mas não podia condenar o meu antigo senhorio a livrar-se de tudo o que eu já não tinha forças para levar. 

Se há coisa que as mudanças nos mostram é que vivemos com muito mais do que aquilo de que precisamos. E nem sequer estou a falar do lixo (talões de tudo e mais alguma coisa ou meias sem par, por exemplo), de coisas avariadas ou que deixamos de usar. Uma mudança, muito cansaço, camas desmontadas a ocupar um quarto inteiro e dormir no chão porque não se consegue dar mais um passo (e uma criança de sete anos que precisa mesmo de descansar, por mais que ache que não) mostram-nos facilmente que não é assim tão difícil sair da nossa zona de conforto. E que temos bem mais do que é realmente necessário, apesar de ser mesmo muito bom voltar a colocar tudo no sítio e sentir que a casa tem a nossa alma outra vez. Esta talvez seja a parte melhor - perceber que nem sequer me sinto em casa numa casa muito arrumadinha, sem a vida dos bocadinhos da minha (da nossa) história, relatados por cada livro, estante ou objeto de decoração, por mais antiguinho que seja. 

Picheleiros, empregadas e mudanças

O sr. António é o picheleiro mais alto e limpinho que conheço. Não conheço muitos picheleiros, é verdade, mas o sr. António é mesmo muito alto. E muito asseado também. Limpou o chão, não deixou vestígios, ficou tudo no sítio. Não conheço muitos picheleiros, talvez porque nunca me tenha cruzado com nenhum que valesse a pena recordar. O sr. António fala muito, é picheleiro e florista, também é eletricista e faz limpezas, contou-me muitas coisas, demasiadas coisas para quem anda quase sem dormir por causa de uma mudança interminável (não são todas?) e, a dada altura, deixou-me quase sem palavras: 

sr. António: sdfav n sdf  sdj empregada, você?

eu: (em silêncio - não percebi, será que ele perguntou se a empregada sou eu? Ou se não tenho empregada? De qualquer modo vai dar ao mesmo...) A empregada sou eu, sou.

sr. António: a minha mulher também é empregada...

eu: (em silêncio - bolas, agora ele deve ter ficado a pensar que eu sou empregada doméstica)

sr. António: trabalha ali, aos dias, nos prédios não sei das quantas, às terças de manhã e às quintas...

eu: (em silêncio - espera, talvez ele me esteja a querer dizer que a mulher é empregada e tem disponibilidade para vir cá a casa, caso eu queira; em todo o caso, é melhor ficar calada).  

Uma folha em branco

Uma casa nova é sempre uma emoção, um potencial, é começar de novo, é uma folha em branco para escrevermos o que quisermos. Uma folha em branco é sempre uma folha em branco, mesmo que já tenha uns anos e esteja um nadinha amarrotada. Quando nos mudamos para uma casa arrendada é um bocadinho assim, mas esticamos a folha até ficar outra vez direitinha e colocamos lá o que bem nos apetecer. 

Neste momento, a folha em branco está a abarrotar de caixotes e coisas que precisam de ser arrumadas. A minha cabeça não para de organizar virtualmente tudo o que se lembra de ter transportado, ao mesmo tempo que distribui móveis que ainda não saíram da casa antiga e vai ao Ikea comprar utensílios diversos (estou oficialmente obcecada nos cestinhos com ventosas para colocar na casa de banho) para otimizar a funcionalidade da casa. 

Mudar de casa é uma trabalheira, mas também é uma emoção, um friozinho na espinha, um risinho nervoso. A partir de amanhã, vou ficar tão cansada de carregar caixotes e fazer arrumações que vou maldizer a mudança vezes sem conta. Mas continuarei a carregar, motivada por uma cozinha extraordinariamente funcional onde todos poderemos estar sem pedir licença para dar um passo. A cozinha não tem nada de extraordinário, apenas é mais larga do que a atual e eu espero conseguir fazer uma arrumação espetacular para tornar a nossa vida culinária muito mais simples. 

É isto que é bom numa folha em branco ou numa casa nova: daqui a um mês até posso concluir que está tudo no lugar errado, mas nada me tira a confiança na possibilidade de colocar tudo no sítio certo. 

Ikea, tu irritas-me (mas adoro-te)

Ikea, tu irritas-me. E não, não é por causa dos parafusos e das montagens, essa parte não é responsabilidade minha. O problema é que me apetece reproduzir muitas das coisas que me mostras e não consigo. Eu sei que todos aqueles cenários lindos exibidos no site e na loja são coisas do marketing, mas é um marketing muito bem feito, porque nos deixa com a sensação de que vamos transformar espaços minúsculos em recantos de inenarrável conforto e que o caos se vai resolver por milagre com caixinhas e cestinhos para enfiar dentro de gavetas. Digamos que é um daqueles casos em que o problema não és tu, sou eu. 

Tu, Ikea, és uma parafernália de acessórios para a arrumação, mas eu tenho uma relação complicada com essa palavra e só a ideia de ter de a fazer (a arrumação) deixa-me o coração a palpitar, o estomago apertado, um nó na garganta. Até me considero uma pessoa organizada, mas há limites. Nas imagens que mostras, parece tudo simples. E não é. Já fiz muitas mudanças e é um tormento. Arrumar, arrumar, arrumar e ter ainda tanto para arrumar. Encontrar lixo e mais lixo que não deitei fora sabe-se lá porquê, E reencontrar-me com coisas perdidas (que, no fundo, são só mais coisas para arrumar, e com estas não estávamos a contar). 

Contigo parece tudo simples, Ikea, mas eu acumulo móveis desde 1998, ainda tu cá não estavas. A minha vontade era montar tudo de raiz, reproduzir aqueles cenários perfeitinhos ou desarrumadamente harmoniosos. A questão é que não posso. Tenho de levar quase tudo comigo e, ao mesmo tempo, ver que soluções é que tens, a preços apetecíveis, para rearrumar tudo. Baralhar e voltar a dar enquanto mudo casa não é fácil. 

Uma coisa é certa, Ikea, os cantinhos que idealizas são uma inspiração, são um bocadinho de sonho para divagar enquanto não estou a encaixotar e, se me irrito, é porque ainda só consigo desmontar.  

Mudanças (com caixotes e tudo)

Parece que vou mudar de casa. Outra vez. Quando lia sobre as mudanças dela, achava um exagero, uma mudança dá tanto trabalho, como é que ela conseguia, com tantos miúdos e tudo, andar sempre a encaixotar e desencaixotar. Agora, já não sei qual das duas se terá mudado mais vezes (a grande diferença, um nadinha deprimente para mim, é que ela entretanto se mudou para Timor e eu ando há 16 anos a arrastar móveis na mesma meia dúzia de quilómetros). 

Já foram muitas, mas acho que ainda consigo fazer as contas: desde que vivo no Porto, já morei em quatro casas. A última mudança foi em 2010, a primeira em 1999, a segunda já não me lembro, a terceira foi em 2006. Agora 2016.  

Para quem se muda para perto, o pior de mudar são as mudanças propriamente ditas: enfiar tudo em caixotes, desencaixotar tudo (ou não - já encontrei várias caixas vindas da casa anterior que nunca foram abertas) e tentar arrumar melhor do que estava com a certeza de que, passados uns meses, estará tudo mais ou menos caótico outra vez. 

O pior das mudanças é a seleção: olhar para a caixa de recordações e pensar se vale a pena guardá-la para voltar a arrumá-la no cantinho de um armário onde não consigo chegar sem subir a um escadote e arrastar tudo o que está a tapá-la. As  memórias valem assim tanto? Confesso que acho que sim, mesmo que seja para só viajar no tempo muito de vez em quando (no meu caso tem sido sempre que tenho que encaixotar tudo outra vez).

O pior das mudanças é depararmo-nos com a quantidade de coisas inúteis que fomos acumulando, ou porque fizemos uma compra errada, porque nos presentearam com uma série de inutilidades ou porque fomos guardando coisas que se estragaram, que não servem para nada, que não usamos mas das quais não conseguimos livrar-nos.

O melhor das mudanças é ter de optar e saber (sobretudo se já tivemos muitas casas) que não vamos precisar das coisas que ficarem para trás. 


Anestesia geral

Fui à urgência do hospital a pensar que talvez estivesse a exagerar. Tinha dores, mas nada agúdo ou súbito. A dor foi crescendo devagarinho, ao longo de três dias, estava a deixar-me num permanente estado de nervos e naquele sábado comecei a achá-la cada vez mais intolerável.

Fui à urgência por causa das dores, mas sem grande convicção. Imaginei que fosse mandada para casa por não ser um caso urgente. No limite, talvez me receitassem um antibiótico. Ou talvez cedessem a fazer-me uma pequena intervenção. Fui pensando nisto tudo enquanto esperava ser atendida, numa fila de cadeiras duras onde se foi sentar uma senhora muito nervosa, a julgar pela veemência com que abanava a perna (e as cadeiras).

Acabei deitada numa maca, a aguardar vaga no bloco para uma operação com anestesia geral. Senti-me no meio da "Anatomia de Grey", mas num daqueles dias em que acontece um desastre qualquer e o hospital fica tão cheio que nem há espaço para manobrar as macas e evitar encontrões contra a maca da desgraçada que teve de se despir e enfiar numa bata (o resto da malta, apesar de ter pulseiras com cores mais urgentes, está vestida e decente) porque tem um abcesso perianal subfissurário e pode ser levada para o bloco a qualquer momento.

Há sempre gente a entrar e a sair, e um enfermeiro incansável, apenas um, para acorrer às urgências de Pequena Cirurgia e Ortopedia. Os médicos são muitos, quase todos mais novos do que eu. Nem sou velha, tenho 38, e o rabo com uma bola de porcaria que pode ter sido causado por algo tão simples e aparentemente banal como um pelo encravado. Olho para eles nos olhos, eles nem por isso.

Parecem-me todos umas crianças, os médicos, com exceção de um, mais velho, que se desloca com vaidade e pretensão e é seguido por meia dúzia de miúdas de bata branca e ar compenetrado. 

Foi toda uma aventura. Só saí do hospital na segunda-feira, só regressei ao trabalho uma semana e meia depois. Mantenho ainda a sensação de que anestesiada já estava antes. E de que acabarei por ficar novamente, se não me cuidar e me deixar enredar nos pseudo-problemas do dia-a-dia. 

Tamanhos e saldos

Na Lefties da rua de Cedofeita já só há calças de ganga escura para rapazes em saldo no tamanho 7/8. Vários pares, talvez uma dúzia, todos do mesmo tamanho. Não consigo perceber este fenómeno, que deixa para os saldos inúmeras peças do mesmo tamanho, raramente o que eu quero comprar. Desta vez até as trouxe, mas não estou convencida: as calças que o meu filho usa são 7/8 e estão a ficar pequenas, aquelas parecem maiores, deve ser ilusão, ou então as de casa mingaram. 

Estava decidida a descobrir a diferença entre skinny e slim fit, mas não consegui: eram todas modelo skinny, incluindo as da nova coleção, essas já com outros tamanhos, nomeadamente o 9/10. São 12 centímetros de diferença entre um tamanho e outro e - também não percebo isto - não há marca que se decida a fazer um tamanho intermédio? 

Voltando ao skinny e ao slim, queria perceber na loja, mas tive de procurar aqui. Parece que as skinny são as mais apertadinhas. Fiquei ainda com mais dúvidas sobre as calças do miúdo: não só me parecem maiores do que as que ele tem em casa como me parecem um modelo "normal/regular". 

Tudo será esclarecido quando lhas vestir e perceber se ficam bem ou mal, independentemente do modelo. Esta conversa só existe, aliás, porque gosto mais de o ver com calças de ganga estreitas (ele, aos sete anos, nunca se queixou) e só ocupo a minha cabeça com estas coisas para reduzir as possibilidades de errar em compras feitas a olho (ser mãe tornou-me especialista).

Homossexual

No carro (é sempre no carro):

- Eu estava a dançar e o Z. disse que eu estava a pinar. Não estava, pois não?
- Essa é uma palavra um bocado feia. Sabes o que quer dizer?
- Homossexual?
(respira)
- Não, homossexual é um homem que gosta de um homem ou uma mulher que gosta de uma mulher.
- E pinar, sabes o que é?
- Sei, mas é uma coisa dos grandes, um dia falamos sobre isso.


Uns dias mais tarde, também no carro:
- A J. é homossexual.
- Sabes o que é homossexual?
- Sei, um menino que gosta de um menino e uma menina que gosta de uma menina.
- E então porque dizes que a J. é?
- Porque ela gosta da M. por amor

J., sete anos.

Sapatilhas, casaco comprido e pés quentes

Estou completamente rendida a um dos 'looks' deste inverno: sapatilhas com um casaco comprido. Não sou a menina da Zara desta foto, não tenho um instagram husband ou um selfie stick, pelo que as imagens de mim própria com um casaco preto de inverno comprido mostram muito pouco. Ainda assim, dão para ver uma conjugação que sempre apreciei e que está muito 'in' nesta estação: casacos compridos com sapatilhas ou botas pelo tornozelo. Entre um e outro estilo, o das sapatilhas ainda é o que mais aprecio. Já gostava dele quando não era moda, porque eu sou uma 'rapariga sapatilha': não me consigo enfiar em roupa formal e adoro sapatilhas com tudo o que visto. Só não as uso mais porque sou extremamente friorenta. Não sei se este inverno (que, na verdade, ainda não chegou) está mais quente ou se o meu 'termoestato' finalmente está arranjado, mas este ano consegui misturar o casaco quente comprido com sapatilhas e adoro... O truque não é não usar meias (como me parecia que acontecia aqui), é usar collants térmicas (as minhas foram compradas no ano passado na Calzedonia). Para ser absolutamente sincera, ainda gosto mais do visual em que as meias são transparentes, mas dessas ainda não as conheço quentinhas... 


Não compro, mas gosto de ver


















Depois do que escrevi ontem, acho que ficou clara a minha aversão às Black Friday e eventos sucedâneos para nos fazerem gastar dinheiro naquilo de que não precisamos, nem sequer gostamos ou fica longe de assentar super bem. O que não quer dizer que não goste de promoções. Gosto, mas acho que as devemos aproveitar para comprar aquilo que acabaríamos por comprar mesmo sem saldo, porque precisamos mesmo ou porque gostamos mesmo a sério (e porque temos dinheiro para isso). Entretanto, sem querer, cruzei-me hoje, sexta-feira negra, com estas botas da Five Plus One, à venda na Fresh Jealous... E concluí que até posso não comprar, mas dificilmente alguma vez vou deixar de apreciar.