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8 anos


Fazes 8 anos, quase não dá para acreditar, e ao mesmo tempo parece que já fazes 9, porque sempre tiveste coisas que fizeram de ti mais crescido do que realmente és. Não escrevo no blog há século (eu sei que estou a exagerar), mas achei que não podia passar este dia sem aqui registar esta música, dos Pogues, que adoras, para te dizer que te amo mais do que posso. E sim, é mesmo verdade, o dia em que nasceste foi o mais feliz da minha vida. Quando te tive no meu colo fiquei com um sorriso derretido durante não sei quanto tempo. Ia dizer que teria sido até tentar dormir e tu me acordares (como fizeste tantas vezes, mas estás perdoado), mas não foi, porque na nossa primeira noite tu dormiste bem, eu é que não consegui fechar os olhos e deixar de olhar para ti. 

Portugal

Vi a seleção estar "quase lá" muitas vezes. As suficientes para ter ficado um bocado cínica, mas talvez me tenha tornado assim em relação a tudo. Ontem tive a televisão ligada enquanto via "Master of None" no computador. Calhou estar a olhar para o ecrã (grande) quando Portugal marcou o golo. Estava sozinha, quando dei conta tinha o braço no ar. Tolinha, parece que vamos ganhar, desta vez. Só comecei a vibrar quando percebi que esta era a primeira vitória "a sério" a que o meu filho assistia. Que, possivelmente, se ia lembrar disto para o resto da vida. Quis fazer parte do momento dele. Liguei-lhe no fim do jogo. Estás contente? Estava. Isto é importante, sabes, Portugal tinha ficado sempre pelo menos a um passo de lá chegar e o que me irritava mais era o paternalismo parolo dos que diziam "pelo menos chegámos até ali, já foi muito bom". Não foi, agora é que sim.

Mudanças. O melhor e o pior.

Carreguei muitos caixotes e sacos (constatei que os sacos grandes, daqueles dos supermercados, são bem mais práticos para transportar do que os caixotes - consigo mexer-me com vários sacos enfiados nos braços, mas não sou capaz de transportar mais do que um caixote, por mais leve que seja), mas o mais difícil não foi perder a conta às vezes que desci elevador, enfiei coisas no carro, tirei coisas do carro, enfiei tudo no elevador e tirei tudo outra vez. 

O pior, nestas mudanças, foi tudo. Não me lembro de outras que me tenham custado tanto, talvez porque o tempo nos faz ter cada vez mais coisas. É bem provável que tenha agora mais objetos do que há cerca de cinco anos, mas ninguém me volta a ver metida numas mudanças sem uma empresa com uma grande carrinha a ajudar. 

Ainda assim, o que me custou mesmo muito foi tirar da casa antiga tudo o que foi ficando para trás. Não cabe neste caixote? Fica para depois. O resultado foram vários sacos e caixotes, tantos que parecia estar a fazer tudo outra vez a partir do zero, tantos que me deram vontade de chorar, de deixar estar. 

Não é que as coisas me fizessem falta, mas não podia condenar o meu antigo senhorio a livrar-se de tudo o que eu já não tinha forças para levar. 

Se há coisa que as mudanças nos mostram é que vivemos com muito mais do que aquilo de que precisamos. E nem sequer estou a falar do lixo (talões de tudo e mais alguma coisa ou meias sem par, por exemplo), de coisas avariadas ou que deixamos de usar. Uma mudança, muito cansaço, camas desmontadas a ocupar um quarto inteiro e dormir no chão porque não se consegue dar mais um passo (e uma criança de sete anos que precisa mesmo de descansar, por mais que ache que não) mostram-nos facilmente que não é assim tão difícil sair da nossa zona de conforto. E que temos bem mais do que é realmente necessário, apesar de ser mesmo muito bom voltar a colocar tudo no sítio e sentir que a casa tem a nossa alma outra vez. Esta talvez seja a parte melhor - perceber que nem sequer me sinto em casa numa casa muito arrumadinha, sem a vida dos bocadinhos da minha (da nossa) história, relatados por cada livro, estante ou objeto de decoração, por mais antiguinho que seja. 

Tamanhos e saldos

Na Lefties da rua de Cedofeita já só há calças de ganga escura para rapazes em saldo no tamanho 7/8. Vários pares, talvez uma dúzia, todos do mesmo tamanho. Não consigo perceber este fenómeno, que deixa para os saldos inúmeras peças do mesmo tamanho, raramente o que eu quero comprar. Desta vez até as trouxe, mas não estou convencida: as calças que o meu filho usa são 7/8 e estão a ficar pequenas, aquelas parecem maiores, deve ser ilusão, ou então as de casa mingaram. 

Estava decidida a descobrir a diferença entre skinny e slim fit, mas não consegui: eram todas modelo skinny, incluindo as da nova coleção, essas já com outros tamanhos, nomeadamente o 9/10. São 12 centímetros de diferença entre um tamanho e outro e - também não percebo isto - não há marca que se decida a fazer um tamanho intermédio? 

Voltando ao skinny e ao slim, queria perceber na loja, mas tive de procurar aqui. Parece que as skinny são as mais apertadinhas. Fiquei ainda com mais dúvidas sobre as calças do miúdo: não só me parecem maiores do que as que ele tem em casa como me parecem um modelo "normal/regular". 

Tudo será esclarecido quando lhas vestir e perceber se ficam bem ou mal, independentemente do modelo. Esta conversa só existe, aliás, porque gosto mais de o ver com calças de ganga estreitas (ele, aos sete anos, nunca se queixou) e só ocupo a minha cabeça com estas coisas para reduzir as possibilidades de errar em compras feitas a olho (ser mãe tornou-me especialista).

O Pai Natal não existe

Sabia que O dia havia de chegar, como sempre tive consciência das muitas perguntas difíceis com que me ia deparar. Até ontem, safei-me sempre razoavelmente bem, pelo menos foi o que me pareceu.
 
- As meninas têm pilinha?  
- Não
- Têm, têm, que noutro dia a S. foi à casa de banho fazer xixi
- Foi fazer xixi mas não tem pilinha.

Depois disto surgiram muitas outras coisas, algumas que já não recordo. Outras foram algo do género: "Como é que os bebés vão parar às barrigas das mães?" ou "Se não tens dinheiro porque não vais ao multibanco levantar?".

A mais desconcertante de todas talvez tenha acontecido no dia do quinto aniversário do miúdo, também o dia da morte do bisavô. Nem foi difícil dizer-lhe da morte ou responder "foi para o céu" quando ele perguntou "e agora?". Não preparei nada, apenas fui respondendo como soube. À noite, quando entrei no quarto onde ele estaria a dormir, atacou-me com um "Onde foste?". Respondi "fui ver o avô" e logo a seguir achei que tinha baralhado tudo. Afinal não: ele limitou-se a perguntar, com a maior normalidade do mundo: "E estava no céu?". Estava, 

Voltando ao dia de ontem, foi, até agora, o mais difícil dia de explicações. Nunca será fácil ser confrontado com a pergunta "Achas que o Pai Natal existe?" e decidir que está na hora de contar a verdade. Comecei por contornar o problema perguntando "O que é que tu achas?". Ele achava que sim, mas insistia em perguntar "E tu, o que achas?".

Rodeei, rodeei, deitei as mãos à cabeça quando percebi que não conseguia dar mais voltas ao assunto e, depois de deitar as mãos à cabeça, percebi que não tinha outra opção senão contar cautelosamente a verdade. 

Acontece que não é nada simples desmontar um enredo que começou com o nascimento do menino Jesus, passou para uma personagem da Coca-Cola e acabou em algo universal e absolutamente difícil de contrariar devido à existência de provas.

Resumindo, o diálogo foi mais ou menos este:
- Não, não existe. 

- Então vocês andam para aí a gastar dinheiro em prendas! Depois não temos dinheiro (ele não disse para que o queria, mas era precisamente para prendas, e foi aqui que se tornou difícil não desesperar)

- Nós só damos as prendas que podemos. O Pai Natal nunca dá as prendas todas que os meninos pedem, pois não (para que raio estás outra vez a falar no Pai Natal, mulher?!).

- Mas o V. já viu o saco do Pai Natal em casa dele!

- Devem ter sido os pais dele. Há pais que se vestem de Pai Natal. Tu nunca viste o Pai Natal, pois não?

- Não. Este ano ia ficar acordado para ver se ele chegava.

- Pois, mas não vem.

- Eu acho que o Pai Natal vai às outras casas à meia noite. Como é que vocês fazem?

(O Pai Natal não existe para ninguém, não é só em nossa casa. Como é que me vou livrar disto?)

- Esperamos que vás dormir e pomos as prendas junto ao pinheiro. 

- Mas, diz-me uma coisa, o Pai Natal alguma vez existiu? 

- Não. 

E comecei a tentar explicar que a história das prendas no Natal tinha começado com o nascimento do menino Jesus, que veio à terra para ser o salvador, para as pessoas serem boas, e depois os reis magos oferecerem ouro, incenso e mirra.

Ele podia ter embirrado com a mirra, mas cismava que era tesouro em vez de ouro, e estava tudo cada vez mais complicado, e a dada altura já lhe estava a dizer que os tesouros podiam ser de ouro ou de pedras preciosas, até que ele atacou uma última vez e acabou com o problema. 

- O menino Jesus era Salvador Jesus? 
- Ah?!??? Dizia-se que era o salvador...
- O nome dele era Salvador Jesus?
- Não. Dizia-se que era o salvador porque a Terra era, e ainda é, um sítio complicado, com guerras, pessoas más...
-Já percebi. 
E foi jogar à bola.


Homossexual

No carro (é sempre no carro):

- Eu estava a dançar e o Z. disse que eu estava a pinar. Não estava, pois não?
- Essa é uma palavra um bocado feia. Sabes o que quer dizer?
- Homossexual?
(respira)
- Não, homossexual é um homem que gosta de um homem ou uma mulher que gosta de uma mulher.
- E pinar, sabes o que é?
- Sei, mas é uma coisa dos grandes, um dia falamos sobre isso.


Uns dias mais tarde, também no carro:
- A J. é homossexual.
- Sabes o que é homossexual?
- Sei, um menino que gosta de um menino e uma menina que gosta de uma menina.
- E então porque dizes que a J. é?
- Porque ela gosta da M. por amor

J., sete anos.

O amor e um pijama

Senhores do Dia do Pijama: Compreendo a intenção, que é das melhores, mas. lá em casa, a história de os meninos irem para a escola de pijama tornou-se um caso sério, e nem vou falar no tempo que perdi a tentar enfiar linha numa agulha para fazer a bainha às calças do pijama que a avó lhe deu no aniversário. Tudo para que, mesmo de pijama, o miúdo fosse em condições para a escola. Acontece que, pelos vistos, o amor anda no ar e o miúdo ficou com receio de lhe dizerem (de uma certa menina lhe dizer) que estava feio...


- Sabes, estão sempre a dizer que o que eu faço é feio.. Não sei se quero ir de pijama, depois podem dizer que estou feio

- Quem é que diz isso?

- A M. No outro dia... há muitos dias, já... mostrei-lhe um desenho e ela disse que o sol estava bonito mas o resto estava feio...

- Isso é a opinião dela. Deves ir como tu queres. Ela não faz tudo bem, pois não?

- Hum,,. Para mim faz.

(eh lá, a coisa é séria... eu e o pai cruzamos olhares a tentar disfarçar o riso e o pai toma as rédeas da conversa)

- Olha lá, as miúdas, às vezes, são assim: dizem coisas para entrar na nossa cabeça. Tu não podes deixar. Quando ela disser essas coisas não respondes torto, mas podes dizer que não te interessa...

- Ahhhh... (e a cara dele encheu-se de um sorriso enorme e de uns olhos muito brilhantes, como se lhe tivessem descoberto a pólvora para um problema grave e sério)

Passados alguns instantes: 

- Então, já decidiste se vais de pijama?

- Vou. Vou arriscar.

(arrisca, miúdo, sem medos!)

I got you, baby - João, 7 anos


A música pode ser pirosa mas não me importa, foi ela que me veio à cabeça quando comecei a pensar em ti, nos teus sete anos, nos nossos sete anos e nove meses. Tenho-te a ti e pouco mais importa, por mais que tenha de me importar com muitas mais coisas que me complicam o caminho. Há sete anos não fazia ideia da aventura em que estava metida, mesmo depois de te ter carregado na barriga durante nove meses. 

Há sete anos, nasceste às 12h14. Olhei para o relógio mal saíste de dentro de mim, queria ajuda para fixar aquele momento, queria-me lembrar da hora para sempre e, lá está, sou dada a trabalhos sem sentido, porque a nossa hora certa não interessa muito para o tanto que interessa nas nossas vidas. O que nunca mais vou esquecer foi ter-te parido, dar-te colo, olhar para ti e amar-te desde o primeiro instante, como nunca pensei que pudesse. Só soube que era possível depois de ti. Faltavas tu.

Há sete anos, não sabia nada de nada do que era ser mãe, mandava palpites a quem tinha filhos e sobre quem os tinha como se fizesse ideia do que estava a falar, fazia promessas a mim mesma sobre coisas que nunca ia fazer e fi-las quase todas: andar contigo no shopping pouco depois de nasceres (quando os bebés nascem nos meses de frio e chuva é difícil encontrar sítio mais cómodo para mudar fraldas ou dar de mamar), adormecer-te ao colo, deixar-te dormir na minha cama, aturar birras em público com vontade de me enfiar num buraco, deixar que te sujes com bolachas e água sentado no carrinho para experimentar umas calças nos saldos, repetir o teu nome vezes sem conta sem perder as estribeiras porque estás distraído, não queres ouvir, ou fazes de conta que não ouves... 

Mudou tudo, depois de tu nasceres, e sete anos depois o teu sorriso e a nossa cumplicidade enchem-me de orgulho. Tens a mania de dizeres piadas e muitas vezes tens piada. Gostas de imitar as minhas gargalhadas e ficas excitadíssimo quando as ouves, ris-te só de me ouvir, mesmo sem perceber por que o faço (a maior parte das coisas que me fazem gargalhar não têm sentido). 

Dizes "era mais adequado" e sabes o que estás a dizer. Falas sobre futebol como um adulto e desfias táticas, nomes de jogadores e considerações sobre tudo o que gira à volta da bola. Fazes o mesmo com as notícias e a política, mas eu e o pai dizemos-te que isso é coisa dos grandes, o que não te impede de voltar a tentar na oportunidade seguinte.  

Começas as frases com "Bem..." e vais por ali fora sem nos dar condições para respirar. A maior parte das vezes, as tuas respostas começam com um ponderado "Provavelmente...". Tens opinião sobre tudo, ou arranjas, a não ser que estejas cansado e não queiras falar, coisa que é muito frequente quando te vou buscar à escola e respondes às minhas perguntas com impacientes "não me lembro" ou "não me apetece dizer". Mais tarde acabas por fazer relatos infindáveis, cheios de detalhes, como se as tuas pilhas não tivessem fim.  

Jogas futebol mesmo sem bola. Sim, imaginas que estás a jogar e dás chutos numa bola imaginária, para além de registares os acontecimentos dos jogos e a composição das equipas em folhas que deixas espalhadas em todo o lado. Também gostas muito de escrever e de ler. Esta semana, fizeste a ti próprio perguntas sobre um livro do Fernando Pessoa que te foi ter às mãos. Inventaste os teus trabalhos de casa e respondeste. 

Dás os melhores abraços do mundo e adoro quando te aninhas no meu colo, porque foste um bebé tão irrequieto e que cresceu tão depressa que quase parece que não tive tempo de te dar todo o colo que queria. Sabes que não te podemos dar tudo e que, mesmo assim, te damos muito. Agradeces sempre, como fizeste hoje ao receber a tua prenda. Podias ficar apenas alegre, feliz, entusiasmado, sei lá. Mas a tua primeira preocupação foi dar um beijo e um abraço ao pai e à mãe e agradecer, também com o olhar. 

Baby, já és um rapaz e esta é a minha melhor caminhada de sempre.  

Ser mulher...

A primeira velhinha é a velhinha que eu quero vir a ser. Se lá chegar. E, se lá chegar, se calhar não vou ser nada assim. Mas é assim que me imagino: arrebitada, com saudades de dançar, casaco de cabedal ou algo que esteja na moda na altura e faça mais sentido numa pessoa mais nova sem ficar despropositado no meu look avozinha. Os estereótipos são feios e não gosto deles, por isso talvez me venha a arrepender de ter escrito isto. Quando lá chegar. Se lá chegar. 

Em todo o caso, não era este o propósito deste post. O que eu queria, era falar deste vídeo, que não me canso de ver e que me faz pensar, Nós, mulheres, somos um ser humano. Ser era o que deviamos estar preocupadas em fazer. Mais do que com o fazer. Ser felizes. ser sorridentes, ser mães, dar aos nossos filhos todos os beijos e abraços e mais alguns, sermos nós, termos tempo, respirar, encontrar a nossa paz. Em vez de fazer - as camas (eu por acaso nem faço, sou adepta do 'deixar respirar'), as compras, as máquinas de roupa, o jantar, o trabalho, os trabalhos de casa dos miúdos... Ser. Parar para respirar. A ver se me lembro antes que me arrependa.   

Deixa lá o menino (Olá, eu sou a mãe do João, sete anos depois)

Domingo em família, almoço de chorar (costela assada com batatas assadas e castanhas, e grelos, e bolo de brigadeiro no fim), cadela, sua tola, não corras tanto, não me lambas, larga-me as pernas, João não faças isso, João não é assim que se faz, João isto, João aquilo.

Deixai lá o menino, que só temos este,

Silêncio, por instantes. Pronto: faz, toma, pode ser, sim. Não pode ser sim todos os dias, a todas as horas nem em todas as situações mas o contrário também não. 

Deixai lá o menino... 

E nós, em silêncio, acho que pensámos todos o mesmo; às vezes conseguimos complicar o que é simples. 

Que mal tem ir buscar o escadote que o miúdo está a pedir para ele perceber que não há figos ao alcance dele, mesmo que esteja em cima de uma escada? É bem mais fácil e rápido do que estar constantemente a responder ao pedido insistente dizendo também insistentemente que o escadote não adianta nada porque os figos estão bem mais altos do que isso. Foi remédio santo, dois ou três minutos depois de estar em cima do escadote desceu, foi fazer outra coisa qualquer. 

Horta, arrancar cenouras da terra, apanhar couves, colher nabiças ou arrancá-las também. Não é assim, tens de as partir. "Mas eu só sei assim". É fácil, eu explico-te, olha. Ele não quer olhar, quer fazer. Como não o deixam vai-se embora da horta, de beicinho e tudo. Não gosto de amuos, embora me lembre de ser uma criança que amuava bastante e de os adultos que me rodeavam implicarem bastante com isso. Insisto que não pode ser como ele quer e que é fácil fazer como deve ser feito.

Deixa lá o menino, diz a minha avó. Que mal faz, vai para as galinhas, há aqui muitas (nabiças) e as que grelam já não dão nabo. Nabas - nós, eu e a minha mãe. Ela é que começou: não arranques, que isto quando crescer dá um nabo. Eu repeti, o miúdo fartou-se: "Quero fazer coisas". 

Deixa lá o menino, disse a minha avó. Realmente... Anda cá, arranca como sabes. 

Às vezes complicamos, e não é pouco. Entre as lições que tenho aprendido desde que sou mãe talvez a mais importante seja que a nossa implicância com as crianças é, muitas vezes, proporcional à dimensão das birras delas. Sim, o meu já fez muitas, faz algumas, só por fazer, das feias, das muito feias, daquelas em que chora aos berros (acho que ele nunca soube chorar doutra maneira e dificilmente vai aprender) e se atira para o chão e esperneia. 

Mas aprendi que, às vezes, muitas mais vezes do que imaginaria, contrariar só porque sim é a pior das estratégias. 

À medida que fui conseguindo lidar tranquila com a irritação dele, a irritação e as birras dele foram diminuindo. Será que é porque está mais crescido? Talvez. De qualquer forma, prefiro não arriscar: dar a volta à situação sem entrar em confronto tornou-se no segredo mais bem guardado de uma maternidade muito mais tranquila e reconfortante. 

E não, não acho, nem estou, a criar nenhum tirano nem nenhum menino mal educado. 

Não foram precisos sete anos dele, mas quase.  (Sete?! De repente sete parece imenso. E se calhar é).

Já vou lá ter...


Caem-me gotas de suor da testa. Ter franja não é fácil, nestes dias de calor. A imagem não é bonita mas é assim que estou, antes das 9h da manhã. Acordei às 5h30. Deve ter sido mais cedo. Aquela foi a hora que os meus olhos ainda desfocados fixaram quando decidi olhar para o relógio, não fora o alarme das 7h dar sinal e eu o tivesse ouvido sem ter ouvido. Afinal não, tinha ainda mais de uma hora de sono pela frente, que bom, mas por mais que fechasse os olhos não dormia.

Demasiado calor, pensei. Abri janelas e persianas, bebi água, fumei um cigarro, já que estava junto à máquina de lavar estendi a roupa. Estava quente. Lavei com água fria, iniciei a lavagem antes de me deitar e estava quente, a roupa. 

Grande doida, a estender roupa antes das 6h da manhã quando podia estar a dormir. Nem sequer estava com grandes preocupações. Ou aflições. Ou angústias. Simplesmente despertei e não consegui voltar a dormir. 

É do calor. E da idade. Não é que esteja velha, mas, caramba, já fui capaz de dormir até às duas da tarde. Ia para a cama bem mais tarde, é certo, mas mesmo quando me deitava cedo nunca acordava antes do despertador tocar. Quando a minha avó comentava os seus despertares madrugadores. eu achava que nunca ia ser assim. Pois. Nem precisei de chegar aos calcanhares da idade dela para saber que afinal a vida dá mesmo muitas voltas.

Estendi a roupa, fumei o cigarro, abri as janelas e voltei para a cama. Nada. Levantei-me, tomei o pequeno almoço, comecei a pintar as caixas de cartão onde quero guardar os livros e o material escolar do primeiro ano de escola do meu filho. Não sei o que é pior, se começar a manhã a estender roupa e a pintar caixas de cartão. 

Cheguei agora ao trabalho, mais cedo do que num dia de semana. A franja já deve estar num desalinho, o resto do cabelo também, ainda bem que me dei ao trabalho de o secar e de lhe passar a prancha (de alisamento) para ficar direitinho. 

Já tomava outro banho, já vestia outra roupa. E vou-me descalçar, porque - malditos pés (o problema só pode ser dos meus pés) - ontem estava tanto calor que consegui fazer duas bolhas valentes apesar de estar a usar numas sandálias de pele molinha, larguinha, o topo do conforto. 

Ontem experimentei todas as outras sandálias que tenho em casa, mas, raios, nenhuma passa ao lado da bolha que ficou em pior estado. Faziam-me falta as sandálias havaianas, é só enfiar o dedo e puxar a parte de trás no calcanhar, mais valia ter vindo de chinelos, pelo menos não me doía nada.

As sandálias havaianas não as trouxe porque não as tenho cá, foram encaminhadas para a praia onde já devia estar praticamente a chegar, não fosse terem-me atropelado o carro numa rotunda. Achei-as (ou meteram-me na cabeça que eram)  demasiado informais para trabalhar. Acontece que é domingo, não vou a nenhuma festa, e não há nada que pague o sacrifício de andar com os pés enfiados em algo que magoe (todas as queixas possíveis e imaginárias aqui e aqui).

Ainda cobri a bolha, ou o que resta dela, com dois pensos e um adesivo maravilhosamente discreto que nunca descola. Pois: descolou tudo, não tinha sequer chegado a meio do caminho. Antes disso já me tinha apercebido de que não trazia os talheres do almoço, mas estava tanto calor que não consegui voltar para trás, 

Tem sido uma cruzada, o meu percurso trabalho-casa desde que me atropelaram o carro na rotunda. A culpa não foi minha, isso foi mais do que evidente. E, ainda assim, mais de uma semana depois, continuo sem o carro, sem ordem para o reparar e sem carro de substituição. Venho trabalhar de metro, não tenho problema nenhum com isso, mas o percurso que tenho de fazer para chegar até ele, e o outro tanto que caminho depois de dele sair demora mais do que o trajeto rápido e tranquilo nessa maravilha dos transportes públicos.

O meu corpo deve estar, por esta altura, bem mais tonificado do que no início da semana, mas tudo isto começa a ser cansativo. Hoje já tive de besuntar as pernas com um creme para pernas cansadas. Apesar de ter dormido tão bem que até acordei duas horas antes do necessário, tenho as pernas moídas e vou maçá-las ainda mais no regresso, quase no pico do sol e do calor, espero bem que a bolha não me aflija muito, senão deixo o meu espírito de resistência de lado e vou descalça, quero lá saber, vou descalça, doem-me os pés, e depois?

Aqui na Baixa, no domingo de manhã, é que não convém. O melhor seria até vir de botas, tantos são os obstáculos no caminho: vomitado, pedaços de lima ou limão, vomitado, vidros, lixo, tudo sujo, vomitado e mais vidros, muitos, duas ou três garrafas de cerveja, das grandes. Também já percorri noites como se não houvesse amanhã, sem saber do barulho que fiz para quem estava a dormir ou do lixo que deixei para trás. Agora já não acho tanta graça.  

Até tinha pensado passar esta semana a andar a pé, antes do acidente. Mas da opção à obrigação vai uma grande distância. Eu sei que podemos tudo, resistimos a tudo, aguentamos sempre muito mais do que esperávamos. E isto nem é nada. Recorrer a transportes públicos? É que fazem centenas ou milhares ou milhões de pessoas todos os dias, so what? Nem sequer é a primeira vez que eu o faço.

Mas estou cansada. A menina mentirosa que foi contra o meu carro na rotunda deu cabo da minha paciência. E as seguradoras, e os vendedores de carros, e as oficinas. Anda meio mundo a queixar-se de outro meio e do Governo e dos políticos, e de Bruxelas e do FMI e a mim, neste momento, parecem-me bem piores (ou iguais, vá) os seguros, as oficinas e as meninas que atropelam carros na rotunda, ficam aterrorizadas de culpa, querem resolver tudo a bem logo no momento e no dia seguinte decidem ser mentirosas.

O meu filho conta-me todos os dias as aventuras das férias, eu digo que gostava de lá estar e ele responde-me, num tom de quem me quer tranquilizar, que não há drama nenhum, porque na terça-feira já vou poder fazer tudo isso. À conta de burocracias, de seguros contra todos os riscos que afinal não acautelam todas as eventualidades e de meninas mentirosas, talvez não. Talvez não possa ser na terça-feira, não sei, ninguém sabe, ninguém diz nada, eu que me safe.

P.S O título e a música escolhidos para acompanhar este post podem parecer não estar relacionados com nada do que escrevi. Se calhar não estão mesmo. Mas foi com esta música na cabeça que acordei, quase de madruagada. Os Deolinda tocam esta noite nos Aliados, for free, e acho que gostava de os ir ver, mas não sei se me apetece. Movimento perpétuo indecisivo, that' s me. Se calhar foi por isso que não dormi mais. 

No tempo em que tinha tempo, estar sozinha era só solidão

Seis anos de filho (quase sete) e sempre uma sensação de que preciso de mais tempo para mim, para estar sozinha, para não fazer nada, apenas esticar-me no sofá como se não houvesse amanhã, deixar-me dormir o tempo que for, ver séries e filmes, tudo sem pausas, sem interrupções, sem preocupações, sem planos. 

É sempre o mesmo ai, que já são horas de o ir buscar à escola, ai que tenho de ir ao supermercado na pausa do almoço para depois não ter de o levar e atrasar toda a rotina do acaba os trabalhos de casa. Toma banho, "preciso de ajuda neste crucigrama", veste-te enquanto começo o jantar, "ajudas-me a pintar este desenho?", anda lá, despacha-te, apanho roupa, estendo roupa, "podemos pintar estas caixas com tintas?", agora não, vamos sujar tudo, quando tivermos tempo, eu sei que nunca temos tempo, olho outra vez para o jantar, "quantos são 345 mais 229?", sei lá, este rapaz lembra-se de casa conta, ponho a mesa, "posso ver bonecos?", não, desliga isso. 

Levanto a mesa, lavo a loiça, meto mais roupa na máquina, dobro mais roupa, olho para o monte de roupa que tem de ser passado a ferro e viro a cara para ver se a imagem desaparece, numa mistura de desgosto, não quero saber e irritação profunda, no fundo à espera que aquela roupa saia dali para os armários por artes mágicas. Vai lavar os dentes, "porquê?", porque tens de lavar os dentes, anda para a cama, "só mais cinco minutos", deita-te, "quero ir para a tua cama", mas está tanto calor, "mas eu assim não consigo dormir". Pois, e assim quem não vai conseguir dormir sou eu, vais passar a noite a dar-me pontapés, a trepar por cima de mim, a dar-me bofetadas, ao menos adormeço melhor, gosto de ter ali.

Quero sempre todo o tempo livre, para não fazer nada, desde há muito eleito o meu hobby favorito ou para fazer tudo: ir ao cabeleireiro, entrar em lojas para experimentar tudo e não comprar nada, arrumar os livros da escola, arrumar-lhe o quarto, arrumar o meu quarto, arrumar a casa, limpar tudo, deixar tudo em ordem, talvez ler um livro, essencialmente esticar-me no sofá sem me preocupar com nada.

E, de repente, o paraíso está à minha frente e percebo que não é nada disso que quero. Filho e pai de férias fora, eu a trabalhar, chego a casa com todo o tempo do mundo para mim e bloqueio, não faço nada nem consigo ficar sem fazer nada. Sinto saudades, volto ao tempo em que vivia sozinha, sem filho ou marido, e percebo que nunca foi isso que quis. 

Nunca tive bem consciência disso, ou já não pensava nisso há muito tempo, mas estar sozinha não é o meu género. Estar sozinha fazia-me sentir sozinha, não me fazia sentir confortável por ter o meu canto, o meu mundo, o meu tempo. 

Talvez agora apenas precise de que o dia tenha mais umas horas, ou que pelo menos uma hora do dia, talvez um bocadinho mais, seja só minha. Mas isso é nos dias em que tenho de fazer tudo - ir ao supermercado, arrumar as compras, pensar no jantar, no almoço do dia seguinte, no lanche do miúdo, nos recados da escola e na roupa de todos enquanto tento passar por cima do cotão espalhado pela casa, até que me dá um ataque de fúria e começo a limpar tudo. 

Afinal não preciso de tanto quanto pensava. E não é só uma questão maternal. Tenho saudades do meu filho, claro, muitas, mas não é a primeira vez que ele fica fora de casa. Já por mais de uma vez estive sem ele durante quase um mês e não me senti assim. Tinha sempre outra pessoa em casa e aproveitava cada segundo sem companhia como se fosse o meu maior luxo. E era - o meu momento de nada fazer, de me deixar levar sem pensar, de apenas ficar comigo, no meu canto, a recuperar o tempo perdido. 

Pensava que precisava de mais para mim. Mas não. Tenho consciência de ser a que só está bem onde não está, mas isto é mais do que isso: é perceber que, no tempo em que tinha tempo, estar sozinha era só solidão. 

Não há sabonetes na escola

Chego à escola à hora do costume. O miúdo, como de costume, está no recreio a jogar a bola. O recreio é de cimento, irregular, não percebo por que motivo os parques infantis têm de ter um piso especial para as crianças não se magoarem e os recreios das escolas podem ter um qualquer. Para o efeito não interessa muito e a verdade é que o pai da criança já caiu num parque infantil (coisas da vida) e ficou todo esmurrado. Contas feitas, não há pisos à prova de miúdos, e, como disse, para o caso não importa.

Desta vez o miúdo não chora ao ver-me chegar porque "ainda agora acabei de fazer os deveres, tinha mesmo começado a brincar" (mãe que tenta não se atrasar para ir buscar o filho sofre). Mostra-se conformado com a ideia de ir para casa, talvez por ter decidido não fazer os deveres no ATL "porque eram poucos".

Está com a cara com manchas castanhas, da mistura do suor e da sujidade das mãos que andaram a jogar à bola e a esfregar-se no chão durante a aula de educação física. As mãos estão pretas, quase que dá para lhe tirar a impressão digital. Vai lavar as mãos. Ele começa a dirigir-se ao centro do recreio. Onde vais? "Vou lavar as mãos". Não, vais lá dentro lavar as mãos bem lavadas com sabonete. "Não há sabonete na escola", responde-me, com a assertividade e indignação de quem acha que eu devia saber disso há muito tempo. Realmente devia. Não há sabonete na escola? Olho em volta, acenam-me que sim, que é verdade. Também não há toalhas, toalhetes ou o que quer que seja onde se possam limpar ou secar. Não há sabonete na escola? 

Não consigo sair daquilo. Fiquei bloqueada. Não há sabonete na escola. Os meninos vão almoçar e limitam-se a passar as mãos por água, se é que o fazem? Fazem cocó e passam as mãos por água? Sem sabonete? E eu nunca me apercebi disto. Se não me apercebi talvez seja porque não faz assim tanto mal. Eu até sou adepta de que ele se suje todo na terra e nunca fui obcecada com bactérias e afins. Mas não ter sabonete/gel para lavar as mãos? Numa escola do Porto? Em 2015? Quanto mais penso nisso menos faz sentido. 

Não era suposto a escola pública ser promotora da igualdade? Não era suposto que dessa igualdade fizesse parte o ensino de algumas coisas que alguns meninos não aprendem em casa? Não é suposto a higiene ser uma regra básica em qualquer parte do mundo civilizado? 

Quase que aposto que existe uma razão para não haver sabonete na escola. Quanto mais não seja, uma razão para explicar a quem possa colocar a questão. Não há dinheiro para ele, os meninos brincavam com o sabonete em vez de o usarem para limpar as mãos, os sabonetes desapareciam, quem tem competência para isso já prometeu há séculos instalar um dispensador de gel... Imagino uma série de justificações e nenhuma me convence. Os meninos daquela escola andam há um ano, ou mais, a lavar as mãos sem as lavar. 

Antes não havia sabonetes, no tempo dos meus avós e pais nem sapatos havia e sobreviveram todos, bem, os que conseguiram. Há coisas piores, o melhor é fazer queixa, talvez o mais aconselhável seja ignorar, andar para a frente, analisar se isso é mesmo um problema. Estou já em fase de delírio sobre possíveis respostas. Na verdade não espero nenhumas. Quer esteja calada quer aborde o problema. Só precisava que o mundo soubesse que sim, seja lá por que motivo for, há pelo menos uma escola pública onde não há sabonetes. No Porto. Em 2015.  

50 quilos e coisas da sorte

A minha médica de família diz que peso 50 quilos. Ela não, a balança. A mulher até voltou a calibrar o aparelho de propósito porque eu não acreditava, dizia que era impossível.  Ela olhava para mim e achava que sim. Em todo o caso, acertou a balança, mandou-me subir outra vez. 50 quilos.

Continuo a achar que não é verdade. Tenho a certeza de que, se me pesar noutra balança, peso mais. Sei que estou mais magra, até posso admitir estar magra, mas nunca na vida devo ter pesado 50 quilos.

Talvez tivesse pesado isso quando era criança, e menos do que isso quando era bebé, mas lembro-me de ser bem pequena e andar a comer umas sopas/papas e a tomar uns comprimidos para emagrecer receitados pelo pediatra. Aquilo marcou-me para o resto da vida. Não teve efeitos nenhuns. A não ser fazer-me sentir diferente, para pior. 

Se tinha de comer aquilo e, ainda por cima, tomar comprimidos, sendo tão nova, algo estava errado comigo. Numa mais me livrei do rótulo e do peso que pus em mim própria por causa disso. Ainda hoje não estou totalmente recuperada, como se constatou pela incredibilidade perante várias pesagens na balança. 

Já mais velha, lembro-me de ter feito umas dietas parvas (cortar com tudo o que fosse doce, depois com os hidratos de carbono e por aí adiante até chegar ao ponto de a regra ser apenas ingerir vegetais ou fruta, exceções para um peixinho grelhado com legumes e para os almoços de domingo em casa da avó ou dias de festa). As dietas parvas encontrei-as em revistas femininas. Depois ainda me pus a fazer ginástica e aparelhos de musculação, o que não teria mal nenhum se o fizesse por prazer e para me manter saudável e em vez de ser um sacrifício para ficar mais magra. Porque, supostamente, mais magra, ou magra, era melhor. 

Eu, que nem era assim tão gorda - vejo agora pelas fotografias - meti na cabeça que era uma baleia e não queria ser, porque ser baleia era mau. As baleias (as gordas) não têm namorados porque nenhum rapaz quer namorar com uma baleia (gorda). As gordas são feias. Era o que eu achava. Parva. 

Com as dietas malucas e o exercício o menos que pesei foram 58 quilos. Estava bastante bem, com aqueles 58 quilos. Não tinha barriga. Tinha umas coxas jeitosas, um rabo também. Não me sentia magra, que era o que eu queria ser, mas sentia-me melhor. 

Depois fui engordando e emagrecendo, sempre sem fugir muito dos 58 quilos (quando emagrecia, entenda-se, porque numa das fases em que engordei cheguei aos 80 e ao tamanho 44/46). Já tive muita vergonha disto. Agora não. Estes 50 quilos, se é que são verdade, aconteceram porque tiveram de acontecer, não porque acordei um dia determinada a chegar aos 50 quilos. 

Aconteceu muita coisa que me tirou apetite e que aparentemente me deixou de vez sem ataques de gula, nomeadamente por chocolates e doces (fiquei assim depois do meu filho nascer). Tenho algum cuidado porque me sinto bem assim (mais magra), mas como de tudo - batatas fritas, pizzas, massas, bifes, pão com manteiga, tudo. Emagreci a sério na única vez em que não me pus a fazer dieta para emagrecer. Não deixa de ser irónico. Uma vida a tentar e acontece (em boa hora, é verdade) quando está longe de ser uma prioridade. 

É também uma lição. Por muito que nos esforcemos, as coisas às vezes não acontecem quando queremos. Acontecem quando tem de ser. Não adianta, por isso, desesperar, exasperar, sofrer, ficar de coração apertado. Quando tiver de ser, é. Para o bem e para o mal. Sendo certo que, como dizia o meu avô, para ter sorte é preciso muito trabalho. 

Trabalhemos, pois, até chegar(em) o(s) dia(s) de sorte. Que podem ser quando menos esperamos. E que até podem ser o que menos esperamos. Às vezes uma frase do filho e/ou a atenção/cuidado do marido basta para perceber que toda a nossa sorte até está mesmo ali ao nosso lado, todos os dias..      

Música para mães 'cool' (ou só para mim)

Estou a ouvir a playlist Dia da Mãe - Música para mães 'cool' - Uma selecção da blogger Divine Shape (divine shape.blogspot.com) no MEO Music http://meomusic.pt/playlist/JFP4MuVk68_wJj6faeU4KA

O desafio da Meo e do Trend Alert era que eu, enquanto blogger, fizesse uma playlist para o dia da Mãe. O resultado foi esta lista, essencialmente um relato musical da minha experiência como mãe, do meu crescimento enquanto pessoa desde que tive um filho, do amor que sinto por ele, da ligação que temos, da relação com a minha mãe e do que entretanto aprendi sobre ela ou sobre outras mulheres-mães que tive ao longo da vida (somos muitas, na família). 

Ser mãe serviu-me para me tirar todas as certezas. A partir de então, só estou convicta de que terei sempre muitas dúvidas e tentarei fazer o melhor que posso. Em relação ao meu filho e a tudo resto. Deixei-me de verdades absolutas e acho que isso não tem mal nenhum. Todas as que tinha caíram por terra, o meu mundo virou-se ao contrário, fiz tudo o que prometi não fazer ou dizer. Nunca mais disse nunca, pouco depois de ele ter nascido e eu me ter visto com ele no shopping, consciente de ter perdido a conta às vezes em que estupidamente critiquei pais de bebés pequenos que fizeram o mesmo. Era inverno e nenhum espaço público abrigado oferecia a mesma logística para tratar de um recém-nascido. É tão simples quanto isso. 

Depois, há coisas incontornáveis, como ouvir-me e jurar que estou a ouvir a minha mãe com as expressões que, enquanto filha, odiava ouvir e jurava a pés juntos nunca reproduzir. Não há como evitar. Ser mãe confunde-se com a filha que fomos e com a mãe que tivemos. 

Ser mãe não tem comparação com nada, porque é um amor maior do que alguma vez julgamos poder sentir. É tudo o que imaginamos, ou nada do que tínhamos sonhado, mas é sempre mais e melhor. Daí a escolha da música Finale, de Maurice Jarre, do filme Clube dos Poetas Mortos. É um crescendo de sentimento de conquista, vitória, felicidade e orgulho, cada etapa da vida de um filho, cada primeiro sorriso, primeiro passo, primeiro beijo, primeira palavra, o primeiro dente que cai ou primeiras notas na escola.

A espera por ele também não escapou à música: é daí que vem a escolha de "Fico Assim Sem Você", da Adriana Partimpim. A letra só fez verdadeiro sentido para mim quando estava grávida, ansiosa por ter a criança nos braços, a sentir-me como queijo sem marmelada, incompleta, por acabar. Amor I Love You, a música da Marisa Monte que inclui uma citação do livro "Primo Basilio", do Eça De Queiroz, também me acompanhou nos nove meses de gestação.

Quando ao resto, algumas são músicas que ouvi ao vivo enquanto estava à espera da criança: Deanna, de Nick Cave, no Coliseu do Porto, ou Heart Of Glass, dos Nouvelle Vague, no Sá da Bandeira. There is a Light tha Never Goes Out (Morrisey), é o que eu espero ser para o meu filho. Blitzkrieg Bop foi uma das primeiras músicas que ele pediu para ouvir e os Ramones foram a primeira banda que ele soube identificar. Isto, claro, depois da febre dos "Não sei quantos macaquinhos que saltavam no colchão" (título completamente adaptado de uma canção que passava no canal Panda e que ele, ainda no colo, pedia para repetir atirando-se para cima do leitor de CD).

Os The Pogues são a mais recente paixão musical da criança e The Sunnyside of The Street, uma das músicas que tenho de ouvir quase tantas vezes quantas vi o arco-íris do Mickey ou a bola que foi parar à estrada do Noddy, é uma das minhas preferidas - ele, o meu filho, é o meu lado solarengo da estrada e da vida.   

São, no fundo, sons que ouço repetidas vezes, ou que ele também gosta/gostou de ouvir. Com ele ainda no colo, cantei-as e dancei-as como se fossem um tango, de um lado para o outro, com um ar sério que o fazia rir. Também já as dançamos: a  fazer de conta que estávamos numa festa, porque estavamos numa festa (coisas da última passagem de ano), aos saltos, a agitar o corpo, a fazer ginástica (imposição dele) ou deitados no chão da sala a relaxar. 

A isto tudo soma-se "Para os Braços da Minha Mãe". Não sendo particularmente fã do Pedro Abrunhosa, não consegui lembrar-me de uma música que melhor ilustre o que penso quando me falta colo, quando penso na minha mãe, no que nos separa e no que ela está sempre disponível para me dar. 

Meias, gravidez e o carrossel dos conselhos ao estado de graça

As meias de descanso/compressão serão, certamente, das coisas mais difíceis de enfiar no corpo. e, consequentemente, das coisas que mais facilmente desistimos de tentar vestir. No fim tudo fica normal, mas calçar aquela coisa apertada e fazê-la subir pelas pernas acima é uma aventura. Estou no dia 1 de meias de descanso/compressão, tenho varizes, pernas doridas e pesadas, já devia usá-las há anos. A dor e o peso nunca foram suficientes para me convencer. 

Cheguei agora ao ponto de concluir que tenho mesmo de seguir as indicações médicas e fazer o sacrifício. Para já acho, neste dia 1, com cerca de três horas enfiadas numas meias até ao joelho, parece-me que vale a pena. Não dou conta de estar com umas meias especiais e sinto as pernas mais leves. No fim do dia saberei melhor avaliar os resultados, mas para já digo que sim, realmente resultam.

A questão é que, para saber se elas resultam é preciso conseguir calçá-las e, raios, nunca vi coisa tão difícil de vestir. Nunca experimentei um espartilho, mas imagino que até isso seja mais simples - aperta-se atrás, por muito apertada que uma pessoa fique a operação de o vestir parece mais fácil, ainda que implique duas pessoas. Se calhar era o que devia ser indicado para as meias de descanso.

Não me admira nada que a única tentativa que fiz até hoje, quando estava grávida, tenha sido uma aterradora e traumatizante. Como é que uma mulher com uma barriga e umas mamas gigantes consegue alcançar os pés e os tornozelos para ultrapassar a fase mais complicada de vestir umas meias tão apertadas que implicam ginástica, habilidade, agilidade e treino? Sei de muitas grávidas que as usaram, parabéns para elas, ainda bem, se eu as tivesse usado talvez agora não andasse à volta com varizes e pernas pesadas. A mim disseram-me muitas vezes que as devia usar - uma ou duas, vá, e voz que o fez de forma mais veemente foi a mãe de outra grávida que me irritou porque achei que estava a mandar em mim. 

As grávidas não gostam que mandem nelas, porque passam a gravidez a ouvir palpites de toda a maneira e feitio. Hão-de perceber que muitos deles até tinham razão de ser. Mas são tantos e tão contraditórios que se transformam num ruído de fundo que irrita. E as grávidas ficam tão hormonalmente sensíveis que não gostam de se sentir num carrocel a toda a hora. 

Eu, pelo menos, senti-me assim muitas vezes: como se todos estivessem a dizer ao mesmo tempo coisas que eu não conseguia ouvir porque entretanto a minha cabeça estava transformada numa roda gigante com tanta informação. Talvez tenha tido o azar de receber muitas sugestões. Não faças isto, faz aquilo, usa isto, aquilo é que é... 

Tivessem perdido mais tempo a explicar-me mesmo a sério que um filho dá muito trabalho, chora muito e não deixa os pais dormir, por mais que até seja sossegado (a mim saiu-me um pouco tranquilo e com um choro que ainda hoje fura os tímpanos a qualquer um), porque em relação a isso tudo o que eu vi foi o olhar ternurento e confiante de quem olha para alguém que está a gerar uma vida e que não deve estar senão infinitamente feliz. 

Raras vezes me senti em estado de graça, em parte porque não me sentia dentro do meu corpo. O meu nariz parecia o de uma rena, as minhas pernas incharam, deixei de calçar o 36 para calçar o 38. No último mês não consegui calçar outra coisa senão os sapatos do pai da criança, tamanho 41, e vestir-lhe o casaco, tamanho L, formato masculino. E não conseguia vestir o raio das meias, não chegava aos pés, tinha de passar por cima da barriga para tentar meter-me dentro delas e o miúdo fincava-me os calcanhares no peito. Atirei-as para um canto tão recôndito que ainda hoje não sei onde estão. Nunca mais as vi.

Alguns conselhos até faziam sentido, mas uma grávida cheia de hormonas aos saltos pode não ser a pessoa mais fácil para os ouvir. Eu sei que não fui. 



O inverno mata-me

Já tenho saudades do último verão que não chegou a sê-lo, com as temperaturas dúbias, a chuva e o calor que não houve, que nem chegou para me deixar a transpirar, a sentir-me farta da pouca roupa, a ansiar pelos dias de dias de outono em que ficaria confortavelmente enroscada numa mantinha no sofá da sala, a beber chá e comer bolachas. Não houve nada disso, mas outubro teve dias de praia sem vento e céu perfeitamente azul e agora que o inverno chegou trocava aquela indefinição toda por este frio intercalado com chuva. A sensação que tenho , não há corpo que aguente tanta roupa, nem dona de casa que se conforme com o cesto da roupa cheio todos os dias, apensar de usar a máquina de lavar todos os dias. E a de secar também. Como é que se junta tanta roupa? 

Odeio o inverno, o inverno mata-me, com o frio, a chuva, não sei quantas camadas em cima de mim e da cama, que sou avessa a aquecedores enquanto conseguir sobreviver sem eles. Ou talvez o mal seja deste mês de janeiro, ou qualquer outro de outro ano qualquer. Não gosto de janeiro, pronto. Tem os mesmos 31 dias de julho ou agosto mas parece-me sempre interminável. Não é só um dia de janeiro que me parece o mais infeliz do ano, é todo o mês que me atormenta por parecer infindável, por ser um mês de nada, a não ser de espera - vejam-se as urgências, tanta gente doente, tanta gente à espera de médico, tanta falta de médicos ou sei lá de quê, se há sítio onde se pode tomar um banho de realidade é nas urgências de um hospital público, todos devíamos por lá passar de vez em quando. 

E, apesar disso, continuamos os dias, cortam o abono a quem ganha mais de 600 e tal euros, não sei agora ao certo o valor, a coisa estava tão preparada que recebi a carta do aviso menos de uma semana depois de ler a notícia do anúncio, quase perdida em plena crise de "ai que não nos metem medo, que somos todos pela liberdade de expressão e pelo Charlie Hebdo". Pelo abono ninguém disse um ai. Ainda há disso? Por muitas outras coisas também não. Quem se levanta por quem morre à espera na urgência de um hospital?  

Ainda assim, descobri recentemente, na urgência pediátrica do Porto do Serviço Nacional de Saúde nem se espera tanto como nos hospitais privados, quentinhos e com parque de estacionamento privado. Pelo menos ao fim de semana, pelo menos quando lá fui, e já fui duas vezes. Primeira vez: privado - umas 3 horas de espera para insistirem num teste que o miúdo não deixou fazer e que lhes ia permitir cobrar mais uns trocos. No dia seguinte o miúdo na mesma, privado outra vez - 8 horas de espera. Nem pensar. vamos ao público. Em 20 minutos ficou tudo tratado, quase diria que perdi mais tempo à espera de ser atendida na farmácia. Segunda vez, domingo, 7h, 38 graus, diretos ao público: uma hora e meia de espera. 

Não gosto de janeiro, pronto. Chove, faz frio, a roupa não seca, está tudo húmido e há tanta gente a viver tão pior, às vezes levar umas chapadas de pobreza ajuda-nos a colocar muita coisa em perspetiva. À pobreza também. O tempo mais quente ainda demora e as férias também, há sempre demasiado cotão a passear no chão da casa, a única vantagem é que, de toda a roupa que se lava, só é preciso passar a ferro a que se veste por fora, e só se for mesmo preciso. Sim, sou uma dona de casa moderna, sem empregada e reconhecidamente sem jeito, quero lá saber se os lençóis e as camisolas interiores têm vincos. Na verdade até consigo dobrá-las bem dobradinhas de modo a que não se note. Até o pinheiro de Natal continua a enfeitar a sala, já sem enfeites. A caixa parece-me sempre demasiado pequena para conseguir lá guardá-lo e vou eternizando a tarefa com a esperança de que alguém a faça, ou de que ele (o pinheiro) desapareça daquele canto da sala, até me dar o repente do "não aguento mais" e lá vai ele, com caixa ou sem caixa. Puf, até para o ano. 

Charlie, abono, escola pública e a liberdade das mulheres


Parece que hoje somos todos Charlie, por causa do atentado em Paris na redação do semanário Charlie Hebdo, mas o que eu vejo quase todos os dias são atentadas à liberdade de imprensa, e à liberdade em geral, à igualdade e à fraternidade. Ontem, no meio tiroteio, quase que perdia a notícia de que o Governo decidiu cortar o abono de família a quem tiver rendimentos brutos mensais superiores a 628 euros. Há quem ganhe menos? Há. Muito menos? Sim. Mas 628 euros brutos não é nada, é uma migalha, sobretudo para quem tem filhos. 

Fico tentada a concordar com a crónica do Ricardo Santos no Aventar e dizer que "Somos todos merda nenhuma". Porque no dia-a-dia calamos e só quando nos toca de longe ou de forma tão abrangente que só pode ser consensual, ficamos todos do mesmo lado. Como ele diz, "Acho, muito sinceramente, que o “somos todos” é uma forma de nos sentirmos confortáveis com a coragem dos outros – ao longe, pois claro -, uma projeção do que gostávamos de ser mas que ainda não temos coragem. Sinceramente, não sei o que falta mais. Como lia um dia destes no facebook de um amigo, para ficarmos pior, só se nos despentearem".

Na escola do meu filho, está frio no refeitório e o miúdo constipou-se. Foi ele que disse, que "estava muito frio". Os miúdos comem por turnos, ainda não consegui desvendar quantos. Pela quantidade de alunos da escola do primeiro ciclo, presumo que sejam quatro. Pelo que todos têm de se despachar, o tempo é limitado, há que dá de comer a todos, mas quem não comer não come, tivesse comido, há que dar vez a outros, ou então não há mais nada para ninguém porque está na hora de regressar à sala.

Também faltam funcionários e já perdi a conta às vezes em que a responsável do ATL se queixa de se ver grega para gerir tantas crianças, nas quais se incluem três com necessidades educativas especiais. Ontem contou-me que no dia anterior quase chorou, quando um miúdo fugiu para o recreio e ela, sozinha, não pode ir atrás dele porque tinha na sala os meninos com necessidades especiais, que tem de estar sempre a impedir que façam o mesmo. Isto tudo numa escola onde, a partir das 17h30, não há porteiro e qualquer um consegue abrir a porta - por fora, e por dentro. 

E disto, ninguém quer saber? É no Porto, tem nas instalações um jardim de infância e, no recreio, zero entretenimentos para as crianças mais novas, que não se podem misturar com os da escola mas misturam. E depois apanham, ficam sem cartas que era suposto trocarem. Nem um baloiçozinho, apenas balizas na área que não podem atravessar. Por isso brincam às lutas, a atirar terra e paus das árvores uns aos outros. Ou a rasgar os kispos no arame que separa a escola do pátio de acesso à rua. Os da escola básica não estão muito melhor. Por razões que a razão desconhece, parece que só podem jogar à bola no recreio dois dias da semana.

Se penso que podia ter sido na minha redação? Penso. Que podia ter sido na redação onde trabalham alguns dos meus amigos? Penso. Mas também penso no silêncio de tanta gente em relação a tanta coisa que está errada, que revolta, que magoa, pode não ser uma chacina mas não deixa de ser um atentado. 

No meio disto tudo, lembro-me do que li há dias no El Diario, através de Silvia Federici, professora na Universidade de Hofstra em Nova Yorque: "É um engano que o trabalho assalariado tenha servido para libertar as mulheres, nomeadamente porque, agora, as mulheres têm dois trabalhos e ainda menos tempo para, por exemplo, lutar ou participar em movimentos políticos ou sociais".

Eu concordo: Trabalhamos, somos supostamente mais realizadas e independentes, mas sobretudo quando os filhos nascem, chegamos a casa e fazemos tudo o que faziam as domésticas, só que em menos tempo e menor vontade. Sim, eu chego a casa e continuo a trabalhar. Apanhar roupa do estendal, dobrar roupa, ajudar o miúdo a fazer os deveres, fazer o jantar, organizar as coisas para o dia seguinte. Por vezes, ao mesmo tempo, atendo e faço telefonemas do trabalho - do tal que, na verdade, não liberta as mulheres.

E hoje, encontro esta crónica da Ruth Manus, que em português do Brasil, em com as especificidades própria do país onde vive, nos fala de uma geração de meninos e  meninas educada de forma diferente, mas não o suficiente para que tudo encaixe quando chega a fase adulta. 

O título do texto é "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer" e deixo aqui alguns excertos, 


- "O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens.O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós? Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos. Não tivemos aula de corte e costura. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho"

- "Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?"

- "Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?"

- "E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família. No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta"

A inocência da palavra "sexy"

Estava a ajudá-lo a vestir o pijama e ele na fase de tagarelar como se não houvesse amanhã. Quando vou buscá-lo à escola vem todo acabrunhado, nota-se cansado, não lhe apetece contar nada. Depois, de repente, começa a falar e a contar tudo, tanto que às vezes já nem estou a ouvir. Mas ontem soou um alerta de me deixar atordoada

- Mãe, cuidado que me podes magoar aí. Sabes aquele nome que não se deve chamar a isto? O menino x, o menino y e o w dizem.
- Que palavra? Podes dizer.
- Tomates, não se diz pois não?
- É um bocado feio. Chamam-se testículos.
- Não me lembrava
(realmente, não é uma palavra fácil)

E, de repente:
- Mãe, sabes a palavra sexy?
(hum, onde é que ele irá chegar com isto?)
- Sim
- Os meninos também fazem, na escola
(os meninos fazem a palavra sexy? ele quer dizer sexo, de certeza)
- Ai é, e como é que eles fazem?
- Fazem assim: e agita as ancas e os braços como se fosse um bronco a resmungar com outro, ou com uma grunha.

Não lhe disse que a palavra não era sexy, que era sexo, respondi apenas que aquilo era feio, que não gostava que ele fizesse aquilo, que era uma atitude de desrespeito com as outras pessoas. 

Resposta dele:
- Em 2014 eu fazia, mas agora em 2015 já não faço. É como a professora diz, Ano Novo, Vida Nova

(assim espero)