A terminar o verão (ou lá o que isto foi)


Comecei o dia de leggins, mas antes de sair de casa já estava cheia de calor. Esteve quente, ontem, pelo menos em Trás-os-Montes, até chegarmos a meio da tarde e começar a trovejar (e chover - ainda que nada que se pareça com o dilúvio do Porto). Tirei-as (as leggins) e fui para a rua de sol quem e folhas caídas no chão. Parecia verão/outono, no boletim metereológico aparecem indicações de 26 graus para o meio da semana, mas aquela coisa não é de confiar, está sempre a mudar, a curto e longo prazo. Assim nos foi enganando durante todo o verão deste ano. Não sei se foi o menos quente dos últimos não sei quantos anos, ou se o que em que choveu mais. Sei que não passei por dias de calor, daqueles em que se abafa, não se aguenta, nem com um vestido bem levezinho e umas sandálias que não se sentem nos pés, em que não se consegue dormir, se vêm à rua depois de jantar tentar apanhar ar, se entra em casa a transpirar. Nem gosto muito desses dias - gosto dos vestidos e das sandálias - mas desespero que são muitas as noites em que não se consegue estar em lado nenhum. Mas este ano não houve disso. Ainda fiz praia durante uma semana, estava tão maravilhosa como já não me lembro, a maré estava alta e o mar do Minho parecia uma lagoa, há anos (décadas?) que não o via assim. Foi em setembro, acho que vai voltar a ser a minha aposta de férias nos próximos anos. Os vestidos frescos ficaram no armário, não vesti metade da roupa de verão que tenho porque sempre que acordava estava a chover, ou parecia que ia chover, ou a previsão era de chuva, e o calor era pouco ou nenhum. Claro que é diferente quando estou a trabalhar. Não posso (não consigo) destapar-me toda só porque é suposto estarmos no verão quando me vou enfiar num edifício de pedra que às vezes gela ou quando sei que posso ter de andar na rua a qualquer momento, não sei durante quanto tempo nem em que circunstâncias. Nas férias é mais fácil. Põe casaco, tira casaco, de repente já estás na praia de biquini. Afinal parece que o tempo não está assim tão mau. Talvez não tenha estado, mas eu não estive todo o tempo de férias, a metros de distância de casa, sempre disponível para lá ir buscar o que for preciso, se for preciso alguma coisa, mas na maior parte das vezes não é. 

Professora, yes I am

Paciente, persistente, insistente, o tom foi de incentivo e firmeza. Para cima, para baixo juntinho, chega ao fim da linha e voltinha - é assim que se faz um "i" minúsculo manuscrito. Nem eu sabia. Sabia fazê-lo, mas não descrever como se fazia. Eram os trabalhos de casa para o fim de semana, é a primeira letra a aprender, ele começou a fazer e não sabiam bem, percebi como tinha de descrever o processo para sair tudo certo, os últimos já ficaram direitinhos. Na data, fui intransigente: os números não ficam encavalitados uns em cima dos outros, é ao lado. Está mal, não é assim, apaga, faz outra vez. "Nunca vou conseguir". Isso é expressão proibida, não quero que digas isso, quero que digas "vou tentar". Ele tentou. Uma e outra vez. E mais outra. Foi o mais difícil, explicar-lhe que os números se começam a escrever ao lado do anterior, e não por cima. Ficava tudo encavalitado, deixou de ficar. Desconfio que vai voltar a ficar, se lhe pedir para fazer outra vez. Mas com o tempo muda. 

Nunca quis ser professora. A minha mãe era, eu achei que não tinha jeito, que não seria feliz com essa profissão, isto quando acreditava que, ao encontrar a minha verdadeira vocação, tinha a satisfação e realização pessoal e profissional garantida. Podia ter escolhido outras profissões, ajeitava-me em várias áreas, da ciência às humanidades, mas os números cansavam-me, preferi desistir da arquitetura. Julgo que apenas se a tivesse seguido saberia se também a sentiria como vocação. A que escolhi sim, senti-a assim. Mas garantia de realização de tudo e mais alguma coisa não é, como nenhuma é, julgo eu. Quanto a lecionar, a julgar pelas confusões com os concursos (que já há uns 20 ou 30 anos angustiavam a minha mãe), não me parece que pudesse ter feito de mim alguém mais feliz, mas afinal tenho jeito. Ou então tenho jeito para ser mãe a ajudar a fazer os trabalhos de casa. Para já, o meu maior medo caiu por terra, é quase sempre assim, o que nos aflige por antecipação nem chega bem a acontecer, por norma até acontece outra coisa que não prevíamos e que (talvez precisamente por isso) dá bem mais trabalho a resolver e a pacificar-nos. 

Para cima, desce apertadinho, curva, pintinha. Perdi a conta às vezes, mas detetei as dificuldades e, enquanto ele desenhava a letra já sem indicações (aquilo deve ter-lhe ficado a martelar na cabeça, a determinado ponto não foi preciso dizer mais), preparei os trabalhos de casa para segunda-feira. Se não os trouxer da escola, faz os que eu já defini. Se trouxer, pode ser que faça os dois. Não quero que ele seja nenhum génio, nem sou nenhuma doida preocupada com as notas que ele vai ter daqui a 12 anos, o que mais me preocupa é que ele seja feliz, mas ele é desatento e trapalhão por preguiça, precisa de, nos bocadinhos em que é mesmo preciso, ter a cabeça concentrada no que está a fazer. Pelo caos que encontro no ATL não vou ter ali ajuda nenhuma, preciso de ser eu a fazer também o trabalho de casa. O tempo parece-me sempre pouco, nunca chega, mas há-de ficar um bocadinho elástico, com o tempo chego lá. 

Perdido no recreio

A minha criança ficou esquecida/perdida no recreio no primeiro dia de aulas do primeiro dia de escola a sério até por volta das seis da tarde (suponho que desde as quatro), quando as auxiliares e as professoras que ainda lá estavam (tenho a impressão de que já só estava a diretora, mas não posso garantir, eu não vi, nas histórias que me contam - e já ouvi pelo menos quatro pessoas sobre o assunto - há contradições e nem todos os detalhes coincidem) começaram a arrumar as coisas para ir embora e viram (valha-me ao menos isso) que estava ali um menino novo sozinho, que os pais ainda não o tinham vindo buscar, que todos iam embora menos ele. Eu não sei se ele estava sozinho no recreio ou se lá estavam os meninos do ATL que ficam no chamado "prolongamento", até às sete da tarde, no máximo. Foi à hora que cheguei. Tive uma consulta. Estava marcada para as quatro, começou às seis. Cheguei às sete, no primeiro dia de aulas do primeiro dia de escola a sério. Só restava ele. Não me pareceu melindrado, nem ansioso, nem triste. A senhora que mo entregou nada disse. Eu pedi-lhe o número do ATL, para necessidades futuras, ela disse que não tinha, que pedisse no dia seguinte. Podia ter-me dito que o miúdo não foi para o ATL quando acabaram as aulas, que ficou no recreio, que foi preciso ir lá buscá-lo, que só se aperceberam a dada altura, a que horas é que isso aconteceu. Não contou. Nada.

Quando, no balanço do dia, lhe perguntei o que fez no ATL, ele disse que esteve lá sentado à espera. Foi o primeiro dia, não havia atividades extracurriculares, só era suposto que ficasse na sala de aula até às quatro. Ficou três horas sentado à espera? Sozinho? Não estavam lá mais crianças? Não brincou? Ficou três horas sentado à espera? Ele estava bem, nada inquieto, mas aquela ideia das três horas sentado à espera ficou a martelar-me a cabeça a noite toda.    

No dia seguinte a senhora que está a tomar conta do ATL da parte da manhã, a quem me dirijo para pedir o número de telefone, não sabe de nada, acha estranho. Comento com a professora, que nem tem nada a ver com o assunto e que me relata, no meio da barulheira gerada pela mistura do riso das crianças com as conversas dos outros pais (sobretudo das outras mães) que ele não sabia que tinha de ir para o ATL (eu tinha-lhe dito, até lhe mostrei a porta para onde tinha de ir), que as funcionárias da escola se aperceberam disso a dada altura, que foram chamar a diretora, que ela informou que ele tinha ATL, que então o menino foi para o ATL e que realmente verificaram que o nome dele estava na lista. Estava mas não o chamaram. Não vieram cá fora ver se estava ou não estava. Não tinham o meu contacto telefónico, apesar de eu o ter deixado várias vezes na ficha de inscrição. 

À tarde, segundo dia, chego consideravelmente mais cedo e ele está perto do portão, bem longe do ATL, a arrastar a mochila enquanto come uma maçã. Vou falar com a diretora. "Está a ver aquele menino ali ao longe? Devia estar no ATL. Já ontem era suposto ter ido". Ela sabia da história, contou-me a versão, está tudo muito no início, ainda é tudo muito confuso, eles ainda são muito pequeninos, as funcionárias não são as efetivas (essas estão de férias), não estão tão habituadas. Enquanto converso aprecio o comportamento dele, das crianças do ATL e das funcionárias. A dada altura, o porteiro abandona o posto e manda os meninos para longe  da porta que deixa fechada mas não trancada para que os pais que faltam possam entrar. Só então a funcionária do ATL vai ter com ele. Ele pouca a mochila lá dentro, vem cá para fora e faz o mesmo do que os outros: salta, corre, brinca a coisas que não se sabe se são abraços ou lutas, pendura-se em corrimões, esconde-se com outros em sítios onde supostamente estão todos proibidos de ir, basta piscar os olhos e desaparece, já está noutro canto, como os outros. 

Não quero que ele cresça numa redoma de vidro mas não gostei. De nada. De não terem o meu contacto. De  não terem verificado se ele estava ou não presente. De ninguém o ter encaminhado para o ATL. Ele perguntou-me porque é que eu não cheguei quando tocou. Era o que ele via no ano passado, ao sair do infantário: os meninos da primária a serem entregues aos pais, no portão, depois do toque. Eu não consigo estar lá à hora do toque. Tentei explicar-lhe o motivo, estou a trabalhar, apanho trânsito, nem que fosse a voar. Não sei se ele percebeu, acho que não. Apenas interiorizou. Verei mais tarde se o suficiente para hoje não ter havido episódios parecidos com os anteriores. Sei que vai acabar por compreender. E que, antes disso, vai apenas aceitar e habituar-se. E disso também não gosto. 

Nas férias em que ele tinha dois anos e meio, adorava correr e já dava ares de desafiar, tivemos de o informar que estava de castigo porque desobedeceu aos pais depois deles terem insistido várias vezes para que não fizesse determinada coisa. Não me recordo bem da desobediência (julgo que estaria relacionada com a correria e a possibilidade de ir parar à estrada, junto de carros) nem do castigo (possivelmente não terá sido mais do que ir para a cama mal chegou a casa).  No dia a seguir, quando entrou no carro, comentou: "Agora vamos para casa, eu vou ficar de castigo e depois vou dormir". Ninguém o tinha posto de castigo, ninguém lhe tinha falado nisso. Percebi - e assustei-me muito com isso - a facilidade com que as crianças podem habituar-se a coisas más. Para ele o castigo tinha-se tornado parte da rotina. De um dia para o outro. Aterrorizei-me ao pensar que uma criança assim pequena vítimas de maus tratos possa simplesmente habituar-se, achar que apenas faz parte da rotina. 

Por isso é que não gosto de coisas a que ele tenha apenas de aceitar e habituar-se, sem perceber por que não pode sentir a emoção de ouvir o último toque e correr para o portão, tentar descobrir a mãe do outro lado da rede, dar-lhe a mão e ir embora para casa ao mesmo tempo do que a maior parte dos outros. 

Sonhos e inquietações. E problemas resolvidos durante o sono.

Não sei se é culpa da inquietação do início das aulas (parece-me tudo muito confuso, não sei se mais a mim do que a ele, mas ainda não me apetece descrever o que tem acontecido), mas anteontem, enquanto dormia, arranquei um dos lençóis da cama e atirei-o ao chão com a determinação de quem estava definitivamente a resolver um problema aflitivo que se prolongava há séculos. Só não sei qual era. Quando atirei o lençol ao chão com tanta firmeza tive noção de estar apenas a atirar um lençol ao chão. Sem motivo. Não quis saber. Deitei-me e voltei a adormecer.