Experimentar até resultar


A marca não é nova e já tinha chamado a minha atenção. Mas basta acenarem-me com saltos rasos nuns sapatos bem desenhados para eu ficar de beicinho caído. E foi o que me aconteceu com as mais recentes coleções da Xperimental Shoes. A de outono/inverno (adoro estas botas) e a já concluída primavera/verão 2015, cheia de inspirações japonesas, de saltos rasos e desenhos que nos fazem ficar perdidas de amores. A mim, pelo menos. Olhem só para a fofura daquelas botinhas brancas. E os sapatos azuis? A sola também parece ser super confortável. 

A Xperimental Shoes nasceu em setembro de 2012 a partir da fusão de duas áreas complementares: a moda e a comunicação. Inicialmente, a marca apresentava-se como irreverente, de vanguarda, até desafiadora e chocante. Com o tempo transformou-se em algo mais urbano, coerente e global, mas sem perder a personalidade. Eu gosto mais desta versão. Fiquei fã.


O inverno mata-me

Já tenho saudades do último verão que não chegou a sê-lo, com as temperaturas dúbias, a chuva e o calor que não houve, que nem chegou para me deixar a transpirar, a sentir-me farta da pouca roupa, a ansiar pelos dias de dias de outono em que ficaria confortavelmente enroscada numa mantinha no sofá da sala, a beber chá e comer bolachas. Não houve nada disso, mas outubro teve dias de praia sem vento e céu perfeitamente azul e agora que o inverno chegou trocava aquela indefinição toda por este frio intercalado com chuva. A sensação que tenho , não há corpo que aguente tanta roupa, nem dona de casa que se conforme com o cesto da roupa cheio todos os dias, apensar de usar a máquina de lavar todos os dias. E a de secar também. Como é que se junta tanta roupa? 

Odeio o inverno, o inverno mata-me, com o frio, a chuva, não sei quantas camadas em cima de mim e da cama, que sou avessa a aquecedores enquanto conseguir sobreviver sem eles. Ou talvez o mal seja deste mês de janeiro, ou qualquer outro de outro ano qualquer. Não gosto de janeiro, pronto. Tem os mesmos 31 dias de julho ou agosto mas parece-me sempre interminável. Não é só um dia de janeiro que me parece o mais infeliz do ano, é todo o mês que me atormenta por parecer infindável, por ser um mês de nada, a não ser de espera - vejam-se as urgências, tanta gente doente, tanta gente à espera de médico, tanta falta de médicos ou sei lá de quê, se há sítio onde se pode tomar um banho de realidade é nas urgências de um hospital público, todos devíamos por lá passar de vez em quando. 

E, apesar disso, continuamos os dias, cortam o abono a quem ganha mais de 600 e tal euros, não sei agora ao certo o valor, a coisa estava tão preparada que recebi a carta do aviso menos de uma semana depois de ler a notícia do anúncio, quase perdida em plena crise de "ai que não nos metem medo, que somos todos pela liberdade de expressão e pelo Charlie Hebdo". Pelo abono ninguém disse um ai. Ainda há disso? Por muitas outras coisas também não. Quem se levanta por quem morre à espera na urgência de um hospital?  

Ainda assim, descobri recentemente, na urgência pediátrica do Porto do Serviço Nacional de Saúde nem se espera tanto como nos hospitais privados, quentinhos e com parque de estacionamento privado. Pelo menos ao fim de semana, pelo menos quando lá fui, e já fui duas vezes. Primeira vez: privado - umas 3 horas de espera para insistirem num teste que o miúdo não deixou fazer e que lhes ia permitir cobrar mais uns trocos. No dia seguinte o miúdo na mesma, privado outra vez - 8 horas de espera. Nem pensar. vamos ao público. Em 20 minutos ficou tudo tratado, quase diria que perdi mais tempo à espera de ser atendida na farmácia. Segunda vez, domingo, 7h, 38 graus, diretos ao público: uma hora e meia de espera. 

Não gosto de janeiro, pronto. Chove, faz frio, a roupa não seca, está tudo húmido e há tanta gente a viver tão pior, às vezes levar umas chapadas de pobreza ajuda-nos a colocar muita coisa em perspetiva. À pobreza também. O tempo mais quente ainda demora e as férias também, há sempre demasiado cotão a passear no chão da casa, a única vantagem é que, de toda a roupa que se lava, só é preciso passar a ferro a que se veste por fora, e só se for mesmo preciso. Sim, sou uma dona de casa moderna, sem empregada e reconhecidamente sem jeito, quero lá saber se os lençóis e as camisolas interiores têm vincos. Na verdade até consigo dobrá-las bem dobradinhas de modo a que não se note. Até o pinheiro de Natal continua a enfeitar a sala, já sem enfeites. A caixa parece-me sempre demasiado pequena para conseguir lá guardá-lo e vou eternizando a tarefa com a esperança de que alguém a faça, ou de que ele (o pinheiro) desapareça daquele canto da sala, até me dar o repente do "não aguento mais" e lá vai ele, com caixa ou sem caixa. Puf, até para o ano. 

Charlie, abono, escola pública e a liberdade das mulheres


Parece que hoje somos todos Charlie, por causa do atentado em Paris na redação do semanário Charlie Hebdo, mas o que eu vejo quase todos os dias são atentadas à liberdade de imprensa, e à liberdade em geral, à igualdade e à fraternidade. Ontem, no meio tiroteio, quase que perdia a notícia de que o Governo decidiu cortar o abono de família a quem tiver rendimentos brutos mensais superiores a 628 euros. Há quem ganhe menos? Há. Muito menos? Sim. Mas 628 euros brutos não é nada, é uma migalha, sobretudo para quem tem filhos. 

Fico tentada a concordar com a crónica do Ricardo Santos no Aventar e dizer que "Somos todos merda nenhuma". Porque no dia-a-dia calamos e só quando nos toca de longe ou de forma tão abrangente que só pode ser consensual, ficamos todos do mesmo lado. Como ele diz, "Acho, muito sinceramente, que o “somos todos” é uma forma de nos sentirmos confortáveis com a coragem dos outros – ao longe, pois claro -, uma projeção do que gostávamos de ser mas que ainda não temos coragem. Sinceramente, não sei o que falta mais. Como lia um dia destes no facebook de um amigo, para ficarmos pior, só se nos despentearem".

Na escola do meu filho, está frio no refeitório e o miúdo constipou-se. Foi ele que disse, que "estava muito frio". Os miúdos comem por turnos, ainda não consegui desvendar quantos. Pela quantidade de alunos da escola do primeiro ciclo, presumo que sejam quatro. Pelo que todos têm de se despachar, o tempo é limitado, há que dá de comer a todos, mas quem não comer não come, tivesse comido, há que dar vez a outros, ou então não há mais nada para ninguém porque está na hora de regressar à sala.

Também faltam funcionários e já perdi a conta às vezes em que a responsável do ATL se queixa de se ver grega para gerir tantas crianças, nas quais se incluem três com necessidades educativas especiais. Ontem contou-me que no dia anterior quase chorou, quando um miúdo fugiu para o recreio e ela, sozinha, não pode ir atrás dele porque tinha na sala os meninos com necessidades especiais, que tem de estar sempre a impedir que façam o mesmo. Isto tudo numa escola onde, a partir das 17h30, não há porteiro e qualquer um consegue abrir a porta - por fora, e por dentro. 

E disto, ninguém quer saber? É no Porto, tem nas instalações um jardim de infância e, no recreio, zero entretenimentos para as crianças mais novas, que não se podem misturar com os da escola mas misturam. E depois apanham, ficam sem cartas que era suposto trocarem. Nem um baloiçozinho, apenas balizas na área que não podem atravessar. Por isso brincam às lutas, a atirar terra e paus das árvores uns aos outros. Ou a rasgar os kispos no arame que separa a escola do pátio de acesso à rua. Os da escola básica não estão muito melhor. Por razões que a razão desconhece, parece que só podem jogar à bola no recreio dois dias da semana.

Se penso que podia ter sido na minha redação? Penso. Que podia ter sido na redação onde trabalham alguns dos meus amigos? Penso. Mas também penso no silêncio de tanta gente em relação a tanta coisa que está errada, que revolta, que magoa, pode não ser uma chacina mas não deixa de ser um atentado. 

No meio disto tudo, lembro-me do que li há dias no El Diario, através de Silvia Federici, professora na Universidade de Hofstra em Nova Yorque: "É um engano que o trabalho assalariado tenha servido para libertar as mulheres, nomeadamente porque, agora, as mulheres têm dois trabalhos e ainda menos tempo para, por exemplo, lutar ou participar em movimentos políticos ou sociais".

Eu concordo: Trabalhamos, somos supostamente mais realizadas e independentes, mas sobretudo quando os filhos nascem, chegamos a casa e fazemos tudo o que faziam as domésticas, só que em menos tempo e menor vontade. Sim, eu chego a casa e continuo a trabalhar. Apanhar roupa do estendal, dobrar roupa, ajudar o miúdo a fazer os deveres, fazer o jantar, organizar as coisas para o dia seguinte. Por vezes, ao mesmo tempo, atendo e faço telefonemas do trabalho - do tal que, na verdade, não liberta as mulheres.

E hoje, encontro esta crónica da Ruth Manus, que em português do Brasil, em com as especificidades própria do país onde vive, nos fala de uma geração de meninos e  meninas educada de forma diferente, mas não o suficiente para que tudo encaixe quando chega a fase adulta. 

O título do texto é "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer" e deixo aqui alguns excertos, 


- "O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens.O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós? Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos. Não tivemos aula de corte e costura. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho"

- "Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?"

- "Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?"

- "E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família. No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta"

A inocência da palavra "sexy"

Estava a ajudá-lo a vestir o pijama e ele na fase de tagarelar como se não houvesse amanhã. Quando vou buscá-lo à escola vem todo acabrunhado, nota-se cansado, não lhe apetece contar nada. Depois, de repente, começa a falar e a contar tudo, tanto que às vezes já nem estou a ouvir. Mas ontem soou um alerta de me deixar atordoada

- Mãe, cuidado que me podes magoar aí. Sabes aquele nome que não se deve chamar a isto? O menino x, o menino y e o w dizem.
- Que palavra? Podes dizer.
- Tomates, não se diz pois não?
- É um bocado feio. Chamam-se testículos.
- Não me lembrava
(realmente, não é uma palavra fácil)

E, de repente:
- Mãe, sabes a palavra sexy?
(hum, onde é que ele irá chegar com isto?)
- Sim
- Os meninos também fazem, na escola
(os meninos fazem a palavra sexy? ele quer dizer sexo, de certeza)
- Ai é, e como é que eles fazem?
- Fazem assim: e agita as ancas e os braços como se fosse um bronco a resmungar com outro, ou com uma grunha.

Não lhe disse que a palavra não era sexy, que era sexo, respondi apenas que aquilo era feio, que não gostava que ele fizesse aquilo, que era uma atitude de desrespeito com as outras pessoas. 

Resposta dele:
- Em 2014 eu fazia, mas agora em 2015 já não faço. É como a professora diz, Ano Novo, Vida Nova

(assim espero)