Ó mãe, gosto de falar contigo, percebes?

No fim de semana, para além dos trabalhos de casa, o problema também era que "sabes, mãe, não sou feliz na escola, ninguém brinca comigo". Esse era até, dizia ele, o verdadeiro problema. Na altura tremi um bocado, mas duvidei outro tanto, devido a relatos anteriores de brincadeiras com os amigos que ficaram no infantário. Ele insistia que não, que não brincavam com ele. 

Mas ontem falou nos colegas da turma do primeiro ano, e até fiquei a saber que a menina que só fala francês até percebe o que ele diz. Aproveitámos a boleia para o estimular a umas aulas grátis, mas ele não alinhou, anda a aprender letras, querem agora que vá aprender francês, nem sei o que isso é, e ainda por cima com uma menina, estão tolos, estes meus pais, deve ele ter pensado. Na realidade, limitou-se a desvalorizar a insistência. Mas soube indicar também quem era a menina mais divertida e a mais tímida, percebi que sabia bem o nome delas e isso pacificou-me um bocado.

Ainda assim, hoje de manhã, cada um do seu lado da rede da escola à espera do toque de entrada, sugeri que fosse mais para junto da sala, para aproveitar aquele tempo para brincar, para estar mais com os meninos da sala. Ó mãe, mas eu gosto de ti. Depois de me derreter em segundos, ia dizer-lhe que também gostava dele, mas ele interrompeu-me porque tinha mais para explicar: "Gosto de conversar contigo, percebes?". Percebo. 

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola"


Há muito que deixei de ler artigos sobre coaching parental. Irritam-me, acho até que já escrevi por aqui que o começava a odiar. Quando falo em coaching parental falo em especialistas que, aqui e ali, são entrevistados ou chamados a dar opinião sobre determinados assuntos e parecem-me sempre demasiado cheios de certezas para uma realidade tão diversa como são as crianças. Pouco depois de eles nascerem, nós, os pais, já sabemos que eles são todos diferentes. Mesmo os pais de primeira viagem. E um bocadinho a seguir compreendemos, sem grandes dificuldades, que não há receitas mágicas para tratar do que quer que seja - dos choros, da fome, da falta de vontade de comer, das dores de dentes, dos sonos, das birras. Não adianta dizerem "quando os vossos filhos fizerem birra façam assim", se não é isso que resulta com os nossos, se até experimentamos e o resultado é pior do que o anterior. 

Os pais não sabem tudo, mas na minha opinião, este tipo de considerações apenas serve para nos deixar mais confusos, sobretudo quando eles são mais bebés e nós mais inseguros, para nos questionarmos ainda mais do que já o fazemos. Sim, acho que esta geração de pais pensa muito sobre os filhos. Na maior parte das vezes tem apenas um, por mais trabalho que tenha e por mais preocupações que ele dê, tem tempo para isso. 

Mas este texto não. Fez-me pensar. Como ele diz que as crianças têm de fazer. Nem sequer é a primeira vez que julgo ouvir ou ler o Eduardo Sá a dizer algo como a frase que fez título da notícia: "Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”. E nem foi isso que me fez parar. Foi sobretudo isto: "Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?"

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola". Duas semanas depois das aulas começarem, até eu, que sempre fui aluna aplicada, os odeio e mantenho sérias dúvidas quanto à sua utilidade. 

O meu filho foi para a escola este ano. Ainda está a adaptar-se. Não posso dizer que o esteja a fazer nem bem nem mal. Percebo que está ainda a encaixar-se num novo mundo e que há determinadas coisas de que não gosta, nomeadamente treinar sucessivas linhas de "i" minúsculos e maiúsculos, seguidos agora dos "u". Ainda falta o resto das vogais e todas as outras letras do alfabeto. Ele já deu conta disso e tentou fazer as contas ao que ainda tinha pela frente. Tentei distraí-lo, dizer-lhe que desenhar letras cada vez se ia tornando mais fácil. Mas fazer os trabalhos de casa com os "u" foi bem mais difícil que o primeiro fim-de-semana de trabalhos de casa com os "i". Na sexta ele disse-me que "era o melhor a fazer os 'u'". Fiquei feliz, claro. E convencê-lo a repetir aquelas letras vezes e vezes sem fim? Ele de cabeça apoiada num dos braços, eu a dizer que o outro braço tem de segurar o papel, "mas assim cai-me a cabeça", "estou muito cansado", "estou cheio de fome", "doi-me o braço", "não sei fazer isto", "nunca vou conseguir", "ainda não sei fazer bem", "ainda agora comecei a aprender" e muita choraminguice pelo meio. 

A dada altura pergunto qual é o problema, o verdadeiro problema. "Na verdade, mãe, não gosto muito da escola". Diz que é porque não tem amigos, o que não é bem verdade, e insisto na parte da aprendizagem, se está a gostar. Repete os queixumes, "não sou muito bom a fazer isto". Estocada final: "Não sou lá muito feliz na escola". De repente passa-me pela cabeça que devia mandá-lo para o infantário mais um ano, afinal só faz seis anos daqui a um mês, se calhar foi opção errada (e não, não foi finca pé dos pais, a educadora de infância assim recomendou que fizessemos). 

Apercebo-me, entretanto, que todos os jardins de infância por onde passou, incluíndo o público que faz parte da escola primária onde está, destacavam a importância deles não sairem de lá a saber ler ou escrever, que o mais importante era incentivá-los a pensar por eles, estimular-lhes a criatividade, a questionar, a fazer contas enquanto, precisamente, davam trocos aos pais nas feiras que organizavam para depois poderem ir à Casa da Música, ou a Serralves, ou ao Jardim Zoológico.

Foi tudo muito bonito, mas agora ele vê-se enfiado num sistema de ensino completamente distinto, em que tem de repetir letras desenhadas infinitas vezes, tantas que até a mim me custa pensar. Da primeira vez, insisti para que fizesse perfeito, apagava com a borracha e dizia para fazer melhor, apagava outra vez, ele lá chegava, sem dificuldade, só era preciso querer. Agora questiono-me se tenho de estar eu a fazer aquele trabalho, se ele tem de aprender a fazer as letras perfeitas como eu fazia questão de as fazer, ou se não deve ter a sua própria letra. Não, não é perfecionista. Mas também, felizmente, não tem de ser igual a mim nem eu faço questão disso. Posto isto, o que é suposto eu fazer em casa? Massacrá-lo quando ele quer fazer tudo menos aquilo, quando já passa tantas horas na escola, quando os dias de semana são passados a correr porque é preciso ir buscá-lo, enfrentar o trânsito, chegar a casa, pousar sacos, tirar a pasta dos deveres, convencê-lo que é isso que vai fazer primeiro. 

Lá está, dizer que seria muito melhor deixá-los brincar primeiro, como recomenda o Eduardo Sá, faz todo o sentido, mas se eu deixar o meu filho fazer isso, ele não vai querer parar de brincar, vai-se rebolar no chão, chorar, fazer birra e pronto, lá está, chegamos ao ponto em que parece que eu é que não sou boa mãe, porque ele não faz o que eu mando, e as coisas não são assim tão simples.


Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?

O Eduardo Sá também diz: "Mais tempo de escola não é, obrigatoriamente, melhor tempo. Pelo contrário, as crianças precisam de muito mais tempo de recreio. Crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos. Temos de perceber o que queremos, efetivamente, da escola. Se queremos, ou não, uma linha de jovens tecnocratas de sucesso. Acho ótimo que possamos ir por aí, mas jovens assim não são pessoas singulares, são produtos normalizados. E era muito bom que as pessoas percebessem que aquilo que se fala aí pomposamente como mercado vai escolher as pessoas singulares, criativas".

Eu até concordo, mas não sou eu que mando no sistema educativo, no que se ensina na escola, já me basta ter andado às voltas com um ATL que o deixou perdido no recreio no primeiro dia, com uma mãe que se ofereceu para mo encaminhar para a sala e, dois dias depois, confessou que não o fez e que se cruzou com ele no momento em que chovia torrencialmente e ele (pelo menos isso) se resguardou à entrada da escola, no hall exterior coberto do infantário, onde ninguém do ATL ou da escola o conseguia ver, nem com telescópio, nem com binóculos. Isto para não questionar por que motivo ninguém no ATL olhou para a lista que tinha o nome dele e o foi procurar, nem para mencionar o dia em que o encontrei à beira do choro (porque se tinha magoado enquanto baloiçava entre duas secretárias, disse a auxiliar), ao mesmo tempo que meninos e meninas mais velhas gritavam, saltavam entre cadeiras e secretárias, batiam com livros e gritavam histericamente. 

"Continuamos a favorecer um sistema educativo que premeia fundamentalmente os miúdos que repetem aos que recriam. É um bocado esquizofrénico, quase, porque nós castigamos os que copiam e premiamos os que repetem como se as duas coisas não fossem faces de uma mesma moeda". Pois é, mas como é que se muda isso, quando ainda é preciso mudar tanta coisa primeiro?

Desenhados na Suécia, feitos em Portugal

São desenhados na Suécia e feitos em Portugal. A imagem de marca são as linhas simples, quase minimalistas. A Rokin Footwear nasceu em 2006 com a máxima "shoes first", ou seja "os sapatos primeiro". A etiqueta pretende ainda expressar a consciência e confiança que compõem um visual moderno que nunca se sente como distorcido. A marca centra-se em produzir sapatos de alta qualidade, desenhados para pessoas com gostam de linhas simples e expressão pessoal.

A terminar o verão (ou lá o que isto foi)


Comecei o dia de leggins, mas antes de sair de casa já estava cheia de calor. Esteve quente, ontem, pelo menos em Trás-os-Montes, até chegarmos a meio da tarde e começar a trovejar (e chover - ainda que nada que se pareça com o dilúvio do Porto). Tirei-as (as leggins) e fui para a rua de sol quem e folhas caídas no chão. Parecia verão/outono, no boletim metereológico aparecem indicações de 26 graus para o meio da semana, mas aquela coisa não é de confiar, está sempre a mudar, a curto e longo prazo. Assim nos foi enganando durante todo o verão deste ano. Não sei se foi o menos quente dos últimos não sei quantos anos, ou se o que em que choveu mais. Sei que não passei por dias de calor, daqueles em que se abafa, não se aguenta, nem com um vestido bem levezinho e umas sandálias que não se sentem nos pés, em que não se consegue dormir, se vêm à rua depois de jantar tentar apanhar ar, se entra em casa a transpirar. Nem gosto muito desses dias - gosto dos vestidos e das sandálias - mas desespero que são muitas as noites em que não se consegue estar em lado nenhum. Mas este ano não houve disso. Ainda fiz praia durante uma semana, estava tão maravilhosa como já não me lembro, a maré estava alta e o mar do Minho parecia uma lagoa, há anos (décadas?) que não o via assim. Foi em setembro, acho que vai voltar a ser a minha aposta de férias nos próximos anos. Os vestidos frescos ficaram no armário, não vesti metade da roupa de verão que tenho porque sempre que acordava estava a chover, ou parecia que ia chover, ou a previsão era de chuva, e o calor era pouco ou nenhum. Claro que é diferente quando estou a trabalhar. Não posso (não consigo) destapar-me toda só porque é suposto estarmos no verão quando me vou enfiar num edifício de pedra que às vezes gela ou quando sei que posso ter de andar na rua a qualquer momento, não sei durante quanto tempo nem em que circunstâncias. Nas férias é mais fácil. Põe casaco, tira casaco, de repente já estás na praia de biquini. Afinal parece que o tempo não está assim tão mau. Talvez não tenha estado, mas eu não estive todo o tempo de férias, a metros de distância de casa, sempre disponível para lá ir buscar o que for preciso, se for preciso alguma coisa, mas na maior parte das vezes não é.