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Cozinhas feias e cabelos despenteados



Agora que deixei crescer o cabelo e cortei a franja, depois de anos e anos (décadas) a usá-lo bem curtinho, só me falta usá-lo mais despenteado, como a Mallu Magalhães. A frase veio-me à cabeça enquanto via este vídeo e confesso que, depois de me deparar com ela assim escrita, me parece bastante despropositada. Podia tê-la apagado, mas estou na fase do "sou capaz de fazer muito do que me apetece sem pensar no que os outros podem pensar".

Para o que aqui importa, o estar despenteada é o mesmo que livrar-me de todo o peso que ainda carrego nos ombros, apesar de, lá está, me sentir bastante Velha e Louca, como na música da Mallu e como a Dora do Locais Habituais

Este velha e louca é no melhor dos sentidos e o cabelo despenteado também. Ao ler a Dora (aqui e aqui), ao ver o vídeo, ao refletir sobre como me sinto muito melhor comigo perto dos 40 do que aos 20, constato que ainda me falta deixar o cabelo despenteado para uma liberdade maior (a plenitude só a devo conseguir lá para os 80, se lá chegar). Apete-me andar com o cabeço fora do sítio para este tranquilo sossego com que enfrento tanta coisa que antes me agoniava e me tirava noites de sono se transforme numa desarrumação despreocupada mais visível aos olhos de todos. Podia ser pior.

Talvez esta preocupação seja apenas o sinal de que ainda me preocupo um bocadinho, mas também isso não me interessa. Não quero ser a menina (senhora?) direitinha e perfeitinha e consigo não perder demasiado tempo com isso. Por agora basta. 

Entretanto, em dois dias fartei-me da Black Friday, essa sexta-feira "inventada" pelos americanos e importada por nós para aproveitar descontos. Ou para gastar dinheiro. As compras são como as cozinhas feias, como escreve a Dora:  "Boa parte daquilo que nos consome são problemas de primeiro mundo. Cozinhas feias, não ter roupa que nos satisfaça, estar cansada das mesmas botas, aborrecer-se no trabalho, esperar numa fila de trânsito, demorar no supermercado por causa da velhinha tagarela que nos antecede na caixa. Problemas de primeiro mundo não são problemas".

Para resumir: não preciso de gastar dinheiro para aproveitar uma promoção, porque a promoção não foi inventada para me fazer poupar, bem pelo contrário. A intenção é criar a ideia de que o melhor é aproveitar o desconto e deixar algum (ou muito) dinheiro da carteira na loja (multipliquem isso por milhares de pessoas e imaginam quanto é que as marcas não lucram), ainda que o armário lá de casa não tenha espaço para mais nada. Estou bem como estou. Enfrentar dias em que o armário cheio parece estar vazio ou sem nada interessante não é um problema. É uma falsa questão, como as cozinhas feias ou as casas desarrumadas. Ou até como os cabelos despenteados. É tão bom estar onde estou, para quê complicar? 

Ser mulher...

A primeira velhinha é a velhinha que eu quero vir a ser. Se lá chegar. E, se lá chegar, se calhar não vou ser nada assim. Mas é assim que me imagino: arrebitada, com saudades de dançar, casaco de cabedal ou algo que esteja na moda na altura e faça mais sentido numa pessoa mais nova sem ficar despropositado no meu look avozinha. Os estereótipos são feios e não gosto deles, por isso talvez me venha a arrepender de ter escrito isto. Quando lá chegar. Se lá chegar. 

Em todo o caso, não era este o propósito deste post. O que eu queria, era falar deste vídeo, que não me canso de ver e que me faz pensar, Nós, mulheres, somos um ser humano. Ser era o que deviamos estar preocupadas em fazer. Mais do que com o fazer. Ser felizes. ser sorridentes, ser mães, dar aos nossos filhos todos os beijos e abraços e mais alguns, sermos nós, termos tempo, respirar, encontrar a nossa paz. Em vez de fazer - as camas (eu por acaso nem faço, sou adepta do 'deixar respirar'), as compras, as máquinas de roupa, o jantar, o trabalho, os trabalhos de casa dos miúdos... Ser. Parar para respirar. A ver se me lembro antes que me arrependa.   

Deixa lá o menino (Olá, eu sou a mãe do João, sete anos depois)

Domingo em família, almoço de chorar (costela assada com batatas assadas e castanhas, e grelos, e bolo de brigadeiro no fim), cadela, sua tola, não corras tanto, não me lambas, larga-me as pernas, João não faças isso, João não é assim que se faz, João isto, João aquilo.

Deixai lá o menino, que só temos este,

Silêncio, por instantes. Pronto: faz, toma, pode ser, sim. Não pode ser sim todos os dias, a todas as horas nem em todas as situações mas o contrário também não. 

Deixai lá o menino... 

E nós, em silêncio, acho que pensámos todos o mesmo; às vezes conseguimos complicar o que é simples. 

Que mal tem ir buscar o escadote que o miúdo está a pedir para ele perceber que não há figos ao alcance dele, mesmo que esteja em cima de uma escada? É bem mais fácil e rápido do que estar constantemente a responder ao pedido insistente dizendo também insistentemente que o escadote não adianta nada porque os figos estão bem mais altos do que isso. Foi remédio santo, dois ou três minutos depois de estar em cima do escadote desceu, foi fazer outra coisa qualquer. 

Horta, arrancar cenouras da terra, apanhar couves, colher nabiças ou arrancá-las também. Não é assim, tens de as partir. "Mas eu só sei assim". É fácil, eu explico-te, olha. Ele não quer olhar, quer fazer. Como não o deixam vai-se embora da horta, de beicinho e tudo. Não gosto de amuos, embora me lembre de ser uma criança que amuava bastante e de os adultos que me rodeavam implicarem bastante com isso. Insisto que não pode ser como ele quer e que é fácil fazer como deve ser feito.

Deixa lá o menino, diz a minha avó. Que mal faz, vai para as galinhas, há aqui muitas (nabiças) e as que grelam já não dão nabo. Nabas - nós, eu e a minha mãe. Ela é que começou: não arranques, que isto quando crescer dá um nabo. Eu repeti, o miúdo fartou-se: "Quero fazer coisas". 

Deixa lá o menino, disse a minha avó. Realmente... Anda cá, arranca como sabes. 

Às vezes complicamos, e não é pouco. Entre as lições que tenho aprendido desde que sou mãe talvez a mais importante seja que a nossa implicância com as crianças é, muitas vezes, proporcional à dimensão das birras delas. Sim, o meu já fez muitas, faz algumas, só por fazer, das feias, das muito feias, daquelas em que chora aos berros (acho que ele nunca soube chorar doutra maneira e dificilmente vai aprender) e se atira para o chão e esperneia. 

Mas aprendi que, às vezes, muitas mais vezes do que imaginaria, contrariar só porque sim é a pior das estratégias. 

À medida que fui conseguindo lidar tranquila com a irritação dele, a irritação e as birras dele foram diminuindo. Será que é porque está mais crescido? Talvez. De qualquer forma, prefiro não arriscar: dar a volta à situação sem entrar em confronto tornou-se no segredo mais bem guardado de uma maternidade muito mais tranquila e reconfortante. 

E não, não acho, nem estou, a criar nenhum tirano nem nenhum menino mal educado. 

Não foram precisos sete anos dele, mas quase.  (Sete?! De repente sete parece imenso. E se calhar é).

Ansiedade, fantasmas e amor


"Amarem-me é amarem uma casa assombrada. É giro visitá-la uma vez por ano, mas ninguém quer viver lá".

"Amas-me como a família que percorre a terra do Terror de mãos dadas. Não és estúpido, ou descuidado, ou corajoso. Simplesmente nunca viste de perto uma assombração".

"Querido, este amor não me vai curar, ou conseguir raspar o sangue dos rodapés, mas com ele vais conseguir acender todas as luzes (...) E quando dizes ao fantasma: Se vais ficar, o melhor é arranjares espaço..." 

Foi este artigo, no Expresso, que me alertou para este vídeo. Falava (o artigo do Expresso), sobre ansiedade, sobre como este medo difícil de explicar pode significar viver numa casa assombrada, e sobre a forma como a descreveu Brenna Twohy na audiência do 2015 National Poetry Slam, em Portland.

Ver o vídeo foi de ficar sem ar. Como Brenna Twohy quase fica durante a intervenção, antes de parar, respirar e continuar. Como tantos de nós, com ou sem ansiedade crónica, temos de fazer durante a vida. 

A intervenção serve para "despertar uma maior consciência para o sofrimento que a ansiedade crónica acarreta ao dia a dia de tantos de nós que vivem dentro da tal casa assombrada", como refere Paula Cosme Pinto no Expresso. 

Mas este discurso serve também - e foi isso o que mais me emocionou - para fazer uma das mais bonitas declarações de amor que já ouvi. Ou uma das mais belas formas de explicar como amar alguém que vive com fantasmas que não quer ter. 


Dia de merda

Até dormi bem, pelo menos foi o que me pareceu, o dia amanheceu com sol, enfiei-me num vestido que não vestia há imenso tempo. calcei os meus botins vermelhos, o casaco cinza ficou perfeito, o cabelo estava ótimo, sai tarde de casa mas consegui chegar à escola do miúdo antes do toque, tomei o meu café nas calmas, fumei o meu cigarro, fui ao supermercado fazer as minhas compras, gastei menos do que estava à espera, estava tudo tão bem que quase me sentia a super-mulher.

Estava tudo bem até passar no sítio de sempre, com a coluna de sempre, e raspar o carro todo sem saber como. O carro é novo, vai demorar uns bons anos a pagar, não tenho dinheiro para o arranjar, ninguém se magoou mas, porra, o raio do carro está todo riscado e não havia necessidade. 

Há dias que nunca esquecemos por serem particularmente trágicos ou especialmente felizes, há dias assim-assim e há dias de merda, aqueles em que não acontece nada de muito grave mas em que se juntam uma série de circunstância que nos dão vontade de ir para a cama e esperar que passe.

Entretanto, não é grave mas é um bocadinho deprimente, apercebi-me de que o vestido que não vestia há imenso tempo e que até dava a sensação de estar a usar uma coisa nova está descosido em cinco (cinco!) sítios. Se chegar a casa sem ele se desfazer talvez este até seja um dia de sorte. 

Botins, a super moda do outono 2015


Nem é preciso entrar nas lojas, basta olhar as montras: os botins (ou ankle boots/botas pelo tornozelo) são uma das peças chave deste outono. Estão em todo o lado, nos mais variados modelos, alturas e tipos de salto. Parecem todos um bocadinho iguais, mas são todos diferentes. 

Neste início de outono e de outubro, ando um bocadinho obcecada com eles e voltei a ficar de beicinho caído por uns pretos da United Nude, à venda na Prof, que ando a namorar há anos. Têm um bocadinho de salto mas parecem-me lindos, confortáveis e muito mais perfeitos do que qualquer outra opção mais barata - talvez por isso, nunca os comprei, nem em saldos. 

Não sei se combinam com alguma das peças de roupa que tenho no armário, porque só uso sapatos rasos, botas e sapatilhas, mas a cada início de estação enamoro-me por eles, tão lindos, não fosse o preço e já eram meus. Ando durante dias (desta vez já são semanas) a convencer-me de que não posso (comprar) e, quando chegam os saldos, a descida de preço nunca é suficiente para me levar a achar que é uma aquisição que vale a pena. Até à estação seguinte, em que volto a morrer de paixão e fico a pensar por que motivo não aproveitei eu a redução de preço do ano anterior. 

Na imagem acima podem seguir as setas para ver os vários modelos que fui encontrando, de várias marcas, e que me agradaram.  

Espartilhos? Não, obrigada

Foi preciso ter chegado aos 37 anos e emagrecer uns 20 quilos relativamente ao que quase sempre pesei para comprar uma cinta. Daquelas que nem sabia que existiam: superprofissionais, com push-up no rabo, aperto na barriga, definição da cintura até ao limite do sutiã e licra nas pernas para elas não roçarem e magoarem por causa do suor nos dias de muito calor (ou para as definir, no caso de ser preciso). 

No meu caso procurava especificamente o push-up para o rabo, porque cismei que ficava mais elegante, mas de todos os modelos existentes, esta, a mais completa, foi a única que pareceu resultar.

Tudo isto pela perspetiva de participar naquele que pode ser o último casamento de toda uma geração, seja ela familiar ou amiga. 

Nunca casei, pelo menos não durante o dia, sem ser num vestido preto e num bar ao som das minhas músicas favoritas, com os meus melhores amigos e um bolo de chocolate maravilhoso. 

Nunca casei como casam as princesas e, mesmo que racionalmente não queira fazê-lo, há em mim um pequeno lado de vaidade no desejo de, pelo menos durante uma hora, estar mais do que perfeita no casamento que pode ser o último de uma geração (os outros, se os houver, já serão os dos meus filhos, dos filhos dos meus amigos e dos meus primos em segundo grau, acho eu).

Não comprei sapatos novos, vou levar uns que levei a um casamento há sete anos, mas comprei uma porcaria duma cinta mais cara do que uns sapatos, porque meti na cabeça que precisava daquilo. A menina da loja disse-me que não, mas eu sou teimosa. 

Ou fui - até concluir, hoje, que aquilo me faz muito calor e que prefiro o meu rabo ao natural do que andar um dia inteiro enfiada num mini-fato de licra. 

Nem é que aperte muito, mas não é natural, fico cheia de calor e a sentir-me num colete de forças. Para espartilhos, já bastou a luta que foi para as mulheres deixarem de os usar. 

Acresce que não vislumbro garantias de aquilo se manter preso no sutiã até ao fim do dia, pelo que o risco é, volta e meia, ter um pedaço de tecido caído na zona da barriga e andar de cinco em cinco minutos na casa de banho a puxá-lo para cima.

Percebi, entretanto, que sempre que precisar ir à casa de banho, terei de me despir praticamente toda - puxar o vestido todo para cima, despir a cinta toda para baixo, voltar a puxar a cinta para cima, ajeitar o vestido para baixo. 

O que raio me foi dar na cabeça para querer, e comprar, uma coisa daquelas? O próprio facto de existir uma cinta daquelas no tamanho S devia ter servido de sinal para alguma coisa. Não foi, mas serviu de emenda. 

Wek: Um simples fio transformado em arte




os tinha visto na montra da Scar.id Store e eles piscaram-me o olho (eu pisquei de volta, não sei se repararam). Felizmente, a loja estava fechada quando por lá passei. O encerramento é breve, para almoço, e até deixam contacto na porta, mas eu não podia entrar na loja. 

Ver tanta coisa gira do lado de fora convenceu-me que o melhor era fugir. Correr dali, sair rápido, virar costas, fazer de conta que não tinha lá ido, evitar saber dos horários, contornar qualquer vontade de lá passar a outra hora ou noutro dia, imaginar que nada daquilo existe, arrumar tudo no mais oculto dos ocultos lados da parte racional do meu cérebro - aquela que me diz, tantas vezes escusadamente, que não posso deixar-me levar por todas as minhas paixões. 

Se assim não fosse, e entrasse, dificilmente conseguia sair sem um monte de coisas lindas mas com os bolsos a voar de tão vazios e um sentimento de culpa pronto a transformar-me rapidamente em algo bem maior do que prazer da aquisição (ou aquisições - lá está, eram mesmo muitas coisas giras). 

Estava tudo muito bem até me cruzar hoje, sem querer, com os colares da Wek no Facebook. Despertou-se toda a vontade outra vez, ainda mais do que antes, porque não fui capaz de evitar espreitar o site da marca de joalharia contemporânea criada em junho de 2104 por Telma Oliveira e, lá chegada, deparei-me com uma diversidade e criatividade ainda maiores do que as que tinha visto do lado de lá da montra. Fiquei conquistada. Seria capaz de usar quase tudo, admiro todas as combinações e detalhes, é mesmo paixão. 

A Wek, wearable compliments, tem sede no Porto e explora materiais não convencionais. Reinventa outros e reconcilia a tradição com a inovação, misturando o trabalho manual com a produção industrial. O resultado é design exclusivo e edições limitadas.

A coleção atual junta um fio de atar habitualmente usado nas vinicultura com a modulação e a impressão a três dimensões. Interessante, não?

Os produtos estão à venda na Scar-id Store, na rua do Rosário, Porto, e na IvoMaia [designers], na rua Comendador Sá Couto, em Santa Maria da feira.






About me...

Este é o novo texto que está no "about" me do blog. Ninguém lê o "about". Nem eu. Se não tivesse recebido um mail inspirador de uma leitora fantástica, a Elsa, não tinha relido o texto escrito em 2012 sobre mim. Decidi atualizar algumas coisas. Para que conste, fica também em forma de post. Esta sou eu. Tenho pena de não ter guardado o texto anterior. Talvez fosse interessante registar o que vai mudando ao longo dos anos. Em menos de três anos, para cá foi bastante o que se alterou. Too late... já alterei o texto e não guardei o anterior. Fica para a próxima. No hard feelings. Just enjoy the day and do it for yourself!


STYLE. DESIGN. FASHION. LIFE.

São estas quatro palavras que resumem o projeto Divine Shape. Nascido em setembro de 2011, este é um blog de moda, mas eu não sou uma uma fashion blogger. Esta é uma publicação independente que tem por objetivo divulgar moda e o design alternativos, colocando o enfoque no que é novo, inovador, arrojado, out of the box.

Dar resposta a um nicho de mercado no qual me revejo mas que não encontrava nos blogues de moda habituais foi o propósito original do lançamento da Divine Shape. Se um projeto destes me fazia falta, tinha de haver mais pessoas interessadas em saber o que se passava fora dos circuitos da alta costura e das repetitivas lojas dos shoppings. Não queria apenas falar do que está super fashion em determinado momento, porque sobre isso fala muita gente ao mesmo tempo. A ambição é ir mais além (e sim, como o António Variações também quase só estou bem onde não estou).

A intenção é mostrar moda a quem não é doido por moda, a quem nem sequer tem grandes preocupações com o que veste ou nem tem dinheiro para fazer muitas compras, mas gosta de ver, conhecer e apreciar o que se vai fazendo de diferente, em Portugal e no mundo.

O que se pretende é divulgar coisas novas e atrevidas, que pouca gente conhece e sobre as quais os blogs, sites e revistas de moda em papel dificilmente falam. Não quero ser a Vogue (nada contra). Quero ser eu. Alternativa, apreciadora de coisas bonitas, de design e de moda, viciada em roupa, sapatos, relógios, carteiras e em composições de looks (no papel e na cabeça).

Divine Shape é nome de blogue e de página do Facebook, mas é também uma espécie de alter-ego (daí a referência no feminino).

Jornalista, blogger, caçadora de tendências, consultora de imagem, fashion adviser e personal shopper. Mãe, quase 38 anos. Lutadora, persistente, resiliente, insistente, insatisfeita, ainda e sempre à procura do um caminho mas cada vez mais perto de lá chegar. E de aproveitar o que vai aparecendo pelo caminho. Esta sou eu.

Um ano depois de ter sido criada, a Divine Shape já era mais do que um blog de moda. Inclui também artigos de trend hunting, colaborações com o Trend Alert, composições de looks e crónicas de reflexão sobre o mundo e a vida em geral. 

Trabalhar e saborear as palavras é um dos meus maiores prazeres e - não consigo evitá-lo - o meu quotidiano transforma-se, muitas vezes, em textos mentais que tenho de passar à escrita.

Este é, também, mais do que um blog feito ao acaso por alguém que aprecia coisas bem feitas mas não percebe nada de design: no fim de 2012 foi personalizado pelo Quarto de Mudança e ficou lindo.


Divine Shape
01 de Julho de 2015
(texto adaptado a partir do original, escrito a 20 de Novembro de 2012)

Nikibi: Minimalismo, o nosso novo vestido preto


As fotografias são muitas e nem sequer são para ilustrar a multiplicidade do talento da designer da marca portuguesa de joalharia contemporânea Nikibi. São imagens de tudo aquilo que gostaria de ter. Das peças que têm tanto a ver comigo que poderia comprá-las a todas (se pudesse, claro). 

Minimalismo não é o nome do meio da artista. É o nome todo da jovem que desenha estas peças. Começou por fazê-las em latão. Já vai na prata. Sobe o preço do artigo, mas também a qualidade. E confirma o talento. 

O minimalismo está mais do que na moda, é uma tendência (basta passar os olhos no instragram, para não ir mais longe). 

O minimalismo é o nosso novo vestido preto. Não compromete, fica sempre bem, acrescenta tudo parecendo que não faz nada.

E é por isso que a Nikibi está muito à frente. Mesmo as peças mais simples e discretas são um statement, um estado de espírito, uma afirmação. Até os mais pequenos dos brincos ganham vida nas orelhas. O difícil é mesmo escolher, porque mesmo o que parece muito igual assenta de forma muito diferente depois de usado. Vale a pena testar, quanto mais não seja pela descoberta. 

Estão a ver os brincos da próxima fotografia? Não dava nada por eles antes de os colocar. Não os voltei a tirar, e acreditem que experimentei muita coisa antes de me decidir.

Estas já são minhas (pulseira não incluída - quer dizer, a pulseira é minha, mas foi-me oferecida há uns anos valentes, desconheço o autor):




Já vou lá ter...


Caem-me gotas de suor da testa. Ter franja não é fácil, nestes dias de calor. A imagem não é bonita mas é assim que estou, antes das 9h da manhã. Acordei às 5h30. Deve ter sido mais cedo. Aquela foi a hora que os meus olhos ainda desfocados fixaram quando decidi olhar para o relógio, não fora o alarme das 7h dar sinal e eu o tivesse ouvido sem ter ouvido. Afinal não, tinha ainda mais de uma hora de sono pela frente, que bom, mas por mais que fechasse os olhos não dormia.

Demasiado calor, pensei. Abri janelas e persianas, bebi água, fumei um cigarro, já que estava junto à máquina de lavar estendi a roupa. Estava quente. Lavei com água fria, iniciei a lavagem antes de me deitar e estava quente, a roupa. 

Grande doida, a estender roupa antes das 6h da manhã quando podia estar a dormir. Nem sequer estava com grandes preocupações. Ou aflições. Ou angústias. Simplesmente despertei e não consegui voltar a dormir. 

É do calor. E da idade. Não é que esteja velha, mas, caramba, já fui capaz de dormir até às duas da tarde. Ia para a cama bem mais tarde, é certo, mas mesmo quando me deitava cedo nunca acordava antes do despertador tocar. Quando a minha avó comentava os seus despertares madrugadores. eu achava que nunca ia ser assim. Pois. Nem precisei de chegar aos calcanhares da idade dela para saber que afinal a vida dá mesmo muitas voltas.

Estendi a roupa, fumei o cigarro, abri as janelas e voltei para a cama. Nada. Levantei-me, tomei o pequeno almoço, comecei a pintar as caixas de cartão onde quero guardar os livros e o material escolar do primeiro ano de escola do meu filho. Não sei o que é pior, se começar a manhã a estender roupa e a pintar caixas de cartão. 

Cheguei agora ao trabalho, mais cedo do que num dia de semana. A franja já deve estar num desalinho, o resto do cabelo também, ainda bem que me dei ao trabalho de o secar e de lhe passar a prancha (de alisamento) para ficar direitinho. 

Já tomava outro banho, já vestia outra roupa. E vou-me descalçar, porque - malditos pés (o problema só pode ser dos meus pés) - ontem estava tanto calor que consegui fazer duas bolhas valentes apesar de estar a usar numas sandálias de pele molinha, larguinha, o topo do conforto. 

Ontem experimentei todas as outras sandálias que tenho em casa, mas, raios, nenhuma passa ao lado da bolha que ficou em pior estado. Faziam-me falta as sandálias havaianas, é só enfiar o dedo e puxar a parte de trás no calcanhar, mais valia ter vindo de chinelos, pelo menos não me doía nada.

As sandálias havaianas não as trouxe porque não as tenho cá, foram encaminhadas para a praia onde já devia estar praticamente a chegar, não fosse terem-me atropelado o carro numa rotunda. Achei-as (ou meteram-me na cabeça que eram)  demasiado informais para trabalhar. Acontece que é domingo, não vou a nenhuma festa, e não há nada que pague o sacrifício de andar com os pés enfiados em algo que magoe (todas as queixas possíveis e imaginárias aqui e aqui).

Ainda cobri a bolha, ou o que resta dela, com dois pensos e um adesivo maravilhosamente discreto que nunca descola. Pois: descolou tudo, não tinha sequer chegado a meio do caminho. Antes disso já me tinha apercebido de que não trazia os talheres do almoço, mas estava tanto calor que não consegui voltar para trás, 

Tem sido uma cruzada, o meu percurso trabalho-casa desde que me atropelaram o carro na rotunda. A culpa não foi minha, isso foi mais do que evidente. E, ainda assim, mais de uma semana depois, continuo sem o carro, sem ordem para o reparar e sem carro de substituição. Venho trabalhar de metro, não tenho problema nenhum com isso, mas o percurso que tenho de fazer para chegar até ele, e o outro tanto que caminho depois de dele sair demora mais do que o trajeto rápido e tranquilo nessa maravilha dos transportes públicos.

O meu corpo deve estar, por esta altura, bem mais tonificado do que no início da semana, mas tudo isto começa a ser cansativo. Hoje já tive de besuntar as pernas com um creme para pernas cansadas. Apesar de ter dormido tão bem que até acordei duas horas antes do necessário, tenho as pernas moídas e vou maçá-las ainda mais no regresso, quase no pico do sol e do calor, espero bem que a bolha não me aflija muito, senão deixo o meu espírito de resistência de lado e vou descalça, quero lá saber, vou descalça, doem-me os pés, e depois?

Aqui na Baixa, no domingo de manhã, é que não convém. O melhor seria até vir de botas, tantos são os obstáculos no caminho: vomitado, pedaços de lima ou limão, vomitado, vidros, lixo, tudo sujo, vomitado e mais vidros, muitos, duas ou três garrafas de cerveja, das grandes. Também já percorri noites como se não houvesse amanhã, sem saber do barulho que fiz para quem estava a dormir ou do lixo que deixei para trás. Agora já não acho tanta graça.  

Até tinha pensado passar esta semana a andar a pé, antes do acidente. Mas da opção à obrigação vai uma grande distância. Eu sei que podemos tudo, resistimos a tudo, aguentamos sempre muito mais do que esperávamos. E isto nem é nada. Recorrer a transportes públicos? É que fazem centenas ou milhares ou milhões de pessoas todos os dias, so what? Nem sequer é a primeira vez que eu o faço.

Mas estou cansada. A menina mentirosa que foi contra o meu carro na rotunda deu cabo da minha paciência. E as seguradoras, e os vendedores de carros, e as oficinas. Anda meio mundo a queixar-se de outro meio e do Governo e dos políticos, e de Bruxelas e do FMI e a mim, neste momento, parecem-me bem piores (ou iguais, vá) os seguros, as oficinas e as meninas que atropelam carros na rotunda, ficam aterrorizadas de culpa, querem resolver tudo a bem logo no momento e no dia seguinte decidem ser mentirosas.

O meu filho conta-me todos os dias as aventuras das férias, eu digo que gostava de lá estar e ele responde-me, num tom de quem me quer tranquilizar, que não há drama nenhum, porque na terça-feira já vou poder fazer tudo isso. À conta de burocracias, de seguros contra todos os riscos que afinal não acautelam todas as eventualidades e de meninas mentirosas, talvez não. Talvez não possa ser na terça-feira, não sei, ninguém sabe, ninguém diz nada, eu que me safe.

P.S O título e a música escolhidos para acompanhar este post podem parecer não estar relacionados com nada do que escrevi. Se calhar não estão mesmo. Mas foi com esta música na cabeça que acordei, quase de madruagada. Os Deolinda tocam esta noite nos Aliados, for free, e acho que gostava de os ir ver, mas não sei se me apetece. Movimento perpétuo indecisivo, that' s me. Se calhar foi por isso que não dormi mais. 

No tempo em que tinha tempo, estar sozinha era só solidão

Seis anos de filho (quase sete) e sempre uma sensação de que preciso de mais tempo para mim, para estar sozinha, para não fazer nada, apenas esticar-me no sofá como se não houvesse amanhã, deixar-me dormir o tempo que for, ver séries e filmes, tudo sem pausas, sem interrupções, sem preocupações, sem planos. 

É sempre o mesmo ai, que já são horas de o ir buscar à escola, ai que tenho de ir ao supermercado na pausa do almoço para depois não ter de o levar e atrasar toda a rotina do acaba os trabalhos de casa. Toma banho, "preciso de ajuda neste crucigrama", veste-te enquanto começo o jantar, "ajudas-me a pintar este desenho?", anda lá, despacha-te, apanho roupa, estendo roupa, "podemos pintar estas caixas com tintas?", agora não, vamos sujar tudo, quando tivermos tempo, eu sei que nunca temos tempo, olho outra vez para o jantar, "quantos são 345 mais 229?", sei lá, este rapaz lembra-se de casa conta, ponho a mesa, "posso ver bonecos?", não, desliga isso. 

Levanto a mesa, lavo a loiça, meto mais roupa na máquina, dobro mais roupa, olho para o monte de roupa que tem de ser passado a ferro e viro a cara para ver se a imagem desaparece, numa mistura de desgosto, não quero saber e irritação profunda, no fundo à espera que aquela roupa saia dali para os armários por artes mágicas. Vai lavar os dentes, "porquê?", porque tens de lavar os dentes, anda para a cama, "só mais cinco minutos", deita-te, "quero ir para a tua cama", mas está tanto calor, "mas eu assim não consigo dormir". Pois, e assim quem não vai conseguir dormir sou eu, vais passar a noite a dar-me pontapés, a trepar por cima de mim, a dar-me bofetadas, ao menos adormeço melhor, gosto de ter ali.

Quero sempre todo o tempo livre, para não fazer nada, desde há muito eleito o meu hobby favorito ou para fazer tudo: ir ao cabeleireiro, entrar em lojas para experimentar tudo e não comprar nada, arrumar os livros da escola, arrumar-lhe o quarto, arrumar o meu quarto, arrumar a casa, limpar tudo, deixar tudo em ordem, talvez ler um livro, essencialmente esticar-me no sofá sem me preocupar com nada.

E, de repente, o paraíso está à minha frente e percebo que não é nada disso que quero. Filho e pai de férias fora, eu a trabalhar, chego a casa com todo o tempo do mundo para mim e bloqueio, não faço nada nem consigo ficar sem fazer nada. Sinto saudades, volto ao tempo em que vivia sozinha, sem filho ou marido, e percebo que nunca foi isso que quis. 

Nunca tive bem consciência disso, ou já não pensava nisso há muito tempo, mas estar sozinha não é o meu género. Estar sozinha fazia-me sentir sozinha, não me fazia sentir confortável por ter o meu canto, o meu mundo, o meu tempo. 

Talvez agora apenas precise de que o dia tenha mais umas horas, ou que pelo menos uma hora do dia, talvez um bocadinho mais, seja só minha. Mas isso é nos dias em que tenho de fazer tudo - ir ao supermercado, arrumar as compras, pensar no jantar, no almoço do dia seguinte, no lanche do miúdo, nos recados da escola e na roupa de todos enquanto tento passar por cima do cotão espalhado pela casa, até que me dá um ataque de fúria e começo a limpar tudo. 

Afinal não preciso de tanto quanto pensava. E não é só uma questão maternal. Tenho saudades do meu filho, claro, muitas, mas não é a primeira vez que ele fica fora de casa. Já por mais de uma vez estive sem ele durante quase um mês e não me senti assim. Tinha sempre outra pessoa em casa e aproveitava cada segundo sem companhia como se fosse o meu maior luxo. E era - o meu momento de nada fazer, de me deixar levar sem pensar, de apenas ficar comigo, no meu canto, a recuperar o tempo perdido. 

Pensava que precisava de mais para mim. Mas não. Tenho consciência de ser a que só está bem onde não está, mas isto é mais do que isso: é perceber que, no tempo em que tinha tempo, estar sozinha era só solidão. 

50 quilos o caraças!

A balança da médica de família está mesmo avariada, ou então tenho-me guiado por balanças que me indicam outros valores. Não peso 50 quilos, peso 56 na balança da minha mãe, que era o que já pesava na mesma balança. Se é a balança da médica de família que está certa, então já peso 50 quilos há muito tempo. E as outras balanças andaram-me a enganar. Ou então a balança da minha mãe só assinala 56 quilos seja com quem for. Não sei, não me dei ao trabalho de confirmar. Também não interessa.  Peso o que peso, interessa-me mais sentir-me bem comigo do que os quilos que estão numa balança - ou em várias, porque aparentemente cada balança sua sentença. É essa a questão: para mim o peso já não é uma sentença, é um registo. Números. Gosto pouco deles. Aparentemente também tenho o colesterol alto. Quer dizer, tinha - em novembro. Fiz análises e nunca mais me lembrei. A médica disse-me para os ir buscar e lhos entregar, mas que sentido faz olhar para análises com mais de seis meses?  

A dificuldade dos meios termos

Demasiado calor, depilação feita, há que aproveitar para usar um vestido, que o tempo vai arrefecer e entretanto os pelos crescem. Uma mulher tem demasiadas coisas para gerir e não é fácil fazê-lo numa cidade como o Porto, nomeadamente na primavera ou no verão, em que tanto está um calor tropical como está ameno, chove ou a temperatura desce abruptamente e até fica frio. 

Há que estar sempre de olho nas previsões metereológicas, porque o tempo aqui muda quando menos esperamos. A meteorologia nem sempre acerta, mas mais vale saber o que ela reserva para não dizermos que não nos avisaram. 

Pois hoje, apesar dos avisos de trovoadas e aguaceiros, estava demasiado calor para me enfiar numas calças. Mais do que isso, ontem fiz a depilação e, para amanhã, a previsão é que o tempo arrefeça. Concluo que mais vale usar um vestido de verão enquanto posso, não vá ficar frio ou não vá ter tempo para livrar as pernas dos pelos quando voltar a estar calor.

Enfio-me num vestido com três ou quatro anos, mais coisa menos coisa, o mais fresco que me aparece no armário. Já no ano passado estava mais larguinho do que quando o comprei, mas ainda assim era usável. Hoje fazia-me um fole nas costas, puxei o tecido que sobrava e cabia outra de mim lá dentro. Tira, veste outro. Comprado este ano. Talvez demasiado curto, ou demasiado marcado para um dia de trabalho. Mas agora que o comprei, tenho de o usar, era o que faltava deixá-lo apodrecer no armário. Olho ao espelho, não me parece mal. 

Diz que fica demasiado apertado, quase como se as costuras fossem rebentar - o comentário chegou quando já estava no trabalho, não tenho agora alternativa senão mantê-lo no corpo até chegar a casa. Não me sinto assim tão apertada, aliás nem me sinto nada apertada, mas fiquei a pensar naquilo. 

Talvez sejam demasiados anos a sentir-me olhada pelo que supostamente são as piores razões - ser gorda. Nunca gostei que fizessem comentários sobre o meu aspeto ou a minha roupa porque me sentia olhada. E ao sentir-me olhada sentia-me mal. 

Ter peso a mais não tem mal nenhum se a pessoa se sentir bem com isso. Eu não sentia. Agora nem sei bem que peso tenho (aquilo da balança da médica de família não é mesmo fiável, mas essa histórica fica para amanhã), mas há inseguranças difíceis de ultrapassar. Às vezes o melhor é passar por cima: eu sinto-me bem comigo e com o vestido, e isso é tudo o que, para o caso, realmente importa. 

O mistério das roupas desaparecidas

Primeiro, desapareceram os únicos Crocs verdadeiros que comprei ao miúdo, no ano passado. Arranjei-lhos num outlet mas, ainda assim, o preço pareceu-me exagerado por umas coisas de plástico que, estando em causa uma criança, nem sequer se poderia sonhar que durariam uma vida inteira. 

Ao ritmo que os pés dele crescem e que o calçado se estraga, entre corridas e chutos na bola, o que quer que se lhe compre para os pés tem sorte em durar uma temporada. Duas é o máximo, se for uma coisa comprada já em fim de estação, grande o suficiente para se aguentar na seguinte, mas sem que lhe saia dos pés (é para usar no imediato, mas só um bocadinho, nada de usos intensivos que os deixem rotos ou sem solas). 

Os sapatos do meu filho até podem durar duas temporadas, mas é preciso isto tudo. Ou que eu não os perca. Ele nem é muito dado a isso, mas até admito que possa perder casacos, chapéus ou lápis. O que traz nos pés, tendo em conta que já tem seis anos, parece-me mais complicado. Já eu posso perdê-los. Ou, dito de forma mais simpática, não saber onde os guardei. 

Andei pelo menos um mês à procura dos ditos Crocs, estavam em tão boas condições, se ainda lhe servissem seria uma maravilha, mas para saber tinha de os encontrar. Até já tinha desistido de procurar, a sorte foi que não me cruzei com outros (desta vez já não fui em busca dos verdadeiros). 

Os primeiros Crocs verdadeiros que lhe comprei e iam ficar por usar, novinhos em folha, porque eu, fama de arrumadinha mas cabecinha de alho chocho, não sabia onde os tinha enfiado. Seria capaz de garantir que já tinha procurado onde os encontrei (no sítio onde está guardado o restante calçado, primeiro sítio onde qualquer alma, até a mais distraída, iria procurar). A verdade é que não posso: quem é cabeça no ar não se pode dar ao luxo de fazer estas juras. 

O certo é que lá estavam eles, e servem-lhe, e tudo se resolveu antes de desperdiçar dinheiro nuns substitutos. 

Acontece que anda sempre qualquer coisa desaparecida lá em casa. Tenho não sei quantas meias sumidas que deixam outras tantas órfãs e gavetas cheias de tralha que para nada serve enquanto não se encontrar a outra metade. Volta e meia também me desaparecem outras peças de roupa, que mais tarde venho a localizar no fundo do cesto da roupa para passar a ferro - raras vezes o consigo esvaziar, há sempre roupa para acrescentar e muito pouca paciência para a engomar. 

Agora foram as leggings. Tenho várias, quase todas pretas, para usar com os vestidos mais curtos quando não está assim tanto calor. Não sei de nenhumas. Devem ter ficado algures entre a roupa de inverno que fui pondo de lado e a de primavera/verão que fui colocando a uso. Resta saber em que caixote as deixei, se no do inverno, se no do verão. Ou se já as arrumei noutro sítio espetacular para não repetir esta saga anual e não me lembro onde foi. Seja como for, não me apetece procurar. Nem voltar a arrumar. 

Não há sabonetes na escola

Chego à escola à hora do costume. O miúdo, como de costume, está no recreio a jogar a bola. O recreio é de cimento, irregular, não percebo por que motivo os parques infantis têm de ter um piso especial para as crianças não se magoarem e os recreios das escolas podem ter um qualquer. Para o efeito não interessa muito e a verdade é que o pai da criança já caiu num parque infantil (coisas da vida) e ficou todo esmurrado. Contas feitas, não há pisos à prova de miúdos, e, como disse, para o caso não importa.

Desta vez o miúdo não chora ao ver-me chegar porque "ainda agora acabei de fazer os deveres, tinha mesmo começado a brincar" (mãe que tenta não se atrasar para ir buscar o filho sofre). Mostra-se conformado com a ideia de ir para casa, talvez por ter decidido não fazer os deveres no ATL "porque eram poucos".

Está com a cara com manchas castanhas, da mistura do suor e da sujidade das mãos que andaram a jogar à bola e a esfregar-se no chão durante a aula de educação física. As mãos estão pretas, quase que dá para lhe tirar a impressão digital. Vai lavar as mãos. Ele começa a dirigir-se ao centro do recreio. Onde vais? "Vou lavar as mãos". Não, vais lá dentro lavar as mãos bem lavadas com sabonete. "Não há sabonete na escola", responde-me, com a assertividade e indignação de quem acha que eu devia saber disso há muito tempo. Realmente devia. Não há sabonete na escola? Olho em volta, acenam-me que sim, que é verdade. Também não há toalhas, toalhetes ou o que quer que seja onde se possam limpar ou secar. Não há sabonete na escola? 

Não consigo sair daquilo. Fiquei bloqueada. Não há sabonete na escola. Os meninos vão almoçar e limitam-se a passar as mãos por água, se é que o fazem? Fazem cocó e passam as mãos por água? Sem sabonete? E eu nunca me apercebi disto. Se não me apercebi talvez seja porque não faz assim tanto mal. Eu até sou adepta de que ele se suje todo na terra e nunca fui obcecada com bactérias e afins. Mas não ter sabonete/gel para lavar as mãos? Numa escola do Porto? Em 2015? Quanto mais penso nisso menos faz sentido. 

Não era suposto a escola pública ser promotora da igualdade? Não era suposto que dessa igualdade fizesse parte o ensino de algumas coisas que alguns meninos não aprendem em casa? Não é suposto a higiene ser uma regra básica em qualquer parte do mundo civilizado? 

Quase que aposto que existe uma razão para não haver sabonete na escola. Quanto mais não seja, uma razão para explicar a quem possa colocar a questão. Não há dinheiro para ele, os meninos brincavam com o sabonete em vez de o usarem para limpar as mãos, os sabonetes desapareciam, quem tem competência para isso já prometeu há séculos instalar um dispensador de gel... Imagino uma série de justificações e nenhuma me convence. Os meninos daquela escola andam há um ano, ou mais, a lavar as mãos sem as lavar. 

Antes não havia sabonetes, no tempo dos meus avós e pais nem sapatos havia e sobreviveram todos, bem, os que conseguiram. Há coisas piores, o melhor é fazer queixa, talvez o mais aconselhável seja ignorar, andar para a frente, analisar se isso é mesmo um problema. Estou já em fase de delírio sobre possíveis respostas. Na verdade não espero nenhumas. Quer esteja calada quer aborde o problema. Só precisava que o mundo soubesse que sim, seja lá por que motivo for, há pelo menos uma escola pública onde não há sabonetes. No Porto. Em 2015.  

50 quilos e coisas da sorte

A minha médica de família diz que peso 50 quilos. Ela não, a balança. A mulher até voltou a calibrar o aparelho de propósito porque eu não acreditava, dizia que era impossível.  Ela olhava para mim e achava que sim. Em todo o caso, acertou a balança, mandou-me subir outra vez. 50 quilos.

Continuo a achar que não é verdade. Tenho a certeza de que, se me pesar noutra balança, peso mais. Sei que estou mais magra, até posso admitir estar magra, mas nunca na vida devo ter pesado 50 quilos.

Talvez tivesse pesado isso quando era criança, e menos do que isso quando era bebé, mas lembro-me de ser bem pequena e andar a comer umas sopas/papas e a tomar uns comprimidos para emagrecer receitados pelo pediatra. Aquilo marcou-me para o resto da vida. Não teve efeitos nenhuns. A não ser fazer-me sentir diferente, para pior. 

Se tinha de comer aquilo e, ainda por cima, tomar comprimidos, sendo tão nova, algo estava errado comigo. Numa mais me livrei do rótulo e do peso que pus em mim própria por causa disso. Ainda hoje não estou totalmente recuperada, como se constatou pela incredibilidade perante várias pesagens na balança. 

Já mais velha, lembro-me de ter feito umas dietas parvas (cortar com tudo o que fosse doce, depois com os hidratos de carbono e por aí adiante até chegar ao ponto de a regra ser apenas ingerir vegetais ou fruta, exceções para um peixinho grelhado com legumes e para os almoços de domingo em casa da avó ou dias de festa). As dietas parvas encontrei-as em revistas femininas. Depois ainda me pus a fazer ginástica e aparelhos de musculação, o que não teria mal nenhum se o fizesse por prazer e para me manter saudável e em vez de ser um sacrifício para ficar mais magra. Porque, supostamente, mais magra, ou magra, era melhor. 

Eu, que nem era assim tão gorda - vejo agora pelas fotografias - meti na cabeça que era uma baleia e não queria ser, porque ser baleia era mau. As baleias (as gordas) não têm namorados porque nenhum rapaz quer namorar com uma baleia (gorda). As gordas são feias. Era o que eu achava. Parva. 

Com as dietas malucas e o exercício o menos que pesei foram 58 quilos. Estava bastante bem, com aqueles 58 quilos. Não tinha barriga. Tinha umas coxas jeitosas, um rabo também. Não me sentia magra, que era o que eu queria ser, mas sentia-me melhor. 

Depois fui engordando e emagrecendo, sempre sem fugir muito dos 58 quilos (quando emagrecia, entenda-se, porque numa das fases em que engordei cheguei aos 80 e ao tamanho 44/46). Já tive muita vergonha disto. Agora não. Estes 50 quilos, se é que são verdade, aconteceram porque tiveram de acontecer, não porque acordei um dia determinada a chegar aos 50 quilos. 

Aconteceu muita coisa que me tirou apetite e que aparentemente me deixou de vez sem ataques de gula, nomeadamente por chocolates e doces (fiquei assim depois do meu filho nascer). Tenho algum cuidado porque me sinto bem assim (mais magra), mas como de tudo - batatas fritas, pizzas, massas, bifes, pão com manteiga, tudo. Emagreci a sério na única vez em que não me pus a fazer dieta para emagrecer. Não deixa de ser irónico. Uma vida a tentar e acontece (em boa hora, é verdade) quando está longe de ser uma prioridade. 

É também uma lição. Por muito que nos esforcemos, as coisas às vezes não acontecem quando queremos. Acontecem quando tem de ser. Não adianta, por isso, desesperar, exasperar, sofrer, ficar de coração apertado. Quando tiver de ser, é. Para o bem e para o mal. Sendo certo que, como dizia o meu avô, para ter sorte é preciso muito trabalho. 

Trabalhemos, pois, até chegar(em) o(s) dia(s) de sorte. Que podem ser quando menos esperamos. E que até podem ser o que menos esperamos. Às vezes uma frase do filho e/ou a atenção/cuidado do marido basta para perceber que toda a nossa sorte até está mesmo ali ao nosso lado, todos os dias..      

Ser diferente

O miúdo que supostamente tem as orelhas grandes (a mim parecem-me normais, a paródia feita pelo programa Ídolos, da SIC foi fazer-lhe crescer as orelhas e, se isso foi preciso, é porque as orelhas do não eram assim tão grandes) vai ser operado - às orelhas. Uma clínica qualquer ofereceu-se para isso, acabei de ler no jornal. 

Confesso que fiquei um bocadinho chocada. Como se não bastasse tudo o resto, agora há uma clínica que se aproveita do miúdo para lhe dar o que ele pensa que quer, a troco de publicidade - sim, o jornal cita o nome da clínica e até refere tratar-se de um "patrocínio". Não me lembro de alguém me ensinar, abertamente e num momento concreto, que ser diferente não faz mal nenhum. Mas com o tempo e a idade fui aprendendo que somos todos imperfeitos, que temos de aperfeiçoar o que podemos e aprender a viver e conviver pacificamente com que não tem volta a dar. 

Fico, por isso, um bocado triste que pareça ter ido por água abaixo toda a solidariedade de todos os imperfeitos que disseram ao miúdo 'não ligues, todos nós tivemos a nossa cruz quando éramos mais novos (esta crónica do Ferreira Fernandes do DN é exemplar) - se não foram as orelhas foram os óculos, ou foi porque éramos demasiado altos ou demasiado baixos, ou demasiado magros ou excessivamente gordos... Parece um paradoxo, não é? Mas tanto era alvo de chacota quem era muito baixo ou muito gordo como o seu contrário (quem é baixo e/ou gordo não imagina que tal possa acontecer até se cruzar com alguém alto e/ou magro a queixar-se de ter passado pelos mesmos olhares dos outros).

Nunca ninguém é perfeito e, quem parece estar mais próximo de uma suposta normalidade, faz sempre questão de destacar as diferenças dos outros. Para se sentir superior, ou só porque sim, não sei. Eu fazia parte dos gordos com óculos, não estava propriamente entre os mais populares da escola, nem sequer me vestia muito bem (acho que vestia basicamente o que calhava e o que a minha mãe me comprava) nem tinha o cabelo giro (tive uma fase de cabelo comprido em que usava um rabo de cavalo apertado de lado e no topo da cabeça, não sei onde fui buscar aquilo ou de que forma me convenci de que aquilo me favorecia, acho que na verdade não ligava a isso, estava só preocupada em ser do que em parecer). 

Não posso dizer que tenha tido uma existência miseravelmente triste enquanto criança ou adolescente. Fui feliz, diverti-me, tive muitos amigos, fui boa aluna, no geral consegui marimbar-me para o resto, pensar mais no meu futuro e no que queria ser do que naquilo que alegadamente estava mal com o meu corpo, numa época em que a tirania da perfeição era bem mais pesada (quais modelos XL, quais anúncios da Dove a mostrar corpos 'normais', com celulite, barriga, coxas ou rugas, eu cresci na época áurea da Barbie, a boneca de formas tão perfeitas quanto impossíveis).

Apesar de tudo, todos estes anos depois, sei que vivi (mal) com o rótulo da menina gorda. Tanto que ainda hoje, magra e a vestir 36 há dois anos, mais coisa menos coisa, acho que isto não é o meu estado normal, que está só de passagem, como se a gordura fosse uma sentença para a vida, como se fosse apenas uma gorda em recuperação - sim, isso mesmo, como se o excesso de peso fosse uma doença como o alcoolismo ou a toxicodependência, em que se contam os meses em que a balança não ultrapassa determinado número sempre com o receio de que possa voltar a passar.

Andei sempre em frente mas assimilei todas as bocas, todos os comentários, mesmo os que possam ter sido ditos sem maldade, todas as roupas que experimentei e não me serviam, todos os tamanhos maiores que tive de pedir, todas as peças de vestuário que gostava de ter tido e não pude porque era demasiado grande para elas. Ou elas demasiado pequenas para mim - mas isso é o que penso agora, na altura apenas me sentia demasiado mal. 

Andava em frente mas fazia dietas malucas e desequilibradas que apareciam recomendadas em revistas femininas. Cheguei a comer só saladas e fruta, dei cabo do estômago por causa disso, e tive de ser operada a um joelho que lesionei nos aparelhos de musculação e na ginástica - tudo coisas que fazia para emagrecer, não para me sentir bem. 

Aprendi que, apesar das marcas, nada disto ou coisa parecida impede quem quer que seja de ser um adulto bem sucedidos. Percebi também que, com o tempo, as orelhas podem deixar de parecer desproporcionais, ou podemos deixemos de ser tão altos, tão baixos, tão gordos ou tão magros. Ou que conseguimos aprender a viver pacificamente com isso tudo e muito mais. 

Andou mais de meio mundo a tentar explicar ao miúdo que as orelhas dele não tinham mal nenhum, que a SIC é que agiu mal e agora o miúdo vai mudar de orelhas. Ninguém gosta de ser alvo de chacota, e quanto mais pública ela for, pior. A paródia sobre nós e sobre o nosso corpo nunca se esquece? Não, nunca. Mas tenho sérias dúvidas que mudar seja a solução. E começo a ter a convicção de que o caminho que é preciso percorrer para nos aceitarmos só nos faz bem, só nos torna melhores, mais compreensívos, menos intolerantes.

No caso em questão, até acho que não é por mudar de orelhas que os gozadores potenciais das orelhas do miúdo vão deixar de se lembrar das orelhas supostamente grandes parodiadas na televisão. Ou que ele fez uma operação para deixar de ter supostamente grandes porque foram alvo de uma brincadeira de mau gosto. Os potenciais gozadores apenas se vão esquecer ou cansar, quando calhar. O miúdo talvez não. Talvez pense que não. Mas podia. A verdade é que, se calhar, ninguém (nem eu) devia andar a meter o nariz nas orelhas do rapaz.

Estrear sapatos sem calçado de reserva não, obrigada



Há pessoas mais sensíveis do que outras e eu tenho um problema com calçado novo, é verdade. Gosto muito de sapatos, sandálias, sabrinas, sandálias e tudo o que seja para enfiar nos pés mas, salvo casos raros, tudo o que compro magoa-me no primeiro dia de utilização. Se o que estiver em causa não forem sapatilhas ou botas de inverno (julgo que é o facto de as usar com meias grossas o que as coloca na lista de exceções), é certo que fico com os pés terrivelmente apertados ou com bolhas: no calcanhar, nos dedos, nos sítios mais improváveis. Até os sapatos mais insuspeitos me fazem bolhas: espreitem só o link para este artigo que ainda recentemente escrevi sobre umas botas que nem eu diria que podiam dar-me cabo dos calcanhares. 

Se forem umas sandálias pode acontecer-me o mesmo, embora seja com as sabrinas que o caso mais se agrava. As que tenho em casa são anteriores ao nascimento do meu filho e deixaram de me servir (o pé alargou, ou eu deixei de o conseguir ter apertado, não sei). Volta e meia calço-os, mas magoam-me, desisto, volto a guardá-los. Já tentei um número maior mas o 37 aperta e o 38 fica largo. Desisti. Até ontem, 

Enfiei os pés numas sabrinas da Lefties (ou seja, bastante em conta, para não dizer baratas), ligeiramente pontiagudas às risquinhas pretas e brancas (tentador, certo?). Nem apertavam nem ficavam largas. É mesmo isto. Claro que tinha de as usar já hoje, ainda que com meias transparentes, não fossem as ditas fazer-me bolhas nos pés descalços. Ainda pensei enfiar na mala do carro alguma coisa que pudesse substituí-las para o caso de o nosso relacionamento dar para o torto, mas a coisa correu tão bem enquanto andei a cirandar com elas em casa que acabei por me esquecer. 

Erro fatal: nunca, mas nunca, se deve estrear calçado para ir trabalhar com a perspetiva de caminhar fora do escritório sem ter na mala do carro ou numa mochila alguma coisa para enfiar nos pés, para a eventualidade de a combinação pés + sapatos novos dar para o torto. Hoje correu muito mal. Tão mal que estava a ver que não conseguia regressar ao trabalho. O raio das sabrinas às risquinhas fizeram-me bolhas nos dedos mindinhos e só não fizeram o mesmo em mais sítios porque tive de me arrastar até uma farmácia para comprar uns pensos tão caros que quase davam para outros sapatos. 

Cheguei ao escritório e descalcei-me. Assim teria permanecido se não tivesse de sair outra vez em trabalho. Podia também ter resolvido o problema (sim, eu sei, parece que nós, mulheres, arranjamos problemas em coisas de nada e no fundo é um bocadinho verdade, mas experimentem ter os pés feitos em frangalhos e cheios de dor para ver o que custa) com umas chinelas que alguém viu numa loja a quatro euros, mas possivelmente nunca mais as ia enfiar nos pés. 

Optei por comprar uma coisa de que gostava, mais clara, evidentemente, mas que me há-de servir para o verão todo: umas sandálias brancas da Igor, que são mesmo iguais a umas Melissa Fox pelas quais me apaixonei há um ano mas que nunca comprei. Contas feitas, o barato saiu caro. O problema maior foi, no entanto, a falha na precaução: jamais te enfies nuns sapatos novos num dia de calor sem ter uma boa alternativa guardada por perto. Podes acabar cheia de bolhas a ter que comprar o que nem querias (ou querias e não devias).




Música para mães 'cool' (ou só para mim)

Estou a ouvir a playlist Dia da Mãe - Música para mães 'cool' - Uma selecção da blogger Divine Shape (divine shape.blogspot.com) no MEO Music http://meomusic.pt/playlist/JFP4MuVk68_wJj6faeU4KA

O desafio da Meo e do Trend Alert era que eu, enquanto blogger, fizesse uma playlist para o dia da Mãe. O resultado foi esta lista, essencialmente um relato musical da minha experiência como mãe, do meu crescimento enquanto pessoa desde que tive um filho, do amor que sinto por ele, da ligação que temos, da relação com a minha mãe e do que entretanto aprendi sobre ela ou sobre outras mulheres-mães que tive ao longo da vida (somos muitas, na família). 

Ser mãe serviu-me para me tirar todas as certezas. A partir de então, só estou convicta de que terei sempre muitas dúvidas e tentarei fazer o melhor que posso. Em relação ao meu filho e a tudo resto. Deixei-me de verdades absolutas e acho que isso não tem mal nenhum. Todas as que tinha caíram por terra, o meu mundo virou-se ao contrário, fiz tudo o que prometi não fazer ou dizer. Nunca mais disse nunca, pouco depois de ele ter nascido e eu me ter visto com ele no shopping, consciente de ter perdido a conta às vezes em que estupidamente critiquei pais de bebés pequenos que fizeram o mesmo. Era inverno e nenhum espaço público abrigado oferecia a mesma logística para tratar de um recém-nascido. É tão simples quanto isso. 

Depois, há coisas incontornáveis, como ouvir-me e jurar que estou a ouvir a minha mãe com as expressões que, enquanto filha, odiava ouvir e jurava a pés juntos nunca reproduzir. Não há como evitar. Ser mãe confunde-se com a filha que fomos e com a mãe que tivemos. 

Ser mãe não tem comparação com nada, porque é um amor maior do que alguma vez julgamos poder sentir. É tudo o que imaginamos, ou nada do que tínhamos sonhado, mas é sempre mais e melhor. Daí a escolha da música Finale, de Maurice Jarre, do filme Clube dos Poetas Mortos. É um crescendo de sentimento de conquista, vitória, felicidade e orgulho, cada etapa da vida de um filho, cada primeiro sorriso, primeiro passo, primeiro beijo, primeira palavra, o primeiro dente que cai ou primeiras notas na escola.

A espera por ele também não escapou à música: é daí que vem a escolha de "Fico Assim Sem Você", da Adriana Partimpim. A letra só fez verdadeiro sentido para mim quando estava grávida, ansiosa por ter a criança nos braços, a sentir-me como queijo sem marmelada, incompleta, por acabar. Amor I Love You, a música da Marisa Monte que inclui uma citação do livro "Primo Basilio", do Eça De Queiroz, também me acompanhou nos nove meses de gestação.

Quando ao resto, algumas são músicas que ouvi ao vivo enquanto estava à espera da criança: Deanna, de Nick Cave, no Coliseu do Porto, ou Heart Of Glass, dos Nouvelle Vague, no Sá da Bandeira. There is a Light tha Never Goes Out (Morrisey), é o que eu espero ser para o meu filho. Blitzkrieg Bop foi uma das primeiras músicas que ele pediu para ouvir e os Ramones foram a primeira banda que ele soube identificar. Isto, claro, depois da febre dos "Não sei quantos macaquinhos que saltavam no colchão" (título completamente adaptado de uma canção que passava no canal Panda e que ele, ainda no colo, pedia para repetir atirando-se para cima do leitor de CD).

Os The Pogues são a mais recente paixão musical da criança e The Sunnyside of The Street, uma das músicas que tenho de ouvir quase tantas vezes quantas vi o arco-íris do Mickey ou a bola que foi parar à estrada do Noddy, é uma das minhas preferidas - ele, o meu filho, é o meu lado solarengo da estrada e da vida.   

São, no fundo, sons que ouço repetidas vezes, ou que ele também gosta/gostou de ouvir. Com ele ainda no colo, cantei-as e dancei-as como se fossem um tango, de um lado para o outro, com um ar sério que o fazia rir. Também já as dançamos: a  fazer de conta que estávamos numa festa, porque estavamos numa festa (coisas da última passagem de ano), aos saltos, a agitar o corpo, a fazer ginástica (imposição dele) ou deitados no chão da sala a relaxar. 

A isto tudo soma-se "Para os Braços da Minha Mãe". Não sendo particularmente fã do Pedro Abrunhosa, não consegui lembrar-me de uma música que melhor ilustre o que penso quando me falta colo, quando penso na minha mãe, no que nos separa e no que ela está sempre disponível para me dar.