Mostrar mensagens com a etiqueta família/family. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta família/family. Mostrar todas as mensagens

Professora, yes I am

Paciente, persistente, insistente, o tom foi de incentivo e firmeza. Para cima, para baixo juntinho, chega ao fim da linha e voltinha - é assim que se faz um "i" minúsculo manuscrito. Nem eu sabia. Sabia fazê-lo, mas não descrever como se fazia. Eram os trabalhos de casa para o fim de semana, é a primeira letra a aprender, ele começou a fazer e não sabiam bem, percebi como tinha de descrever o processo para sair tudo certo, os últimos já ficaram direitinhos. Na data, fui intransigente: os números não ficam encavalitados uns em cima dos outros, é ao lado. Está mal, não é assim, apaga, faz outra vez. "Nunca vou conseguir". Isso é expressão proibida, não quero que digas isso, quero que digas "vou tentar". Ele tentou. Uma e outra vez. E mais outra. Foi o mais difícil, explicar-lhe que os números se começam a escrever ao lado do anterior, e não por cima. Ficava tudo encavalitado, deixou de ficar. Desconfio que vai voltar a ficar, se lhe pedir para fazer outra vez. Mas com o tempo muda. 

Nunca quis ser professora. A minha mãe era, eu achei que não tinha jeito, que não seria feliz com essa profissão, isto quando acreditava que, ao encontrar a minha verdadeira vocação, tinha a satisfação e realização pessoal e profissional garantida. Podia ter escolhido outras profissões, ajeitava-me em várias áreas, da ciência às humanidades, mas os números cansavam-me, preferi desistir da arquitetura. Julgo que apenas se a tivesse seguido saberia se também a sentiria como vocação. A que escolhi sim, senti-a assim. Mas garantia de realização de tudo e mais alguma coisa não é, como nenhuma é, julgo eu. Quanto a lecionar, a julgar pelas confusões com os concursos (que já há uns 20 ou 30 anos angustiavam a minha mãe), não me parece que pudesse ter feito de mim alguém mais feliz, mas afinal tenho jeito. Ou então tenho jeito para ser mãe a ajudar a fazer os trabalhos de casa. Para já, o meu maior medo caiu por terra, é quase sempre assim, o que nos aflige por antecipação nem chega bem a acontecer, por norma até acontece outra coisa que não prevíamos e que (talvez precisamente por isso) dá bem mais trabalho a resolver e a pacificar-nos. 

Para cima, desce apertadinho, curva, pintinha. Perdi a conta às vezes, mas detetei as dificuldades e, enquanto ele desenhava a letra já sem indicações (aquilo deve ter-lhe ficado a martelar na cabeça, a determinado ponto não foi preciso dizer mais), preparei os trabalhos de casa para segunda-feira. Se não os trouxer da escola, faz os que eu já defini. Se trouxer, pode ser que faça os dois. Não quero que ele seja nenhum génio, nem sou nenhuma doida preocupada com as notas que ele vai ter daqui a 12 anos, o que mais me preocupa é que ele seja feliz, mas ele é desatento e trapalhão por preguiça, precisa de, nos bocadinhos em que é mesmo preciso, ter a cabeça concentrada no que está a fazer. Pelo caos que encontro no ATL não vou ter ali ajuda nenhuma, preciso de ser eu a fazer também o trabalho de casa. O tempo parece-me sempre pouco, nunca chega, mas há-de ficar um bocadinho elástico, com o tempo chego lá. 

Perdido no recreio

A minha criança ficou esquecida/perdida no recreio no primeiro dia de aulas do primeiro dia de escola a sério até por volta das seis da tarde (suponho que desde as quatro), quando as auxiliares e as professoras que ainda lá estavam (tenho a impressão de que já só estava a diretora, mas não posso garantir, eu não vi, nas histórias que me contam - e já ouvi pelo menos quatro pessoas sobre o assunto - há contradições e nem todos os detalhes coincidem) começaram a arrumar as coisas para ir embora e viram (valha-me ao menos isso) que estava ali um menino novo sozinho, que os pais ainda não o tinham vindo buscar, que todos iam embora menos ele. Eu não sei se ele estava sozinho no recreio ou se lá estavam os meninos do ATL que ficam no chamado "prolongamento", até às sete da tarde, no máximo. Foi à hora que cheguei. Tive uma consulta. Estava marcada para as quatro, começou às seis. Cheguei às sete, no primeiro dia de aulas do primeiro dia de escola a sério. Só restava ele. Não me pareceu melindrado, nem ansioso, nem triste. A senhora que mo entregou nada disse. Eu pedi-lhe o número do ATL, para necessidades futuras, ela disse que não tinha, que pedisse no dia seguinte. Podia ter-me dito que o miúdo não foi para o ATL quando acabaram as aulas, que ficou no recreio, que foi preciso ir lá buscá-lo, que só se aperceberam a dada altura, a que horas é que isso aconteceu. Não contou. Nada.

Quando, no balanço do dia, lhe perguntei o que fez no ATL, ele disse que esteve lá sentado à espera. Foi o primeiro dia, não havia atividades extracurriculares, só era suposto que ficasse na sala de aula até às quatro. Ficou três horas sentado à espera? Sozinho? Não estavam lá mais crianças? Não brincou? Ficou três horas sentado à espera? Ele estava bem, nada inquieto, mas aquela ideia das três horas sentado à espera ficou a martelar-me a cabeça a noite toda.    

No dia seguinte a senhora que está a tomar conta do ATL da parte da manhã, a quem me dirijo para pedir o número de telefone, não sabe de nada, acha estranho. Comento com a professora, que nem tem nada a ver com o assunto e que me relata, no meio da barulheira gerada pela mistura do riso das crianças com as conversas dos outros pais (sobretudo das outras mães) que ele não sabia que tinha de ir para o ATL (eu tinha-lhe dito, até lhe mostrei a porta para onde tinha de ir), que as funcionárias da escola se aperceberam disso a dada altura, que foram chamar a diretora, que ela informou que ele tinha ATL, que então o menino foi para o ATL e que realmente verificaram que o nome dele estava na lista. Estava mas não o chamaram. Não vieram cá fora ver se estava ou não estava. Não tinham o meu contacto telefónico, apesar de eu o ter deixado várias vezes na ficha de inscrição. 

À tarde, segundo dia, chego consideravelmente mais cedo e ele está perto do portão, bem longe do ATL, a arrastar a mochila enquanto come uma maçã. Vou falar com a diretora. "Está a ver aquele menino ali ao longe? Devia estar no ATL. Já ontem era suposto ter ido". Ela sabia da história, contou-me a versão, está tudo muito no início, ainda é tudo muito confuso, eles ainda são muito pequeninos, as funcionárias não são as efetivas (essas estão de férias), não estão tão habituadas. Enquanto converso aprecio o comportamento dele, das crianças do ATL e das funcionárias. A dada altura, o porteiro abandona o posto e manda os meninos para longe  da porta que deixa fechada mas não trancada para que os pais que faltam possam entrar. Só então a funcionária do ATL vai ter com ele. Ele pouca a mochila lá dentro, vem cá para fora e faz o mesmo do que os outros: salta, corre, brinca a coisas que não se sabe se são abraços ou lutas, pendura-se em corrimões, esconde-se com outros em sítios onde supostamente estão todos proibidos de ir, basta piscar os olhos e desaparece, já está noutro canto, como os outros. 

Não quero que ele cresça numa redoma de vidro mas não gostei. De nada. De não terem o meu contacto. De  não terem verificado se ele estava ou não presente. De ninguém o ter encaminhado para o ATL. Ele perguntou-me porque é que eu não cheguei quando tocou. Era o que ele via no ano passado, ao sair do infantário: os meninos da primária a serem entregues aos pais, no portão, depois do toque. Eu não consigo estar lá à hora do toque. Tentei explicar-lhe o motivo, estou a trabalhar, apanho trânsito, nem que fosse a voar. Não sei se ele percebeu, acho que não. Apenas interiorizou. Verei mais tarde se o suficiente para hoje não ter havido episódios parecidos com os anteriores. Sei que vai acabar por compreender. E que, antes disso, vai apenas aceitar e habituar-se. E disso também não gosto. 

Nas férias em que ele tinha dois anos e meio, adorava correr e já dava ares de desafiar, tivemos de o informar que estava de castigo porque desobedeceu aos pais depois deles terem insistido várias vezes para que não fizesse determinada coisa. Não me recordo bem da desobediência (julgo que estaria relacionada com a correria e a possibilidade de ir parar à estrada, junto de carros) nem do castigo (possivelmente não terá sido mais do que ir para a cama mal chegou a casa).  No dia a seguir, quando entrou no carro, comentou: "Agora vamos para casa, eu vou ficar de castigo e depois vou dormir". Ninguém o tinha posto de castigo, ninguém lhe tinha falado nisso. Percebi - e assustei-me muito com isso - a facilidade com que as crianças podem habituar-se a coisas más. Para ele o castigo tinha-se tornado parte da rotina. De um dia para o outro. Aterrorizei-me ao pensar que uma criança assim pequena vítimas de maus tratos possa simplesmente habituar-se, achar que apenas faz parte da rotina. 

Por isso é que não gosto de coisas a que ele tenha apenas de aceitar e habituar-se, sem perceber por que não pode sentir a emoção de ouvir o último toque e correr para o portão, tentar descobrir a mãe do outro lado da rede, dar-lhe a mão e ir embora para casa ao mesmo tempo do que a maior parte dos outros. 

Sonhos e inquietações. E problemas resolvidos durante o sono.

Não sei se é culpa da inquietação do início das aulas (parece-me tudo muito confuso, não sei se mais a mim do que a ele, mas ainda não me apetece descrever o que tem acontecido), mas anteontem, enquanto dormia, arranquei um dos lençóis da cama e atirei-o ao chão com a determinação de quem estava definitivamente a resolver um problema aflitivo que se prolongava há séculos. Só não sei qual era. Quando atirei o lençol ao chão com tanta firmeza tive noção de estar apenas a atirar um lençol ao chão. Sem motivo. Não quis saber. Deitei-me e voltei a adormecer.

Primeiro ano da escola? Que nervos (mas sem lanche ou atividades, ainda que mais velha e feliz)


Não me sinto a envelhecer, mas sim, é algo assustador: o miúdo já vai para a primária, trabalhos de casa, chegar mesmo a horas, preparar a mochila, convencê-lo de que a casa precisa de espaço as coisas da escola, arrumar brinquedos e material escolar de forma funcional numa casa que não cresce, não desesperar quando o que apetecer é deitar tudo ao lixo porque sabemos que aquilo se vai voltar contra nós (eles vão-se lembrar daquele brinquedo com que nunca brincaram, que andou sempre perdido, mas que sabem que sabem que têm e que um dia vão querer - e vão-nos pedir ajuda para procurar). 

Não vai ser fácil convencê-lo que não pode continuar a brincar em cima da mesa da sala, porque os horários vão ser mais apertados e continua a ser preciso fazer o jantar, comer, tomar banho, agilizar tudo, ter a certeza de que a mochila está pronta, se amanhã é dia de ginástica ou de música, procurar lápis e borrachas e peças de brinquedos debaixo do sofá quando já se está a morrer de sono. Ainda por cima, saber que os próximos quatro anos vão passar num instante e, qualquer dia, ele está um adolescente a dizer e fazer coisas muito parvas. Será pior do que as birras? Se calhar é apenas diferente. Mas nós já estivemos lá nas cólicas, nos choros com motivos que não conseguíamos desvendar, nas primeiras febres, nos vómitos, nas noites sem dormir porque está doente ou porque ainda não saiu da fase do "mama, arrota, muda a fralda, deita, tenta adormecer, voltar acordar para mais mama, arroto, fralda, e depois choro por coisa nenhuma". Bem soube o que fez quem inventou a tortura do sono, não deixar dormir não é coisa que se faça a ninguém, só quem por lá passou sabe a confusão que pode instalar-se nas nossas cabeças, passam-se anos e ainda estamos a tentar descobrir como conseguimos fazer tudo sem muitas asneiras. 

Começa na segunda-feira, mas na segunda-feira ainda não há lanche. O início do ano letivo está marcado há meses, a escola do meu filho inicia-se no último dia do período definido, mas a Câmara não se lembrou do lanche das crianças. Talvez terça e quarta também não haja, não se sabe (vá lá que não se esqueceu dos almoços). Os pais levam, é só um dia ou dois, ninguém se chateia. E nas outras escolas, também é assim? As atividades extra-curriculares, que este ano vão todas ser feitas depois do horário letivo (até às 16h), também ainda não começam para já. O que irá a escola (ou devia ser a Câmara?) fazer às crianças cujos pais só podem ir buscá-las às 17h15, a hora a que as tais atividades vão terminar durante o resto do ano (a partir do momento em que começarem, coisa que não se sabe quando pode acontecer). Para conciliar a vida profissional dos pais com o percurso escolar das crianças (ou vice-versa), não deviam estar asseguradas com elas atividades até às 17:30, pelo menos? É que a essa hora talvez eu conseguisse estar na escola para o ir buscar. 

Um quarto de hora mais cedo faz diferença, pode até fazer toda a diferença se for essa a hora a que saio do trabalho. "Ele pode ficar no recreio, mas sem vigilância. Quer dizer, se acontecer alguma coisa nós vamos ver, mas não estamos a tomar conta". Pois, uma criança que ainda não fez seis anos, no recreio, sozinho, à espera que o vão buscar depois de ver os colegas irem para casa ou para o ATL. Cenário fantástico. Mas é no recreio exterior?, pergunto. "É no recreio, a senhora conhece a escola?". Conheço, o recreio é na rua, se for desse que me está a falar ele ficará à chuva, nos dias em que chover, e no Porto não chove pouco. Matricule-se então a criança no ATL, e pague-se o dito cujo, o mês completo, por 15 minutos que seja, mais não sei quanto só pela inscrição. Veremos depois se se farão atividades de tempos livres depois das outras atividades (extra-curriculares?) ou só haverá apenas uma grande confusão de crianças cansadas a precisar e a querer ir para casa. Ainda há quem se questione sobre os motivos da quebra da natalidade. Não é preciso grande teoria. Basta ver a vida dos outros.    

Um dos meus receios, com a entrada na escola, nem é gerir horários. É uma angústia velha, já não me faz mossa. A minha aflição é não saber ajudar a fazer os trabalhos de casa. Há coisas de que já não me lembro. Coisas tão simples como a caligrafia, aquelas letras todas desenhadas que, por acaso, eu até fazia muito lindas. O tempo que eu demorei, anos mais tarde, a tentar tornar a minha letra menos infantil, mais cool, a tentar desviar-me o mais possível do que me tinham ensinado. As letras desenhadas são complicadas de fazer, demoram tempo. Pior do que isso, quando andamos no ciclo ou no secundário ficam completamente "out", são foleiras que se fartam, ninguém consegue passar por essa fase com essas letras sem levar com umas valentes bocas (um bocadinho daquilo a que agora se chama bullying, raio de língua, não se encontram traduções fiéis para determinadas palavras? design, por exemplo, tem o mesmo problema: não é desenho, é design). A tal letra que trabalhei enquanto estudava, essencialmente para tentar pertencer ao lote das miúdas fixes (a malta porreira tem letra de adulto, não tem letra de primeira classe) ficou a minha letra até hoje. A desenhada foi-se.

Começa na segunda-feira. Estive lá ontem. A sala fica ao lado do sítio onde passou dois anos de jardim de infância durante os quais sempre teve a ambição de ir brincar para a primária. Não quis entrar em lado nenhum nem cumprimentar ninguém. Admitiu que estava a ficar nervoso. Isso é bom, reconhecer o que sente em vez de engolir ou fazer de conta que se é muito forte e que nada nos afeta, dizer "eu já sou grande" e pensar que se pode conquistar o mundo. Dizer que se está nervoso não é ser picuinhas. É ser verdadeiro. E identificar o que se sente: perceber que este friozinho na barriga são nervos, este aperto no coração quando se pensa nisso, são nervos. Vão voltar muitas vezes ao longo da vida. Eu também tenho, e sim, é por causa da primária. Não tem mal nenhum. A partir do momento em que sabemos como estamos, o resto vai-se fazendo e construindo todos os dias.

Estas crianças fazem de nós gente mais rija, nem eu sei bem quanto. Não são só os choros, também são os banhinhos em casa de banho ou quarto bem quentinho, seres que não se podem largar logo enquanto se lavam, quando conseguem virar-se, quando rebolam na cama, quando se começam a sentar mas ainda não ficam estáveis, quando começam a gatinhar e a andar aos tropeções e quando começam a correr e... nunca mais, na verdade. Mas este salto de cinco anos (no meu caso) trouxe-me de volta umas férias em que voltei a conseguir usufruir da praia. Sim, estive esticada na toalha umas horas, cheguei a passar pelas brasas, fiz caminhadas, não passei todo o tempo com as mãos na areia a construir castelos e escavar buracos, ou dentro de água gelada a tentar fazer de conta que me estava a divertir. Também saltei de dunas sem saber como, que quando era mais nada era pouco dada a este tipo de arrojos e atividades físicas, e defendi três penaltis num jogo de futebol em que fui guarda-redes. Também marquei um golo na cara do miúdo, mas não foi nada de grave. Se envelhecer também é isto, envelhecer é bom. 

As nossas feições mudam, o amor pelos filhos cresce

A minha cara mudou. Não foi por ter engordado ou emagrecido. Mudou. Estou mais velha. Não, não estou a dizer que estou velha. Apenas mais velha. Fora certas maleitas físicas, como às vezes parecer que tenho joanetes, a pele mais seca, algumas rugas, muitas brancas ou dores nas costas e conversas com pessoas da mesma idade sobre o assunto, até acho que mais velha é bom. Mas olho para fotografias minhas de há cinco anos e para as de agora e vejo a mudança. E reparem que referi fotografias antigas e atuais. Olhar-me ao espelho tornou-se um exercício um pouco estranho, como se visse o que lá está mas não me visse. Não visse o diferente, o que mudou, o que não volta atrás. Em cinco anos mudou tudo. Pode ter sido porque foram cinco anos cruciais, os que vão dos 30 aos 35, mais coisa menos coisa (estou um bocado baralhada porque sei que fiz 37 há uns dias mas as velas diziam 32). Mas eu acredito que não é a idade que nos muda. Pelo menos não assim tanto, não em tão pouco tempo. 

O que nos muda, também as feições, é a vida. Mudou muito na minha vida nos últimos cinco anos, mas a maior mudança de todas não foi na cara. Tive um filho. Sempre quis. Até queria dois ou três. Também quis ser princesa. Passou-me. A vontade dos filhos não. Também não sei se são as hormonas se é a sociedade que nos incute desde cedo esta coisa de querer ser mãe. Sei que não fazia a mínima ideia do que era ter um filho, que caí na grande ratoeira da maternidade romanceada, mas também sei com todas as forças que me estou a borrifar para o sítio de onde veio a vontade, porque tê-lo foi a melhor coisa do mundo. Sim, com todas as noites mal dormidas, todas as cólicas, todos os choros (berreiros, que aquela criança tem bons pulmões), todas as birras. 

Tive medo muitas vezes. Paralisei algumas. Quando ele se queimou na mão em vésperas de fazer 3 anos. Quando, há uns tempos, raspou a parte de baixo dos dedos de um pé num azulejo partido. Quando ficou com febre das primeiras vezes. Quando, de repente, desatou aos gritos de dor por causa dos pulmões que, no dia anterior, o hospital dizia que estavam bem. Quando o deixei na creche no primeiro dia. Quando o fui buscar à creche no primeiro dia. E agora ele vai para a escola e eu estou cheia de medo. De não o conseguir ajudar com os trabalhos de casa. Mas agora sei que vai tudo correr bem, que faremos o melhor que pudermos.

Ontem ficaste outra vez sozinho com a avó e já foste capaz de esboçar umas lágrimas nos olhos por nos saberes de regresso ao Porto. Estás crescido. No ano passado ficavas nervoso, birrento, sabíamos o que era, tu nem por isso, apenas que não estavas bem, que algo te incomodava. "Eu sei que vocês gostam de mim, mas eu tenho saudades". Pois tens, nós também, é normal. És um valente, até por seres capaz de falar nisso. Daqui a uma semana temos mais não sei quantas semanas para nós. E se estiver vento na praia, faremos a nossa praia, mergulharemos na nossa piscina, faremos lanches e piqueniques e vamos até onde for preciso para te ver sorrir. E rir muito também. Até estarmos tão cansados que adormecemos de mão dada. 

Umas sapatilhas e um jardim feito por nós para festejar os 37

Ele percebeu que eu queria umas sapatilhas novas, apesar das dicas que fui deixando na Internet sobre umas jóias muito giras que ando a namorar. Gosto de desconfiar que ele passou na loja e estava fechada. Se calhar estou enganada. Mas umas sapatilhas fazem muito mais falta do que um colar ou um anel e se é de sapatilhas que eu gosto, se é isso que eu uso mesmo e que, de certeza, não deixarei apodrecer no armário, então é isso que eu devo receber pelo aniversário, ainda que seja mais de uma semana antes do chegar aos 37. Fui eu que as escolhi mas não tenho problema nenhum com isso. São um modelo masculino, aliás. As femininas eram demasiado cor-de-rosa, azul bebé e já não havia tamanhos que me servissem. De qualquer modo era a prateleira do outro lado que me seduzia. "Qual é o número mais pequeno que tem?" "Traga, vou experimentar". Amor à primeira vista. Um número acima do meu, mas não se nota, acho eu. E fiquei a saber que o mesmo número dos modelos femininos é maior do que o dos modelos masculinos. Não faz muito sentido, mas deve ser daquelas coisas em que homens e mulheres são diferentes. A mim, tanto me dá, trouxe as sapatilhas de que gostava e há um ano seria incapaz de comprar ou receber qualquer coisa que não fosse preta ou cinzenta ou lisa, o que significa que algo importante mudou em mim. Não é fútil falar nisto, pelo simples facto de que o que mudou em mim foi por dentro. Descontraí-me. Isso é importante para quem está sempre tensa. Despreocupei-me com o que podem pensar. Isso é importante para quem se preocupa com isso. Segui os meus instintos, escolhi o que gosto e não o que pode ser mais fácil de combinar porque é mais neutro e não sai fora do preto/cinzento/azul marinho da minha zona de conforto. Estas coisas importam. Não são mudanças de visual. São mudanças interiores. Se a podia fazer sem umas sapatilhas? Podia, mas desde a adolescência que nos afirmamos pelo que vestimos. Em todo o caso, não foi por isso que o fiz. foi porque quis, não tenho mais nada a explicar.

O mais bonito disto tudo é que a minha verdadeira prenda de aniversário é o jardim que sempre quis. Só não tem baloiços porque já não tenho idade para isso. Ou talvez tenha. Mas não deu tempo para esse detalhe. Tem o jardim, que é o que eu queria. Foi-se o matagal, tenho um jardim com relva (não te iludas, hei de conseguir tirar dali as ervas daninhas, ou pelo menos não vou desistir para já), e flores, e hei-de ter árvores. E, porque o meu filho decidiu, vou ter uma festa de anos para inaugurar o jardim. Quem nunca teve um e sempre o quis tem de ceder. Eu nem queria grandes festas. Mas temos um jardim para apresentar ao mundo, para celebrar. Foi feito à custa do nosso suor. Sobretudo do suor de quem ainda me quis oferecer as sapatilhas. Eu vi o trabalho todo, também dei cabo de mim a cavar e a plantar, ainda que ele achasse que fiz tudo da maneira mais difícil e menos prática. Fiz como soube, até não poder fazer mais. Todas as segundas-feiras o corpo acusava o cansaço e a cabeça começava a desenhar o que seria preciso fazer no fim de semana seguinte. Agora temos de fazer a festa.   

O miúdo vai para a primária, socorro, acho que já sou adulta

O nome dele está na lista há já há umas semanas e foi uma alegria. Entra com cinco anos no 1º ano do 1º ciclo. A professora recomendou, que seria um desperdício mais um ano no pré-escolar. Não meti nenhuma cunha. Faz anos em novembro, a escola pública onde o inscrevi foi a mesma onde frequentou o infantário e tinha vaga. Pelo que percebi, até tinha vaga para mais. 

Por isso, ele acaba por entrar na primária no mesmo ano em que os filhos de todos os meus amigos - e quase todos nasceram um ano ou alguns meses antes dele. Ele anda todo entusiasmado. Depois de alguns incidentes de beyblades desaparecidos e empurrões e murros junto à primária, ficou proibido de andar nas imediações. O fascínio aumentou, claro. 

Ele não faz ideia do que o espera, mas não sei se algum de nós sabia. Quanto a mim, está a tornar-se assustador. Talvez apenas agora comece verdadeiramente a sentir-me adulta. Para lá de tudo o resto, agora tenho de ter um mínimo de competências para o ajudar a fazer trabalhos de casa. 

Ontem fui visitar o ATL e perguntei-lhe se sabia o que era isso. Disse que não. Expliquei-lhe. Estou quase certa de que não percebeu. Não insisti, que a criança entrou hoje de férias e ontem já me estava a dizer que a avó que foi professora primária, com quem vai passar parte do verão, vai ajudá-lo a fazer alguns trabalhos. Reivindiquei que só se fossem muito pouquinhos, que está de férias, que tem é de brincar. 

Quanto ao ATL, posso lá deixá-lo às 8h e ir buscá-lo às 19h. Agradeço a disponibilidade, o Estado (esse grande amigo) sabe que a malta precisa (porque foi assim que foi estruturando a sociedade, mas isso é o meu ponto de vista, porque, na verdade, a culpa é das mulheres que decidiram trabalhar e ter carreiras e sair tarde do emprego) e a ideia que tenho é que estes horários foram reivindicação de anos de muitos pais.

Mas, por muito que precisemos de trabalhar e de ganhar dinheiro para dar de comer às crianças e para a produtividade e o raio que os parta... nenhuma criança merece passar tanto tempo enfiada na escola. "Ajudamos a fazer os trabalhos de casa [por acaso até agradeço] e depois temos várias atividades [sim, sei, é como na pré, fazem uma lista a falar de expressão dramática, expressão musical e outras expressões diversas e depois só vejo desenhos e coisas do género; se ao menos lhes ensinassem música e inglês e teatro, isso sim, são formas de expressão...]". 

Depois dizem que os pais não se envolvem na escola, que não querem saber, que deixam tudo nas mãos dos professores. Há de haver muita gente que o faz erradamente, sem razão e pelos piores motivos, que podem ser apenas não perceber que os pais também tem de fazer trabalhos de casa. Mas, com estes horários, numa cidade grande, com o tempo que se demora no trânsito, ou os banhos e os jantares aparecem feitos por magia ou ninguém tem tempo para respirar. 

Foi-se o dinheiro, o esbanjamento, levam-nos o couro e o cabelo, voltam-se os discursos para algo a qualidade de vida, que é algo que parece não ter preço mas que é bastante valioso. Com estes horários (que fique claro, o problema não é o horário dos ATL, é o dos trabalhos dos pais), continuem à espera de famílias envolvidas, com qualidade de vida, e com vontade (e possibilidade) para terem mais filhos.

Não sei que dia é hoje, mas hoje sou a super mulher

Ainda hoje é quarta e já me parece sexta-feira. Pior do que isso, vou estar a trabalhar no fim de semana e a minha sexta-feira não vai ser sexta, vai ser quarta. Estou, portanto, muito pior do que parece. Já trabalhei 12 e 13 horas por dia mas, quando saía do trabalho (mesmo quando o fiz em casa) não tinha mais nada com que me preocupar. Não há leite? Amanhã compro. Ou depois. Quando der. Não há jantar? Não faz mal, desenrasca-se qualquer coisa (a maior parte das vezes atum e salmão fumado, tanto que cheguei a um ponto de enjoo). Há muita roupa para lavar? Não sei, nem reparei... E, depois, os filhos (o filho, neste caso), tanta roupa minúscula para lavar e passar a ferro, benditas fraldas descartáveis, a criança chora, toca a parar tudo, quero ir à casa de banho, ele não pára, preciso de tomar banho, ele não adormece... Depois tudo melhora mas ainda são precisos os jantares, mesmo que nos baldemos à sopa, mesmo que estejamos tão desesperados que só nos reste forças para uma pizza, e a atenção, e a brincadeira e o dorme, por favor, estamos todos cansados. Trabalhamos 10 horas e nada de sofá, disso sinto falta. Do resto já nem sei, nem me lembro bem, só não vou pelo atum e pelo salmão fumado todos os dias porque ele não gosta e, vá lá, tenho alguma consciência e sei que tenho de lhe dar uma alimentação variada, escusam de chamar já os serviços sociais. A roupa já quase não se passa a ferro, mas no verão é mais difícil, as t-shirts ficam mais à mostra, se estiverem muito engelhadas é capaz de se tornar demasiado óbvio. De resto é preciso aspirar e limpar o pó e arrumar, mas há muito mais vida para além disso. Ninguém vai fazer por mim, eu farei quando tiver disposição para isso (às vezes basta estar irritada ou chateada com alguma coisa, mas tem de ser uma neura específica, se não for essa já não consigo, afasto-me do cotão como se nada estivesse no chão, faço de conta que os móveis não têm pó, que o chão da cozinha não está a ficar nojento). O miúdo continua a deixar os brinquedos e os recortes e os cadernos e as canetas e as cadernetas espalhadas na sala, por mais que o abasteça de caixotes onde seja fácil enfiar tudo sem perder tempo com grandes arrumações. Mas, há umas duas ou três semanas que a tampa de uma das caixas serve de stand de automóveis e que a caixa lá está, vazia, e os brinquedos todos espalhados. Sim, podia ser mais persistente e insistente e resistente e irredutível, mas há mais vida para além disso, não tenho a minha casa como um museu, cada vez me faz mais confusão entrar em casas onde está tudo no sítio certo, onde parece que não vive ninguém. A maior parte das que conheço têm coisas fora do sítio, os mais estranhos objetos guardados nos mais inusitados locais, porque é ali que dá mais jeito, e se a casa é nossa, tem é de ser prática. Claro que, no meio do caos, desaparecem coisas por uns dias ou semanas ou meses. Ainda hoje a super-cola se escondeu sabe-se lá onde. Ninguém pegou nela, ninguém sabe dela, só pode ter sido a própria a pregar-nos uma partida. Por exemplo, tenho (tinha?) um relógio fantástico, insubstituível e com valor afetivo que anda desaparecido quase desde o dia da mudança para esta casa. Isso já foi quase há três anos, o desgraçado nunca mais deu ares da sua graça. Dou muito valor a quem trabalha o dia todo fora de casa e ainda chega a casa com capacidade para trabalhar o resto do tempo todo até se ir deitar, bem tarde, porque o trabalho de casa não é coisa que se despache como os trabalhos de casa da escola. Eu também trabalho quando chego a casa. Às vezes até faço o trabalho de casa ao mesmo tempo que o trabalho do trabalho. Mas para além dos jantares, das loiças e das roupas, não me sobra muito tempo para deixar todo o dia a casa a brilhar com os brinquedos arrumados e os casacos nos armários e os sapatos arrumados e tudo no sítio. Lamento, não sou a super-mulher, tolo de quem nos andou a fazer crer que era possível sermos sem ter empregada ou apoio familiar por perto. Ou melhor: tolo de quem nos fez crer que, não conseguir fazer tudo, sobretudo quando não se tem empregada e apoio familiar por perto, não faz de nós verdadeiras super-mulheres. Que às vezes não sabem bem em que dia da semana estão. Mas isso é porque têm muito em que pensar no turbilhão dos seus super-poderes.

Momento humilhante do dia

Foi ontem, ainda antes do corte de cabelo. Se calhar ajudou a decidir-me. Senti-me desbocada e um bocado velha. Pior do que quando a minha tia me mostrou uma saia que disse ter 30 anos e eu comentei que, então, a saia era da minha idade. Onde já vão os 30, mulher, estás a caminho dos 37, paraste no tempo? Voltando a ontem, tudo começou com uma pergunta: 
- "Quem era aquele menino mais alto que estava convosco no recreio? Era do ATL da primária?"
- "Qual menino?"
- "Aquele, mais alto, que estava com os meninos da primária. Estava a tomar conta deles, no ATL?"
- "Não"
- "Então quem é que estava?"
- "Hum?"
- "Ó filho, aquele rapaz (não disse, mas pensei: que parece ter 16 ou 18 anos), mais alto do que todos os outros meninos, não estava a tomar conta dos meninos do ATL?"
- "Ó mãe, aquilo era um adulto".

O senhor Pina

Eu voltei a ter vontade de ler e o meu filho aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por senhor Pina, descobriu a imaginação e a consciência. "Eu digo uma coisa e o meu cérebro repete. Ó experimenta".

Foi a melhor prenda dos últimos anos. Não ma deram a mim, foi ao meu filho. Coisa tão simples, um livro, para crianças, que comecei a ler em voz alta num dia em que estava constipada, num esforço tremendo para fazer as vozes, manter o ritmo e o tom certos, com a entoação necessária para que tudo se percebesse. Quando se lê em voz alta não se pode voltar atrás, reler, perceber melhor, ainda por cima quando se lê para uma criança, ao mínimo deslize ela distrai-se, ou começa a fazer muitas perguntas.

Valeram-me talvez todos os anos em que li muito, mesmo agora que quase deixei de ler, não sei bem por quê. Quer dizer, sei: fui mãe, tenho mil e uma tarefas por dia, quando a criança não está acordada eu tento dormir também, falta-me tempo livre, acontece, não serei a única. Faltou-me o tempo, a vontade, ou talvez me tenha faltado o livro certo. Porque este só o queria ler mais e mais, só queria que todos os livros fossem assim, há tanto tempo que não lia.

Chama-se "O Senhor Pina", o livro, foi escrito pelo Álvaro Magalhães, e editado em setembro de 2013, já depois da morte do Manuel António Pina. Conta a história dele, mas só um pouco, que o livro é pequeno e o Pina era tudo muito, muito escritor, muito imaginativo, muito pensador, muito portuense, muito inspirador. 

A história é para crianças e o meu filho está habituado a que lhe contemos uma história todas as noites, antes de se deitar. Mas foram sempre coisas mais simples, frases curtas, ideias mais ou menos feitas, o básico. Aquele livro não, exigia leitura atenta, não podia lê-lo a pensar noutra coisa, tinha de me concentrar para fazer as vozes, até misturava sorrisos e risos à medida que lia - não para forçar nada, apensa porque me estava mesmo a diverti. Talvez tenha sido o momento alto da minha inexistente arte expressiva e teatral, aquela leitura.

Até posso ter usado o tom perfeito, mas o mérito não foi meu, só pode ter sido dos dois, do Álvaro e do Pina. Lê-se o livro e está-se mesmo a ver o Pina aqui e ali, no Porto, no Convívio, na rotunda da Boavista, sempre atrasado, sempre à volta com as palavras. O miúdo entusiasmava-se a reconhecer os sítios do Porto que já conhece bem, ria-se, sorria, queria sempre saber mais. Aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por "senhor Pina" e descobriu a imaginação. Ou começou a ter consciência dela.

Uns tempos depois de acabarmos o livro, ao jantar, informou-me: "Sabes, eu digo uma coisa e o meu cérebro imita-me". E dizia a coisa e ficava calado, com o olhar de quem estava silenciosamente a repetir para si mesmo o que tinha dito em voz alta. Como se fossemos nós que o comandássemos e não o contrário. Às tantas é. "Eu digo e ele repete. Ó experimenta".

O melhor dia de sempre

Foi o melhor dia de sempre, disse ele. Logo de manhã, calor. Sim, hoje podes vestir calções e... sim, podes tirar a camisola e ficar em manga curta. Suprema alegria, andar de manga curta. E calções. Ó mãe, gosto muito de ti. Eu também, mesmo quando não te deixo andar de manga curta porque não está calor para isso. Olha, até vamos deixar a piscina com a água a aquecer, pode ser que à tarde dê para tomares banho cá fora. Hum, parece que arrefeceu, se calhar já não dá. Então vou encher o regador. Está bem. Um segundo depois a manga do casaco estava encharcada. Tira o casaco, põe a secar. Pronto, vamos regar. Mais dois segundos e vou dar com ele a regar os sapatos, era para tirar a terra, mãe, e agora as meias estão todas molhadas. Pois estão, tira as meias, olha, está tudo sujo, molhado e cheio de terra. Eu lavo na piscina, mãe. Está bem. Mais uns canteiros com água e , quando regresso, já era a o chapéu que estava cheio de água, pronto, olha, despe-te e vai para a água, mas se estiveres com frio tens de sair. Este é o melhor dia de sempre, dizia ele, encantado com aquele niquinho de água de uma piscina para bebés. Aproveito e lavo as sapatilhas para secarem ao sol, agora estou com frio, então sai e agora calças estes crocs, vamos ao lanche mãe e filho, corneto de chocolate e morangos, estava prometido. Se não quiseres mais gelado dás-me, está bem, mãe? Está. Vamos lá acabar de regar. Mãe, posso andar descalço? É melhor não, podes-te magoar, mas, caramba, eu também adorava andar descalça. Digo-lhe que é melhor calçar-se mas o problema dos crocs é que saem facilmente dos pés, eu também não insisto muito, a dada altura escorregou, caiu, choro dos grandes, magoou-se a sério, dá para perceber, mas não parece nada até eu descobrir um golpe entre os dedos. Está a sangrar, eu só não desmaio porque sou mãe dele e não posso. Temos de lavar o pé, aliás, tens de tomar um banho completo, se não te der banho já nunca mais te vou conseguir enfiar na banheira. Inspeciono o armário da casa de banho, adesivo há, betadine também, gaze não, toca a ir correr à vizinha pedir o que falta, não há como ter uma tia na casa ao lado. Ai, ai, ai, que dói muito, pois dói, já vai passar. Vamos lá fazer o curativo, ai, ai, ai, arde muito, pois arde, o pior já passou, vamos só por o adesivo, olha, não tem cola, este adesivo deve aqui estar há uns dez ou vinte anos, ficas aí a descansar que vou ver se a tia tem, claro que sim, não há como ter uma tia na casa ao lado. Agora anda devagar, mas qual quê, já estava tudo bem, voltaram os saltinhos, olha que cais, vê lá se te magoas, não andes aos saltos. Afinal não foi nada, ainda bem, ó mãe, vou-te ajudar a fazer o jantar, obrigada filho: tu és, todos os dias, o meu melhor dia de sempre.  

25 de Abril/40: Plantei uma camélia branca. Os cravos vermelhos trago-os ao peito todos os dias



No dia em que o 25 de Abril de 1974 fez 40 anos plantei uma camélia. Quando acordei (e acordei bastante cedo) já um supermercado me tinha enviado uma mensagem a avisar sobre uma promoção com um trocadilho parolo sobre as comemorações da Revolução dos Cravos. E ainda ofereciam um livro por cada criança. Obrigadinha, não quero, tenho de plantar uma camélia.
Não fui à Avenida, nem à Praça, nem andei com cravos vermelhos na mão neste 25 de Abril de 2014, 40 anos depois daquele que mudou o país, ainda que o país esteja agora a mudar para pior. Chama-se Liberdade, a camélia. É lamechas, eu sei. Mas daqui a 10, 20 ou 40 anos vou saber onde estava e o que fiz no 25A/40. Mais importante, o meu filho também. 

Passamos o dia à chuva (chuva a sério, não era chuvinha), a cavar, a carregar terra, a tentar relvar, a queimar erva (literalmente), a sujar, a limpar. Um jardim não se faz sozinho. Que hoje é o dia da liberdade ele já sabia. "Tenho o livro, do senhor Pina, não tenho, mãe?" Antes os meninos e as meninas não andavam na mesma escola, tinham um muro a separar - é disso que ele se lembra, foi isso que ele fixou. 

Eu sei que é aborrecido andar o dia todo de volta da terra, mas quando o jardim estiver pronto vamos dar-lhe mais valor porque fomos nós que o fizemos. O valor do trabalho foi a lição do 25 de Abril de 2014, agora dorme.

Na noite seguinte contei-lhe outra história, com as mesmas personagens (a minhoca, o caracol, o grilo, a galinha e mais uns quantos animais), que descrevia aproximadamente os acontecimentos daquele dia (pinturas dentro de casa, plantações cá fora, porque entretanto apareceram várias companheiras para a camélia, é o que dá plantar uma árvore). Dois dias seguidos com o mesmo tipo de relato, ele ri-se e percebe: "Ó mãe, eu sei que me estás a contar histórias que são verdade". Pois estou. 

Um dia explico-lhe que, para o dia da Liberdade chegar, também deu muito trabalho. Que evitar que ela fuja dá ainda mais. E também não se faz num dia. Por agora, o dia 25 de Abril de 2014 é o primeiro dia do resto da vida do nosso jardim e das nossas vidas. Os cravos vermelhos trago-os ao peito todos os dias (mas se os arranjar para os por no jardim também os planto).

A agitada vida do campo

Acordei com uma música indescritível ("eu quero tchu, eu quero tcha" foi o que ainda não me saiu da memória, nem vai sair tão cedo, colou-se), fruto da vizinhança de um pavilhão e de um campo de futebol. Eram 9h, não falha, havendo jogo há música, não escapas. Fora do quarto um gelo húmido, nem é preciso olhar lá para fora para perceber que choveu a noite toda, mas quando se espreita pela janela está pior do que parecia. Pequeno almoço, preciso de um café. A música continua, visto o kispo para fumar um cigarro na varanda, começo a ouvir o padre, era o início da missa, quando há festa a missa é como a música, transmite-se pelos altifalantes. Surreal. Não a missa em alta voz, que essa é prática ancestral na Páscoa e no Agosto da N. Sra. Assunção, mas a mistura, aquela música e o padre, salvou-o o apito do árbitro, que quando começa o jogo as canções param, com a missa não.
Isto passou-se em dois lugares (ia dizer freguesias, mas com a reorganização já não sei) diferentes, mas o vento estava muito forte, trazia a Avé Maria e o tcha ao mesmo tempo, depois voltou tudo ao normal, mas no campo o normal é bem mais agitado do que se pensa: Já tendes onde almoçar? Esperai, que levais duas tacinhas de arroz doce. Podemos passar aí depois de jantar? Nós vamos ver o hóquei, vindes connosco. Assim, sem interrogações, vindes e pronto, eu gosto assim, gente decidida, sem pruridos, delicadezas nem meias tintas, somos assim, vivemos assim, no Minho sê minhoto, quase galego.
Nós fomos, já tarde, estava lá toda a gente que conhecemos e que ainda não tínhamos visto, os tios e os primos, vários. Foi toda a gente ver o hóquei e ganhamos nós.
Há sempre o que fazer no campo, quanto mais não seja limpar a terra que trazemos da rua agarrada aos pés. Ou ver a chuva no meio daquele verde, ou sim, ir ao hóquei, da próxima vez talvez mais cedo.

2014? Encolhe a barriga, estica o peito

Leio balanços do ano, descrições da época de Natal que não tive tempo de fazer, e tinha muitas, todos os dias aquelas filas de carros, sempre a demorar o dobro para ir buscar o miúdo e levá-lo para casa quando era suposto ser tudo mais rápido e termos mais tempo para nós. Duas semanas de sufoco e passou, esfumou-se, ficou a felicidade dele, os sorrisos, os risos, as gargalhadas, os olhos brilhantes, das prendas, de estar connosco, de visitar a família. Só lhe falta ir ver a neve, ele que achava que no Natal nevava em todo o lado, são tão enganosos os filmes e desenhos animados natalícios. Isso é nos filmes, filho, aqui na nossa cidade não neva, quando pudermos vamos outra vez à serra. 

Constato, enquanto navego na Internet, que há mais balanços do ano que passou do que resoluções para o ano que há-de vir. Eu não gosto muito nem de uns nem de outros. Penso em 2013 e não me faltaria o que escrever, mas parece-me tudo demasiado pessoal, ou talvez não tenha nada de grandioso para contar. Sorri, sofri, cresci, como sempre, como todos. Promessas não faço, há muito. Fiz, durante demasiado tempo, e nunca correu bem. Os anos são o que são, os dias também. Sim, é uma luta, todos os dias, não se torna mais fácil porque decidimos que vai ser. Todas as coisas grandes da minha vida aconteceram quando menos esperava, ou quando já não as esperava. Talvez sejam apenas como as más: acontecem quando têm de acontecer, atacam de surpresa. 

E neste texto que nem queria escrever porque não saio dos lugares-comuns a única coisa que me ocorre dizer é que tenho de deixar de olhar para o armário sem oscilações entre o "não tenho nada para vestir" e o "não preciso de tudo aquilo que tenho". Tenho tudo o que preciso, essa é a questão. E que o que devia mesmo decidir era começar a andar de peito bem para a frente para manter o raio das costas direitas duma vez por todas.

Gulosa em recuperação

Não gosto de rabanadas, não gosto de bolo-rei, de frutos secos, de filhós, de bolinhos de abóbora, aletria provo a da minha avó só porque é Natal, leite creme também, nem sei se é típico da época mas ela costuma fazer e pode fazê-lo em qualquer altura do ano que é sempre delicioso. Os doces de Natal não são, definitivamente a minha onda e ainda assim lembro-me perfeitamente de Natais em que comi de tudo, só porque sim, porque é Natal, porque a mesa está posta e está sempre toda a gente a petiscar, tanto que quase se fica mal disposta e, passado o mal-estar, se sente necessidade de comer mais alguma coisinha outra vez, e depois à noite os bombons, que no a dada altura cheguei a ter verdadeiros bombardeamentos de chocolates. 

Não sei bem o que mudou em mim. Acho que deixei de comer por comer, só porque sim. Porque nem sequer me sabia bem. Se vou dar baldas e encher-me de calorias, então que seja por algo que verdadeiramente me faça feliz, e isso passa por charlotes de chocolate e sobremesas que envolvam leite condensado e natas. A verdadeira viragem terá acontecido no primeiro Natal do meu filho, que então tinha pouco mais de um mês e chorava tanto que mal consegui engolir o bacalhau. Nos Natais que se seguiram ele precisava de atenção e eu precisava de dormir. Quando dei por ela tinha perdido a vontade. De me encher de comida só porque sim. Para depois voltar a encher-me de mais comida por estar cheia de culpa. É uma parvoíce que só entende quem já por ela passou. Não faz sentido, mas é assim. Não é só no Natal, mas tendo em conta a tradição da família à volta da mesa e de todas as doçuras que envolvem a época, este é um período crítico. E não estou a criticar ninguém, apenas a desabafar.

A mim, a gula passou-me. Mas, mesmo quando me vejo ao espelho bem mais magra, mesmo quando, sem qualquer sacrifício, não como determinados doces simplesmente porque me apetece, mesmo que tenha roupa que me fica a nadar, mesmo que agora os cintos giros das lojas não me sirvam porque são demasiado grandes, não consigo achar que estou magra, ou que o problema desapareceu. Sou uma gorda em recuperação, talvez para o resto da vida. E o problema, atenção, não foi ter estado mais gorda, foi o que isso me fez sofrer. 

Profissional doméstica mas com verniz gel

Há nuances, claro, mas no essencial é sempre igual. O despertador toca, eu aninho-me à espera do próximo toque, arrasto-me para fora da cama, pego na roupa que escolhi de véspera, enfio a roupa, tomo o pequeno-almoço, o café e o cigarro são o único luxo (vício) de que não dispenso, muitas vezes estendo a roupa lavada de véspera, à noite, para poupar uns trocos, saio de casa a correr, ou para a fisioterapia (comecei esta semana, às 8h) ou para levar o miúdo à escola. Muitas vezes aproveito o tempo que me "sobra" antes de entrar no trabalho para ir à mercearia, à peixaria, à frutaria, ou ao supermercado. Nunca levo tudo o que falta, é tudo a correr, enfia tudo na mala carrancuda porque sei que vou ter de carregar tudo para casa ao fim da tarde, juntamente com a carteira, as mochilas, a bata, o guarda-chuva. E fica sempre a faltar alguma coisa, pode ser que amanhã dê para lá voltar, que raio de vida. Quando chego ao trabalho já venho com pelo menos duas horas de "trabalho" em cima, mas isso que importa, isso não é nada, o trabalho é que é trabalho, o resto são trocos, ninguém quer saber disso. Mas os trocos repetem-se à tarde, saio do trabalho e vou buscar o miúdo à escola para o levar a casa e isso implica dar duas voltas completas à rotunda da Boavista, no Porto. Quem conhece a rotunda sabe que dar duas voltas àquilo ao fim da tarde devia ser garantia de um lugar no céu. Chego a casa e é preciso alimentar a criança, que vem cheia de fome e pede os alimentos às pinguinhas, agora isto, agora aquilo, não podes comer mais que está quase na hora de jantar, vira e revira o jantar, põe roupa na máquina, tira roupa da máquina, põe e tira do estendal, passa a ferro se houver tempo para isso, às vezes vai só dobrado, sem ferro, que é mais rápido, de volta à comida outra vez, ponho a mesa, chamo o miúdo, já vou, não quero, afinal quero, perguntam-me como emagreço, eu digo que não faço nada, a verdade é que quando me sento à mesa já não tenho vontade de comer, as calças que comprei no verão já me estão largas, levanta a mesa, lava a loiça ou mete na máquina, entretanto foi preciso arrumar a que lá estava, limpa tudo, brinca, deita, dorme tu que agora vou eu que já não aguento mais. Li hoje uma investigadora a desvalorizar essa coisa de facilitar a vida às mães trabalhadoras, não tenho agora aqui o jornal para o citar, mas há vidas e vidas, cara senhora, e esta vida que aqui descrevo nem será das piores, eu sou só uma péssima mãe trabalhadora que tem a ousadia de se queixar, não, não tenho empregada, nem bimby, mas não lavo a roupa à mão e até tenho máquina de a secar, não, não gosto de cozinhar nem de fazer tudo sozinha, mas há vidas que têm de ser assim porque sim. Folgas? Tenho, como toda a gente, normalmente aproveito para fazer em casa o que não tive tempo de fazer durante a semana e, lamento, isso não é descanso. Não, nem sequer estou a dramatizar, porque até podia entrar pelo discurso de "se isto não é ser uma super mulher não sei o que é". Mas não, hoje esta conversa toda é só para dizer que vou estar a trabalhar no fim-de-semana e que, por isso, que se lixe hoje o jantar, a roupa, a louça, quando sair do trabalho vou pintar as unhas com verniz gel.

Adeus.



Tenho a casa cheia de balões de festa desde sexta-feira. "Mãe, já não há festa cá em casa", disse-me ele ontem quando chegámos. Pois não, filho. Mãe, não há festa. Pois não. Os balões, mãe, já não estamos em festa, ainda não tiramos os balões. Pois não. Deitamos os foguetes, fizemos a festa e entretanto fomos a um velório e a um funeral, voltamos e estava tudo como ficou, os balões pendurados, a mesa posta, brinquedos desfeitos, prendas por abrir, pedaços de prendas e de brinquedos antigos desaparecidos. Fizemos-te a festa e fomos. O avô morreu, sabes, já tinha 99 anos. "Já morreu?". Já. Mas agora vai para o céu e vai-se transformar numa estrelinha. A campainha começa a tocar, um amigo, dois amigos, três amigos, nem consegui contá-los, seriam para aí uns dez, a minha mãe diz que eram mais. Pareciam mais, é verdade. Malas feitas em cinco segundos, rissóis para o saco, consegui despachar mais de metade do segundo bolo de aniversário para uma festa que prometia, aqui vamos nós. 

Onde foste, mãe. Fui ver o avô. "E estava nas estrelas?". Estava. "E o que disse?". Disse para eu dar os parabéns dos 5 anos ao J. da ponte de Viana. Deitamo-nos os dois de mão dada, acho que foi por isso que adormeci rápido. 

Tinha 99 anos, o avô, morreu. Estamos à espera que acontecesse um dia destes, mas não estávamos preparados, nunca estamos. Não sei se é para a morte, para uma morte por velhice que se esperava a qualquer momento mas para a qual se sabia que não estaríamos nunca preparados. Não sei se é só isso ou a tristeza que vemos nos olhos dos outros, e nos nossos, quando arriscamos olhar-nos ao espelho. Ter uma família grande parece pior, somos muitos, muitos com olhos tristes, quase ninguém chora porque "nesta família os nossos homens são muito frios", tens razão, Liliana. Nós, as mulheres, sim, eu e tu, e a minha mãe, já a tia parece que chora para dentro, de vez em quando vê-se uma lágrima, que medo do que vai por dentro de uma mulher que dedicou a vida à família e ao pai e agora ficou sem ele. Que medo de um coração que não sabe, como os homens da família, deitar tudo cá para fora. 

Foi austero, magnânime, às tantas prepotente, mas generoso, um exemplo de resistência, vai abaixo mas volta, resiste, outra vez abaixo, mas aqui estou eu outra vez, nem que seja para estar para aqui. Trabalhador como nunca vi, acho que foram 70 anos, começou cedo, andou por aí descalço, aprendeu a fazer arcos em tijolo a ver fazer. Resistente, braços para baixo nunca, persistente, trabalhador, ter sorte dá muito trabalho, seus camelos, para fazer o que queremos e lutar contra os que nos atormentam é preciso saber gerir muito bem as coisas. Foste um avô cada vez melhor, cada vez mais doce, e tenho por ti um amor e uma admiração difícil de explicar. E agora saudade. Mas no fim, tudo se resume a teres sido um grande pai do enorme pai que já não tenho e o bisavô ternurento do J. da Ponte de Viana. 

PASSATEMPO: Ganha uma hora de limpezas grátis (INSTRUÇÕES ATUALIZADAS)


Se te oferecessem limpar a casa em apenas uma hora, de borla, o que dizias? Eu nem olhava para trás, gritava "é já!". 

Pois é precisamente isso que a Divine Shape te quer oferecer, numa parceria com a nova empresa Flash Limpezas, que inaugura o conceito "low-cost" na oferta de serviços de limpeza doméstica. Neste passatempo, damos-te a possibilidade de limparem a tua casa durante uma hora, sem teres de pagar nada.

O passatempo apenas é válido para tipologias até T3, nas áreas do Porto, Maia, Matosinhos, Valongo e Gondomar. Se moras numa destas zonas e estás mesmo, mesmo a precisar de alguém que te tire dos ombros o peso de uma limpeza, esquece o pó, o cotão e a casa de banho, porque a Flash Limpezas vai tratar disso.

Para participar no passatempo e ganhar uma hora de limpeza grátis, apenas tens de fazer o seguinte:
* Certifica-te de que a casa que queres que seja limpa fica na área de acção da Flash Limpezas: Porto, Maia, Matosinhos, Valongo e Gondomar. 
* Clica em Gosto na página do Facebook da Flash Limpezas (https://www.facebook.com/FlashLimpezas)
* Clica em Gosto na página do Facebook da Divine Shape (https://www.facebook.com/The.Divine.Shape)
* Partilha este post a anunciar o passatempo no teu Facebook, de forma pública. Quantas mais vezes o fizeres, mais hipóteses tens de ganhar. 
* Deixa um comentário no post do Facebook da página da Divine Shape em que for anunciado o passatempo. Isso servirá apenas para sabermos quem está a participar e fazermos o sorteio no final

O passatempo decorre até ao fim do dia 04 de novembro, à meia noite. O vencedor será escolhido por sorteio.

Para quem está a perguntar o que tem uma blogger de moda a ver com uma empresa de limpeza doméstica, a explicação é simples. Como já sabem, neste blog também falo da sobre a vida em geral (aqui, por exemplo), nomeadamente sobre as dificuldades que por vezes surgem em conciliar a vida profissional com a familiar. Para além disso, sou uma pessoa "normal", trabalho a tempo inteiro, tenho de gerir o blog, a família, o filho e a casa, a limpeza do lar fica muitas vezes para último plano no meio de tudo isto. Ou seja: eu adoraria vencer este passatempo. Como não posso participar, ofereço um mimo aos meus leitores. 

Para quem estiver interessado em contratar já os serviços da Flash Limpezas, fiquem a saber que 9 euros é o preço de uma hora para a realização da limpeza para manutenção da casa. O serviço pode ser feito de forma regular ou ocasional. Para tipologias superiores a T3, limpeza de vidros, limpeza profunda, engomadoria e outros serviços é preciso contatar a empresa para avaliar o orçamento (através dos números 966 085 225 / 917 423 242 ou do mail flashlimpezas@gmail.com)

Outono, sol e café

Bela manhã de domingo, outono de sol daqueles que apetece, ainda por cima mudou a hora, acordei às 9h mas na verdade eram 10h (prefiro fazer as contas assim, dormi mais uma hora é o que interessa). Tomo o pequeno-almoço, faço o nescafé da praxe desde que a Nespresso não é mais do que peça decorativa lá em casa. Mãe que se encontra a passar o fim-de-semana em casa da filha para tomar conta do neto enquanto a dita cuja trabalha prepara-se para sair porta fora com ar atordoado: "Vou tomar café!". Regressa depois de ter passado o tempo de ter tomado uns 20 cafés, ou mais, com o almoço, duas frigideiras porque as minhas estão estragadas e já não dão para nada e uma máquina de café, porque "a avó sem café não funciona". Nós também não. Agradecemos, claro. Muito. 

A sustentável leveza do campo

A cabeça pesada, as costas a doer, os pés apertados numas sandálias que não apertam mas que não as havaianas que usei nas últimas três semanas, o vestido que não é formal mas também não é de ir à praia ou de andar no campo, despreocupada com tudo, o cabelo despenteado escondido com um lenço, o sol a queimar-me a cara, o filho a saltar à minha volta, poder deixá-lo correr à vontade, a praia, as ervas para arrancar, a enxada, até isso parece fácil agora que regressei ao trabalho. É o que as férias têm de muito mau - o regresso. E o tempo que levamos a esquecer que as tivemos, coisa que deve acontecer entre amanhã e depois. 

Não sei se será bem das férias, se da vida que levamos na cidade, não sei se o ar por aqui é mais pesado, mas por aqui parece que me custa mais fazer as coisas. Levo comigo quilos - daqueles antigos, de pesar a fruta e os legumes - sempre que tenho de ir ao supermercado e à mercearia, tudo me custa, parece que tudo faz falta, vou porque preciso de duas coisas e trago 20, tal é o sacrifício de andar ali metida, confusão de carrinhos, de vozes, de músicas, de gente de ar cansado, de mim saturada e ar de enfado, a vontade de chegar depressa a casa. 

Se tivesse de ponderar os pós e os contras, dificilmente iria viver de vez para o campo. É o que sucede com a hipótese de ser "mãe a tempo inteiro". Tenho a certeza de que não me sobraria tempo, de que teria o dia todo ocupado, admiro imenso as mulheres que são, mas pesados todos os prós e os contras, acho que não conseguiria. Mas algo existe de errado nesta nossa vida em que parece que andamos sempre a correr, em que o tempo nunca chega para tudo, tanta roupa, tanta pose para nada. Cada vez mais gente se muda para o campo, a internet realmente permite que trabalhemos em praticamente qualquer lugar, a nostalgia que por aí abunda também está relacionada com isto, tanto andámos, tanto julgámos ser capazes de fazer que agora olhamos para trás e vemos as vantagens de ter a família por perto, nem que seja a buzinar-nos nos ouvidos. Poder deixar o miúdo e ir arejar, ir visitar o avô, dar atenção à avó, até suspirar porque as conversas não nos interessam, o tempo está assim e diz que amanhã vai mudar, mas aquelas nuvens mostram outra coisa, fulaninho que fez aquilo e aqueloutro, no meu tempo é que era, deixa o menino, ralha ao menino, ai que menino, parece que está sempre tudo e errado mas elas estão ali para ajudar, e ajudam muito.

Os mais velhos falam de tudo como se não falassem de nada. Nós complicamos. Falamos de nós, dos nossos projetos, das nossas ideias, das nossas ambições e frustrações. Sempre nós. No fundo talvez o mesmo vazio das conversas na soleira da porta, ai as costas que doem, a mim também e tenho 36, antes me doessem mais os braços de andar com a enxada nos braços, ao menos assim era justificado, e no fim aquele cansaço bom, os músculos moídos e doridos, cair na cama e não pensar em nada. Acordar no dia seguinte sem planos, apenas andando ao sabor da meteorologia e do que apetece, nada de compromissos, pensar apenas no imediato, apanhar as peras que já estão maduras, podar os ramos velhos, tomar banho de mangueira porque está calor, não ter decisões difíceis para tomar, a cabeça fresca sem precisar de apontar tudo no telemóvel para não esquecer, como se fosse o cérebro de um pardalito esquecido, andar sem pensar, apenas fazer.