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Espírito de Natal?



Uma das memórias que tenho do Natal é estar na salinha mínima da casa dos meus avós maternos, onde cabiam sofás, mesa de jantar e nós todos, sentados para comer bacalhau cozido, embora o que me interessasse fossem as toneladas de bolinhos de bacalhau da minha avó (não há iguais) que já tinha comido à socapa na cozinha. 

A mesa era redonda e muito pequena, mas tinha braseira e fazia muito frio, não havia outro sítio onde se pudesse estar. As janelas tinham umas cortinas castanhas e cor-de-laranja do mais retro que se possa imaginar (na altura eram só cortinas, a dada altura ate comecei a achá-las um bocado feias, mas que agora gostava de saber delas). O candeeiro, para além de também ser cor-de-laranja, era elástico e baixava e subia conforme necessidades e vontades (julgo que se terá estragado à custa de tanto puxão e brincadeira).

Depois do jantar, jogávamos ao rapa com pinhões e confetes de açúcar manhoso, Rapa, tira, deixa, põe. O meu avô materno ria imenso porque, sendo um enorme exemplo de bonomia e generosidade, era um grande apreciador da vida e da diversão - naquela noite, a folia passava por nos trocar as voltas com o jogo, satisfeito com a sua habilidade e com a nossa falta de visão. 

A ideia que tenho do meu pai, que trabalhava todos os dias, a qualquer hora, e a partir de determinada altura nem sequer tirava férias, encostava-se no sofá e dormitava. Ou apreciava-nos, não sei. Nunca sabemos os momentos que devemos apreciar porque vamos precisar deles mais tarde. O melhor mesmo é apreciá-los todos. 

Quanto às prendas, havia uma ou duas, mas só as víamos no dia seguinte, era o Pai Natal que as trazia, ou talvez fosse o Menino Jesus, e se nos tivéssemos portado bem. Ao lado da árvore estava sempre um envelope com uma nota e um Pai Natal de chocolate (obra do meu avô). E um embrulho. O embrulho. 

Era mais do que suficiente. Aquela alegria desmedida (daquela de causar borboletas na barriga) mais do que bastava, tremíamos de emoção ao desvendar o segredo daquele embrulho que, quase sempre, trazia exatamente aquilo que queríamos, a surpresa escolhida com muita ponderação depois de expurgar o que também gostaríamos de ter mas não era tão importante. Limitávamo-nos (quem tinha essa sorte) ao que nos fazia sonhar durante quase todo o ano porque no que sobrava dele (aniversários excluídos) não havia prendas (só roupa nova na Páscoa). 

Era mais do que suficiente, até porque já cheirava a cabrito e a bolinhos de bacalhau outra vez. 

Não havia na altura a sofreguidão da quantidade, do rasgar papel atrás de papel e correr para rasgar o seguinte até cair para o lado de cansaço, enquanto se insistia em tirar tudo das caixas quase blindadas, apertar e desapertar parafusos, não mexas, deixa-me acabar isto, desliga essa coisa barulhenta, que pilha de nervos, afinal não temos pilhas, pais e filhos desgastados já sem vontade de nada, que raio de Natal é isso? 

Nunca quis repetir isso com o meu filho mas há dias, em mais uma tentativa frustrada de lhe arrumar o quarto, constatei o que já desconfiava: todas as prendas oferecidas no Natal para serem "especiais" foram irrelevantes. Do que ele gosta é de mexer em papel. Cortar, desenhar os amigos, escrever cartas ("fazer correios"), transformar folhas em envelopes, fazer colagens em cima de colagens, inventar histórias e às vezes letras, escrever a sério e desenhar planos de cientistas loucos ou o jogo da Glória, porque feito por ele fica mais torto mas tem mais piada.

Não sou eu que o vou contrariar. A professora diz que ele não sabe pintar (e eu sei que ela tem razão) mas sabe outras coisas e não conheço pintores famosos por desenhar tudo perfeitinho dentro dos contornos com as cores supostamente certas. 

A questão preocupou-me porque pensei que o prejudicava na caligrafia. Não é o caso, Teve muito bom. "Muito Bom" a português, matemática e estudo do meio, em todos os quadradinhos em que era preciso colocar cruzinhas e "Muito Bom" na avaliação geral. Eu só quero que ele seja uma pessoa feliz, mas perceber que o trabalho que fazemos em casa também importa para o trabalho da escola é um orgulho inigualável.

Não o vou massacrar com as pinturas nem no gosto pelos desenhos animados, que nada me sabe melhor do que estar no sofá, embrulhada numa manta a ver televisão, isso sim, para mim é Natal, nem que agora seja a ver episódios repetidos de desenhos animados. Bolos não faço que não tenho jeito, nem sequer gosto dos doces de Natal, só não resisto ao leite creme (e talvez à aletria) da minha avó. Prefiro tudo o que tenha chocolate, leite condensado e natas e nisso o meu filho veio para me salvar. Quando ele tinha uns três anos, tentando antecipar o quase desastre do S. João em que não havia bolo para celebrar o aniversário do santo, enfiei-me no trânsito e na Tavi para desenrascar uma charlote (que delícia) e, em vez de cantar parabéns, ocorreu-me ser mais oportuno cantar uma canção de Natal. 

Tenho com esta época uma relação muito estranha. Acho que, em parte, é porque a minha familia nunca morou toda no mesmo sítio. A minha mãe é transmontana. O meu pai do Minho. No Natal é suposto estarmos todos juntos. Mas nunca estávamos. 

Depois, o meu pai morreu, a minha mãe morreu também quase toda, deixou de fazer árvore de Natal. As coisas nunca mais foram as mesmas em coisa nenhuma, no Natal também não. O meu avó materno também já não está lá para ensinar o jogo do rapa ao bisneto e a minha avó, que é um doce, ficou um nadinha mais amarga. Ficámos todos. Rapa, tira, deixa, põe. Já quase ninguém sabe o que isso é. 

Depois da minha maternidade, o problema agravou-se, porque nem sequer moro em nenhum dos locais onde reside a minha (nossa) família. É preciso tomar decisões, agradar a todos, ir a todo o lado, passar muito tempo no carro. Por isso, o meu Natal é a manhã do dia 25, quando estamos só nós os três, de pijama e ainda estremunhados, com o nosso barulho e o nosso silêncio, a desembrulhar duas ou três prendas, a admirar a alegria e o sorriso do miúdo. Rapa, tira, deixa... Deixa estar, é isto, assim está bom.

A intimidação só resulta com o medo. Nos piropos e não só.

A questão foi levantada pela Sílvia Silva a propósito de um comentário da Fernanda Câncio e eu vou já direta ao assunto: "não me chateies", "mete-te na tua vida" e  "vai-te foder, vai para o caralho" (a minha preferida) são as frases chave para despachar supostos "piropos" de homens que se acham engraçados.

Nem precisa de ser nada de muito grave. Este verão, fazia eu uma retemperadora caminhada na praia quando me cruzei com um pescador que se lembrou de me perguntar se não me apetecia correr. E se fosses apanhar conchinhas? Sabia que teria de me cruzar com ele outra vez no regresso mas o segredo (desta como de muitas coisas) é não ter medo. Não tive medo não apenas porque até nem foi um piropo ou comentário desagradável. Não tive medo porque deixei de ter medo.

Sim, eu, como a Sílvia, como muitas mulheres, fui várias vezes abordada na rua por homens desconhecidos com comentários humilhantes e frases e gestos degradantes, para não dizer pornográficos, sobretudo porque a alguns ouvi-os quando ainda era adolescente. Ouvi os disparates calada, envergonhada, com medo. Olhos no chão, a fugir sem correr. 

Agora não. Se não tivesse sido antes, tinha sido quando comecei a ter de explicar ao meu filho que o colega só vai deixar de o chatear no recreio quando perceber que ele não tem medo, não se incomoda, não quer saber. Que não, o zézinho não vai comprar nenhuma espada a sério para o atacar, se tivesse de a comprar já tinha comprado, os pais deles nem sequer lha dão, nas lojas não as vendem a crianças. Que o zézinho só quer que ele tenha medo e enquanto ele mostrar medo não o vai largar. 

Para mim, a história dos piropos tornou-se risível há quase dez anos, mais uma vez na praia, quando a angústia de ter ficado desempregada me tirava de casa para libertar a dor. Eu, que sempre me senti um patinho feio (apesar dos piropos - mas, para quem não sabem, os piropos e as palermices atiradas para o ar no meio da rua por desconhecidos são muito diferentes de elogios, para não dizer que são o oposto) caminhava a ver se me passava a raiva quando um engraçadinho correu para me apanhar e dizer: "Posso-te acompanhar?". Não. "Algum namoro que acabou mal?". Não. Apressei o passo e segui caminho. 

Devia ter-lhe dito: "Não, meu grande estúpido, fiquei desempregada, sabes o que isso é? Estou a sofrer com isso e vens-me para aqui falar em namoros frustrados?". Fui o caminho todo a pensar na ironia daquilo, ao mesmo tempo que lidava com a frustração de ter o passeio estragado e com o pânico de achar que ele me seguia,

Os piropos palermas podem ser mais inofensivos mas são um bocadinho como a violência doméstica: a intimidação só resulta se tivermos medo. 

"Ó papá, não quero ir para a escola, não quero!"

Segunda-feira, manhã tristonha de chuva a avisar que o verão que não chegou a ser acabou de vez, a fila de carros habitual no sítio do costume, começar a manhã a pensar quanto tempo por dia passo presa no trânsito, era tão bom que fosse tudo perto, sair de casa ir ali ao lado e já está, qualquer dia mudo-me para o campo, até já aprendi umas coisas sobre plantas e relva, mas nada que me permita ter um ordenado ao fim do mês, nada é assim tão fácil como queremos. Somos novos e sonhamos com a cidade, o movimento, a agitação, o frenesim, a infindável oferta de atividades de lazer e diversão e, de repente, só nos apetece andar com roupa velha a chafurdar no quintal, beber chá com bolo caseiro, ir ao vizinho pedir limões, deixar o carro parado dias a fio. 

Chegamos à escola a tempo do toque, de mais uma conversa através da rede, desta vez foi rápido, adeus, mãe, até logo. Mais à frente vira-se, procura-me com o olhar, mais um aceno, até logo. Fico, como sempre que posso, a observá-lo até chegar à fila meia desordenada que em três semanas aquelas quase 30 crianças de uma das três turmas do primeiro ciclo já aprenderam a fazer, a ver com quem conversa e se sorri ou parece triste. Ao meu lado começo a ouvir o choro, "ó papá, não quero ir, não quero". O pai do lado de fora da rede, a miúda do lado de dentro, desesperada, que não, não quero ir. Ele, paciente, lembrou-lhe a conversa que tiveram no carro, falou-lhe baixinho, tentou ir embora, ela virou costas a chorar mas olhou outra vez e ele ainda lá estava, chorou mais forte, ele teve de se afastar e virar costas, finalmente apareceu uma auxiliar que lhe deu a mão para a levar para dentro, a ela e a outro que também não saía do sítio, fora os outros que passaram com os olhos rasos de água. 

São difíceis, as segundas-feiras, para eles também. E eu ainda estou de coração apertado com o choro daquela criança. Podia ser a minha. E não há regra ou método ou lá o que lhe queiram chamar mais cruel do que virar costas com os filhos a chorar na escola, com base no "isto passa já" e no "mal os pais se vão embora eles calam-se". Não é bem assim. A menina continuou a chorar, já o pai tinha ido embora, dei com ele dentro do carro com o telemóvel na mão, acho que só não estava a chorar por mero acaso, tenho a impressão de que era isso que lhe apetecia, desabar, entrar pelo portão dentro, agarrar-se à filha e dar-lhe colo, mas há toda uma teoria que obriga os pais a não fazer o que querem, porque não se pode deixar os meninos fazer o mesmo. 

Sim, é verdade, não podemos deixar os nossos filhos fazerem o que lhes apetece, mandarem em nós e terem todas as vontades satisfeitas. Mas virar costas a um filho na escola com a criança a chorar é das coisas mais dolorosas que pode acontecer a um pai ou a uma mãe. O meu sempre gostou da escola, nunca disse que não queria ir, mas também começou sem ter sequer outra maneira de se expressar que não fosse o choro. Entrou na creche com quatro meses. Quando cheguei à tarde para o ir buscar, sem direito a redução de horário, continuava a chorar. Tinha estado a chorar o dia todo. Quanto mais me diziam que era normal, que os pais é que sofrem mais, que com o tempo passa, mais eu tinha vontade de chorar também e de sair dali a correr com ele para casa. Realmente passou, depois houve uma fase em que voltou a acontecer, depois passou. 

A caminho do carro, ainda antes de me cruzar com o pai da menina que não parava de chorar, ouço duas mães conversar sobre os trabalhos de casa:
- "Ai, eu num tenho paciência. Sabes o que ela quer? Que sejas tu a ensinar-lhe as coisas em casa.  Era o que faltava! Ainda bem que tenho a minha cunhada, elas é que fazem com ela"
- "Eu ainda tenho paciência, sabes, mas às vezes até me sinto mal, tenho de lhe bater"
- "Ai, a minha também leva, que ela não quer mesmo fazer aquilo".

Não me estou a sentir muito bem, talvez seja por ser segunda-feira e me faltar um café a sério. Vou tomá-lo e não, o aperto continua. Não gosto de ver e ouvir crianças a chorar de desespero, nem pais a ter de virar costas. Nem de pais que batem. De segundas-feiras e de filas de carros também não. 

Ó mãe, gosto de falar contigo, percebes?

No fim de semana, para além dos trabalhos de casa, o problema também era que "sabes, mãe, não sou feliz na escola, ninguém brinca comigo". Esse era até, dizia ele, o verdadeiro problema. Na altura tremi um bocado, mas duvidei outro tanto, devido a relatos anteriores de brincadeiras com os amigos que ficaram no infantário. Ele insistia que não, que não brincavam com ele. 

Mas ontem falou nos colegas da turma do primeiro ano, e até fiquei a saber que a menina que só fala francês até percebe o que ele diz. Aproveitámos a boleia para o estimular a umas aulas grátis, mas ele não alinhou, anda a aprender letras, querem agora que vá aprender francês, nem sei o que isso é, e ainda por cima com uma menina, estão tolos, estes meus pais, deve ele ter pensado. Na realidade, limitou-se a desvalorizar a insistência. Mas soube indicar também quem era a menina mais divertida e a mais tímida, percebi que sabia bem o nome delas e isso pacificou-me um bocado.

Ainda assim, hoje de manhã, cada um do seu lado da rede da escola à espera do toque de entrada, sugeri que fosse mais para junto da sala, para aproveitar aquele tempo para brincar, para estar mais com os meninos da sala. Ó mãe, mas eu gosto de ti. Depois de me derreter em segundos, ia dizer-lhe que também gostava dele, mas ele interrompeu-me porque tinha mais para explicar: "Gosto de conversar contigo, percebes?". Percebo. 

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola"


Há muito que deixei de ler artigos sobre coaching parental. Irritam-me, acho até que já escrevi por aqui que o começava a odiar. Quando falo em coaching parental falo em especialistas que, aqui e ali, são entrevistados ou chamados a dar opinião sobre determinados assuntos e parecem-me sempre demasiado cheios de certezas para uma realidade tão diversa como são as crianças. Pouco depois de eles nascerem, nós, os pais, já sabemos que eles são todos diferentes. Mesmo os pais de primeira viagem. E um bocadinho a seguir compreendemos, sem grandes dificuldades, que não há receitas mágicas para tratar do que quer que seja - dos choros, da fome, da falta de vontade de comer, das dores de dentes, dos sonos, das birras. Não adianta dizerem "quando os vossos filhos fizerem birra façam assim", se não é isso que resulta com os nossos, se até experimentamos e o resultado é pior do que o anterior. 

Os pais não sabem tudo, mas na minha opinião, este tipo de considerações apenas serve para nos deixar mais confusos, sobretudo quando eles são mais bebés e nós mais inseguros, para nos questionarmos ainda mais do que já o fazemos. Sim, acho que esta geração de pais pensa muito sobre os filhos. Na maior parte das vezes tem apenas um, por mais trabalho que tenha e por mais preocupações que ele dê, tem tempo para isso. 

Mas este texto não. Fez-me pensar. Como ele diz que as crianças têm de fazer. Nem sequer é a primeira vez que julgo ouvir ou ler o Eduardo Sá a dizer algo como a frase que fez título da notícia: "Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”. E nem foi isso que me fez parar. Foi sobretudo isto: "Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?"

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola". Duas semanas depois das aulas começarem, até eu, que sempre fui aluna aplicada, os odeio e mantenho sérias dúvidas quanto à sua utilidade. 

O meu filho foi para a escola este ano. Ainda está a adaptar-se. Não posso dizer que o esteja a fazer nem bem nem mal. Percebo que está ainda a encaixar-se num novo mundo e que há determinadas coisas de que não gosta, nomeadamente treinar sucessivas linhas de "i" minúsculos e maiúsculos, seguidos agora dos "u". Ainda falta o resto das vogais e todas as outras letras do alfabeto. Ele já deu conta disso e tentou fazer as contas ao que ainda tinha pela frente. Tentei distraí-lo, dizer-lhe que desenhar letras cada vez se ia tornando mais fácil. Mas fazer os trabalhos de casa com os "u" foi bem mais difícil que o primeiro fim-de-semana de trabalhos de casa com os "i". Na sexta ele disse-me que "era o melhor a fazer os 'u'". Fiquei feliz, claro. E convencê-lo a repetir aquelas letras vezes e vezes sem fim? Ele de cabeça apoiada num dos braços, eu a dizer que o outro braço tem de segurar o papel, "mas assim cai-me a cabeça", "estou muito cansado", "estou cheio de fome", "doi-me o braço", "não sei fazer isto", "nunca vou conseguir", "ainda não sei fazer bem", "ainda agora comecei a aprender" e muita choraminguice pelo meio. 

A dada altura pergunto qual é o problema, o verdadeiro problema. "Na verdade, mãe, não gosto muito da escola". Diz que é porque não tem amigos, o que não é bem verdade, e insisto na parte da aprendizagem, se está a gostar. Repete os queixumes, "não sou muito bom a fazer isto". Estocada final: "Não sou lá muito feliz na escola". De repente passa-me pela cabeça que devia mandá-lo para o infantário mais um ano, afinal só faz seis anos daqui a um mês, se calhar foi opção errada (e não, não foi finca pé dos pais, a educadora de infância assim recomendou que fizessemos). 

Apercebo-me, entretanto, que todos os jardins de infância por onde passou, incluíndo o público que faz parte da escola primária onde está, destacavam a importância deles não sairem de lá a saber ler ou escrever, que o mais importante era incentivá-los a pensar por eles, estimular-lhes a criatividade, a questionar, a fazer contas enquanto, precisamente, davam trocos aos pais nas feiras que organizavam para depois poderem ir à Casa da Música, ou a Serralves, ou ao Jardim Zoológico.

Foi tudo muito bonito, mas agora ele vê-se enfiado num sistema de ensino completamente distinto, em que tem de repetir letras desenhadas infinitas vezes, tantas que até a mim me custa pensar. Da primeira vez, insisti para que fizesse perfeito, apagava com a borracha e dizia para fazer melhor, apagava outra vez, ele lá chegava, sem dificuldade, só era preciso querer. Agora questiono-me se tenho de estar eu a fazer aquele trabalho, se ele tem de aprender a fazer as letras perfeitas como eu fazia questão de as fazer, ou se não deve ter a sua própria letra. Não, não é perfecionista. Mas também, felizmente, não tem de ser igual a mim nem eu faço questão disso. Posto isto, o que é suposto eu fazer em casa? Massacrá-lo quando ele quer fazer tudo menos aquilo, quando já passa tantas horas na escola, quando os dias de semana são passados a correr porque é preciso ir buscá-lo, enfrentar o trânsito, chegar a casa, pousar sacos, tirar a pasta dos deveres, convencê-lo que é isso que vai fazer primeiro. 

Lá está, dizer que seria muito melhor deixá-los brincar primeiro, como recomenda o Eduardo Sá, faz todo o sentido, mas se eu deixar o meu filho fazer isso, ele não vai querer parar de brincar, vai-se rebolar no chão, chorar, fazer birra e pronto, lá está, chegamos ao ponto em que parece que eu é que não sou boa mãe, porque ele não faz o que eu mando, e as coisas não são assim tão simples.


Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?

O Eduardo Sá também diz: "Mais tempo de escola não é, obrigatoriamente, melhor tempo. Pelo contrário, as crianças precisam de muito mais tempo de recreio. Crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos. Temos de perceber o que queremos, efetivamente, da escola. Se queremos, ou não, uma linha de jovens tecnocratas de sucesso. Acho ótimo que possamos ir por aí, mas jovens assim não são pessoas singulares, são produtos normalizados. E era muito bom que as pessoas percebessem que aquilo que se fala aí pomposamente como mercado vai escolher as pessoas singulares, criativas".

Eu até concordo, mas não sou eu que mando no sistema educativo, no que se ensina na escola, já me basta ter andado às voltas com um ATL que o deixou perdido no recreio no primeiro dia, com uma mãe que se ofereceu para mo encaminhar para a sala e, dois dias depois, confessou que não o fez e que se cruzou com ele no momento em que chovia torrencialmente e ele (pelo menos isso) se resguardou à entrada da escola, no hall exterior coberto do infantário, onde ninguém do ATL ou da escola o conseguia ver, nem com telescópio, nem com binóculos. Isto para não questionar por que motivo ninguém no ATL olhou para a lista que tinha o nome dele e o foi procurar, nem para mencionar o dia em que o encontrei à beira do choro (porque se tinha magoado enquanto baloiçava entre duas secretárias, disse a auxiliar), ao mesmo tempo que meninos e meninas mais velhas gritavam, saltavam entre cadeiras e secretárias, batiam com livros e gritavam histericamente. 

"Continuamos a favorecer um sistema educativo que premeia fundamentalmente os miúdos que repetem aos que recriam. É um bocado esquizofrénico, quase, porque nós castigamos os que copiam e premiamos os que repetem como se as duas coisas não fossem faces de uma mesma moeda". Pois é, mas como é que se muda isso, quando ainda é preciso mudar tanta coisa primeiro?

Professora, yes I am

Paciente, persistente, insistente, o tom foi de incentivo e firmeza. Para cima, para baixo juntinho, chega ao fim da linha e voltinha - é assim que se faz um "i" minúsculo manuscrito. Nem eu sabia. Sabia fazê-lo, mas não descrever como se fazia. Eram os trabalhos de casa para o fim de semana, é a primeira letra a aprender, ele começou a fazer e não sabiam bem, percebi como tinha de descrever o processo para sair tudo certo, os últimos já ficaram direitinhos. Na data, fui intransigente: os números não ficam encavalitados uns em cima dos outros, é ao lado. Está mal, não é assim, apaga, faz outra vez. "Nunca vou conseguir". Isso é expressão proibida, não quero que digas isso, quero que digas "vou tentar". Ele tentou. Uma e outra vez. E mais outra. Foi o mais difícil, explicar-lhe que os números se começam a escrever ao lado do anterior, e não por cima. Ficava tudo encavalitado, deixou de ficar. Desconfio que vai voltar a ficar, se lhe pedir para fazer outra vez. Mas com o tempo muda. 

Nunca quis ser professora. A minha mãe era, eu achei que não tinha jeito, que não seria feliz com essa profissão, isto quando acreditava que, ao encontrar a minha verdadeira vocação, tinha a satisfação e realização pessoal e profissional garantida. Podia ter escolhido outras profissões, ajeitava-me em várias áreas, da ciência às humanidades, mas os números cansavam-me, preferi desistir da arquitetura. Julgo que apenas se a tivesse seguido saberia se também a sentiria como vocação. A que escolhi sim, senti-a assim. Mas garantia de realização de tudo e mais alguma coisa não é, como nenhuma é, julgo eu. Quanto a lecionar, a julgar pelas confusões com os concursos (que já há uns 20 ou 30 anos angustiavam a minha mãe), não me parece que pudesse ter feito de mim alguém mais feliz, mas afinal tenho jeito. Ou então tenho jeito para ser mãe a ajudar a fazer os trabalhos de casa. Para já, o meu maior medo caiu por terra, é quase sempre assim, o que nos aflige por antecipação nem chega bem a acontecer, por norma até acontece outra coisa que não prevíamos e que (talvez precisamente por isso) dá bem mais trabalho a resolver e a pacificar-nos. 

Para cima, desce apertadinho, curva, pintinha. Perdi a conta às vezes, mas detetei as dificuldades e, enquanto ele desenhava a letra já sem indicações (aquilo deve ter-lhe ficado a martelar na cabeça, a determinado ponto não foi preciso dizer mais), preparei os trabalhos de casa para segunda-feira. Se não os trouxer da escola, faz os que eu já defini. Se trouxer, pode ser que faça os dois. Não quero que ele seja nenhum génio, nem sou nenhuma doida preocupada com as notas que ele vai ter daqui a 12 anos, o que mais me preocupa é que ele seja feliz, mas ele é desatento e trapalhão por preguiça, precisa de, nos bocadinhos em que é mesmo preciso, ter a cabeça concentrada no que está a fazer. Pelo caos que encontro no ATL não vou ter ali ajuda nenhuma, preciso de ser eu a fazer também o trabalho de casa. O tempo parece-me sempre pouco, nunca chega, mas há-de ficar um bocadinho elástico, com o tempo chego lá. 

Sonhos e inquietações. E problemas resolvidos durante o sono.

Não sei se é culpa da inquietação do início das aulas (parece-me tudo muito confuso, não sei se mais a mim do que a ele, mas ainda não me apetece descrever o que tem acontecido), mas anteontem, enquanto dormia, arranquei um dos lençóis da cama e atirei-o ao chão com a determinação de quem estava definitivamente a resolver um problema aflitivo que se prolongava há séculos. Só não sei qual era. Quando atirei o lençol ao chão com tanta firmeza tive noção de estar apenas a atirar um lençol ao chão. Sem motivo. Não quis saber. Deitei-me e voltei a adormecer.

Primeiro ano da escola? Que nervos (mas sem lanche ou atividades, ainda que mais velha e feliz)


Não me sinto a envelhecer, mas sim, é algo assustador: o miúdo já vai para a primária, trabalhos de casa, chegar mesmo a horas, preparar a mochila, convencê-lo de que a casa precisa de espaço as coisas da escola, arrumar brinquedos e material escolar de forma funcional numa casa que não cresce, não desesperar quando o que apetecer é deitar tudo ao lixo porque sabemos que aquilo se vai voltar contra nós (eles vão-se lembrar daquele brinquedo com que nunca brincaram, que andou sempre perdido, mas que sabem que sabem que têm e que um dia vão querer - e vão-nos pedir ajuda para procurar). 

Não vai ser fácil convencê-lo que não pode continuar a brincar em cima da mesa da sala, porque os horários vão ser mais apertados e continua a ser preciso fazer o jantar, comer, tomar banho, agilizar tudo, ter a certeza de que a mochila está pronta, se amanhã é dia de ginástica ou de música, procurar lápis e borrachas e peças de brinquedos debaixo do sofá quando já se está a morrer de sono. Ainda por cima, saber que os próximos quatro anos vão passar num instante e, qualquer dia, ele está um adolescente a dizer e fazer coisas muito parvas. Será pior do que as birras? Se calhar é apenas diferente. Mas nós já estivemos lá nas cólicas, nos choros com motivos que não conseguíamos desvendar, nas primeiras febres, nos vómitos, nas noites sem dormir porque está doente ou porque ainda não saiu da fase do "mama, arrota, muda a fralda, deita, tenta adormecer, voltar acordar para mais mama, arroto, fralda, e depois choro por coisa nenhuma". Bem soube o que fez quem inventou a tortura do sono, não deixar dormir não é coisa que se faça a ninguém, só quem por lá passou sabe a confusão que pode instalar-se nas nossas cabeças, passam-se anos e ainda estamos a tentar descobrir como conseguimos fazer tudo sem muitas asneiras. 

Começa na segunda-feira, mas na segunda-feira ainda não há lanche. O início do ano letivo está marcado há meses, a escola do meu filho inicia-se no último dia do período definido, mas a Câmara não se lembrou do lanche das crianças. Talvez terça e quarta também não haja, não se sabe (vá lá que não se esqueceu dos almoços). Os pais levam, é só um dia ou dois, ninguém se chateia. E nas outras escolas, também é assim? As atividades extra-curriculares, que este ano vão todas ser feitas depois do horário letivo (até às 16h), também ainda não começam para já. O que irá a escola (ou devia ser a Câmara?) fazer às crianças cujos pais só podem ir buscá-las às 17h15, a hora a que as tais atividades vão terminar durante o resto do ano (a partir do momento em que começarem, coisa que não se sabe quando pode acontecer). Para conciliar a vida profissional dos pais com o percurso escolar das crianças (ou vice-versa), não deviam estar asseguradas com elas atividades até às 17:30, pelo menos? É que a essa hora talvez eu conseguisse estar na escola para o ir buscar. 

Um quarto de hora mais cedo faz diferença, pode até fazer toda a diferença se for essa a hora a que saio do trabalho. "Ele pode ficar no recreio, mas sem vigilância. Quer dizer, se acontecer alguma coisa nós vamos ver, mas não estamos a tomar conta". Pois, uma criança que ainda não fez seis anos, no recreio, sozinho, à espera que o vão buscar depois de ver os colegas irem para casa ou para o ATL. Cenário fantástico. Mas é no recreio exterior?, pergunto. "É no recreio, a senhora conhece a escola?". Conheço, o recreio é na rua, se for desse que me está a falar ele ficará à chuva, nos dias em que chover, e no Porto não chove pouco. Matricule-se então a criança no ATL, e pague-se o dito cujo, o mês completo, por 15 minutos que seja, mais não sei quanto só pela inscrição. Veremos depois se se farão atividades de tempos livres depois das outras atividades (extra-curriculares?) ou só haverá apenas uma grande confusão de crianças cansadas a precisar e a querer ir para casa. Ainda há quem se questione sobre os motivos da quebra da natalidade. Não é preciso grande teoria. Basta ver a vida dos outros.    

Um dos meus receios, com a entrada na escola, nem é gerir horários. É uma angústia velha, já não me faz mossa. A minha aflição é não saber ajudar a fazer os trabalhos de casa. Há coisas de que já não me lembro. Coisas tão simples como a caligrafia, aquelas letras todas desenhadas que, por acaso, eu até fazia muito lindas. O tempo que eu demorei, anos mais tarde, a tentar tornar a minha letra menos infantil, mais cool, a tentar desviar-me o mais possível do que me tinham ensinado. As letras desenhadas são complicadas de fazer, demoram tempo. Pior do que isso, quando andamos no ciclo ou no secundário ficam completamente "out", são foleiras que se fartam, ninguém consegue passar por essa fase com essas letras sem levar com umas valentes bocas (um bocadinho daquilo a que agora se chama bullying, raio de língua, não se encontram traduções fiéis para determinadas palavras? design, por exemplo, tem o mesmo problema: não é desenho, é design). A tal letra que trabalhei enquanto estudava, essencialmente para tentar pertencer ao lote das miúdas fixes (a malta porreira tem letra de adulto, não tem letra de primeira classe) ficou a minha letra até hoje. A desenhada foi-se.

Começa na segunda-feira. Estive lá ontem. A sala fica ao lado do sítio onde passou dois anos de jardim de infância durante os quais sempre teve a ambição de ir brincar para a primária. Não quis entrar em lado nenhum nem cumprimentar ninguém. Admitiu que estava a ficar nervoso. Isso é bom, reconhecer o que sente em vez de engolir ou fazer de conta que se é muito forte e que nada nos afeta, dizer "eu já sou grande" e pensar que se pode conquistar o mundo. Dizer que se está nervoso não é ser picuinhas. É ser verdadeiro. E identificar o que se sente: perceber que este friozinho na barriga são nervos, este aperto no coração quando se pensa nisso, são nervos. Vão voltar muitas vezes ao longo da vida. Eu também tenho, e sim, é por causa da primária. Não tem mal nenhum. A partir do momento em que sabemos como estamos, o resto vai-se fazendo e construindo todos os dias.

Estas crianças fazem de nós gente mais rija, nem eu sei bem quanto. Não são só os choros, também são os banhinhos em casa de banho ou quarto bem quentinho, seres que não se podem largar logo enquanto se lavam, quando conseguem virar-se, quando rebolam na cama, quando se começam a sentar mas ainda não ficam estáveis, quando começam a gatinhar e a andar aos tropeções e quando começam a correr e... nunca mais, na verdade. Mas este salto de cinco anos (no meu caso) trouxe-me de volta umas férias em que voltei a conseguir usufruir da praia. Sim, estive esticada na toalha umas horas, cheguei a passar pelas brasas, fiz caminhadas, não passei todo o tempo com as mãos na areia a construir castelos e escavar buracos, ou dentro de água gelada a tentar fazer de conta que me estava a divertir. Também saltei de dunas sem saber como, que quando era mais nada era pouco dada a este tipo de arrojos e atividades físicas, e defendi três penaltis num jogo de futebol em que fui guarda-redes. Também marquei um golo na cara do miúdo, mas não foi nada de grave. Se envelhecer também é isto, envelhecer é bom. 

As nossas feições mudam, o amor pelos filhos cresce

A minha cara mudou. Não foi por ter engordado ou emagrecido. Mudou. Estou mais velha. Não, não estou a dizer que estou velha. Apenas mais velha. Fora certas maleitas físicas, como às vezes parecer que tenho joanetes, a pele mais seca, algumas rugas, muitas brancas ou dores nas costas e conversas com pessoas da mesma idade sobre o assunto, até acho que mais velha é bom. Mas olho para fotografias minhas de há cinco anos e para as de agora e vejo a mudança. E reparem que referi fotografias antigas e atuais. Olhar-me ao espelho tornou-se um exercício um pouco estranho, como se visse o que lá está mas não me visse. Não visse o diferente, o que mudou, o que não volta atrás. Em cinco anos mudou tudo. Pode ter sido porque foram cinco anos cruciais, os que vão dos 30 aos 35, mais coisa menos coisa (estou um bocado baralhada porque sei que fiz 37 há uns dias mas as velas diziam 32). Mas eu acredito que não é a idade que nos muda. Pelo menos não assim tanto, não em tão pouco tempo. 

O que nos muda, também as feições, é a vida. Mudou muito na minha vida nos últimos cinco anos, mas a maior mudança de todas não foi na cara. Tive um filho. Sempre quis. Até queria dois ou três. Também quis ser princesa. Passou-me. A vontade dos filhos não. Também não sei se são as hormonas se é a sociedade que nos incute desde cedo esta coisa de querer ser mãe. Sei que não fazia a mínima ideia do que era ter um filho, que caí na grande ratoeira da maternidade romanceada, mas também sei com todas as forças que me estou a borrifar para o sítio de onde veio a vontade, porque tê-lo foi a melhor coisa do mundo. Sim, com todas as noites mal dormidas, todas as cólicas, todos os choros (berreiros, que aquela criança tem bons pulmões), todas as birras. 

Tive medo muitas vezes. Paralisei algumas. Quando ele se queimou na mão em vésperas de fazer 3 anos. Quando, há uns tempos, raspou a parte de baixo dos dedos de um pé num azulejo partido. Quando ficou com febre das primeiras vezes. Quando, de repente, desatou aos gritos de dor por causa dos pulmões que, no dia anterior, o hospital dizia que estavam bem. Quando o deixei na creche no primeiro dia. Quando o fui buscar à creche no primeiro dia. E agora ele vai para a escola e eu estou cheia de medo. De não o conseguir ajudar com os trabalhos de casa. Mas agora sei que vai tudo correr bem, que faremos o melhor que pudermos.

Ontem ficaste outra vez sozinho com a avó e já foste capaz de esboçar umas lágrimas nos olhos por nos saberes de regresso ao Porto. Estás crescido. No ano passado ficavas nervoso, birrento, sabíamos o que era, tu nem por isso, apenas que não estavas bem, que algo te incomodava. "Eu sei que vocês gostam de mim, mas eu tenho saudades". Pois tens, nós também, é normal. És um valente, até por seres capaz de falar nisso. Daqui a uma semana temos mais não sei quantas semanas para nós. E se estiver vento na praia, faremos a nossa praia, mergulharemos na nossa piscina, faremos lanches e piqueniques e vamos até onde for preciso para te ver sorrir. E rir muito também. Até estarmos tão cansados que adormecemos de mão dada. 

Umas sapatilhas e um jardim feito por nós para festejar os 37

Ele percebeu que eu queria umas sapatilhas novas, apesar das dicas que fui deixando na Internet sobre umas jóias muito giras que ando a namorar. Gosto de desconfiar que ele passou na loja e estava fechada. Se calhar estou enganada. Mas umas sapatilhas fazem muito mais falta do que um colar ou um anel e se é de sapatilhas que eu gosto, se é isso que eu uso mesmo e que, de certeza, não deixarei apodrecer no armário, então é isso que eu devo receber pelo aniversário, ainda que seja mais de uma semana antes do chegar aos 37. Fui eu que as escolhi mas não tenho problema nenhum com isso. São um modelo masculino, aliás. As femininas eram demasiado cor-de-rosa, azul bebé e já não havia tamanhos que me servissem. De qualquer modo era a prateleira do outro lado que me seduzia. "Qual é o número mais pequeno que tem?" "Traga, vou experimentar". Amor à primeira vista. Um número acima do meu, mas não se nota, acho eu. E fiquei a saber que o mesmo número dos modelos femininos é maior do que o dos modelos masculinos. Não faz muito sentido, mas deve ser daquelas coisas em que homens e mulheres são diferentes. A mim, tanto me dá, trouxe as sapatilhas de que gostava e há um ano seria incapaz de comprar ou receber qualquer coisa que não fosse preta ou cinzenta ou lisa, o que significa que algo importante mudou em mim. Não é fútil falar nisto, pelo simples facto de que o que mudou em mim foi por dentro. Descontraí-me. Isso é importante para quem está sempre tensa. Despreocupei-me com o que podem pensar. Isso é importante para quem se preocupa com isso. Segui os meus instintos, escolhi o que gosto e não o que pode ser mais fácil de combinar porque é mais neutro e não sai fora do preto/cinzento/azul marinho da minha zona de conforto. Estas coisas importam. Não são mudanças de visual. São mudanças interiores. Se a podia fazer sem umas sapatilhas? Podia, mas desde a adolescência que nos afirmamos pelo que vestimos. Em todo o caso, não foi por isso que o fiz. foi porque quis, não tenho mais nada a explicar.

O mais bonito disto tudo é que a minha verdadeira prenda de aniversário é o jardim que sempre quis. Só não tem baloiços porque já não tenho idade para isso. Ou talvez tenha. Mas não deu tempo para esse detalhe. Tem o jardim, que é o que eu queria. Foi-se o matagal, tenho um jardim com relva (não te iludas, hei de conseguir tirar dali as ervas daninhas, ou pelo menos não vou desistir para já), e flores, e hei-de ter árvores. E, porque o meu filho decidiu, vou ter uma festa de anos para inaugurar o jardim. Quem nunca teve um e sempre o quis tem de ceder. Eu nem queria grandes festas. Mas temos um jardim para apresentar ao mundo, para celebrar. Foi feito à custa do nosso suor. Sobretudo do suor de quem ainda me quis oferecer as sapatilhas. Eu vi o trabalho todo, também dei cabo de mim a cavar e a plantar, ainda que ele achasse que fiz tudo da maneira mais difícil e menos prática. Fiz como soube, até não poder fazer mais. Todas as segundas-feiras o corpo acusava o cansaço e a cabeça começava a desenhar o que seria preciso fazer no fim de semana seguinte. Agora temos de fazer a festa.   

Coaching parental, acho que te odeio

Devo ter sido das mães de primeira viagem mais nabas de todos os tempos. Não li nada a não ser as diferentes fases da evolução da gravidez, não tive aulas pré-parto, não aprendi a acalmar as cólicas, acho que nem sabia que os bebés tinham disso. Se é que têm, porque uma vez, ainda eu não tinha recuperado de todo o choro, cansaço e exaustão do que era suposto serem as cólicas do meu, ouvi uma mãe cujo bebé chorava numa festa de anos alegar que as cólicas eram uma invenção. Ela não foi mais além, mas o que me pareceu que queria dizer era que as cólicas foram inventadas para justificar a inabilidade de certas mães - as outras, que não ela - para lidar com o choro dos bebés, ou seja, com os próprios bebés, com os próprios filhos.

Li muito pouco sobre as fases de crescimento e evolução dos bebés, nos primeiros meses nem ler consegui, tanto era o tempo que um bebé com muitas cólicas e muito choro me absorvia. Podia ter lido antes, mas para além de estar bastante preocupada a trabalhar como uma formiga freelancer para poupar para a licença de parto a que tinha direito como se apenas ganhasse o salário mínimo, achei que as coisas se resolviam de outra maneira. Pensava eu que o mimo, a paciência e o colo eram o remédio de todos os males. De certa forma são. Eu não contava era com o cansaço, as noites sem dormir, o acordar de duas em duas horas, o quase não ter tempo para tomar banho ou para comer. A dada altura, a exaustão dá cabo de tudo o resto. Não há quem aguente dar mimo, colo e ter paciência quando está em privação de sono. 

Eu não li nada, mas leram por mim. A única coisa que registei de todo um livro sobre como lidar com um recém-nascido é que, se o embrulhassemos numa mantinha de determinada maneira, ele acalmava. Ainda hoje acho que foi sorte. Umas vezes acalmava, outras não. O mesmo com os remédios anti-cólicas: a dada altura já não sabia se faziam efeito, mas não conseguia deixar de lhos dar com medo que piorasse. Que seja, às vezes é preciso placebo para nos sentirmos mais calmos. E os outros pais de crianças da mesma idade que não, que dormiam, que os bebés eram muito calmos, não davam dores de cabeça a ninguém. Pois sim, uns tempos mais tarde, para aí aos nove meses (ou mais) do meu filho, quando o meu há muito já tinha passado a fase das cólicas e se tornava num bebé bem disposto e sossegado (nem os dentes deram muito trabalho, ao mesmo isso, bastaram-me as cólicas a partir do terceiro dia do nascimento), venho a saber que a tal criança super calma dos outros pais, com a mesma idade do meu, ainda era acalmada à custa daquele líquido cor-de-rosa/avermelhado doce. Não dava trabalho nenhum, não era? Fiquei a gostar muito pouco de pais perfeitos, para quem está tudo bem, cujas vidas são um paraíso desde que têm filhos. Há por aí muitas mães do Ruca. 

O meu filho tem cinco anos, quase seis, vai entrar em setembro na escola primária e, não parece, mas tenho algum medo. Algum. Parece-me normal. Não estou apavorada, não estou a achar que não saberei lidar com eventuais problemas e dificuldades, estou apenas com a consciência de que as coisas vão mudar, que ele está a ficar grande e eu também. 

Quase todos os dias passo os olhos por especialistas absolutamente surpreendentes sobre a existência das crianças, que dão conselhos que mudam a vida de não sei quantas famílias e hoje, domingo, começo o dia a ouvir uma psicóloga que escreveu mais um livro de coaching parental ou lá o que lhe queiram chamar. Não tenho nada contra psicólogos. Mas este tipo de livros já me fartam. Porque nenhum livro consegue chegar à especificidade de cada criança. E quem realmente precisa de ajuda só vai ficar mais confuso se comprar um livro destes para ler, ou se começar a ler vorazmente todos os artigos de opinião de pediatras que se multiplicam na internet e nas revistas. 

É o que eu acho, mas eu sou só uma das mães de primeira viagem mais nabas que já existiu. Ainda assim, tive todos os instintos que não se explicam, toda a cumplicidade, toda a habilidade para lidar com tudo o que vai surgindo ao longo de cinco anos de crescimento (mesmo com as cólicas, mesmo com as birras). Não sou nenhuma mãe especial. A única coisa que me torna diferente é que o meu filho chorou tanto, mas tanto, quando era bebé, e eu tentei tanto, mas tanto e sem sucesso nenhum sossegá-lo com sussurros e cantorias e miminhos ao ouvido que, quando ele volta àquele choro sonoro que deixa toda a gente aflita, eu mantenho-me calma, quase sempre não consigo dizer nada.  

Sou apenas mãe. Uma mãe que acha que somos melhores do que a sociedade nos quer fazer querer. Que tem tempo mesmo não tendo tempo, mesmo trabalhando fora de casa, mesmo chegando a casa exausta e a ter de continuar o trabalho no meio de roupas, loiça e refeições. Uma mãe que, de tanto lhe buzinarem aos ouvidos (o bebé chora tanto, deve ser isto, ou aquilo, não seria melhor...), percebeu cedo que muitos dos "problemas" são fases, passam sem fazermos nada por isso na maior parte dos casos. Quando não passam só porque sim, então trabalhemos para resolver a questão. Mas sem livros. 

O miúdo vai para a primária, socorro, acho que já sou adulta

O nome dele está na lista há já há umas semanas e foi uma alegria. Entra com cinco anos no 1º ano do 1º ciclo. A professora recomendou, que seria um desperdício mais um ano no pré-escolar. Não meti nenhuma cunha. Faz anos em novembro, a escola pública onde o inscrevi foi a mesma onde frequentou o infantário e tinha vaga. Pelo que percebi, até tinha vaga para mais. 

Por isso, ele acaba por entrar na primária no mesmo ano em que os filhos de todos os meus amigos - e quase todos nasceram um ano ou alguns meses antes dele. Ele anda todo entusiasmado. Depois de alguns incidentes de beyblades desaparecidos e empurrões e murros junto à primária, ficou proibido de andar nas imediações. O fascínio aumentou, claro. 

Ele não faz ideia do que o espera, mas não sei se algum de nós sabia. Quanto a mim, está a tornar-se assustador. Talvez apenas agora comece verdadeiramente a sentir-me adulta. Para lá de tudo o resto, agora tenho de ter um mínimo de competências para o ajudar a fazer trabalhos de casa. 

Ontem fui visitar o ATL e perguntei-lhe se sabia o que era isso. Disse que não. Expliquei-lhe. Estou quase certa de que não percebeu. Não insisti, que a criança entrou hoje de férias e ontem já me estava a dizer que a avó que foi professora primária, com quem vai passar parte do verão, vai ajudá-lo a fazer alguns trabalhos. Reivindiquei que só se fossem muito pouquinhos, que está de férias, que tem é de brincar. 

Quanto ao ATL, posso lá deixá-lo às 8h e ir buscá-lo às 19h. Agradeço a disponibilidade, o Estado (esse grande amigo) sabe que a malta precisa (porque foi assim que foi estruturando a sociedade, mas isso é o meu ponto de vista, porque, na verdade, a culpa é das mulheres que decidiram trabalhar e ter carreiras e sair tarde do emprego) e a ideia que tenho é que estes horários foram reivindicação de anos de muitos pais.

Mas, por muito que precisemos de trabalhar e de ganhar dinheiro para dar de comer às crianças e para a produtividade e o raio que os parta... nenhuma criança merece passar tanto tempo enfiada na escola. "Ajudamos a fazer os trabalhos de casa [por acaso até agradeço] e depois temos várias atividades [sim, sei, é como na pré, fazem uma lista a falar de expressão dramática, expressão musical e outras expressões diversas e depois só vejo desenhos e coisas do género; se ao menos lhes ensinassem música e inglês e teatro, isso sim, são formas de expressão...]". 

Depois dizem que os pais não se envolvem na escola, que não querem saber, que deixam tudo nas mãos dos professores. Há de haver muita gente que o faz erradamente, sem razão e pelos piores motivos, que podem ser apenas não perceber que os pais também tem de fazer trabalhos de casa. Mas, com estes horários, numa cidade grande, com o tempo que se demora no trânsito, ou os banhos e os jantares aparecem feitos por magia ou ninguém tem tempo para respirar. 

Foi-se o dinheiro, o esbanjamento, levam-nos o couro e o cabelo, voltam-se os discursos para algo a qualidade de vida, que é algo que parece não ter preço mas que é bastante valioso. Com estes horários (que fique claro, o problema não é o horário dos ATL, é o dos trabalhos dos pais), continuem à espera de famílias envolvidas, com qualidade de vida, e com vontade (e possibilidade) para terem mais filhos.

Não sei que dia é hoje, mas hoje sou a super mulher

Ainda hoje é quarta e já me parece sexta-feira. Pior do que isso, vou estar a trabalhar no fim de semana e a minha sexta-feira não vai ser sexta, vai ser quarta. Estou, portanto, muito pior do que parece. Já trabalhei 12 e 13 horas por dia mas, quando saía do trabalho (mesmo quando o fiz em casa) não tinha mais nada com que me preocupar. Não há leite? Amanhã compro. Ou depois. Quando der. Não há jantar? Não faz mal, desenrasca-se qualquer coisa (a maior parte das vezes atum e salmão fumado, tanto que cheguei a um ponto de enjoo). Há muita roupa para lavar? Não sei, nem reparei... E, depois, os filhos (o filho, neste caso), tanta roupa minúscula para lavar e passar a ferro, benditas fraldas descartáveis, a criança chora, toca a parar tudo, quero ir à casa de banho, ele não pára, preciso de tomar banho, ele não adormece... Depois tudo melhora mas ainda são precisos os jantares, mesmo que nos baldemos à sopa, mesmo que estejamos tão desesperados que só nos reste forças para uma pizza, e a atenção, e a brincadeira e o dorme, por favor, estamos todos cansados. Trabalhamos 10 horas e nada de sofá, disso sinto falta. Do resto já nem sei, nem me lembro bem, só não vou pelo atum e pelo salmão fumado todos os dias porque ele não gosta e, vá lá, tenho alguma consciência e sei que tenho de lhe dar uma alimentação variada, escusam de chamar já os serviços sociais. A roupa já quase não se passa a ferro, mas no verão é mais difícil, as t-shirts ficam mais à mostra, se estiverem muito engelhadas é capaz de se tornar demasiado óbvio. De resto é preciso aspirar e limpar o pó e arrumar, mas há muito mais vida para além disso. Ninguém vai fazer por mim, eu farei quando tiver disposição para isso (às vezes basta estar irritada ou chateada com alguma coisa, mas tem de ser uma neura específica, se não for essa já não consigo, afasto-me do cotão como se nada estivesse no chão, faço de conta que os móveis não têm pó, que o chão da cozinha não está a ficar nojento). O miúdo continua a deixar os brinquedos e os recortes e os cadernos e as canetas e as cadernetas espalhadas na sala, por mais que o abasteça de caixotes onde seja fácil enfiar tudo sem perder tempo com grandes arrumações. Mas, há umas duas ou três semanas que a tampa de uma das caixas serve de stand de automóveis e que a caixa lá está, vazia, e os brinquedos todos espalhados. Sim, podia ser mais persistente e insistente e resistente e irredutível, mas há mais vida para além disso, não tenho a minha casa como um museu, cada vez me faz mais confusão entrar em casas onde está tudo no sítio certo, onde parece que não vive ninguém. A maior parte das que conheço têm coisas fora do sítio, os mais estranhos objetos guardados nos mais inusitados locais, porque é ali que dá mais jeito, e se a casa é nossa, tem é de ser prática. Claro que, no meio do caos, desaparecem coisas por uns dias ou semanas ou meses. Ainda hoje a super-cola se escondeu sabe-se lá onde. Ninguém pegou nela, ninguém sabe dela, só pode ter sido a própria a pregar-nos uma partida. Por exemplo, tenho (tinha?) um relógio fantástico, insubstituível e com valor afetivo que anda desaparecido quase desde o dia da mudança para esta casa. Isso já foi quase há três anos, o desgraçado nunca mais deu ares da sua graça. Dou muito valor a quem trabalha o dia todo fora de casa e ainda chega a casa com capacidade para trabalhar o resto do tempo todo até se ir deitar, bem tarde, porque o trabalho de casa não é coisa que se despache como os trabalhos de casa da escola. Eu também trabalho quando chego a casa. Às vezes até faço o trabalho de casa ao mesmo tempo que o trabalho do trabalho. Mas para além dos jantares, das loiças e das roupas, não me sobra muito tempo para deixar todo o dia a casa a brilhar com os brinquedos arrumados e os casacos nos armários e os sapatos arrumados e tudo no sítio. Lamento, não sou a super-mulher, tolo de quem nos andou a fazer crer que era possível sermos sem ter empregada ou apoio familiar por perto. Ou melhor: tolo de quem nos fez crer que, não conseguir fazer tudo, sobretudo quando não se tem empregada e apoio familiar por perto, não faz de nós verdadeiras super-mulheres. Que às vezes não sabem bem em que dia da semana estão. Mas isso é porque têm muito em que pensar no turbilhão dos seus super-poderes.

Momento humilhante do dia

Foi ontem, ainda antes do corte de cabelo. Se calhar ajudou a decidir-me. Senti-me desbocada e um bocado velha. Pior do que quando a minha tia me mostrou uma saia que disse ter 30 anos e eu comentei que, então, a saia era da minha idade. Onde já vão os 30, mulher, estás a caminho dos 37, paraste no tempo? Voltando a ontem, tudo começou com uma pergunta: 
- "Quem era aquele menino mais alto que estava convosco no recreio? Era do ATL da primária?"
- "Qual menino?"
- "Aquele, mais alto, que estava com os meninos da primária. Estava a tomar conta deles, no ATL?"
- "Não"
- "Então quem é que estava?"
- "Hum?"
- "Ó filho, aquele rapaz (não disse, mas pensei: que parece ter 16 ou 18 anos), mais alto do que todos os outros meninos, não estava a tomar conta dos meninos do ATL?"
- "Ó mãe, aquilo era um adulto".

Saudades

De repente, tive saudades dos meus blogs anteriores (já nem me lembro do blog de alguns) e da Rititi, oh se vale a pena ler o mais recente post da Rititi! Ao ler tantas coisas que escrevi enquanto trabalhei a partir de casa, enquanto estive grávida e enquanto o meu filho foi bebé, também fiquei saudosa de uma certa ironia nos meus textos. Era tudo tão caótico que não podia ser doutra maneira. Tenho saudades disso, também.

O problema do Porto não é o trânsito, é o estacionamento

Os carros param em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e de riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Param onde calha desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso. E é por isso que grande parte das ruas de duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra até é uma chicane, e não é só à porta das escolas.

O Porto não tem um problema de trânsito, tem um problema de estacionamento. Em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Os carros param onde calha, desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso: é só um minutinho, tenho mesmo de descarregar estes vinte vidros com o carro parado no meio da rua, não faz mal, a malta é pacífica e espera, que remédio. 

À conta do "é só um minuto, nem sequer incomoda muito", grande parte das ruas do Porto com duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra é mais uma chicane: os automóveis estacionados onde não devem alternam entre o lado esquerdo e o direito da faixa de rodagem. Quem circula que ande aos ziguezagues, perdendo tempo a ficar constantemente preso atrás de carros mal estacionados, para mais à frente ser retido na faixa do lado.

Não me atirem com o argumento de que o problema são os paizinhos que só não estacionam os carros dentro da escola porque não podem. Também já pensei assim, até ter um filho na creche com quatro meses e precisar de deixar o carro mal estacionado porque não, não havia alternativa. Se podia ir de transporte público? Podia, mas a distância da paragem mais próxima era tanta que, em caso de chuva (coisa que, por acaso, nem sequer é rara no Porto) ou o molhava todo ou me molhava toda ou, quase de certeza, nos molhava aos dois. Transportar cadeirinhas ou carrinhos de bebé e demais acessórios não é lá muito compatível com o uso de guarda-chuva, não sei se sabem. A verdade é que podemos todos andar de transporte público, mesmo quem não tem filhos, não é? Nem percebo porque é que tanta gente continua a usar o carro. E a deixá-lo mal estacionado.

O problema não são os paizinhos, são as escolas do Porto e respetivas imediações: quando foram construídas não havia tantos carros e nunca ninguém se preocupou em tentar ajustar a situação à evolução dos tempos. E o problema não é, de todo, exclusivo das zonas escolares. Na rua da Boavista, por exemplo, há carros em segunda fila junto ao colégio, é verdade, mas também os há pelo resto da rua. E até é aí, mais abaixo, que as viaturas alternam a paragem entre o lado direito e o esquerdo da estrada, às vezes com um ou dois metros de distância. Ao menos arrumavam-se para o mesmo lado, sempre era mais fácil. 

Na rua do Almada não há nenhuma escola e os carros estacionam diariamente dos dois lados da rua, quando o aparcamento só é permitido num deles. Há, aliás, riscos amarelos bem visíveis do lado esquerdo e os carros estão lá parados todos os dias. Como estão onde mais calhar e for preciso. 

O problema do estacionamento junto às escolas existe e devia ser resolvido. Mas há muito mais quem estacione fora do sítio. O problema do Porto não é o trânsito, é muito mais a falta de estacionamento, que enerva quem precisa de parar o carro e não encontra onde, conduz ao estacionamento indevido, atrapalha a circulação, bloqueia quem quer passar e faz com que tudo na nossa vida de portuenses demore muito mais tempo do que a nossa felicidade merece. 

Duas lentes de contacto no mesmo olho (e um filho que me faz muito feliz)


Não, não me baralhei e coloquei num dos olhos a lente que devia ter posto no outro. Por razões que não interessa estar aqui a detalhar, mas que basicamente se resumem ao facto de apenas ver mal de um olho, só uso uma lente de contacto - no olho que vê mal. As minhas lentes são descartáveis de uso diário porque as outras me provocavam infeções constantes. A maior parte das vezes nem preciso de me lembrar de a tirar: a partir de determinada hora começa a incomodar-me, tiro-a bem antes de me ir deitar. Acontece que, no meio dos dias em que fazemos tantas coisas a correr, algumas rotinas escapam-nos. E ficamos certos de que as repetimos, como nos dias e semanas e meses anteriores. Ontem sai de casa e voltei de propósito porque me tinha esquecido de por a lente de contacto. Coloquei a lente e não fiquei a ver lá muito bem. Tirei, certifiquei-me de que estava do lado certo, voltei a por. O problema continuou: um peso nos olhos que atribuí ao sono, a visão estranha, o olhar baço. Resolvi tirá-la. Melhorou. Antes sem lente do que com a lente a incomodar-me. Hoje, enquanto tomava um duche no fim da aula de hidroginástica, pareceu-me sentir uma lente no olho. Tu não me digas?! Queres ver que tirei uma lente e tinha outra por baixo? Há dois dias? Fui confirmar: sim, realmente estava lá a lente. Que estupidez, mulher, andar com duas lentes sem te aperceberes de nada! Agora, enquanto escrevo, recordo-me que anteontem, a meio da tarde, tive de tirar a lente porque me estava a incomodar. Por isso não a tirei à noite. Não foi a pressa nem a rotina, lembrei-me que a tinha tirado durante a tarde. Constato, por isso, com uma certa preocupação, que andava com a mesma lente, que devia ser diária, desde segunda-feira. Hoje é quinta. As pessoas têm-me como alguém organizado, e de certa forma sou, ainda que de forma algo caótica. Arrumada já fui, muito, agora não. Organizada tento ser, para facilitar as tais rotinas de uma mãe trabalhadora que todos os dias tem de fazer o jantar, preparar o almoço para levar para o trabalho no dia seguinte, pensar no jantar do outro dia, lavar roupa, dobrar roupa (passar a ferro praticamente já passou à história), arrumar os sacos da natação do miúdo e da hidroginástica da própria, certificar-me que os acessórios necessários para isso vão estar secos no dia em que forem precisos, assinar papéis para a escola, dar atenção ao miúdo, ir ao supermercado, etc, etc, etc. Mas preferia não ser, acho que seria mais feliz se não fosse, a minha cabeça sempre se podia entreter com coisas mais interessantes, talvez tivesse tempo para ler, ou para rir, ou para não fazer nada. Mas quando não faço nada a minha cabeça lembra-me de que talvez seja melhor adiantar isto e aquilo, caso contrário depois a coisa complica-se. Não, não acho nada que seria mais feliz sem filhos (a revista Sábado publica hoje uma reportagem sobre como é paradisíaca a vida dos casais sem crianças, concluindo que são mais felizes por isso). Eu não seria mais feliz sem filhos, sem o meu filho. Admito que muita gente possa ser, não critico. Apenas digo que eu não. Muito provavelmente, até seria bastante infeliz por não o ter. Sobretudo agora que o tenho e sei o que é este amor. Dá trabalho? Abdicamos de algumas coisas? A dada altura pensamos que vamos dar em doidos? Muitas vezes só nos apetece estar sozinhos? Sim, mas pouco depois de estarmos sós chegam as saudades. Porque este é um amor sem igual. Isto tudo por causa de uma lente de contacto? Sim. Porque eu não sou tão organizada assim. E se não tivesse filhos e a tonelada de tarefas que tenho para fazer provavelmente também teria andado a sobrepor lentes de contacto durante três dias. 

O senhor Pina

Eu voltei a ter vontade de ler e o meu filho aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por senhor Pina, descobriu a imaginação e a consciência. "Eu digo uma coisa e o meu cérebro repete. Ó experimenta".

Foi a melhor prenda dos últimos anos. Não ma deram a mim, foi ao meu filho. Coisa tão simples, um livro, para crianças, que comecei a ler em voz alta num dia em que estava constipada, num esforço tremendo para fazer as vozes, manter o ritmo e o tom certos, com a entoação necessária para que tudo se percebesse. Quando se lê em voz alta não se pode voltar atrás, reler, perceber melhor, ainda por cima quando se lê para uma criança, ao mínimo deslize ela distrai-se, ou começa a fazer muitas perguntas.

Valeram-me talvez todos os anos em que li muito, mesmo agora que quase deixei de ler, não sei bem por quê. Quer dizer, sei: fui mãe, tenho mil e uma tarefas por dia, quando a criança não está acordada eu tento dormir também, falta-me tempo livre, acontece, não serei a única. Faltou-me o tempo, a vontade, ou talvez me tenha faltado o livro certo. Porque este só o queria ler mais e mais, só queria que todos os livros fossem assim, há tanto tempo que não lia.

Chama-se "O Senhor Pina", o livro, foi escrito pelo Álvaro Magalhães, e editado em setembro de 2013, já depois da morte do Manuel António Pina. Conta a história dele, mas só um pouco, que o livro é pequeno e o Pina era tudo muito, muito escritor, muito imaginativo, muito pensador, muito portuense, muito inspirador. 

A história é para crianças e o meu filho está habituado a que lhe contemos uma história todas as noites, antes de se deitar. Mas foram sempre coisas mais simples, frases curtas, ideias mais ou menos feitas, o básico. Aquele livro não, exigia leitura atenta, não podia lê-lo a pensar noutra coisa, tinha de me concentrar para fazer as vozes, até misturava sorrisos e risos à medida que lia - não para forçar nada, apensa porque me estava mesmo a diverti. Talvez tenha sido o momento alto da minha inexistente arte expressiva e teatral, aquela leitura.

Até posso ter usado o tom perfeito, mas o mérito não foi meu, só pode ter sido dos dois, do Álvaro e do Pina. Lê-se o livro e está-se mesmo a ver o Pina aqui e ali, no Porto, no Convívio, na rotunda da Boavista, sempre atrasado, sempre à volta com as palavras. O miúdo entusiasmava-se a reconhecer os sítios do Porto que já conhece bem, ria-se, sorria, queria sempre saber mais. Aguentou as frases longas cheio de curiosidade, sempre com vontade que lhe lesse mais, que lesse tudo, até ao fim, mesmo a cair de sono. Agora trata o Manuel António Pina por "senhor Pina" e descobriu a imaginação. Ou começou a ter consciência dela.

Uns tempos depois de acabarmos o livro, ao jantar, informou-me: "Sabes, eu digo uma coisa e o meu cérebro imita-me". E dizia a coisa e ficava calado, com o olhar de quem estava silenciosamente a repetir para si mesmo o que tinha dito em voz alta. Como se fossemos nós que o comandássemos e não o contrário. Às tantas é. "Eu digo e ele repete. Ó experimenta".

O melhor dia de sempre

Foi o melhor dia de sempre, disse ele. Logo de manhã, calor. Sim, hoje podes vestir calções e... sim, podes tirar a camisola e ficar em manga curta. Suprema alegria, andar de manga curta. E calções. Ó mãe, gosto muito de ti. Eu também, mesmo quando não te deixo andar de manga curta porque não está calor para isso. Olha, até vamos deixar a piscina com a água a aquecer, pode ser que à tarde dê para tomares banho cá fora. Hum, parece que arrefeceu, se calhar já não dá. Então vou encher o regador. Está bem. Um segundo depois a manga do casaco estava encharcada. Tira o casaco, põe a secar. Pronto, vamos regar. Mais dois segundos e vou dar com ele a regar os sapatos, era para tirar a terra, mãe, e agora as meias estão todas molhadas. Pois estão, tira as meias, olha, está tudo sujo, molhado e cheio de terra. Eu lavo na piscina, mãe. Está bem. Mais uns canteiros com água e , quando regresso, já era a o chapéu que estava cheio de água, pronto, olha, despe-te e vai para a água, mas se estiveres com frio tens de sair. Este é o melhor dia de sempre, dizia ele, encantado com aquele niquinho de água de uma piscina para bebés. Aproveito e lavo as sapatilhas para secarem ao sol, agora estou com frio, então sai e agora calças estes crocs, vamos ao lanche mãe e filho, corneto de chocolate e morangos, estava prometido. Se não quiseres mais gelado dás-me, está bem, mãe? Está. Vamos lá acabar de regar. Mãe, posso andar descalço? É melhor não, podes-te magoar, mas, caramba, eu também adorava andar descalça. Digo-lhe que é melhor calçar-se mas o problema dos crocs é que saem facilmente dos pés, eu também não insisto muito, a dada altura escorregou, caiu, choro dos grandes, magoou-se a sério, dá para perceber, mas não parece nada até eu descobrir um golpe entre os dedos. Está a sangrar, eu só não desmaio porque sou mãe dele e não posso. Temos de lavar o pé, aliás, tens de tomar um banho completo, se não te der banho já nunca mais te vou conseguir enfiar na banheira. Inspeciono o armário da casa de banho, adesivo há, betadine também, gaze não, toca a ir correr à vizinha pedir o que falta, não há como ter uma tia na casa ao lado. Ai, ai, ai, que dói muito, pois dói, já vai passar. Vamos lá fazer o curativo, ai, ai, ai, arde muito, pois arde, o pior já passou, vamos só por o adesivo, olha, não tem cola, este adesivo deve aqui estar há uns dez ou vinte anos, ficas aí a descansar que vou ver se a tia tem, claro que sim, não há como ter uma tia na casa ao lado. Agora anda devagar, mas qual quê, já estava tudo bem, voltaram os saltinhos, olha que cais, vê lá se te magoas, não andes aos saltos. Afinal não foi nada, ainda bem, ó mãe, vou-te ajudar a fazer o jantar, obrigada filho: tu és, todos os dias, o meu melhor dia de sempre.  

More than words


Mother's day and mother's day gift at school. I love you. Not for this, just for being you.