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Quem nunca foi pai que atire a primeira pedra!

Sobre a contraditória missão de ser pai, perante os que nos observam, sobre os "bitaites" da malta que nunca teve filhos mas acha ter nascido com um doutoramento sobre o assunto, sobre muitos e muitas de nós que fizemos o mesmo - as críticas, os reparos, os comentários depreciativos -, incluindo eu. Sobre como ser mãe e pai é ser preso por ter cão e por não ter, vale a pena ler este texto no Locais Habituais. Adorava falar mais sobre o assunto, mas a verdade é mesmo pura e dura: agora não tenho tempo. Só não posso é perder o fio à meada de mais este debate.

Intervalo para babyblog - os primeiros calções

Quando ele nasceu deram-me um livro daqueles para registar tudo e mais alguma coisa, desde o momento em que sorriu pela primeira vez até ao que deu os primeiros passos e toda uma série de outros detalhes que eu, mãe desnaturada, não fixei. É o meu primeiro filho, por isso não há grandes desculpas, a não ser que estive demasiado assoberbada nos meses que se seguiram ao seu nascimento, perdida com um recém-nascido que chorava muito, com as cólicas, com o deita, acorda, chora... com o adormece, acorda para dar de mamar, põe a arrotar, muda a fralda, deita-te outra vez, adormece, acorda de novo para fazer tudo outra vez. 

Ainda tentei fazer algo do género noutro blog, mas não de forma suficientemente eficaz para se considerar um registo a sério. A única coisa de que me lembro - vagamente - é que o meu filho deu beijos muito tarde. E que tomei nota da altura em que ele o fez, sem saber que seria o primeiro de muitos, mesmo muitos beijos  (agora é um beijoqueiro). Foi em abril de 2011, o que significa que tinha um ano e meio. 

Acontece que ontem, dia 15 de janeiro de 2013, ele desenhou pela primeira vez um boneco com calções. Até agora os bonecos não tinham roupa. E era raro ele desenhar bonecos, preferiu sempre mil vezes a abstração resultante da mistura de aguarelas e guaches (de preferência pintados com as mãos). Tentou convencer-me insistentemente de que devia ajudá-lo a desenhar uma t-shirt e vi-me grega para o convencer que não, não ia mexer no desenho, ele que fizesse outro, aquele estava genial: ele e eu na praia, porque "o pai estava a trabalhar". Ele de calções e tronco nu (até é como se deve estar na praia - acho que foi assim que o convenci), eu ainda na versão anterior dos bonecos sem roupa, mais pequena do que ele, mas desenhada quase por cima dele. Deve significar alguma coisa mas não é isso que me interessa. 

Estou orgulhosa porque ele desenhou o seu primeiro boneco com roupa e a sentir-me culpada por não ter registado tudo - o primeiro dente, os primeiros passos, os primeiros passos sem ser de mão dada comigo (neste caso faço uma ideia, sei que foi em dezembro de 2010, pouco depois dele ter feito um ano), a primeira palavra, a primeira brincadeira, a primeira gargalhada, todos os primeiros... E de não ter datado todos os desenhos que ele já fez.   


As crianças devem ter tempo para não fazer nada

A Mãe que Capotou lançou mais um dos seus célebres Sensus Capotansus, desta vez sobre se as nossas crianças ainda têm tempo para ser crianças. A iniciativa é célebre porque gera sempre uma acesa troca de experiências e opiniões entre mães e um dos meus preferidos é aquele em que ela pergunta Quando é que perceberam REALMENTE que tinham capotado.

Capotar, aqui, é sinónimo de admitir que criar os nossos filhos é bastante mais complicado do que nos explicaram que ia ser. Que é difícil, que às vezes ficamos capazes de nos atirar (de os atirar?) pela janela. A maternidade como a insustentável leveza de um martelo pneumático é outra das minhas prosas de eleição: "Muito pouco na nossa educação nos tinha preparado para as "maravilhas" da maternidade e, compreendemos agora,  deveriamos ter desconfiado do poder do instinto e da artificialidade das teorias pedo-psicológicas. [...] Sabiamos muito bem que rumo queriamos para a nossa carreira, para as nossas férias e para as nossas sextas-feiras à noite, não faziamos ideia de como se devia grelhar um bife, lavar o chão da cozinha ou passar camisas, bébés então, à parte o Nenuco, não estavamos a ver muito bem para o que é que serviam".

Mas, voltando ao Sensus do momento, a mãe capotada quis o meu contributo. Eu dei. Mas o que devia ser um comentário foi, afinal, um testamento. Não satisfeita, deixo-o também aqui, porque como diz a Sílvia Silva no raparigascomonós.com, as redes sociais são bem mais efémeras do que os blogues (quem se atreve a fazer pesquisas na cronologia do Facebook?) e há assuntos que merecem ficar para a história.

O meu rapaz de três anos quase quatro passou este ano para um jardim de infância público. A entrada é às 9h e a saída às 15h45/16h, se entrar mais cedo ou sair mais tarde paga (sim, é um estabelecimento de ensino público). Ele chega às 9h e o pai, que está desempregado, vai buscá-lo às 16h. Até agora (desde os 4 meses até junho deste ano) ele entrava no infantário privado às 9h30 e saia às 17h30, 18h, 18h30, dependendo das horas a que eu conseguisse sair do trabalho. Depois era, muitas vezes, chegar a casa, adiantar o jantar, dar banho, "sim, a mãe já vai brincar contigo mas agora tem de acabar isto", jantar, "já vamos brincar, falta só arrumar a cozinha", atirar-me para o sofá extenuada, fazer de conta que brinco com os legos, os carros e as ferramentas, jogar às escondidas e à bola quando só me apetecia não fazer nada e esperar pela hora dele adormecer para eu tratar da roupa e desabar em cima da minha cama.

Agora ele tem mais tempo para brincar. Eu não tenho tanto tempo assim para brincar com ele porque ando na fisioterapia e só chego a casa às 18h30/19h. Quando esta saga acabar, sim, teremos mais tempo para passeios no parque, brincadeiras ao ar livre, corridas, jogos de bola, etc, etc, etc. Ups, esqueci-me de que estou em Portugal, no Porto, e que parques e espaços ao ar livre é coisa que escasseia. A não ser que nos queiramos meter no trânsito do fim da tarde e afogar-nos em nervos (anda tudo muito nervoso, por aqui). 

Se ele está hoje uma criança muito diferente do que quando passava mais horas na escola... não sei. Acho que não. Se eu prefiro que ele saia da escola mais cedo, prefiro. Se isto é solução no caso do pai arranjar emprego (ah ah ah, empregos, pois sim), não é.

Quanto ao facto de os alunos portugueses trabalharem mais do que um adulto, a explicação é simples: os pais deixam as crianças nas escolas antes de irem para o trabalho e vão buscá-las depois de sairem do trabalho, a maior parte das vezes tarde e a más horas. Contas feitas: os pais saem mais cedo do trabalho do que os filhos saem da escola, se não tiverem avós ou tios ou primos para os ir buscar.

O tempo que eles passam na escola depende, também, de estarem na escola pública ou na privada. Na pública, tanto quanto sei, o "prolongamento" de horário depois das aulas (que pode ou não ter atividades como inglês ou música) só vai até às 18h30. No privado pode ir mais longe. 

Acresce que nos últimos anos (décadas) se instalou a ideia de que os nossos meninos têm de ser muito estimulados, ter muitas atividades, têm de ser os melhores, os mais cultos, prepará-los para a faculdade tem de começar no berço. Por isso, não falta quem passe os fins de tarde a levá-los e buscá-los ao conservatório de música, à natação, ao ballet, ao judo, ao futebol e sabe-se lá mais o quê. Nada contra. Pelo contrário, tudo a favor. Eu não tive nada disso e gostava de poder oferecer algo mais ao meu filho. Acontece que não posso, não tenho dinheiro. Mas não estou aflita com isso.

Uma vez falei com o pedopsiquiatra Eduardo Sá que me disse o seguinte: “Trabalho demais faz mal à aprendizagem e recreio de menos também" e "Mais escola não é melhor escola” porque “uma hora de qualidade com os pais é melhor para o crescimento das crianças do que a melhor das escolas”. Um especialista em Antropologia da Educação explicou-me que os tradicionais trabalhos de casa, "vão ocupar a criança num tempo em que ela devia não ter nada para fazer, para que encontre maneiras de se ocupar e não ter horror ao vazio". Isto será importante pela vida fora, porque "estes momentos existem e todos temos de ser educados para lidar com isto”.

Vendaval

Acordo nos últimos dias como se um vendaval tivesse passado pela minha cabeça e o medo de não saber quando é que isto irá parar, onde é que isto irá parar, o país, eu, a minha família, as nossas famílias, os nossos filhos.

As frase do pequeno Pedro e as pa la vras do Ví tor Gas par a mar te lar a mi nha ca be ça, a que le tom mo no cór di co, as medidas que parecem querem transformar-nos num país de miseráveis, que me trazem à cabeça as recordações dos meus avós, do tempo em que uma sardinha dava para muitos, em que a comida escasseava na mesa, em que se andava descalço na rua porque não havia dinheiro para sapatos, em que se percorriam distâncias incríveis a pé ou de bicicleta, e tudo o resto que muitos sabem melhor do que eu, porque o que eu sei são só memórias que nunca ouvi com grande atenção por pensar que esse tempo tinha passado.

Na SIC, o ministro das Finanças é confrontado com um e-mail de uma mãe de dois filhos, divorciada, que ganha 600 euros, gasta metade do salário com a casa e vai perder sabe-se lá quanto dinheiro com as medidas anunciadas pelo Governo. Gaspar responde naquele tom inabalável que todos temos de fazer sacrifícios. Que os rendimentos mais baixos serão protegidos. Questiono-me, porque o ministro continua sem explicar, o que são para ele os rendimentos mais baixos. Porque eu, como aquela mãe, já não sei por onde possa continuar a esticar a corda, a apertar o cinto, a baixar as calças e deixar que me roubem parte de um ordenado de merda.

Eu não sei se o pequeno Pedro e o Gasparzinho percebem que, para além da questão da TSU das pequenas e médias empresas, os sacrifícios que todos temos de fazer vão levar alguns a continuar a viver à grande, outros a conseguir viver mais ou menos e outros sem saber como conseguir sobreviver. A mim parece-me simples, compreender isto. Mas eu não recebo o ordenado deles ao fim do mês. Ainda que me esfalfe, que faça horas extraordinárias, que trabalhe enquanto a minha família está a jantar e o meu filho reclama um minuto que seja de atenção só para ele, que não me viu o dia todo e ao fim do dia tem de me aturar em telefonemas sucessivos, senta e levanta da mesa, o prato cheio de comida que não vou conseguir engolir porque não consigo parar de atender e fazer telefonemas.

Ora, caros Pedro e Gaspar, pensem lá bem: eu não tenho casa própria porque nunca tive um emprego estável que me permitisse ter acesso a crédito. Não tenho móveis de luxo, Iphones, Ipad, nem sequer um LCD (a única televisão da casa é um trambolho e foi-me oferecida há uns dez anos, mas enquanto funcionar chega-me perfeitamente, que eu não sou de grandes pretensões materialistas). Desde o início de 2012 que ganho muito menos do que ganhava em 2008 (e nem vou falar da subida do IVA), porque resolvi trocar os recibos verdes sem direito a subsídios de férias e de Natal por um contrato com subsídios e este ano os dois subsídios foram-se.

E entretanto, caros Pedro e Gaspar, vocês decidiram que dois ordenados por ano não basta, que é preciso tirar-me três, reduzindo-me ao ordenado que recebia quando comecei a trabalhar, quando tinha idade para receber o subsídio de arrendamento jovem, quando ainda não tinha um filho para criar, quando a comida (nada de opulências, caros Pedro e Gaspar, estou a falar do pão, do arroz, da carne, do peixe) não era tão cara, quando a conta da luz não era um roubo, quando meter gasolina no carro não era um luxo.

Com 12 anos de profissão e experiência, estou reduzida ao ordenado de um estagiário, que não chega para pagar o aluguer de uma casa e dar de comer a um filho. Por isso gostava de saber, Pedro e Gaspar, se isto para os senhores não é  um "ordenado mais baixo". Se acham que tirar 200 euros a quem ganha mil é a mesma coisa que tirar 500 a quem ganha 2000 ou mais? Se tirar três ordenados ao setor público e um ao privado é equidade e igualdadade de tratamento. Ou se mais me vale despedir-me porque a próxima intenção, a ser anunciada em dia de jogo de futebol na esperança de que ninguém repare, é que alguns de nós vão ter de pagar para trabalhar.





Tum, tum, tum. Tum Tum Tum Tum!

Era para ter durado meia hora mas demorou uma. E ainda bem, porque nos primeiros 40 minutos o miúdo não quis saber da festa, dos gigantones, dos bombos, do barulho. Estive, por isso, sentada num sofá (foi uma sorte, este ano tivemos uns certos privilégios, se tivessemos ficado na rua tínhamos ido embora na certa) com ele ao colo. Ele encostado a mim, eu a tapar-lhe os ouvidos, ele bater o pé ao som dos bombos, apesar de tudo. Enquanto ali estive batia o pé como ele ao som dos bombos e pensei durante minutos a fio que aquela era das melhores memórias da minha infância. Que, quando era miúda, ia ver aquilo todos os anos. Viana do Castelo, em festa. Era uma festa.

Não me lembro de me incomodar com o barulho, mas recordo-me bem do medo que tinha daquelas baquetas (?) dos bombos maiores, aqueles homens a rodar os braços com todo o vigor, a sensação de que os braços deles iam sair disparados do corpo e uma coisa daquelas me ia parar à cara. De maneira que me resignei. O miúdo tem medo, nada a fazer. Eu também tinha. E ainda assim aquela sensação de uma das melhores memórias de infância.

Quando o espetáculo chegou ao fim, o miúdo já tinha deixado de ter medo e na minha cabeça continuava a entoar o tum, tum, tum. Tum Tum Tum Tum. Achei que talvez aquilo tivesse algo de mágico ou viciante, que uma vez visto numa mais nos saía da alma e da memória. Mas não, pouco provável.

Claro que tive a minha fase de achar uma parvoíce perder um dia de praia (tudo por um belo bronze no fim do verão) para ver uns homens bater com uns paus nuns bombos e uns bonecos gigantes a dançar desongonçados. Na adolescência somos assim, quase tudo nos incomoda. Mas aquilo, realmente, são só uns homens a bater nuns bombos, é racionalmente um bocado parvo ficar emocionada ao ver e ouvir aquilo.

E continuava a sensação de uma das melhores memórias de infância. Como se o meu pai ali estivesse outra vez. Eu sem dor ou saudade, só a sorrir por dentro, feliz por estar ali com o meu filho, na esperança de lhe criar a mesma doce recordação. Enquanto pensava lembrei-me que aquele também era o dia de almoço ali perto, caras sorridentes, fondue para todos, mousse de chocolate no fim. Era dia de fazer vontades e ceder a caprichos, balões, brinquedos, algodão doce,  gelado de máquina num cone, carrosseis, farturas. Era um dia cheio de tudo. Dos bombos também. Racionalmente ou não, é um espetáculo digno de se ver, aquele esforço, aquele ritmo, o tum tum tum dos dias mais felizes da minha vida.



The day after

Que dia estranho, o de ontem. Malditas princesices (não sei se a palavra existe mas também não quero saber, agora fiz 35 e posso escrever o que me der na gana - estou a falar das histórias de princesas que cresci a ouvir e que agora me irritam solenemente porque acreditei durante muito tempo que elas existiam).

O meu dia de aniversário sempre foi, desde pequenina, o único dia do ano em que toda a família se juntava - avós, tios e primos do lado da mãe e do pai, coisa única e irrepetível, por circunstâncias que não vale a pena estar aqui a explicar. Por isso começava a preparar-se a festa dias antes, grandes trabalheiras, tardes inteiras a fazer bolos, a mesa posta cheia de cerimónia, toalha branca bordada, pratos e copos que só se usavam naquele dia, almoço com direito a grande pratada de marisco, toneladas de prendas, porque eram mesmo muitos tios. Com todo aquele aparato, eu sentia-me uma princesa, claro.

Depois fui crescendo e a coisa começou a irritar-me porque eu já tinha vontade própria, não me apetecia nada daquilo, mas o ritual mantinha-se. E eu, adolescente com as hormonas e os sentimentos aos saltos e o egocentrismo no auge, sentia que as pessoas estavam ali mais para comer à grande e à francesa do que para me celebrar. Aquilo era a festa da família, não era a minha festa. A coisa passou-se, entretanto o meu pai morreu e não houve mais.

Mas a sensação de que o dia tem de ser perfeito manteve-se sempre, ainda que ténue e disfarçada. Tanto que, no ano passado, não quis fazer nada a não ser um jantar a três, normal, apenas um bolo bem pequenino para celebrar.

Tudo isto para dizer que o dia do meu 35º aniversário foi do mais parvo que pode haver e teve algumas coisas que não vou querer recordar, ainda que duvide da minha capacidade de conseguir esquecer que passei a tarde quase toda a chorar.

O que vale é que também teve coisas muito boas que vou querer lembrar:
- Amigos de verdade
- Quatro prendas espetaculares (é raro acertarem assim nas minhas prendas - eu sou esquisita e uma insatisfeita, ou exigente, o que lhe quiserem chamar, mas desta vez adorei tudo, foi perfeito)
- O meu filho ofereceu-me uma escavadora para brincarmos na praia (escolha dele), pelo que foi a primeira vez que recebi uma prenda da Imaginarium, com direito a chupa e tudo
- Um assado maravilhoso para o jantar (não fui eu que fiz)
- Um gelado de aniversário em vez de um bolo (fui eu que fiz e estava bem bom)
- Um beijo e um "desculpa-me" que me aliviou o coração.

35

Maldita coisa, esta dos números redondos, dos marcos "históricos" da nossa vida e da nossa idade. Primeiro o horizonte dos 18: ai, quando fizer 18 vou ser oficialmente adulto, vou fazer e acontecer, serei o mais poderoso ser à face da terra, os meus pais já não vão mandar em mim, serei eu e só eu. Tretas. Um dia na vida de uma pessoa pode mudar tudo, mas também pode não mudar nada.

Já nem me lembro bem da minha festa de aniversário dos 18, nem que patifarias fiz, quis fazer e não fiz depois disso. Sei que pouco mudou, a não ser ter podido votar e ter ido para a universidade. Ok, a faculdade era noutra cidade e pude abusar um bocado, mas foi aos meus pais que liguei a chorar quando fiz um risquinho no meu primeiro carro, quando fiquei sem luz, quando o cilindro avariou, quando me sentia sozinha. E era para eles que voltava todos os fins de semana, até eles passarem a ser só um porque o meu pai morreu. Esse sim, foi o dia que mudou tudo na minha vida.

Nunca mais voltei definitivamente a casa quando acabei os estudos, mas foi a minha mãe que me ajudou a pagar o aluguer das casas onde estive durante bastante tempo. Independência, o tanas. Tens 20 e tal e achas que és a maior, começas a trabalhar, conheces novos amigos, um novo mundo, uma cidade nova, trabalhas horas a fio porque estás a gostar e não te importas, sais à noite para beber copos quando te apetece, deitas-te às tantas mesmo quando tens de trabalhar no dia seguinte e não custa nada, não tratas das poupanças porque o salário é baixo e pensas que vais ter a vida toda à tua frente para sempre.

Não tens rugas, cabelos brancos, filhos, grandes pesos ou fardos, podes fazer e ser o que quiseres. És a maior. Mantens os sonhos de vir a ter uma casa com jardim, marido, filhos, uma carreira que te preencha, um salário que reconheça a qualidade do teu trabalho. Ainda não estás lá, mas tens tempo para lá chegar e estás certa de que vais chegar.

Anos assim a achar que, com a expressão "o corpo é que paga", António Variações estava a referir-se a coisas bem mais pesadas. Talvez até estivesse, mas chega um dia em que o corpo se ressente. Não tem grande mal, ao menos viveste, não foi? Mas custa um bocado sentir que já não conseguimos ir mais além, passar a noite acordados a conversar, a olhar para as estrelas, o pôr-do-sol, namorar, dar gargalhadas bem alto, fumar cigarros e dançar como se não houvesse amanhã.

Chegam os 30 e é uma festa. Parece que, então sim, atingiste a maioridade. Continuas fresca, mas tens 30. Trinta. Parece muito mas ao mesmo tempo não é. Continuas fresca, mesmo que muitos dos sonhos que construiste na infância te comecem a parecer algo difícil de alcançar. Desiludes-te, desiludem-te, despedem-te, começas a batalhar forte e feio e parece que, por mais esforços que faças, não é suficiente.

Aos 31 nasceu o meu filho e esse foi O dia em que mudou mesmo tudo. Nada volta a ser como antes, passas noites sem dormir e sobrevives. Acordas cedo como nunca achaste que fosse possível. Todos os cansaços anteriores dão-te vontade de rir. Percebes finalmente os teus pais, os ralhetes, as reprimendas, o que achavas que eles deviam ter feito e não fizeram, o que achavas que eles te deviam ter deixado fazer e não deixaram.

Entendes que os teus pais foram o melhor que puderam ser, porque tu própria percebes que ser mãe é bem mais difícil do que parecia nos cenários maravilhosos de maternidade dos relatos que nos foram fazendo. E, nesses momentos mais complicados, a única coisa a fazer é ser o melhor que conseguimos. Esforçar-nos todos os dias por isso, mesmo quando (ou sobretudo quando) chegamos ao fim do dia a achar que fizemos tudo mal, que querermos ser ainda melhores, ainda mais mães ou pais, ainda mais compreensivos, tolerantes, amorosos, calorosos, brincalhões, disponíveis, alegres.

Quando chegas aos 35, como hoje, constatas que concretizaste muito pouco dos teus sonhos de criança. Porque cresceste num mundo de muita fantasia, muitos contos de fadas e princesas e princípes que viviam felizes para sempre. Disseram-te que podias escolher o teu amor, que agora os pais e a família não podiam opor-se às tuas escolhas. Acreditaste que essa seria a receita secreta para viver embalada num mar de rosas. Não é. Amar, viver a dois, é difícil. Não me venham com tretas dizer que se é difícil é porque já não há amor.

Amar também é superar as diferenças, ultrapassar divergências, não desistir. Também é preciso lutar. Todos os dias. Mostrar algo que não seja só o cansaço no meio de tanto cansaço, do trabalho, do sono, do telefone que não pára, do filho que não está sempre a gritar "ó mãe, ó mãe".

Aos 35 percebes que nada é como nos sonhos. Mas também que isso pouco importa. Vives, lutas, sofres, ris, tens alegrias e desalentos, como todos. Não desistir, não baixar os braços perante as adversidades é que não pode ser. Como os teus pais e os teus avós e os que viveram antes deles e os que virão a seguir a nós. Às vezes é preciso andar, avançar, fazer qualquer coisa, mesmo sem a certeza do destino a que queres chegar. No meio disto tudo, aos 35 a minha única certeza é que ser mãe é a coisa mais poderosa do mundo. E que sou melhor mãe do que sou tudo o resto. Que o sonho que realmente importa é ser feliz. Que foi isso que sempre quis. O resto pouco importa.

O piquenique

Uma escola com vista para a montanha e para o céu, em vez de prédios. Com entrada por um portão que pode ficar aberto porque os alunos não fogem, todos os vizinhos se conhecem e os poucos carros que circulam pela rua estreita de paralelo passam devagar. Uma escola com árvores, baloiços e escorrega, espaço para correr e jogar à bola à vontade e umas mesinhas e banquinhos de pedra tão perfeitos que parecem ter sido feitos de origem, à medida, como a mobília que se manda fazer para uma casa nova.

Uma escola primária (uma EB1, como é correto dizer agora) onde os meninos que já andam no 5º ou 6º ano regressam porque têm saudades. Dos amigos, da professora e da escola. Onde um piquenique de fim de ano para os seis alunos se transforma numa mega-festa com mais de 40 pessoas, entre pais, mães, avós, avôs, amigos e mais filhos, genros e netos. Onde os seis alunos deram um espetáculo de música que me emocionou pela forma concentrada e empenhada com que cantaram e tocaram as flautas e o pau de chuva. Seis meninos e mais uns quantos que tomaram conta do meu e tiveram paciência para brincar com ele e jogar com ele à bola quando já era noite.

Não me lembro de alguma vez me ter sentido tão em casa no meio de tanta gente desconhecida. Foi como sempre lá tivesse estado, ou como se tivesse regressado. À escola, ao sotaque que sempre achei que não tinha e que tinha e perdi, à forma desempoeirada, despretenciosa e franca de falar, à ausência de peneiras e de vaidades, ao "venham mais cinco ou mais 10 porque há comida para todos". Fui apenas mais uma mãe no meio de muitas e gostei. De comer sardinhas e febras à mão e de ver os outros fazer o mesmo sem cerimónias.

Já há pouco disto, mesmo nas aldeias. Pessoas simples e genuínas, contentes por estarem juntas. Não ouvi nenhuma mãe criticar outra. Não ouvi nenhuma dizer mal dos filhos dos outros. Não vi sorrisos sonsos ou forçados. Nenhum conflito se gerou por causa da organização das mesas, do caldo verde, da comida. Durante os três anos que o meu filho leva de infantário, não troquei com as mães dos colegas dele metade das palavras que troquei com as mães dos alunos da minha mãe. Somos umas tontas, as mães da cidade, perdidas na correria, nos nossos umbigos, no nosso trabalho, nos nossos problemas, nos nossos filhos, a olhar pouco, muito pouco para o lado.

Já esteve para fechar, aquela escola. Não deixaram, as mães. São só seis. Mas estas mães desta aldeia transmontana são como todas as transmontanas - "de gancho", de luta. E a escola ficou aberta mais um ano. Com seis alunos. Para o ano serão só cinco, porque os meninos crescem. Não é que a aldeia não tenha mais meninos. Mas ali fecharam a sala da pré-primária, onde ainda estão os brinquedos dos meninos que ali cresceram e brincaram até fazerem seis anos. E meninos mais pequenos da aldeia ficaram em casa dos avós, foram com as mães para a cidade ou foram para o jardim de infância da aldeia do lado (como se ali tudo fosse perto). E assim se consegue fazer de conta que não há crianças nas aldeias do interior de Portugal, criando caminho para fechar as portas de uma escola de fazer inveja a muitas, uma escola que podia ser uma casa.

Na verdade eu não sei nada sobre aquela aldeia e aquela escola. Só lá estive de passagem, mas tive uma das melhores noites dos mais recentes anos da minha vida. E por isso terei pena qu a escola feche, que o Estado deixe apodrecer o espaço, que aqueles meninos e meninas tenham de ir para longe, que a professora prefira reformar-se, que o professor de música não possa voltar para aperfeiçoar aqueles toques de flauta. Que a casa da minha mãe deixe de estar cheia de batatas e alfaces e cerejas que se oferecem não por vassalagem, mas por simpatia.

Aos meninos e meninas que espero ver no piquenique do próximo ano eu, que não sei nada, gostava de deixar um recado: aproveitem a vossa aldeia. Se acham que ela não tem nada, desenganem-se, tem muito. Pode não ter mar e hotéis e outras coisas que mostram na televisão para falar de férias. Mas a vossa aldeia tem tudo o que importa: amigos e família.

O que há na cidade é mais fogo de vista do que outra coisa. Nós, os que andamos por lá, acabamos por ficar fartos daquilo - dos carros, da poluição, da falta de árvores e de baloiços (fazem ideia de como é difícil encontrar um parque infantil com baloiços no Porto?), de espaço para correr e brincar.

No momento em que acharem que não têm nada para fazer, leiam um livro. Eu dava tudo para voltar a sentar-me na soleira de uma porta, num jardim ou num terraço a ler um livro sem o barulho de mais nada. Lia "Os Cinco", "Os Sete" e "As gémeas no Colégio de Santa Clara", da Enid Blyton e a coleção "Uma Aventura", da Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada. Lia muito mais, tanto que já não me lembro de tudo. Mas lembro-me que era bom. 

E no meio disto tudo, meus seis meninos e minhas seis queridas mães, dou por mim a pensar que até podia ter sido professora, que talvez tivesse gostado de ensinar.

Mother? Hard work!

Ser mãe é a missão mais poderosa do mundo. E a que mais felicidade nos traz. E até pode ser a missão que achamos ser a que melhor desempenhamos nas várias que fazem parte da nossa vida. Mas também é a mais difícil. As escolhas, são as escolhas que me afligem. Uma amiga comentou outro dia que ver uma amiga ser mãe é renascer. Eu disse-lhe para ela esperar para ver como é ser mãe. Quando um filho nasce, nós não renascemos, nascemos outra vez. Parece a mesma coisa, mas não é. Uma pessoa renasce no fim de uma aula de ginástica, quando recupera do fim de um namoro, quando se apaixona, quando conquista um aumento ou o emprego desejado, quando ganha um prémio, quando tem um dia feliz, quando passa umas férias retemperadoras.

O nascimento de um filho não é nada que se pareça. Quando um filho nosso nasce, é como se começasse tudo do zero. Percebemos que se nos acabaram as certezas, que o resto da nossa vida vai ter sempre muitas dúvidas, que tudo o que davamos como certo não é. Todo o mundo que nos rodeia passa a ser visto com outros olhos, porque entendemos que ele não é nada como andámos a pensar que fosse.

Ter um filho é sermos outras pessoas, é ter uma missão nova que muda tudo para sempre. É ter de estar sempre a escolher e a perguntar. Terá fome? Será frio? Estará doente? Terá sono? Dou-lhe outra vez de mamar? Deito-o no berço ou adormeço-o ao colo. Deixo-o chorar até se cansar ou vou embalá-lo? Levanto-me de noite quando chora ou fico à espera que se cale? Deixo-o ver os desenhos animados vezes sem conta? Deixo-o brincar às lutas e aos Gormitis? Espero que a birra páre ou ralho-lhe para se calar? São perguntas atrás de perguntas e na maior parte das vezes não têm resposta. Não sabemos, ninguém sabe, nesta coisa da maternidade não há receitas. As soluções encontram-se todos os dias, a tentar e a errar, às vezes a acertar.

Ser mãe também é ter o peso de decisões que vão condicionar o futuro de um ser que saiu de cá de dentro. É, finalmente, entender tanta coisa sobre os nossos pais. É dar-lhes razão em mais coisas do que gostaríamos, é ouvirmo-nos a nós próprios e percebermos que estamos a ser iguaizinhos a eles. Nascemos outra vez, não haja dúvidas. Criticamo-nos por termos criticado outros pais que agora estarmos a imitar (Ah, quando o meu filho for bebé nada de shoppings, que horror! Pois sim, querem que uma pessoa esteja quatro meses de inverno enfiada em casa a dar em doida? É que o único sítio confortável para onde se pode ir com um bebé é mesmo o shopping, ora bolas, que outro sítio conhecem com cantinho de amamentação e sala para muda de fraldas? Sim, tudo se consegue, na praia ou num parque, mas e a tralha, andar com aquela tralha toda por caminhos que não foram pensados para pais carregados e carrinhos de bebé?)

Passados três anos, o pior já não são as noites por dormir, o choro incansável, o não perceber a razão das lágrimas, as birras ou os "mas eu quero". Decidir a cada momento é a angústia maior. Saber que estou a escolher algo que vai influenciar o resto da vida dele é o mais complicado. Pior do que isso é nem conseguir escolher. É inscrevê-lo numa escola que não é aquela onde eu queria que ele estivesse porque não posso colocá-lo noutra. Numa escola assim assim porque tem de ser, porque não há dinheiro para mais. Fazê-lo contrariada apesar do medo de que ele ali não se sinta acolhido, acarinhado, fortalecido, incentivado, estimulado, aceite. E perceber, também, que não só é a mim que a escola tem de agradar, que o mais importante de tudo é que ele esteja feliz - e se calhar ele vai ser feliz ali, onde eu acho que não vai. No fim disto tudo, é difícil continuar com as dúvidas todas, mesmo depois da decisão tomada.  

OUT OF MY BOX: Os maridos das outras

Os maridos das outras não são melhores do que o meu. Percebo e rio-me da ironia da música do Miguel Araújo todos os dias, compreendo a ideia de que "o galo da vizinha é sempre melhor do que o meu" e sei que nós, mulheres, somos às vezes um bocadinho chatinhas com os nossos homens (prefiro usar este termo porque, sejamos francas, porque é que os homens podem ser homens, maridos e esposos e as mulheres apenas são mulheres ou esposas? um bocadinho machista, não?).

Compreendo a música mas acho que algumas mulheres da minha geração já estão noutra e já não dizem "vês, fulaninho faz a cama, levanta a mesa, apanha a roupa, passa a ferro, e oferece-lhe rosas e isto e aquilo". Agora dizemos que eles são todos iguais: até nos dão uma ajuda e às vezes até fazem muito, mas outras vezes é um tormento levá-los a perceber o que há por fazer, mesmo quando as coisas (a loiça, a roupa, o cotão no chão, o pó nos móveis, essencialmente) estão ali mesmo à frente a dizer "arruma-me".

Nisto são todos iguais. Exceto o meu: ontem cheguei a casa e estava a roupa apanhada, dobrada e arrumada e o jantar encaminhado, foi ele quem tratou da loiça suja e deitou o miúdo. E teria sido ele a acordar e a levantar-se caso o miúdo acordasse a meio da noite, porque em relação a isso não tenho mesmo razões de queixa.

Mas, se as mulheres modernas já sairam do armário em relação aos filhos (como já escrevi aqui e aqui), falta-lhes fazer abertamente o mesmo em relação aos maridos. Ainda se fala sobre isto de eles serem todos diferentes mas todos um bocadinho iguais em sussurros, assobiando para o lado quando eles não estão ouvir: ninguém gosta que os outros fiquem a pensar que não temos o casamento perfeito, mesmo quando toda a gente sabe que isso da perfeição não é bem assim e que as queixas não são sinónimo de estarmos à beira do divórcio.

Definitivamente, não se fala muito disto nas redes sociais, a não ser um bocadinho no abstrato, como aconteceu no post Dis-"criminação" do blogue da Mãe Apanhada na Curva, ou aqui, no blogue A vida a 4 dimensões, a propósito de dados que revelaram que Portugal é dos países do mundo onde as mulheres mais trabalham dentro e fora de casa. A exceção foi a corajosa Lia Ferreira, num post fantástico que ficou para a história e muita água fez correr na blogosfera.

A questão é que nos prometeram igualdade. Crescemos a ouvir que não eramos menos do que eles, que tinhamos direito a ter uma carreira e que eles tinham de ajudar em casa. Imaginámos, então, um mundo em que ambos trabalhassemos em casa e fora dela, em que tudo fosse partilhado sem dificuldades, dilemas e debates ideológicos. Os nossos pais foram bastante hábeis a desresponsabilizar as raparigas do trabalho doméstico, mas esqueceram-se de responsabilizar os rapazes. 

O resultado é um meio termo difícil de gerir. Mas consegue-se: o meu conselho é "meninas, passem a olhar para o lado quando se cruzam com roupa por arrumar, com loiça suja, ou móveis cheios de pó... encolham os ombros e sigam em frente, as casas não têm de ser nenhuns museus - nisso eles têm razão, nós preocupamo-nos demais.

OUT OF MY BOX: Maternidade, essa grande maluca

A Mãe que Capotou é uma das minhas ídolas (diz-se ídolas?). Ela também é uma mãe que saiu do armário.  Saltou, capotou e foi apanhada na curva. Sem papas na língua, falou inúmeras vezes da maternidade como a insustentável leveza de um martelo pneumático: "Muito pouco na nossa educação nos tinha preparado para as "maravilhas" da maternidade e, compreendemos agora,  deveriamos ter desconfiado do poder do instinto e da artificialidade das teorias pedo-psicológicas. [...] Sabiamos muito bem que rumo queriamos para a nossa carreira, para as nossas férias e para as nossas sextas-feiras à noite, não faziamos ideia de como se devia grelhar um bife, lavar o chão da cozinha ou passar camisas, bébés então, à parte o Nenuco, não estavamos a ver muito bem para o que é que serviam".

Eu concordo. Cresci a querer ser boa aluna, entrar na faculdade, tirar um curso, arranjar um emprego, dar o litro, fazer carreira, namorar, não estar presa a nada, horários, então, nem vê-los. Um dia, talvez, ter filhos, aquelas coisas fofas e rechonchudas que todas as mulheres adoram. Só tinha de aprender a mudar fraldas (tive de treinar num boneco de peluche antes do meu filho nascer, juro que é verdade - nunca tinha mudado uma fralda na vida).

Depois o miúdo nasceu, foi a coisa mais linda do mundo (sim, eu gostei de parir, foi o momento mais espetacularmente espetacular da minha vida), passei a primeira noite acordada a olhar para ele porque ninguém me tinha verdadeiramente alertado para as fortes probabilidades de passar as noites, semanas e meses seguintes (ou anos) sem dormir (deviam ter-me beliscado, abanado, afixado cartazes em casa e na rua para eu perceber).

Durante três meses acordei quantas vezes foi preciso para o amamentar. Acho até que nem chegava a adormecer. Durante o dia ficava sozinha com ele nos braços, eu podre de sono, ele a chorar, eu sem saber o que lhe fazer. Um amor imenso de um lado, o desespero do outro. Não foi fácil. Ninguém está preparado, por mais que se prepare. Eu não estava. 

A Mãe que Capotou diz que Rápido é bom e está toda feliz porque os filhos estão a ficar crescidos. O meu também está e eu também estou feliz com isso: as noites todas a dormir, as palavras ("precisas de ajuda?"), as doçuras ("i love you mummy"), as aprendizagens, as alegrias, as correrias, até as birras (apesar de tudo é mais fácil lidar com o choro de alguém que se explica, mesmo que não tenha razão nenhuma e esteja só  fazer birra). E ainda assim quero ter outro. Porque queria multiplicar este amor, mas também porque queria estar preparada. Crazy, crazy woman.



OUT OF MY BOX: As mães sairam do armário

Ela faz Panados com Arroz de Tomate quase todos os dias, mas este não é um texto sobre comida. É sobre um woman/mother blogue. Nada a ver com os babyblogs, porque esta mãe não se limita a falar das gracinhas dos miúdos. Fala sobretudo do caos, da confusão, das dúvidas, do estado de quase loucura em que nos pode deixar a maternidade.

Antes de eu ser mãe só tinha ouvido dizer bem dos bebés e dos filhos. Que são tão fofos, tão lindos, a melhor coisa do mundo. São, de facto. Mesmo. Ser mãe é das poucas coisas que me faz sentir realmente competente, apesar das dificuldades.

A questão é essa: não é fácil. Os bebés têm cólicas, choram muito e não nos deixam dormir. E depois chegam as birras, os “não quero”, os “porquês” que nunca mais acabam, os monólogos que interrompem qualquer tentativa de conversa com um adulto.

Mas a minha geração saiu do armário: nas conversas ou nos blogues, admitimos as complicações, os erros, as dúvidas, os falhanços, a vontade que às vezes nos dá de fugir para longe. E queixamo-nos deles: que acordam muito cedo, ou a meio da noite, que nunca mais adormecem, que fazem birras e atiram-se para o chão. Não são piores filhos por isso: são só iguais aos outros. Nem nós somos piores mães: estamos só a aprender, todos os dias, a fazer o melhor que sabemos.

Giras, intemporais e resistentes (e podem ir à máquina de lavar)



 
Versáteis, duráveis e intemporais. As Salt Water Sandals, da Hoy Shoe Company, foram das coisas mais maravilhosas que descobri no último ano. Não tenho nenhumas, acho que não se vendem em Portugal, mas acho-as lindas. Super simples, mas lindas, aparentemente muito confortáveis e resistentes, com potencial para durar uma vida.

E também ficam o máximo nos modelos mini, para criança. É, aliás, nas vendas de calçado para criança que a marca se destaca. Na minha opinião, é porque os modelos são limpos, sem flores, folhos e afins. Também deve ajudar bastante o facto de se poderem lavar na máquina (é tudo o que uma mãe quer: que tudo se possa lavar na máquina). São feitas em pele, são robustas e foram feitas à prova da diversão.

Podem vê-las calçadas em pés femininos adultos aqui, aqui e aqui.

Vendem-se em algumas lojas online, nomeadamente na MySaltWaterSandals.com.

Eu quero umas, sff.

A felicidade da Sílvia (e a minha)


Ela é gira, faz coisas giras, tem ideias e projetos cada vez mais interessantes: depois do Choose your own head, do Quarto de Mudança, agora chega o It' s a doily world. Também é mãe e mistura isto tudo com textos sobre os filhos, no blogue Raparigas como nós.

A Sílvia Silva sabe vestir-se cheia de cores e de estilo, mostra fotografias lindas e leva-me a conhecer peças de roupa a marcas fantásticas. Ela é tudo aquilo que gostava de ser, mas não sou, porque sou pouco ousada nas cores, não consigo ter tempo para concretizar todos os projetos e ideias que tenho na cabeça, nem para escrever tudo aquilo que gostaria.

Ainda por cima, a Sílvia escreveu um texto  que só não mudou verdadeiramente a minha vida porque eu sou uma ansiosa crónica. “Aquela ideia de que a nossa felicidade e o que realmente nos daria puro prazer está sempre atrás daquele muro gigante através do qual não vemos nada, é uma pura ilusão.[…] Atrás do muro não há nada, está tudo aqui e agora!”.

A minha geração (ou então fui só eu) foi educada para cumprir objetivos: entrar na faculdade, tirar um curso, arranjar um emprego, dar o litro, fazer carreira, subir na vida, cumprir sonhos de infância como casar, ter filhos, construir uma casa com jardim. Mas o mundo deu-nos (deu-me) a volta. E eu quero avançar, mesmo sem saber para onde vou. Um dia de cada vez, como se fosse uma angustiada em recuperação.

Joalharia para crianças pelas mãos de Ana Moreira



Licenciou-se em Medicina Dentária, especializou-se em Ortodontia, execeu atividade clínica e docente, mas nunca deixou completamente de parte o interesse pelas artes plásticas. Quando experimentou joalharia, decidiu dar novo rumo à vida profissional.

Ana Moreira valoriza as texturas, o volume, o detalhe e a beleza da simplicidade nas suas peças. Também faz jóias para crianças: coloridas, alegres, divertidas e que vão de encontro ao imaginário e gosto dos  mais novos.

A formação da artista é vasta: fez um curso de modelagem em porcelana fria, um atelier de iniciação à Joalharia, um curso de ilustração, um atelier de aperfeiçoamento em Joalharia e o curso de Joalharia na Escola Contacto Direto.

Petite numi: artigos para criança e bebé feitos à mão, com amor de mãe







Tudo começou com a busca de um presente original para o primeiro aniversário da filha, agora com dois anos. Nessa procura, Dora Richter, uma portuguesa de 37 anos a viver na Alemanha desde Dezembro de 1999, foi-se apercebendo de todo um universo de coisas bonitas feitas à mão. Por curiosidade começou por fazer uma boneca em feltro, rapidamente passei a outros materiais, começou a crescer através do Facebook com o projeto Petite Numi - Handmade with Love, os amigos incentivaram-na, e desde então nunca mais parou.

Os filhos (para além da menina de dois anos, tem um rapaz de cinco anos) são a maior inspiração da artesã. Outras vezes, começa a trabalhar a partir de um simples material, um tecido ou um botão. Diz ter muitas ideias para pôr em prática, mas pouco tempo para os concretizar. Dora é mãe a tempo inteiro (trabalhou na IBM como Multilingual IT support até 2006) e só consegue dedicar-se aos bonecos e artigos para bebé uma a duas horas por dia, à noite, quando os filhos adormecem.

Natal: Ofereça brinquedos


Bonecas ou mobiles Matilde Beldroega



Bonecos ou slings (porta bebés) Rosa Pomar


Bonecos kase-faz



Casa de bonecas Gosto Disto


 Cooker Rico à venda na Loviu Kids

Kiddimoto Kurve - Bicicleta de aprendizagem à venda na Loviu Kids

Triciculo à venda na Loviu Kids

ZID ZID Mochilas à venda na Loviu Kids

Sheep by PinkNounou à venda na Loviu Kids
Casa Cabana à venda na Loviu Kids

Maria Mellow: união de artes e ofícios em português


É uma união artística de um vasto conjunto de artesãos que quer ser um exemplo de empreendorismo e perseverança. Dar a conhecer o que de melhor se produz em Portugal ao nível da criação em diferentes áreas de artes e ofícios é o objetivo da Maria Mellow.

O projeto, que é uma aposta familiar, está a dar os primeiros passos na venda online de artesanato, com o objectivo de encontrar soluções adequadas para quem procura e adquire no comércio electrónico os mais variados produtos.

Defendendo e valorizando a produção nacional, a Maria Mellow não quer ficar alheia ao artesanato internacional. Chegaram-lhe propostas de artesãos europeus interessados em divulgar as suas criações, que também poderão apresentem os seus trabalhos na página do projeto.

Em época de crise, a Maria Mellow investe na promoção dos artesãos que lutam, a maior parte das vezes sem sucesso, para dar a conhecer ao grande público a qualidade e originalidade das suas obras.

Comódas "de treino" cativantes para crianças e pais, de Peter Bristol




Trabalhar para desenvolver e refinar ideias que deviam existir e concretizá-las da maneira correta é a filosofia do trabalho de Peter Bristol, um designer de produto líder na Carbon Design Group. Paralelamente ao trabalho na empresa, Peter Bristol colabora com vários parceiros para desenvolver soluções de design cuidadas. A "Training Dresser" é um dos projetos do designer. Os desenhos informativos criam uma cómoda cativante para os miúdos (e para o trabalho de arrumarem a roupa) e uma peça icónica de mobiliário para os pais.

Working to develop, evolve, and refine ideas that should exist and bring them to life in the right way. This is the portfolio site of designer Peter Bristol. Peter is a lead product designer at Seattle-based product development consultancy Carbon Design Group. Parallel to his work at Carbon, Peter collaborates with an array of design partners to create thoughtful and appropriate solutions. The "Training Dresser" is one of the designer's projects.The informative drawers create an engaging dresser for kids and an iconic furniture piece for parents. Well considered and well made. The dresser is hand crafted and packaged with care in Eastern Washington by the crew Mountain View Cabinetry.

Babetes, sapatos super-fofos e outras coisas da Cláudia Borralho






Depois de ser mãe, Cláudia Borralho percebeu a importância de um babete. Mas nunca conseguia encontrar um que fosse perfeito: se eram bonitos não assentavam bem à volta do pescoço, os que eram impermeáveis não eram absorventes. Resolveu, por isso, fazê-los à medida das necessidades. E a partir daí começaram a surgir os vestidos, as saias e uns sapatinhos de bebé que são a coisa mais fofa... Cláudia partilha os conhecimentos de costura em workshops que vai organizando e aceita encomendas para "muitos outros acessórios". Os trabalhos estão expostos e sempre atualizados na página do Facebook.