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Wek: Um simples fio transformado em arte




os tinha visto na montra da Scar.id Store e eles piscaram-me o olho (eu pisquei de volta, não sei se repararam). Felizmente, a loja estava fechada quando por lá passei. O encerramento é breve, para almoço, e até deixam contacto na porta, mas eu não podia entrar na loja. 

Ver tanta coisa gira do lado de fora convenceu-me que o melhor era fugir. Correr dali, sair rápido, virar costas, fazer de conta que não tinha lá ido, evitar saber dos horários, contornar qualquer vontade de lá passar a outra hora ou noutro dia, imaginar que nada daquilo existe, arrumar tudo no mais oculto dos ocultos lados da parte racional do meu cérebro - aquela que me diz, tantas vezes escusadamente, que não posso deixar-me levar por todas as minhas paixões. 

Se assim não fosse, e entrasse, dificilmente conseguia sair sem um monte de coisas lindas mas com os bolsos a voar de tão vazios e um sentimento de culpa pronto a transformar-me rapidamente em algo bem maior do que prazer da aquisição (ou aquisições - lá está, eram mesmo muitas coisas giras). 

Estava tudo muito bem até me cruzar hoje, sem querer, com os colares da Wek no Facebook. Despertou-se toda a vontade outra vez, ainda mais do que antes, porque não fui capaz de evitar espreitar o site da marca de joalharia contemporânea criada em junho de 2104 por Telma Oliveira e, lá chegada, deparei-me com uma diversidade e criatividade ainda maiores do que as que tinha visto do lado de lá da montra. Fiquei conquistada. Seria capaz de usar quase tudo, admiro todas as combinações e detalhes, é mesmo paixão. 

A Wek, wearable compliments, tem sede no Porto e explora materiais não convencionais. Reinventa outros e reconcilia a tradição com a inovação, misturando o trabalho manual com a produção industrial. O resultado é design exclusivo e edições limitadas.

A coleção atual junta um fio de atar habitualmente usado nas vinicultura com a modulação e a impressão a três dimensões. Interessante, não?

Os produtos estão à venda na Scar-id Store, na rua do Rosário, Porto, e na IvoMaia [designers], na rua Comendador Sá Couto, em Santa Maria da feira.






A dificuldade dos meios termos

Demasiado calor, depilação feita, há que aproveitar para usar um vestido, que o tempo vai arrefecer e entretanto os pelos crescem. Uma mulher tem demasiadas coisas para gerir e não é fácil fazê-lo numa cidade como o Porto, nomeadamente na primavera ou no verão, em que tanto está um calor tropical como está ameno, chove ou a temperatura desce abruptamente e até fica frio. 

Há que estar sempre de olho nas previsões metereológicas, porque o tempo aqui muda quando menos esperamos. A meteorologia nem sempre acerta, mas mais vale saber o que ela reserva para não dizermos que não nos avisaram. 

Pois hoje, apesar dos avisos de trovoadas e aguaceiros, estava demasiado calor para me enfiar numas calças. Mais do que isso, ontem fiz a depilação e, para amanhã, a previsão é que o tempo arrefeça. Concluo que mais vale usar um vestido de verão enquanto posso, não vá ficar frio ou não vá ter tempo para livrar as pernas dos pelos quando voltar a estar calor.

Enfio-me num vestido com três ou quatro anos, mais coisa menos coisa, o mais fresco que me aparece no armário. Já no ano passado estava mais larguinho do que quando o comprei, mas ainda assim era usável. Hoje fazia-me um fole nas costas, puxei o tecido que sobrava e cabia outra de mim lá dentro. Tira, veste outro. Comprado este ano. Talvez demasiado curto, ou demasiado marcado para um dia de trabalho. Mas agora que o comprei, tenho de o usar, era o que faltava deixá-lo apodrecer no armário. Olho ao espelho, não me parece mal. 

Diz que fica demasiado apertado, quase como se as costuras fossem rebentar - o comentário chegou quando já estava no trabalho, não tenho agora alternativa senão mantê-lo no corpo até chegar a casa. Não me sinto assim tão apertada, aliás nem me sinto nada apertada, mas fiquei a pensar naquilo. 

Talvez sejam demasiados anos a sentir-me olhada pelo que supostamente são as piores razões - ser gorda. Nunca gostei que fizessem comentários sobre o meu aspeto ou a minha roupa porque me sentia olhada. E ao sentir-me olhada sentia-me mal. 

Ter peso a mais não tem mal nenhum se a pessoa se sentir bem com isso. Eu não sentia. Agora nem sei bem que peso tenho (aquilo da balança da médica de família não é mesmo fiável, mas essa histórica fica para amanhã), mas há inseguranças difíceis de ultrapassar. Às vezes o melhor é passar por cima: eu sinto-me bem comigo e com o vestido, e isso é tudo o que, para o caso, realmente importa. 

Não há sabonetes na escola

Chego à escola à hora do costume. O miúdo, como de costume, está no recreio a jogar a bola. O recreio é de cimento, irregular, não percebo por que motivo os parques infantis têm de ter um piso especial para as crianças não se magoarem e os recreios das escolas podem ter um qualquer. Para o efeito não interessa muito e a verdade é que o pai da criança já caiu num parque infantil (coisas da vida) e ficou todo esmurrado. Contas feitas, não há pisos à prova de miúdos, e, como disse, para o caso não importa.

Desta vez o miúdo não chora ao ver-me chegar porque "ainda agora acabei de fazer os deveres, tinha mesmo começado a brincar" (mãe que tenta não se atrasar para ir buscar o filho sofre). Mostra-se conformado com a ideia de ir para casa, talvez por ter decidido não fazer os deveres no ATL "porque eram poucos".

Está com a cara com manchas castanhas, da mistura do suor e da sujidade das mãos que andaram a jogar à bola e a esfregar-se no chão durante a aula de educação física. As mãos estão pretas, quase que dá para lhe tirar a impressão digital. Vai lavar as mãos. Ele começa a dirigir-se ao centro do recreio. Onde vais? "Vou lavar as mãos". Não, vais lá dentro lavar as mãos bem lavadas com sabonete. "Não há sabonete na escola", responde-me, com a assertividade e indignação de quem acha que eu devia saber disso há muito tempo. Realmente devia. Não há sabonete na escola? Olho em volta, acenam-me que sim, que é verdade. Também não há toalhas, toalhetes ou o que quer que seja onde se possam limpar ou secar. Não há sabonete na escola? 

Não consigo sair daquilo. Fiquei bloqueada. Não há sabonete na escola. Os meninos vão almoçar e limitam-se a passar as mãos por água, se é que o fazem? Fazem cocó e passam as mãos por água? Sem sabonete? E eu nunca me apercebi disto. Se não me apercebi talvez seja porque não faz assim tanto mal. Eu até sou adepta de que ele se suje todo na terra e nunca fui obcecada com bactérias e afins. Mas não ter sabonete/gel para lavar as mãos? Numa escola do Porto? Em 2015? Quanto mais penso nisso menos faz sentido. 

Não era suposto a escola pública ser promotora da igualdade? Não era suposto que dessa igualdade fizesse parte o ensino de algumas coisas que alguns meninos não aprendem em casa? Não é suposto a higiene ser uma regra básica em qualquer parte do mundo civilizado? 

Quase que aposto que existe uma razão para não haver sabonete na escola. Quanto mais não seja, uma razão para explicar a quem possa colocar a questão. Não há dinheiro para ele, os meninos brincavam com o sabonete em vez de o usarem para limpar as mãos, os sabonetes desapareciam, quem tem competência para isso já prometeu há séculos instalar um dispensador de gel... Imagino uma série de justificações e nenhuma me convence. Os meninos daquela escola andam há um ano, ou mais, a lavar as mãos sem as lavar. 

Antes não havia sabonetes, no tempo dos meus avós e pais nem sapatos havia e sobreviveram todos, bem, os que conseguiram. Há coisas piores, o melhor é fazer queixa, talvez o mais aconselhável seja ignorar, andar para a frente, analisar se isso é mesmo um problema. Estou já em fase de delírio sobre possíveis respostas. Na verdade não espero nenhumas. Quer esteja calada quer aborde o problema. Só precisava que o mundo soubesse que sim, seja lá por que motivo for, há pelo menos uma escola pública onde não há sabonetes. No Porto. Em 2015.  

Espírito de Natal?



Uma das memórias que tenho do Natal é estar na salinha mínima da casa dos meus avós maternos, onde cabiam sofás, mesa de jantar e nós todos, sentados para comer bacalhau cozido, embora o que me interessasse fossem as toneladas de bolinhos de bacalhau da minha avó (não há iguais) que já tinha comido à socapa na cozinha. 

A mesa era redonda e muito pequena, mas tinha braseira e fazia muito frio, não havia outro sítio onde se pudesse estar. As janelas tinham umas cortinas castanhas e cor-de-laranja do mais retro que se possa imaginar (na altura eram só cortinas, a dada altura ate comecei a achá-las um bocado feias, mas que agora gostava de saber delas). O candeeiro, para além de também ser cor-de-laranja, era elástico e baixava e subia conforme necessidades e vontades (julgo que se terá estragado à custa de tanto puxão e brincadeira).

Depois do jantar, jogávamos ao rapa com pinhões e confetes de açúcar manhoso, Rapa, tira, deixa, põe. O meu avô materno ria imenso porque, sendo um enorme exemplo de bonomia e generosidade, era um grande apreciador da vida e da diversão - naquela noite, a folia passava por nos trocar as voltas com o jogo, satisfeito com a sua habilidade e com a nossa falta de visão. 

A ideia que tenho do meu pai, que trabalhava todos os dias, a qualquer hora, e a partir de determinada altura nem sequer tirava férias, encostava-se no sofá e dormitava. Ou apreciava-nos, não sei. Nunca sabemos os momentos que devemos apreciar porque vamos precisar deles mais tarde. O melhor mesmo é apreciá-los todos. 

Quanto às prendas, havia uma ou duas, mas só as víamos no dia seguinte, era o Pai Natal que as trazia, ou talvez fosse o Menino Jesus, e se nos tivéssemos portado bem. Ao lado da árvore estava sempre um envelope com uma nota e um Pai Natal de chocolate (obra do meu avô). E um embrulho. O embrulho. 

Era mais do que suficiente. Aquela alegria desmedida (daquela de causar borboletas na barriga) mais do que bastava, tremíamos de emoção ao desvendar o segredo daquele embrulho que, quase sempre, trazia exatamente aquilo que queríamos, a surpresa escolhida com muita ponderação depois de expurgar o que também gostaríamos de ter mas não era tão importante. Limitávamo-nos (quem tinha essa sorte) ao que nos fazia sonhar durante quase todo o ano porque no que sobrava dele (aniversários excluídos) não havia prendas (só roupa nova na Páscoa). 

Era mais do que suficiente, até porque já cheirava a cabrito e a bolinhos de bacalhau outra vez. 

Não havia na altura a sofreguidão da quantidade, do rasgar papel atrás de papel e correr para rasgar o seguinte até cair para o lado de cansaço, enquanto se insistia em tirar tudo das caixas quase blindadas, apertar e desapertar parafusos, não mexas, deixa-me acabar isto, desliga essa coisa barulhenta, que pilha de nervos, afinal não temos pilhas, pais e filhos desgastados já sem vontade de nada, que raio de Natal é isso? 

Nunca quis repetir isso com o meu filho mas há dias, em mais uma tentativa frustrada de lhe arrumar o quarto, constatei o que já desconfiava: todas as prendas oferecidas no Natal para serem "especiais" foram irrelevantes. Do que ele gosta é de mexer em papel. Cortar, desenhar os amigos, escrever cartas ("fazer correios"), transformar folhas em envelopes, fazer colagens em cima de colagens, inventar histórias e às vezes letras, escrever a sério e desenhar planos de cientistas loucos ou o jogo da Glória, porque feito por ele fica mais torto mas tem mais piada.

Não sou eu que o vou contrariar. A professora diz que ele não sabe pintar (e eu sei que ela tem razão) mas sabe outras coisas e não conheço pintores famosos por desenhar tudo perfeitinho dentro dos contornos com as cores supostamente certas. 

A questão preocupou-me porque pensei que o prejudicava na caligrafia. Não é o caso, Teve muito bom. "Muito Bom" a português, matemática e estudo do meio, em todos os quadradinhos em que era preciso colocar cruzinhas e "Muito Bom" na avaliação geral. Eu só quero que ele seja uma pessoa feliz, mas perceber que o trabalho que fazemos em casa também importa para o trabalho da escola é um orgulho inigualável.

Não o vou massacrar com as pinturas nem no gosto pelos desenhos animados, que nada me sabe melhor do que estar no sofá, embrulhada numa manta a ver televisão, isso sim, para mim é Natal, nem que agora seja a ver episódios repetidos de desenhos animados. Bolos não faço que não tenho jeito, nem sequer gosto dos doces de Natal, só não resisto ao leite creme (e talvez à aletria) da minha avó. Prefiro tudo o que tenha chocolate, leite condensado e natas e nisso o meu filho veio para me salvar. Quando ele tinha uns três anos, tentando antecipar o quase desastre do S. João em que não havia bolo para celebrar o aniversário do santo, enfiei-me no trânsito e na Tavi para desenrascar uma charlote (que delícia) e, em vez de cantar parabéns, ocorreu-me ser mais oportuno cantar uma canção de Natal. 

Tenho com esta época uma relação muito estranha. Acho que, em parte, é porque a minha familia nunca morou toda no mesmo sítio. A minha mãe é transmontana. O meu pai do Minho. No Natal é suposto estarmos todos juntos. Mas nunca estávamos. 

Depois, o meu pai morreu, a minha mãe morreu também quase toda, deixou de fazer árvore de Natal. As coisas nunca mais foram as mesmas em coisa nenhuma, no Natal também não. O meu avó materno também já não está lá para ensinar o jogo do rapa ao bisneto e a minha avó, que é um doce, ficou um nadinha mais amarga. Ficámos todos. Rapa, tira, deixa, põe. Já quase ninguém sabe o que isso é. 

Depois da minha maternidade, o problema agravou-se, porque nem sequer moro em nenhum dos locais onde reside a minha (nossa) família. É preciso tomar decisões, agradar a todos, ir a todo o lado, passar muito tempo no carro. Por isso, o meu Natal é a manhã do dia 25, quando estamos só nós os três, de pijama e ainda estremunhados, com o nosso barulho e o nosso silêncio, a desembrulhar duas ou três prendas, a admirar a alegria e o sorriso do miúdo. Rapa, tira, deixa... Deixa estar, é isto, assim está bom.

É o fim da tirania. Boa miúdas, juntas fazemos a força!

Os tempos de sacrifício em torno da beleza e elegância foram-se, o futuro passa por sermos quem somos sem vergonhas ou preconceitos e por nos sentirmos confortáveis. Definitivamente, as mulheres disseram não à tirania. Grande parte delas, pelo menos. Uma parte substancial, suficiente para mudar filosofias em designers e marcas de moda. Só assim se explica que, de repente, as sapatilhas de desporto fiquem bem com tudo e apareçam até nos blogs das mais sofisticadas fashionistas. 

É apenas uma moda, como outra qualquer? Pode ser que sim. Mas é preciso ver mais além, e também um pouquinho mais atrás. São cada vez mais as marcas que se querem afirmar pelo conforto. São cada vez mais as empresas que falam na personalização, em produtos práticos e adaptados à vida quotidiana, no regresso aos básicos, no estar bem connosco próprias. A coisa vai até mais longe, com a aposta em solas que massajam os pés (como os Barefooters) ou que se moldam à forma natural dos pés, como se fossem uma almofada anatómica (caso da marca Bernie Mev, que já chegou a Nova Iorque). Até a totalmente avant-garde United Nude, do arquiteto Rem Koolhaas (que desenhou a Casa da Música, no  Porto), parece apostar cada vez mais nos rasos (a coleção deste inverno é uma tentação, não fossem os preços totalmente exagerados e desmotivadores)

E, bem vistas as coisas, talvez este não à tirania que as mulheres foram gritando, primeiro bem devagarinho e baixinho e depois cada vez mais alto, explique como é que, há cerca de 15 anos, comecei a resolver o meu problema em encontrar sapatos de salto raso. Na altura era um achado encontrar um par de sapatos sem salto minimamente engraçado ou sofisticado, agora é o que mais há, difícil é escolher. Boa, raparigas, afinal fazemos a força. 

Claro que há quem possa achar os saltos altos mais confortáveis do que os rasos (conheço vários casos) e mulheres para quem usar stilettos não é sacrifício nenhum. Mas para mim era. Seria, se alguma vez me tivesse atrevido. Quando fui morar para Coimbra, todo aquele empedrado, as subidas e descidas foram suficientes para me deixar desconfortável com saltos medianos e nada estreitos. No Porto, a necessidade de estar pronta para tudo a que a profissão me obriga fez o resto: nada de alturas, quero tudo raso. E depois, a satisfação: estes são mesmo lindos, não escolhia outros, não quero os saltos altos para nada. E ainda a constatação: os saltos altos não são para mim, não são quem eu sou, usá-los é como entrar no corpo de outra pessoa e eu sou mais eu, não preciso disso para nada, é possível ter todo o estilo do mundo com os pés bem assentes na terra.

"Ó papá, não quero ir para a escola, não quero!"

Segunda-feira, manhã tristonha de chuva a avisar que o verão que não chegou a ser acabou de vez, a fila de carros habitual no sítio do costume, começar a manhã a pensar quanto tempo por dia passo presa no trânsito, era tão bom que fosse tudo perto, sair de casa ir ali ao lado e já está, qualquer dia mudo-me para o campo, até já aprendi umas coisas sobre plantas e relva, mas nada que me permita ter um ordenado ao fim do mês, nada é assim tão fácil como queremos. Somos novos e sonhamos com a cidade, o movimento, a agitação, o frenesim, a infindável oferta de atividades de lazer e diversão e, de repente, só nos apetece andar com roupa velha a chafurdar no quintal, beber chá com bolo caseiro, ir ao vizinho pedir limões, deixar o carro parado dias a fio. 

Chegamos à escola a tempo do toque, de mais uma conversa através da rede, desta vez foi rápido, adeus, mãe, até logo. Mais à frente vira-se, procura-me com o olhar, mais um aceno, até logo. Fico, como sempre que posso, a observá-lo até chegar à fila meia desordenada que em três semanas aquelas quase 30 crianças de uma das três turmas do primeiro ciclo já aprenderam a fazer, a ver com quem conversa e se sorri ou parece triste. Ao meu lado começo a ouvir o choro, "ó papá, não quero ir, não quero". O pai do lado de fora da rede, a miúda do lado de dentro, desesperada, que não, não quero ir. Ele, paciente, lembrou-lhe a conversa que tiveram no carro, falou-lhe baixinho, tentou ir embora, ela virou costas a chorar mas olhou outra vez e ele ainda lá estava, chorou mais forte, ele teve de se afastar e virar costas, finalmente apareceu uma auxiliar que lhe deu a mão para a levar para dentro, a ela e a outro que também não saía do sítio, fora os outros que passaram com os olhos rasos de água. 

São difíceis, as segundas-feiras, para eles também. E eu ainda estou de coração apertado com o choro daquela criança. Podia ser a minha. E não há regra ou método ou lá o que lhe queiram chamar mais cruel do que virar costas com os filhos a chorar na escola, com base no "isto passa já" e no "mal os pais se vão embora eles calam-se". Não é bem assim. A menina continuou a chorar, já o pai tinha ido embora, dei com ele dentro do carro com o telemóvel na mão, acho que só não estava a chorar por mero acaso, tenho a impressão de que era isso que lhe apetecia, desabar, entrar pelo portão dentro, agarrar-se à filha e dar-lhe colo, mas há toda uma teoria que obriga os pais a não fazer o que querem, porque não se pode deixar os meninos fazer o mesmo. 

Sim, é verdade, não podemos deixar os nossos filhos fazerem o que lhes apetece, mandarem em nós e terem todas as vontades satisfeitas. Mas virar costas a um filho na escola com a criança a chorar é das coisas mais dolorosas que pode acontecer a um pai ou a uma mãe. O meu sempre gostou da escola, nunca disse que não queria ir, mas também começou sem ter sequer outra maneira de se expressar que não fosse o choro. Entrou na creche com quatro meses. Quando cheguei à tarde para o ir buscar, sem direito a redução de horário, continuava a chorar. Tinha estado a chorar o dia todo. Quanto mais me diziam que era normal, que os pais é que sofrem mais, que com o tempo passa, mais eu tinha vontade de chorar também e de sair dali a correr com ele para casa. Realmente passou, depois houve uma fase em que voltou a acontecer, depois passou. 

A caminho do carro, ainda antes de me cruzar com o pai da menina que não parava de chorar, ouço duas mães conversar sobre os trabalhos de casa:
- "Ai, eu num tenho paciência. Sabes o que ela quer? Que sejas tu a ensinar-lhe as coisas em casa.  Era o que faltava! Ainda bem que tenho a minha cunhada, elas é que fazem com ela"
- "Eu ainda tenho paciência, sabes, mas às vezes até me sinto mal, tenho de lhe bater"
- "Ai, a minha também leva, que ela não quer mesmo fazer aquilo".

Não me estou a sentir muito bem, talvez seja por ser segunda-feira e me faltar um café a sério. Vou tomá-lo e não, o aperto continua. Não gosto de ver e ouvir crianças a chorar de desespero, nem pais a ter de virar costas. Nem de pais que batem. De segundas-feiras e de filas de carros também não. 

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola"


Há muito que deixei de ler artigos sobre coaching parental. Irritam-me, acho até que já escrevi por aqui que o começava a odiar. Quando falo em coaching parental falo em especialistas que, aqui e ali, são entrevistados ou chamados a dar opinião sobre determinados assuntos e parecem-me sempre demasiado cheios de certezas para uma realidade tão diversa como são as crianças. Pouco depois de eles nascerem, nós, os pais, já sabemos que eles são todos diferentes. Mesmo os pais de primeira viagem. E um bocadinho a seguir compreendemos, sem grandes dificuldades, que não há receitas mágicas para tratar do que quer que seja - dos choros, da fome, da falta de vontade de comer, das dores de dentes, dos sonos, das birras. Não adianta dizerem "quando os vossos filhos fizerem birra façam assim", se não é isso que resulta com os nossos, se até experimentamos e o resultado é pior do que o anterior. 

Os pais não sabem tudo, mas na minha opinião, este tipo de considerações apenas serve para nos deixar mais confusos, sobretudo quando eles são mais bebés e nós mais inseguros, para nos questionarmos ainda mais do que já o fazemos. Sim, acho que esta geração de pais pensa muito sobre os filhos. Na maior parte das vezes tem apenas um, por mais trabalho que tenha e por mais preocupações que ele dê, tem tempo para isso. 

Mas este texto não. Fez-me pensar. Como ele diz que as crianças têm de fazer. Nem sequer é a primeira vez que julgo ouvir ou ler o Eduardo Sá a dizer algo como a frase que fez título da notícia: "Os bons filhos são aqueles que nos trazem problemas”. E nem foi isso que me fez parar. Foi sobretudo isto: "Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?"

"A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola". Duas semanas depois das aulas começarem, até eu, que sempre fui aluna aplicada, os odeio e mantenho sérias dúvidas quanto à sua utilidade. 

O meu filho foi para a escola este ano. Ainda está a adaptar-se. Não posso dizer que o esteja a fazer nem bem nem mal. Percebo que está ainda a encaixar-se num novo mundo e que há determinadas coisas de que não gosta, nomeadamente treinar sucessivas linhas de "i" minúsculos e maiúsculos, seguidos agora dos "u". Ainda falta o resto das vogais e todas as outras letras do alfabeto. Ele já deu conta disso e tentou fazer as contas ao que ainda tinha pela frente. Tentei distraí-lo, dizer-lhe que desenhar letras cada vez se ia tornando mais fácil. Mas fazer os trabalhos de casa com os "u" foi bem mais difícil que o primeiro fim-de-semana de trabalhos de casa com os "i". Na sexta ele disse-me que "era o melhor a fazer os 'u'". Fiquei feliz, claro. E convencê-lo a repetir aquelas letras vezes e vezes sem fim? Ele de cabeça apoiada num dos braços, eu a dizer que o outro braço tem de segurar o papel, "mas assim cai-me a cabeça", "estou muito cansado", "estou cheio de fome", "doi-me o braço", "não sei fazer isto", "nunca vou conseguir", "ainda não sei fazer bem", "ainda agora comecei a aprender" e muita choraminguice pelo meio. 

A dada altura pergunto qual é o problema, o verdadeiro problema. "Na verdade, mãe, não gosto muito da escola". Diz que é porque não tem amigos, o que não é bem verdade, e insisto na parte da aprendizagem, se está a gostar. Repete os queixumes, "não sou muito bom a fazer isto". Estocada final: "Não sou lá muito feliz na escola". De repente passa-me pela cabeça que devia mandá-lo para o infantário mais um ano, afinal só faz seis anos daqui a um mês, se calhar foi opção errada (e não, não foi finca pé dos pais, a educadora de infância assim recomendou que fizessemos). 

Apercebo-me, entretanto, que todos os jardins de infância por onde passou, incluíndo o público que faz parte da escola primária onde está, destacavam a importância deles não sairem de lá a saber ler ou escrever, que o mais importante era incentivá-los a pensar por eles, estimular-lhes a criatividade, a questionar, a fazer contas enquanto, precisamente, davam trocos aos pais nas feiras que organizavam para depois poderem ir à Casa da Música, ou a Serralves, ou ao Jardim Zoológico.

Foi tudo muito bonito, mas agora ele vê-se enfiado num sistema de ensino completamente distinto, em que tem de repetir letras desenhadas infinitas vezes, tantas que até a mim me custa pensar. Da primeira vez, insisti para que fizesse perfeito, apagava com a borracha e dizia para fazer melhor, apagava outra vez, ele lá chegava, sem dificuldade, só era preciso querer. Agora questiono-me se tenho de estar eu a fazer aquele trabalho, se ele tem de aprender a fazer as letras perfeitas como eu fazia questão de as fazer, ou se não deve ter a sua própria letra. Não, não é perfecionista. Mas também, felizmente, não tem de ser igual a mim nem eu faço questão disso. Posto isto, o que é suposto eu fazer em casa? Massacrá-lo quando ele quer fazer tudo menos aquilo, quando já passa tantas horas na escola, quando os dias de semana são passados a correr porque é preciso ir buscá-lo, enfrentar o trânsito, chegar a casa, pousar sacos, tirar a pasta dos deveres, convencê-lo que é isso que vai fazer primeiro. 

Lá está, dizer que seria muito melhor deixá-los brincar primeiro, como recomenda o Eduardo Sá, faz todo o sentido, mas se eu deixar o meu filho fazer isso, ele não vai querer parar de brincar, vai-se rebolar no chão, chorar, fazer birra e pronto, lá está, chegamos ao ponto em que parece que eu é que não sou boa mãe, porque ele não faz o que eu mando, e as coisas não são assim tão simples.


Trabalhos de casa em formato XXL, que se fazem entre o banho e o jantar, já com as crianças muito cansadas…pergunto-me qual será a mais-valia ou o objetivo deles. A maior parte dos trabalhos de casa são uma forma rápida para que as crianças passem a ter um ódio de estimação pela escola. Não sou radicalmente contra os trabalhos de casa, mas era bom que o trabalho fosse ir ao supermercado com a mãe, ou com o pai, e fazer os trocos (e outras coisas do género). Ou seja, trazermos a escola da vida para dentro da escola. Acha que as crianças vão aprender com os trabalhos de casa aquilo que não aprenderam na escola?

O Eduardo Sá também diz: "Mais tempo de escola não é, obrigatoriamente, melhor tempo. Pelo contrário, as crianças precisam de muito mais tempo de recreio. Crianças mais empanturradas em conhecimento são crianças que pensam menos. Temos de perceber o que queremos, efetivamente, da escola. Se queremos, ou não, uma linha de jovens tecnocratas de sucesso. Acho ótimo que possamos ir por aí, mas jovens assim não são pessoas singulares, são produtos normalizados. E era muito bom que as pessoas percebessem que aquilo que se fala aí pomposamente como mercado vai escolher as pessoas singulares, criativas".

Eu até concordo, mas não sou eu que mando no sistema educativo, no que se ensina na escola, já me basta ter andado às voltas com um ATL que o deixou perdido no recreio no primeiro dia, com uma mãe que se ofereceu para mo encaminhar para a sala e, dois dias depois, confessou que não o fez e que se cruzou com ele no momento em que chovia torrencialmente e ele (pelo menos isso) se resguardou à entrada da escola, no hall exterior coberto do infantário, onde ninguém do ATL ou da escola o conseguia ver, nem com telescópio, nem com binóculos. Isto para não questionar por que motivo ninguém no ATL olhou para a lista que tinha o nome dele e o foi procurar, nem para mencionar o dia em que o encontrei à beira do choro (porque se tinha magoado enquanto baloiçava entre duas secretárias, disse a auxiliar), ao mesmo tempo que meninos e meninas mais velhas gritavam, saltavam entre cadeiras e secretárias, batiam com livros e gritavam histericamente. 

"Continuamos a favorecer um sistema educativo que premeia fundamentalmente os miúdos que repetem aos que recriam. É um bocado esquizofrénico, quase, porque nós castigamos os que copiam e premiamos os que repetem como se as duas coisas não fossem faces de uma mesma moeda". Pois é, mas como é que se muda isso, quando ainda é preciso mudar tanta coisa primeiro?

A terminar o verão (ou lá o que isto foi)


Comecei o dia de leggins, mas antes de sair de casa já estava cheia de calor. Esteve quente, ontem, pelo menos em Trás-os-Montes, até chegarmos a meio da tarde e começar a trovejar (e chover - ainda que nada que se pareça com o dilúvio do Porto). Tirei-as (as leggins) e fui para a rua de sol quem e folhas caídas no chão. Parecia verão/outono, no boletim metereológico aparecem indicações de 26 graus para o meio da semana, mas aquela coisa não é de confiar, está sempre a mudar, a curto e longo prazo. Assim nos foi enganando durante todo o verão deste ano. Não sei se foi o menos quente dos últimos não sei quantos anos, ou se o que em que choveu mais. Sei que não passei por dias de calor, daqueles em que se abafa, não se aguenta, nem com um vestido bem levezinho e umas sandálias que não se sentem nos pés, em que não se consegue dormir, se vêm à rua depois de jantar tentar apanhar ar, se entra em casa a transpirar. Nem gosto muito desses dias - gosto dos vestidos e das sandálias - mas desespero que são muitas as noites em que não se consegue estar em lado nenhum. Mas este ano não houve disso. Ainda fiz praia durante uma semana, estava tão maravilhosa como já não me lembro, a maré estava alta e o mar do Minho parecia uma lagoa, há anos (décadas?) que não o via assim. Foi em setembro, acho que vai voltar a ser a minha aposta de férias nos próximos anos. Os vestidos frescos ficaram no armário, não vesti metade da roupa de verão que tenho porque sempre que acordava estava a chover, ou parecia que ia chover, ou a previsão era de chuva, e o calor era pouco ou nenhum. Claro que é diferente quando estou a trabalhar. Não posso (não consigo) destapar-me toda só porque é suposto estarmos no verão quando me vou enfiar num edifício de pedra que às vezes gela ou quando sei que posso ter de andar na rua a qualquer momento, não sei durante quanto tempo nem em que circunstâncias. Nas férias é mais fácil. Põe casaco, tira casaco, de repente já estás na praia de biquini. Afinal parece que o tempo não está assim tão mau. Talvez não tenha estado, mas eu não estive todo o tempo de férias, a metros de distância de casa, sempre disponível para lá ir buscar o que for preciso, se for preciso alguma coisa, mas na maior parte das vezes não é. 

Primeiro ano da escola? Que nervos (mas sem lanche ou atividades, ainda que mais velha e feliz)


Não me sinto a envelhecer, mas sim, é algo assustador: o miúdo já vai para a primária, trabalhos de casa, chegar mesmo a horas, preparar a mochila, convencê-lo de que a casa precisa de espaço as coisas da escola, arrumar brinquedos e material escolar de forma funcional numa casa que não cresce, não desesperar quando o que apetecer é deitar tudo ao lixo porque sabemos que aquilo se vai voltar contra nós (eles vão-se lembrar daquele brinquedo com que nunca brincaram, que andou sempre perdido, mas que sabem que sabem que têm e que um dia vão querer - e vão-nos pedir ajuda para procurar). 

Não vai ser fácil convencê-lo que não pode continuar a brincar em cima da mesa da sala, porque os horários vão ser mais apertados e continua a ser preciso fazer o jantar, comer, tomar banho, agilizar tudo, ter a certeza de que a mochila está pronta, se amanhã é dia de ginástica ou de música, procurar lápis e borrachas e peças de brinquedos debaixo do sofá quando já se está a morrer de sono. Ainda por cima, saber que os próximos quatro anos vão passar num instante e, qualquer dia, ele está um adolescente a dizer e fazer coisas muito parvas. Será pior do que as birras? Se calhar é apenas diferente. Mas nós já estivemos lá nas cólicas, nos choros com motivos que não conseguíamos desvendar, nas primeiras febres, nos vómitos, nas noites sem dormir porque está doente ou porque ainda não saiu da fase do "mama, arrota, muda a fralda, deita, tenta adormecer, voltar acordar para mais mama, arroto, fralda, e depois choro por coisa nenhuma". Bem soube o que fez quem inventou a tortura do sono, não deixar dormir não é coisa que se faça a ninguém, só quem por lá passou sabe a confusão que pode instalar-se nas nossas cabeças, passam-se anos e ainda estamos a tentar descobrir como conseguimos fazer tudo sem muitas asneiras. 

Começa na segunda-feira, mas na segunda-feira ainda não há lanche. O início do ano letivo está marcado há meses, a escola do meu filho inicia-se no último dia do período definido, mas a Câmara não se lembrou do lanche das crianças. Talvez terça e quarta também não haja, não se sabe (vá lá que não se esqueceu dos almoços). Os pais levam, é só um dia ou dois, ninguém se chateia. E nas outras escolas, também é assim? As atividades extra-curriculares, que este ano vão todas ser feitas depois do horário letivo (até às 16h), também ainda não começam para já. O que irá a escola (ou devia ser a Câmara?) fazer às crianças cujos pais só podem ir buscá-las às 17h15, a hora a que as tais atividades vão terminar durante o resto do ano (a partir do momento em que começarem, coisa que não se sabe quando pode acontecer). Para conciliar a vida profissional dos pais com o percurso escolar das crianças (ou vice-versa), não deviam estar asseguradas com elas atividades até às 17:30, pelo menos? É que a essa hora talvez eu conseguisse estar na escola para o ir buscar. 

Um quarto de hora mais cedo faz diferença, pode até fazer toda a diferença se for essa a hora a que saio do trabalho. "Ele pode ficar no recreio, mas sem vigilância. Quer dizer, se acontecer alguma coisa nós vamos ver, mas não estamos a tomar conta". Pois, uma criança que ainda não fez seis anos, no recreio, sozinho, à espera que o vão buscar depois de ver os colegas irem para casa ou para o ATL. Cenário fantástico. Mas é no recreio exterior?, pergunto. "É no recreio, a senhora conhece a escola?". Conheço, o recreio é na rua, se for desse que me está a falar ele ficará à chuva, nos dias em que chover, e no Porto não chove pouco. Matricule-se então a criança no ATL, e pague-se o dito cujo, o mês completo, por 15 minutos que seja, mais não sei quanto só pela inscrição. Veremos depois se se farão atividades de tempos livres depois das outras atividades (extra-curriculares?) ou só haverá apenas uma grande confusão de crianças cansadas a precisar e a querer ir para casa. Ainda há quem se questione sobre os motivos da quebra da natalidade. Não é preciso grande teoria. Basta ver a vida dos outros.    

Um dos meus receios, com a entrada na escola, nem é gerir horários. É uma angústia velha, já não me faz mossa. A minha aflição é não saber ajudar a fazer os trabalhos de casa. Há coisas de que já não me lembro. Coisas tão simples como a caligrafia, aquelas letras todas desenhadas que, por acaso, eu até fazia muito lindas. O tempo que eu demorei, anos mais tarde, a tentar tornar a minha letra menos infantil, mais cool, a tentar desviar-me o mais possível do que me tinham ensinado. As letras desenhadas são complicadas de fazer, demoram tempo. Pior do que isso, quando andamos no ciclo ou no secundário ficam completamente "out", são foleiras que se fartam, ninguém consegue passar por essa fase com essas letras sem levar com umas valentes bocas (um bocadinho daquilo a que agora se chama bullying, raio de língua, não se encontram traduções fiéis para determinadas palavras? design, por exemplo, tem o mesmo problema: não é desenho, é design). A tal letra que trabalhei enquanto estudava, essencialmente para tentar pertencer ao lote das miúdas fixes (a malta porreira tem letra de adulto, não tem letra de primeira classe) ficou a minha letra até hoje. A desenhada foi-se.

Começa na segunda-feira. Estive lá ontem. A sala fica ao lado do sítio onde passou dois anos de jardim de infância durante os quais sempre teve a ambição de ir brincar para a primária. Não quis entrar em lado nenhum nem cumprimentar ninguém. Admitiu que estava a ficar nervoso. Isso é bom, reconhecer o que sente em vez de engolir ou fazer de conta que se é muito forte e que nada nos afeta, dizer "eu já sou grande" e pensar que se pode conquistar o mundo. Dizer que se está nervoso não é ser picuinhas. É ser verdadeiro. E identificar o que se sente: perceber que este friozinho na barriga são nervos, este aperto no coração quando se pensa nisso, são nervos. Vão voltar muitas vezes ao longo da vida. Eu também tenho, e sim, é por causa da primária. Não tem mal nenhum. A partir do momento em que sabemos como estamos, o resto vai-se fazendo e construindo todos os dias.

Estas crianças fazem de nós gente mais rija, nem eu sei bem quanto. Não são só os choros, também são os banhinhos em casa de banho ou quarto bem quentinho, seres que não se podem largar logo enquanto se lavam, quando conseguem virar-se, quando rebolam na cama, quando se começam a sentar mas ainda não ficam estáveis, quando começam a gatinhar e a andar aos tropeções e quando começam a correr e... nunca mais, na verdade. Mas este salto de cinco anos (no meu caso) trouxe-me de volta umas férias em que voltei a conseguir usufruir da praia. Sim, estive esticada na toalha umas horas, cheguei a passar pelas brasas, fiz caminhadas, não passei todo o tempo com as mãos na areia a construir castelos e escavar buracos, ou dentro de água gelada a tentar fazer de conta que me estava a divertir. Também saltei de dunas sem saber como, que quando era mais nada era pouco dada a este tipo de arrojos e atividades físicas, e defendi três penaltis num jogo de futebol em que fui guarda-redes. Também marquei um golo na cara do miúdo, mas não foi nada de grave. Se envelhecer também é isto, envelhecer é bom. 

Saldos, outra vez, bons negócios e horários por cumprir

O Facebook da loja anuncia a contagem final para os saldos. Ainda falta um mês, mais coisa menos coisa, mas contagem final dá ideia de muito bons preços. Na montra, há papéis com a palavra saldos em todo o lado e quase posso garantir que vi um a dizer "até 70%". Não procuro nada em particular, mas entro seduzida pelo marketing. Encontro uma peça a menos de 20 euros (20 euros era, aliás, o preço inicial), o que nem é mau, tendo em conta a loja que é, as marcas que vende e os respetivos preços. A funcionária aparece ao meu lado sorridente, contente até. Diz-me "hoje estamos com uma promoção de 30% em tudo". Eu fico uns segundos a pensar: Mais 30% sobre os preços de saldo marcados ou o que está marcado já são os 30%? A primeira opção até seria lógica, pelo entusiasmo da funcionária e pela informação dada verbalmente quando já havia papéis a falar de saldos em todo o lado, mas pareceu-me demasiado boa para ser verdade. Perguntei. Confirmou-se. Era 30% em tudo. Grande coisa, quando se fala em 50 e 70% e contagem final...  30% não é nada em peças que custam um balúrdio. Ficam apenas a custar um balúrdio mais pequenino. Só compra quem quer, claro. Mas se perdi o meu impulso e/ou poder de compra para pagar acima de determinado valor, acho que também desapareceram as minhas paixões à primeira vista que até se revelam amores duradouros. Uma coisa há-de estar relacionada com a outra. Mas, sobretudo nos saldos, fico pasmada com o preço da roupa. O que fazem ao que não vendem? Tentam vender na estação seguinte como se fosse novo (sim, tentam, há artigos que me ficam no olho e sei que o fazem)? Mas e se não vendem? E se nunca vendem? Será que vendem sempre, que há sempre alguém que compra. Sempre que entro em lojas em saldos onde já está tudo amontoado ou onde os preços continuam significativamente altos fico com a certeza de que a roupa e o calçado estão estupidamente caros e com a dúvida sobre o destino do que não se vende. 

Umas botas de 180 euros, mais coisa menos coisa, por 70 euros, são um bom negócio? Aparentemente sim. Mas, caramba, continuam a ser 70 euros. Prefiro (ou não tenho outra hipótese que não seja) dar 20 por algo que custava 69 e que vou ter de aprender a gostar do que aterrar de cabeça numa das tais paixões. Podia juntar vários 20 euros e comprava melhor? Podia. Mas não preciso apenas das botas, tenho uma criança que cresce muito e faz-lhe falta roupa nova todas as estações. De toda a forma, acho quase escandaloso que algo custe tanto dinheiro. E os horários? Passo por lá às 13h e está fechada, às 13h30 está fechada, às 14h fechada, às 14h30 fechada. Já estou a falar de outra loja do Porto e as passagens foram em dias diferentes. Numa zona de comércio e serviços, onde muita gente aproveita a hora de almoço para ir às compras, não consigo compreender estas novas lojas onde está afixado um horário contínuo que não é cumprido. Nem que elas não entendam o lucro que podiam ter se estivessem abertas, sobretudo quando estão mesmo ao lado dos restaurantes onde vai almoçar quem trabalha por perto. Também não gostos das mais antigas, que assumidamente fecham para almoço. Mas nestas, pelo menos, sabemos com o que podemos contar. Nas outras é uma questão de sorte. 

O problema do Porto não é o trânsito, é o estacionamento

Os carros param em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e de riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Param onde calha desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso. E é por isso que grande parte das ruas de duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra até é uma chicane, e não é só à porta das escolas.

O Porto não tem um problema de trânsito, tem um problema de estacionamento. Em segunda, terceira e quarta fila, em cima dos passeios e riscos amarelos, nas curvas, em sítios onde é óbvio que vai incomodar e até, quem sabe, provocar acidentes. Os carros param onde calha, desde que sobre um buraquinho para os outros circularem. Às vezes nem isso: é só um minutinho, tenho mesmo de descarregar estes vinte vidros com o carro parado no meio da rua, não faz mal, a malta é pacífica e espera, que remédio. 

À conta do "é só um minuto, nem sequer incomoda muito", grande parte das ruas do Porto com duas faixas têm, na prática e quase permanentemente, apenas uma. Às vezes, o que sobra é mais uma chicane: os automóveis estacionados onde não devem alternam entre o lado esquerdo e o direito da faixa de rodagem. Quem circula que ande aos ziguezagues, perdendo tempo a ficar constantemente preso atrás de carros mal estacionados, para mais à frente ser retido na faixa do lado.

Não me atirem com o argumento de que o problema são os paizinhos que só não estacionam os carros dentro da escola porque não podem. Também já pensei assim, até ter um filho na creche com quatro meses e precisar de deixar o carro mal estacionado porque não, não havia alternativa. Se podia ir de transporte público? Podia, mas a distância da paragem mais próxima era tanta que, em caso de chuva (coisa que, por acaso, nem sequer é rara no Porto) ou o molhava todo ou me molhava toda ou, quase de certeza, nos molhava aos dois. Transportar cadeirinhas ou carrinhos de bebé e demais acessórios não é lá muito compatível com o uso de guarda-chuva, não sei se sabem. A verdade é que podemos todos andar de transporte público, mesmo quem não tem filhos, não é? Nem percebo porque é que tanta gente continua a usar o carro. E a deixá-lo mal estacionado.

O problema não são os paizinhos, são as escolas do Porto e respetivas imediações: quando foram construídas não havia tantos carros e nunca ninguém se preocupou em tentar ajustar a situação à evolução dos tempos. E o problema não é, de todo, exclusivo das zonas escolares. Na rua da Boavista, por exemplo, há carros em segunda fila junto ao colégio, é verdade, mas também os há pelo resto da rua. E até é aí, mais abaixo, que as viaturas alternam a paragem entre o lado direito e o esquerdo da estrada, às vezes com um ou dois metros de distância. Ao menos arrumavam-se para o mesmo lado, sempre era mais fácil. 

Na rua do Almada não há nenhuma escola e os carros estacionam diariamente dos dois lados da rua, quando o aparcamento só é permitido num deles. Há, aliás, riscos amarelos bem visíveis do lado esquerdo e os carros estão lá parados todos os dias. Como estão onde mais calhar e for preciso. 

O problema do estacionamento junto às escolas existe e devia ser resolvido. Mas há muito mais quem estacione fora do sítio. O problema do Porto não é o trânsito, é muito mais a falta de estacionamento, que enerva quem precisa de parar o carro e não encontra onde, conduz ao estacionamento indevido, atrapalha a circulação, bloqueia quem quer passar e faz com que tudo na nossa vida de portuenses demore muito mais tempo do que a nossa felicidade merece.