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50 quilos e coisas da sorte

A minha médica de família diz que peso 50 quilos. Ela não, a balança. A mulher até voltou a calibrar o aparelho de propósito porque eu não acreditava, dizia que era impossível.  Ela olhava para mim e achava que sim. Em todo o caso, acertou a balança, mandou-me subir outra vez. 50 quilos.

Continuo a achar que não é verdade. Tenho a certeza de que, se me pesar noutra balança, peso mais. Sei que estou mais magra, até posso admitir estar magra, mas nunca na vida devo ter pesado 50 quilos.

Talvez tivesse pesado isso quando era criança, e menos do que isso quando era bebé, mas lembro-me de ser bem pequena e andar a comer umas sopas/papas e a tomar uns comprimidos para emagrecer receitados pelo pediatra. Aquilo marcou-me para o resto da vida. Não teve efeitos nenhuns. A não ser fazer-me sentir diferente, para pior. 

Se tinha de comer aquilo e, ainda por cima, tomar comprimidos, sendo tão nova, algo estava errado comigo. Numa mais me livrei do rótulo e do peso que pus em mim própria por causa disso. Ainda hoje não estou totalmente recuperada, como se constatou pela incredibilidade perante várias pesagens na balança. 

Já mais velha, lembro-me de ter feito umas dietas parvas (cortar com tudo o que fosse doce, depois com os hidratos de carbono e por aí adiante até chegar ao ponto de a regra ser apenas ingerir vegetais ou fruta, exceções para um peixinho grelhado com legumes e para os almoços de domingo em casa da avó ou dias de festa). As dietas parvas encontrei-as em revistas femininas. Depois ainda me pus a fazer ginástica e aparelhos de musculação, o que não teria mal nenhum se o fizesse por prazer e para me manter saudável e em vez de ser um sacrifício para ficar mais magra. Porque, supostamente, mais magra, ou magra, era melhor. 

Eu, que nem era assim tão gorda - vejo agora pelas fotografias - meti na cabeça que era uma baleia e não queria ser, porque ser baleia era mau. As baleias (as gordas) não têm namorados porque nenhum rapaz quer namorar com uma baleia (gorda). As gordas são feias. Era o que eu achava. Parva. 

Com as dietas malucas e o exercício o menos que pesei foram 58 quilos. Estava bastante bem, com aqueles 58 quilos. Não tinha barriga. Tinha umas coxas jeitosas, um rabo também. Não me sentia magra, que era o que eu queria ser, mas sentia-me melhor. 

Depois fui engordando e emagrecendo, sempre sem fugir muito dos 58 quilos (quando emagrecia, entenda-se, porque numa das fases em que engordei cheguei aos 80 e ao tamanho 44/46). Já tive muita vergonha disto. Agora não. Estes 50 quilos, se é que são verdade, aconteceram porque tiveram de acontecer, não porque acordei um dia determinada a chegar aos 50 quilos. 

Aconteceu muita coisa que me tirou apetite e que aparentemente me deixou de vez sem ataques de gula, nomeadamente por chocolates e doces (fiquei assim depois do meu filho nascer). Tenho algum cuidado porque me sinto bem assim (mais magra), mas como de tudo - batatas fritas, pizzas, massas, bifes, pão com manteiga, tudo. Emagreci a sério na única vez em que não me pus a fazer dieta para emagrecer. Não deixa de ser irónico. Uma vida a tentar e acontece (em boa hora, é verdade) quando está longe de ser uma prioridade. 

É também uma lição. Por muito que nos esforcemos, as coisas às vezes não acontecem quando queremos. Acontecem quando tem de ser. Não adianta, por isso, desesperar, exasperar, sofrer, ficar de coração apertado. Quando tiver de ser, é. Para o bem e para o mal. Sendo certo que, como dizia o meu avô, para ter sorte é preciso muito trabalho. 

Trabalhemos, pois, até chegar(em) o(s) dia(s) de sorte. Que podem ser quando menos esperamos. E que até podem ser o que menos esperamos. Às vezes uma frase do filho e/ou a atenção/cuidado do marido basta para perceber que toda a nossa sorte até está mesmo ali ao nosso lado, todos os dias..      

Ser diferente

O miúdo que supostamente tem as orelhas grandes (a mim parecem-me normais, a paródia feita pelo programa Ídolos, da SIC foi fazer-lhe crescer as orelhas e, se isso foi preciso, é porque as orelhas do não eram assim tão grandes) vai ser operado - às orelhas. Uma clínica qualquer ofereceu-se para isso, acabei de ler no jornal. 

Confesso que fiquei um bocadinho chocada. Como se não bastasse tudo o resto, agora há uma clínica que se aproveita do miúdo para lhe dar o que ele pensa que quer, a troco de publicidade - sim, o jornal cita o nome da clínica e até refere tratar-se de um "patrocínio". Não me lembro de alguém me ensinar, abertamente e num momento concreto, que ser diferente não faz mal nenhum. Mas com o tempo e a idade fui aprendendo que somos todos imperfeitos, que temos de aperfeiçoar o que podemos e aprender a viver e conviver pacificamente com que não tem volta a dar. 

Fico, por isso, um bocado triste que pareça ter ido por água abaixo toda a solidariedade de todos os imperfeitos que disseram ao miúdo 'não ligues, todos nós tivemos a nossa cruz quando éramos mais novos (esta crónica do Ferreira Fernandes do DN é exemplar) - se não foram as orelhas foram os óculos, ou foi porque éramos demasiado altos ou demasiado baixos, ou demasiado magros ou excessivamente gordos... Parece um paradoxo, não é? Mas tanto era alvo de chacota quem era muito baixo ou muito gordo como o seu contrário (quem é baixo e/ou gordo não imagina que tal possa acontecer até se cruzar com alguém alto e/ou magro a queixar-se de ter passado pelos mesmos olhares dos outros).

Nunca ninguém é perfeito e, quem parece estar mais próximo de uma suposta normalidade, faz sempre questão de destacar as diferenças dos outros. Para se sentir superior, ou só porque sim, não sei. Eu fazia parte dos gordos com óculos, não estava propriamente entre os mais populares da escola, nem sequer me vestia muito bem (acho que vestia basicamente o que calhava e o que a minha mãe me comprava) nem tinha o cabelo giro (tive uma fase de cabelo comprido em que usava um rabo de cavalo apertado de lado e no topo da cabeça, não sei onde fui buscar aquilo ou de que forma me convenci de que aquilo me favorecia, acho que na verdade não ligava a isso, estava só preocupada em ser do que em parecer). 

Não posso dizer que tenha tido uma existência miseravelmente triste enquanto criança ou adolescente. Fui feliz, diverti-me, tive muitos amigos, fui boa aluna, no geral consegui marimbar-me para o resto, pensar mais no meu futuro e no que queria ser do que naquilo que alegadamente estava mal com o meu corpo, numa época em que a tirania da perfeição era bem mais pesada (quais modelos XL, quais anúncios da Dove a mostrar corpos 'normais', com celulite, barriga, coxas ou rugas, eu cresci na época áurea da Barbie, a boneca de formas tão perfeitas quanto impossíveis).

Apesar de tudo, todos estes anos depois, sei que vivi (mal) com o rótulo da menina gorda. Tanto que ainda hoje, magra e a vestir 36 há dois anos, mais coisa menos coisa, acho que isto não é o meu estado normal, que está só de passagem, como se a gordura fosse uma sentença para a vida, como se fosse apenas uma gorda em recuperação - sim, isso mesmo, como se o excesso de peso fosse uma doença como o alcoolismo ou a toxicodependência, em que se contam os meses em que a balança não ultrapassa determinado número sempre com o receio de que possa voltar a passar.

Andei sempre em frente mas assimilei todas as bocas, todos os comentários, mesmo os que possam ter sido ditos sem maldade, todas as roupas que experimentei e não me serviam, todos os tamanhos maiores que tive de pedir, todas as peças de vestuário que gostava de ter tido e não pude porque era demasiado grande para elas. Ou elas demasiado pequenas para mim - mas isso é o que penso agora, na altura apenas me sentia demasiado mal. 

Andava em frente mas fazia dietas malucas e desequilibradas que apareciam recomendadas em revistas femininas. Cheguei a comer só saladas e fruta, dei cabo do estômago por causa disso, e tive de ser operada a um joelho que lesionei nos aparelhos de musculação e na ginástica - tudo coisas que fazia para emagrecer, não para me sentir bem. 

Aprendi que, apesar das marcas, nada disto ou coisa parecida impede quem quer que seja de ser um adulto bem sucedidos. Percebi também que, com o tempo, as orelhas podem deixar de parecer desproporcionais, ou podemos deixemos de ser tão altos, tão baixos, tão gordos ou tão magros. Ou que conseguimos aprender a viver pacificamente com isso tudo e muito mais. 

Andou mais de meio mundo a tentar explicar ao miúdo que as orelhas dele não tinham mal nenhum, que a SIC é que agiu mal e agora o miúdo vai mudar de orelhas. Ninguém gosta de ser alvo de chacota, e quanto mais pública ela for, pior. A paródia sobre nós e sobre o nosso corpo nunca se esquece? Não, nunca. Mas tenho sérias dúvidas que mudar seja a solução. E começo a ter a convicção de que o caminho que é preciso percorrer para nos aceitarmos só nos faz bem, só nos torna melhores, mais compreensívos, menos intolerantes.

No caso em questão, até acho que não é por mudar de orelhas que os gozadores potenciais das orelhas do miúdo vão deixar de se lembrar das orelhas supostamente grandes parodiadas na televisão. Ou que ele fez uma operação para deixar de ter supostamente grandes porque foram alvo de uma brincadeira de mau gosto. Os potenciais gozadores apenas se vão esquecer ou cansar, quando calhar. O miúdo talvez não. Talvez pense que não. Mas podia. A verdade é que, se calhar, ninguém (nem eu) devia andar a meter o nariz nas orelhas do rapaz.

Meias, gravidez e o carrossel dos conselhos ao estado de graça

As meias de descanso/compressão serão, certamente, das coisas mais difíceis de enfiar no corpo. e, consequentemente, das coisas que mais facilmente desistimos de tentar vestir. No fim tudo fica normal, mas calçar aquela coisa apertada e fazê-la subir pelas pernas acima é uma aventura. Estou no dia 1 de meias de descanso/compressão, tenho varizes, pernas doridas e pesadas, já devia usá-las há anos. A dor e o peso nunca foram suficientes para me convencer. 

Cheguei agora ao ponto de concluir que tenho mesmo de seguir as indicações médicas e fazer o sacrifício. Para já acho, neste dia 1, com cerca de três horas enfiadas numas meias até ao joelho, parece-me que vale a pena. Não dou conta de estar com umas meias especiais e sinto as pernas mais leves. No fim do dia saberei melhor avaliar os resultados, mas para já digo que sim, realmente resultam.

A questão é que, para saber se elas resultam é preciso conseguir calçá-las e, raios, nunca vi coisa tão difícil de vestir. Nunca experimentei um espartilho, mas imagino que até isso seja mais simples - aperta-se atrás, por muito apertada que uma pessoa fique a operação de o vestir parece mais fácil, ainda que implique duas pessoas. Se calhar era o que devia ser indicado para as meias de descanso.

Não me admira nada que a única tentativa que fiz até hoje, quando estava grávida, tenha sido uma aterradora e traumatizante. Como é que uma mulher com uma barriga e umas mamas gigantes consegue alcançar os pés e os tornozelos para ultrapassar a fase mais complicada de vestir umas meias tão apertadas que implicam ginástica, habilidade, agilidade e treino? Sei de muitas grávidas que as usaram, parabéns para elas, ainda bem, se eu as tivesse usado talvez agora não andasse à volta com varizes e pernas pesadas. A mim disseram-me muitas vezes que as devia usar - uma ou duas, vá, e voz que o fez de forma mais veemente foi a mãe de outra grávida que me irritou porque achei que estava a mandar em mim. 

As grávidas não gostam que mandem nelas, porque passam a gravidez a ouvir palpites de toda a maneira e feitio. Hão-de perceber que muitos deles até tinham razão de ser. Mas são tantos e tão contraditórios que se transformam num ruído de fundo que irrita. E as grávidas ficam tão hormonalmente sensíveis que não gostam de se sentir num carrocel a toda a hora. 

Eu, pelo menos, senti-me assim muitas vezes: como se todos estivessem a dizer ao mesmo tempo coisas que eu não conseguia ouvir porque entretanto a minha cabeça estava transformada numa roda gigante com tanta informação. Talvez tenha tido o azar de receber muitas sugestões. Não faças isto, faz aquilo, usa isto, aquilo é que é... 

Tivessem perdido mais tempo a explicar-me mesmo a sério que um filho dá muito trabalho, chora muito e não deixa os pais dormir, por mais que até seja sossegado (a mim saiu-me um pouco tranquilo e com um choro que ainda hoje fura os tímpanos a qualquer um), porque em relação a isso tudo o que eu vi foi o olhar ternurento e confiante de quem olha para alguém que está a gerar uma vida e que não deve estar senão infinitamente feliz. 

Raras vezes me senti em estado de graça, em parte porque não me sentia dentro do meu corpo. O meu nariz parecia o de uma rena, as minhas pernas incharam, deixei de calçar o 36 para calçar o 38. No último mês não consegui calçar outra coisa senão os sapatos do pai da criança, tamanho 41, e vestir-lhe o casaco, tamanho L, formato masculino. E não conseguia vestir o raio das meias, não chegava aos pés, tinha de passar por cima da barriga para tentar meter-me dentro delas e o miúdo fincava-me os calcanhares no peito. Atirei-as para um canto tão recôndito que ainda hoje não sei onde estão. Nunca mais as vi.

Alguns conselhos até faziam sentido, mas uma grávida cheia de hormonas aos saltos pode não ser a pessoa mais fácil para os ouvir. Eu sei que não fui. 



O vestido de casamento

Os casamento são um bocado chatos, é preciso dizê-lo. Ao entusiasmo inicial de saber que vamos ter uma festa, começam a somar-se, a dada altura, uma série de irritações. Porque já sabemos que mesmo os casamentos mais divertidos são sempre um bocadinho aborrecidos: igreja, missa, fotografias, copo de água, refeições abundantes e quase sempre exageradas, demasiado tempo numa mesa, demasiada pose, demasiado tempo no mesmo sítio, música de gosto algo duvidoso a convidar para dançar quando a maior parte das mulheres já não aguenta os saltos que cisma em ter de levar para a cerimónia e maridos ou companheiros não são grandes bailarinos.

Pode parecer fútil, e certamente é, mas o que a mim me irrita seriamente a partir de determinado momento é a roupa que vou usar. A que quero usar, a que devo usar (se é que isso existe) e todas as combinações de bijuteria, sapatos, lenços, casacos e pochetes que é necessário fazer. É sempre nesta fase que concluo que odeio casamentos. Inicialmente parece-me tudo simples. Levo um vestido qualquer que já tenho, não me vou por a gastar dinheiro só por causa de um dia, combino com isto e aquilo, vai ser fácil. Ou, então, compro este nos saldos (do ano anterior). Por mais que me custe não vou estreá-lo, deixo-o guardado no armário (foi o que aconteceu). 

Quando me atrevo a tirar a tal preciosidade do guarda-roupa para verificar se tenho tudo o resto e se tudo o resto combina, entro na canseira do veste e despe, experimenta isto, agora aquilo, vamos ver estes brincos, este colar não serve, afinal não gosto, o vestido é demasiado curto, não fica bem com o casaco de cerimónia que já tem para aí dez anos mas que tem de servir para mais esta, estes botões dão cabo de qualquer possibilidade de usar o colar que ficaria a matar com o discreto fio de cor de prata das sabrinas... E a conclusão acaba por ser, sempre, que odeio casamentos. 

Por mais que tente simplificar, ou sobretudo por isso, as combinações depois não resultam, e isso é coisa para me martelar o juízo durante as noites que forem precisas até encontrar a que me agrada. 

E a parte dos sapatos rasos até já é ponto assente, há muito que deixei de ir na na cantiga de 'um casamento merece um salto alto' ou 'esse vestido pede mesmo um stilleto'. Vou aos casamentos dentro do meu estilo, que não inclui os saltos altos. Isso não significa que vá de sapatilhas mas muito menos quer dizer que não vá muito bem apresentada. 

Se o salto alto me deixaria mais elegante? Talvez, Mas para isso precisava de ser outra pessoa. Uma pessoa que soubesse usar saltos, que se sentisse bem com eles. Com saltos altos eu não sou bem eu. Sou alguém parecida comigo enfiada num calçado que não "casa" com mais nada em mim. E a sofisticação não está nas peças, está no conjunto. Se o global fizer sentido, estão o resultado é positivo.

Depois, à medida que a data se aproxima, começam as dúvidas sobre o tempo que fará. Se chove, se faz frio, se vai estar vento (o vento em si próprio é importante, ninguém quer andar com um vestido curto rodado se correr o risco de o ver levantar com o vento), se fará muito calor ou se à noite arrefece. Esta dúvida existe sempre, seja o casamento em que época do ano for. E, mais ainda, quando a meteorologia se virou toda do avesso e nos surpreende a cada passo. Com verões como o do ano passado, por exemplo, em que só me lembro de me saber a calor em setembro. 

Podia ser tudo simples, se não fosse vaidosa e friorenta, mas sou. Talvez por isso, nunca conseguiria ser a noiva. Só a parte do vestido, da meteorologia, do cabelo, da maquilhagem, da manicure e dos sapatos (imagino que os sapatos de noiva devem ser coisa para lá de complicada, acho que nunca vi nenhuns de que gostasse) deixar-me-ia acordada noites a fio. Se, a somar a isto, tivesse de tratar de convites, organizações de mesas, música, catering e confirmações, já estaria doida. 

A verdade é que, quando recebemos a notícia de que alguém de quem gostamos vai casar (casar mesmo, com ou sem igreja, mas com festa a preceito), ficamos felizes. Se, ainda por cima, formos informados do dito apenas como uma partilha da felicidade em que nem se menciona o convite porque ele está implícito, sentimo-nos parte de uma história e da família. Foi o que aconteceu, e apesar de, até hoje, a formalização da convocatória não ter chegado, eu já ando à roda com os vestidos porque na altura tenho de ter tudo pronto. 

Não sou a noiva nem quero ser, mas tenho de ter todos os cenários precavidos. O casaco é importante porque no sítio do casamento o tempo é instável, agosto é mês de nortadas e de fazer mais frio do que em março. Há um ano, na mesma altura, choveu torrencialmente sem estar grande calor (para não dizer que estava frio e que até passei parte da tarde no sofá embrulhada numa manta). A localização e a tradição condiciona os sapatos: a família da noiva deve acompanhá-la a pé (por um caminho de paralelo) até à igreja. Picuinhices minhas, eu sei, mas prefiro isso do que andar cheia de frio ou ter de me descalçar a meio da festa.  

INKI: As carteiras que são a minha cara




É muito fácil encontrar algo de que goste, mas é difícil deparar-me com algo que verdadeiramente me surpreenda, que considere inovador, que queira ter só porque é único, diferente, out of the box. Explicar com detalhe que me causa espanto não é fácil de explicar. Talvez o segredo passe por ser algo em que o que admiro é o lado estético, muito mais do que o lado prático ou de necessidade.

É o caso destas carteiras da INKI. O conceito parece profundamente simples, mas também por isso me agrada. Questiono-me "como é que nunca ninguém se lembrou disto?". E concluo que, quem as idealizou, merece reconhecimento.

O resultado é genial, as cores estão excelentemente combinadas, os padrões maravilhosamente escolhidos. E o projeto é nacional.

Isto nada tem a ver com necessidade, porque carteiras tenho mais do que muitas. Mas que gostava de ter uma destas, gostava. Porque acho que combinam comigo, que "são à minha cara", que podia ter sido eu a lembrar-me de as fazer, se tivesse jeito para isso. Porque combinam com a roupa que visto, com a minha imagem, com o que sou. E para que uma peça não pareça mal num conjunto, para que não pareça estar fora do contexto, tem de ter tudo isto.

Talvez seja precisamente por esse motivo que algumas pessoas conseguem fazer combinações de padrões e cores de fazer inveja e eu não. Talvez eu não seja essa pessoa, mesmo admirando o gosto e as escolhas das outras que o são.

O projeto INKI pretende trazer ao mercado um produto que seja, ao mesmo tempo, inovador, exclusivo e versátil. Os mentores da marca são arquitetos e trabalharam na criação das peças inspirando-se na geometria. Cada uma delas tem uma história particular para ser contada.

Eu gostava de saber a história delas todas, mas sei que este é um produto do qual tenho de me manter bem afastada - qualquer hipótese de proximidade implicaria não resistir à compra, ou ficar miseravelmente infeliz por confirmar a genialidade do projeto sem o trazer para casa. 

Charlie, abono, escola pública e a liberdade das mulheres


Parece que hoje somos todos Charlie, por causa do atentado em Paris na redação do semanário Charlie Hebdo, mas o que eu vejo quase todos os dias são atentadas à liberdade de imprensa, e à liberdade em geral, à igualdade e à fraternidade. Ontem, no meio tiroteio, quase que perdia a notícia de que o Governo decidiu cortar o abono de família a quem tiver rendimentos brutos mensais superiores a 628 euros. Há quem ganhe menos? Há. Muito menos? Sim. Mas 628 euros brutos não é nada, é uma migalha, sobretudo para quem tem filhos. 

Fico tentada a concordar com a crónica do Ricardo Santos no Aventar e dizer que "Somos todos merda nenhuma". Porque no dia-a-dia calamos e só quando nos toca de longe ou de forma tão abrangente que só pode ser consensual, ficamos todos do mesmo lado. Como ele diz, "Acho, muito sinceramente, que o “somos todos” é uma forma de nos sentirmos confortáveis com a coragem dos outros – ao longe, pois claro -, uma projeção do que gostávamos de ser mas que ainda não temos coragem. Sinceramente, não sei o que falta mais. Como lia um dia destes no facebook de um amigo, para ficarmos pior, só se nos despentearem".

Na escola do meu filho, está frio no refeitório e o miúdo constipou-se. Foi ele que disse, que "estava muito frio". Os miúdos comem por turnos, ainda não consegui desvendar quantos. Pela quantidade de alunos da escola do primeiro ciclo, presumo que sejam quatro. Pelo que todos têm de se despachar, o tempo é limitado, há que dá de comer a todos, mas quem não comer não come, tivesse comido, há que dar vez a outros, ou então não há mais nada para ninguém porque está na hora de regressar à sala.

Também faltam funcionários e já perdi a conta às vezes em que a responsável do ATL se queixa de se ver grega para gerir tantas crianças, nas quais se incluem três com necessidades educativas especiais. Ontem contou-me que no dia anterior quase chorou, quando um miúdo fugiu para o recreio e ela, sozinha, não pode ir atrás dele porque tinha na sala os meninos com necessidades especiais, que tem de estar sempre a impedir que façam o mesmo. Isto tudo numa escola onde, a partir das 17h30, não há porteiro e qualquer um consegue abrir a porta - por fora, e por dentro. 

E disto, ninguém quer saber? É no Porto, tem nas instalações um jardim de infância e, no recreio, zero entretenimentos para as crianças mais novas, que não se podem misturar com os da escola mas misturam. E depois apanham, ficam sem cartas que era suposto trocarem. Nem um baloiçozinho, apenas balizas na área que não podem atravessar. Por isso brincam às lutas, a atirar terra e paus das árvores uns aos outros. Ou a rasgar os kispos no arame que separa a escola do pátio de acesso à rua. Os da escola básica não estão muito melhor. Por razões que a razão desconhece, parece que só podem jogar à bola no recreio dois dias da semana.

Se penso que podia ter sido na minha redação? Penso. Que podia ter sido na redação onde trabalham alguns dos meus amigos? Penso. Mas também penso no silêncio de tanta gente em relação a tanta coisa que está errada, que revolta, que magoa, pode não ser uma chacina mas não deixa de ser um atentado. 

No meio disto tudo, lembro-me do que li há dias no El Diario, através de Silvia Federici, professora na Universidade de Hofstra em Nova Yorque: "É um engano que o trabalho assalariado tenha servido para libertar as mulheres, nomeadamente porque, agora, as mulheres têm dois trabalhos e ainda menos tempo para, por exemplo, lutar ou participar em movimentos políticos ou sociais".

Eu concordo: Trabalhamos, somos supostamente mais realizadas e independentes, mas sobretudo quando os filhos nascem, chegamos a casa e fazemos tudo o que faziam as domésticas, só que em menos tempo e menor vontade. Sim, eu chego a casa e continuo a trabalhar. Apanhar roupa do estendal, dobrar roupa, ajudar o miúdo a fazer os deveres, fazer o jantar, organizar as coisas para o dia seguinte. Por vezes, ao mesmo tempo, atendo e faço telefonemas do trabalho - do tal que, na verdade, não liberta as mulheres.

E hoje, encontro esta crónica da Ruth Manus, que em português do Brasil, em com as especificidades própria do país onde vive, nos fala de uma geração de meninos e  meninas educada de forma diferente, mas não o suficiente para que tudo encaixe quando chega a fase adulta. 

O título do texto é "A incrível geração de mulheres que foi criada para ser tudo o que um homem não quer" e deixo aqui alguns excertos, 


- "O fato é que eu venho pensando nisso. Na incrível dissonância entre a criação que nós, meninas e jovens mulheres, recebemos e a expectativa da maioria dos meninos, jovens homens, homens e velhos homens.O que nossos pais esperam de nós? O que nós esperamos de nós? E o que eles esperam de nós? Somos a geração que foi criada para ganhar o mundo. Incentivadas a estudar, trabalhar, viajar e, acima de tudo, construir a nossa independência. Os poucos bolos que fiz na vida nunca fizeram os olhos da minha mãe brilhar como as provas com notas 10. Os dias em que me arrumei de forma impecável para sair nunca estamparam no rosto do meu pai um sorriso orgulhoso como o que ele deu quando entrei no mestrado. Quando resolvi fazer um breve curso de noções de gastronomia meus pais acharam bacana. Mas quando resolvi fazer um breve curso de língua e civilização francesa na Sorbonne eles inflaram o peito como pombos. Não tivemos aula de corte e costura. Não nos chamaram pra trocar fralda de um priminho"

- "Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas nos ensinaram esportes. Nos fizeram aprender inglês. Aprender a dirigir. Aprender a construir um bom currículo. A trabalhar sem medo e a investir nosso dinheiro. Exatamente como aconteceu com os meninos da nossa geração. Mas, escuta, alguém lembrou de avisar os tais meninos que nós seríamos assim? Que nós disputaríamos as vagas de emprego com eles? Que nós iríamos querer jantar fora, ao invés de preparar o jantar? Que nós iríamos gostar de cerveja, whisky, futebol e UFC? Que a gente não ia ter saco pra ficar dando muita satisfação? Que nós seríamos criadas para encontrar a felicidade na liberdade e o pavor na submissão?"

- "Muitas de nós sonham com filhos. Mas não só com eles. Nós queremos fazer um risoto. Mas vamos querer morrer se ganharmos um liquidificador de aniversário. Nós queremos contar como foi nosso dia. Mas não vamos admitir que alguém questione nossa rotina.O fato é: quem foi educado para nos querer? Quem é seguro o bastante para amar uma mulher que voa? Quem está disposto a nos fazer querer pousar ao seu lado no fim do dia? Quem entende que deitar no seu peito é nossa forma de pedir colo? E que às vezes nós vamos precisar do seu colo e às vezes só vamos querer companhia pra um vinho? Que somos a geração da parceria e não da dependência?"

- "E não estou aqui, num discurso inflamado, culpando os homens. Não. A culpa não é exatamente deles. É da sociedade como um todo. Da criação equivocada. Da imagem que ainda é vendida da mulher. Dos pais que criam filhas para o mundo, mas querem noras que vivam em função da família. No fim das contas a gente não é nada do que o inconsciente coletivo espera de uma mulher. E o melhor: nem queremos ser. Que fique claro, nós não vamos andar para trás. Então vai ser essa mentalidade que vai ter que andar para frente. Nós já nos abrimos pra ganhar o mundo. Agora é o mundo tem que se virar pra ganhar a gente de volta"

Espírito de Natal?



Uma das memórias que tenho do Natal é estar na salinha mínima da casa dos meus avós maternos, onde cabiam sofás, mesa de jantar e nós todos, sentados para comer bacalhau cozido, embora o que me interessasse fossem as toneladas de bolinhos de bacalhau da minha avó (não há iguais) que já tinha comido à socapa na cozinha. 

A mesa era redonda e muito pequena, mas tinha braseira e fazia muito frio, não havia outro sítio onde se pudesse estar. As janelas tinham umas cortinas castanhas e cor-de-laranja do mais retro que se possa imaginar (na altura eram só cortinas, a dada altura ate comecei a achá-las um bocado feias, mas que agora gostava de saber delas). O candeeiro, para além de também ser cor-de-laranja, era elástico e baixava e subia conforme necessidades e vontades (julgo que se terá estragado à custa de tanto puxão e brincadeira).

Depois do jantar, jogávamos ao rapa com pinhões e confetes de açúcar manhoso, Rapa, tira, deixa, põe. O meu avô materno ria imenso porque, sendo um enorme exemplo de bonomia e generosidade, era um grande apreciador da vida e da diversão - naquela noite, a folia passava por nos trocar as voltas com o jogo, satisfeito com a sua habilidade e com a nossa falta de visão. 

A ideia que tenho do meu pai, que trabalhava todos os dias, a qualquer hora, e a partir de determinada altura nem sequer tirava férias, encostava-se no sofá e dormitava. Ou apreciava-nos, não sei. Nunca sabemos os momentos que devemos apreciar porque vamos precisar deles mais tarde. O melhor mesmo é apreciá-los todos. 

Quanto às prendas, havia uma ou duas, mas só as víamos no dia seguinte, era o Pai Natal que as trazia, ou talvez fosse o Menino Jesus, e se nos tivéssemos portado bem. Ao lado da árvore estava sempre um envelope com uma nota e um Pai Natal de chocolate (obra do meu avô). E um embrulho. O embrulho. 

Era mais do que suficiente. Aquela alegria desmedida (daquela de causar borboletas na barriga) mais do que bastava, tremíamos de emoção ao desvendar o segredo daquele embrulho que, quase sempre, trazia exatamente aquilo que queríamos, a surpresa escolhida com muita ponderação depois de expurgar o que também gostaríamos de ter mas não era tão importante. Limitávamo-nos (quem tinha essa sorte) ao que nos fazia sonhar durante quase todo o ano porque no que sobrava dele (aniversários excluídos) não havia prendas (só roupa nova na Páscoa). 

Era mais do que suficiente, até porque já cheirava a cabrito e a bolinhos de bacalhau outra vez. 

Não havia na altura a sofreguidão da quantidade, do rasgar papel atrás de papel e correr para rasgar o seguinte até cair para o lado de cansaço, enquanto se insistia em tirar tudo das caixas quase blindadas, apertar e desapertar parafusos, não mexas, deixa-me acabar isto, desliga essa coisa barulhenta, que pilha de nervos, afinal não temos pilhas, pais e filhos desgastados já sem vontade de nada, que raio de Natal é isso? 

Nunca quis repetir isso com o meu filho mas há dias, em mais uma tentativa frustrada de lhe arrumar o quarto, constatei o que já desconfiava: todas as prendas oferecidas no Natal para serem "especiais" foram irrelevantes. Do que ele gosta é de mexer em papel. Cortar, desenhar os amigos, escrever cartas ("fazer correios"), transformar folhas em envelopes, fazer colagens em cima de colagens, inventar histórias e às vezes letras, escrever a sério e desenhar planos de cientistas loucos ou o jogo da Glória, porque feito por ele fica mais torto mas tem mais piada.

Não sou eu que o vou contrariar. A professora diz que ele não sabe pintar (e eu sei que ela tem razão) mas sabe outras coisas e não conheço pintores famosos por desenhar tudo perfeitinho dentro dos contornos com as cores supostamente certas. 

A questão preocupou-me porque pensei que o prejudicava na caligrafia. Não é o caso, Teve muito bom. "Muito Bom" a português, matemática e estudo do meio, em todos os quadradinhos em que era preciso colocar cruzinhas e "Muito Bom" na avaliação geral. Eu só quero que ele seja uma pessoa feliz, mas perceber que o trabalho que fazemos em casa também importa para o trabalho da escola é um orgulho inigualável.

Não o vou massacrar com as pinturas nem no gosto pelos desenhos animados, que nada me sabe melhor do que estar no sofá, embrulhada numa manta a ver televisão, isso sim, para mim é Natal, nem que agora seja a ver episódios repetidos de desenhos animados. Bolos não faço que não tenho jeito, nem sequer gosto dos doces de Natal, só não resisto ao leite creme (e talvez à aletria) da minha avó. Prefiro tudo o que tenha chocolate, leite condensado e natas e nisso o meu filho veio para me salvar. Quando ele tinha uns três anos, tentando antecipar o quase desastre do S. João em que não havia bolo para celebrar o aniversário do santo, enfiei-me no trânsito e na Tavi para desenrascar uma charlote (que delícia) e, em vez de cantar parabéns, ocorreu-me ser mais oportuno cantar uma canção de Natal. 

Tenho com esta época uma relação muito estranha. Acho que, em parte, é porque a minha familia nunca morou toda no mesmo sítio. A minha mãe é transmontana. O meu pai do Minho. No Natal é suposto estarmos todos juntos. Mas nunca estávamos. 

Depois, o meu pai morreu, a minha mãe morreu também quase toda, deixou de fazer árvore de Natal. As coisas nunca mais foram as mesmas em coisa nenhuma, no Natal também não. O meu avó materno também já não está lá para ensinar o jogo do rapa ao bisneto e a minha avó, que é um doce, ficou um nadinha mais amarga. Ficámos todos. Rapa, tira, deixa, põe. Já quase ninguém sabe o que isso é. 

Depois da minha maternidade, o problema agravou-se, porque nem sequer moro em nenhum dos locais onde reside a minha (nossa) família. É preciso tomar decisões, agradar a todos, ir a todo o lado, passar muito tempo no carro. Por isso, o meu Natal é a manhã do dia 25, quando estamos só nós os três, de pijama e ainda estremunhados, com o nosso barulho e o nosso silêncio, a desembrulhar duas ou três prendas, a admirar a alegria e o sorriso do miúdo. Rapa, tira, deixa... Deixa estar, é isto, assim está bom.

Publicidade ou não?










A TitisClothing foi a primeira marca a contactar-me quando criei o Divine Shape. A empresa, espanhola, descobriu o blog e gostou tanto dele que me contactou a propor uma parceria. Acabaram por ser várias. Organizámos passatempos (um dos mais divertidos foi este) e oferecemos vestidos. Agora demos um passo em frente e a TitisClothing torna-se na primeira anunciante no blog. 

Sim, a Divine Shape está aberta à colocação de publicidade no blog. Se estiver interessado em saber quais as condições de publicidade do blog, contacte-me pelo mail the.divine.shape@gmail.com.

A Divine Shape também está no Facebook, com 1580 gostos neste momento, no Instagram, no Pinterest e no Polyvore

Os anúncios, colocados do lado direito do blog, tem ligação ao site das marcas e estão devidamente identificados como publicidade.

Este post é só para dizer que espero pelos vossos contatos e para mostrar algumas das peças da nova coleção da Titis que mais me agradam. E não, essa parte já não é publicidade, sou eu a exibir aquilo de que gosto.

Há dias perfeitos


A Panados e Arroz de Tomate escreveu um post sobre os dias perfeitos e o que eu retive foi a última parte: "No fim, mais duas horas a pesquisar personagens do Roque Santeiro e a cantar a banda sonora da novela. Há dias perfeitos, foda-se".

Eu tenho fases assim, em que para além das músicas dos filmes de dança que ouvia na adolescência e juventude, preciso de ouvir músicas de novelas. E cantá-las. E chorar, se for preciso. É como se fosse um exercício de libertação, de liberdade, de espantar medos, de voltar a acreditar no que na altura acreditava. 

Atualmente a televisão continua a escolher o que podemos ver, mas a diversidade de canais é tanta que podemos escolher muita coisa. Ou até gravar o que queremos para podermos ver quando estamos sossegados no sofá e nada do que está a passar naquela hora interessa. Quando eu era miúda, primeiro só existiam dois canais, depois apareceram mais dois. Eu via (víamos?) novelas brasileiras porque não havia outra coisa para ver. E porque aquilo é feito para viciar - depois do primeiro e segundo episódios, já estavamos "agarrados". Mais elas do que eles, admito. Se podíamos ler um livro em vez de ficar a olhar para a televisão? Podíamos. Mas em minha casa via-se a novela. 

Para mim, aquilo era mais do que uma história, era o outro lado do mundo, outro universo, que depois descobri melhor ao ler Jorge Amaro, por exemplo, e a ouvir Jobim, Caetano, Chico ou Rita Lee. 

Mas é às músicas das novelas que (talvez uma vez por ano, ou uma vez de dois em dois anos, não sei ao certo) preciso mesmo de ouvir. Rainha da SucataRoque SanteiroBaila Comigo, Água Viva, Guerra dos Sexos, Vale Tudo (se ouvirem as músicas vão-se lembrar), Tieta e muitas outras. Admito o meu total fascínio por duas das personagens interpretadas pela Regina Duarte (a viúva Porcina do Roque Santeiro e a Maria do Carmo da Rainha da Sucata), mas também era fã da Glória Pires, da Malu Mader e da Christiane Torloni.

Não é fixe, gourmet, cool e todas essas coisas que estão na moda atualmente? Não. Mas pode ser considerado vintage, Pouco me importa. Há dias perfeitos, carago.

Those dancing days


Foi a Sílvia Silva que se lembrou e eu não podia deixar passar em claro porque, como ela, continuo a vibrar com estas músicas, a achar que podia ter sido bailarina, que dançar me faria feliz.

Não, nos anos 80 não haviam estrelas Disney, nem DVD e canais de televisão para criança e eu, como ela, vibrava com estes filmes de dança: o Footloose, o Flashdance e, sobretudo, o Fame. Há uns anos fui ao Coliseu ver um musical do Fame que nem sei se era bom ou mau, mas saí de lá para o metro a levantar as duas pernas como se fosse bailarina profissional e a abanar-me como uma doida. Não é só revivalismo. É outra coisa um bocadinho diferente, talvez o voltar a vibrar com o sonho da dança.

Ainda hoje ensaio uns passos de ballet, copiados de tudo o que passou na televisão e que incluia bailarinas. Não sei se havia escolas de ballet na cidade onde eu vivia quando era criança. Os meus pais nunca se lembraram de tal. Eu também nunca pedi. Mas dançava. Muito. Porque tinha vontade, porque me alegrava a alma, porque me fazia feliz. Também tinha umas perneiras, cor-de-rosa, que a minha tia me fez. 

Para além destes três filmes de dança que a Sílvia cita, foi também importante para mim um outro, já mais próximo dos anos 90 e um bocadinho diferente, muito romântico, daquele dos amores impossíveis que tudo superam, outra coisa também bastante típica na altura, pelo menos do que me passou pelas vistas na época. No caso, que é o do filme Dirty Dancing, o amor, ou a dança, não sei bem, serviram até para superar a inabilidade da introvertida Baby, o que só fez com que me identificasse totalmente com ela, que era tímida, sem uma beleza óbvia e conseguiu conquistar aquele figurão que era o Patrick Swayze. Era tudo o que eu sonhava, naquele tempo em que me sentia um patinho feio, um amor daqueles, a fazer acreditar que tudo é possível, Thoseque o amor basta, que não se mexe, que existe a pessoa perfeita para cada um de nós. O filme, e outros do género, fizeram-me acreditar em tudo, ainda que nada acontecesse. Durante mesmo muito tempo. 

Crescemos assim, e depois, puf. Não é necessariamente mau, talvez possa ser melhor, mas é muito diferente. A música que ainda hoje me faz tremer, ao ouvi-la e ao ver a dança, é o Time of my Life. Vi o filme várias vezes de cada vez que o aluguei (sim, naquela altura havia clubes de vídeo onde alugávamos filmes)  para aprender todos os passos. 

Na altura serviu-me de pouco, talvez apenas para os meus pais pensarem que estava tolinha, embora a mania das danças já viesse de muito cedo. Há uns dez anos, mais coisa menos coisa, consegui personalizar o salto do Time of my Life (ao som de outra música qualquer) com o meu mais que tudo (em vez de lhe saltar para os braços esticados ao alto, como os do Patrick, fazia a corrida e saltava-lhe para o colo, foi uma emoção).  Há umas semanas, enquanto viajávamos de carro, numa rádio local passou o Hungry Eyes, do mesmo filme. Pedi silêncio, comecei a cantar, emocionada, até. Repetia cada detalhe como quem há muito tempo não respirava. "Nem vou perguntar como é que conheces isto", disse ele. Toda a gente que viu o Dirty Dancing conhece isto, respondi.

É o fim da tirania. Boa miúdas, juntas fazemos a força!

Os tempos de sacrifício em torno da beleza e elegância foram-se, o futuro passa por sermos quem somos sem vergonhas ou preconceitos e por nos sentirmos confortáveis. Definitivamente, as mulheres disseram não à tirania. Grande parte delas, pelo menos. Uma parte substancial, suficiente para mudar filosofias em designers e marcas de moda. Só assim se explica que, de repente, as sapatilhas de desporto fiquem bem com tudo e apareçam até nos blogs das mais sofisticadas fashionistas. 

É apenas uma moda, como outra qualquer? Pode ser que sim. Mas é preciso ver mais além, e também um pouquinho mais atrás. São cada vez mais as marcas que se querem afirmar pelo conforto. São cada vez mais as empresas que falam na personalização, em produtos práticos e adaptados à vida quotidiana, no regresso aos básicos, no estar bem connosco próprias. A coisa vai até mais longe, com a aposta em solas que massajam os pés (como os Barefooters) ou que se moldam à forma natural dos pés, como se fossem uma almofada anatómica (caso da marca Bernie Mev, que já chegou a Nova Iorque). Até a totalmente avant-garde United Nude, do arquiteto Rem Koolhaas (que desenhou a Casa da Música, no  Porto), parece apostar cada vez mais nos rasos (a coleção deste inverno é uma tentação, não fossem os preços totalmente exagerados e desmotivadores)

E, bem vistas as coisas, talvez este não à tirania que as mulheres foram gritando, primeiro bem devagarinho e baixinho e depois cada vez mais alto, explique como é que, há cerca de 15 anos, comecei a resolver o meu problema em encontrar sapatos de salto raso. Na altura era um achado encontrar um par de sapatos sem salto minimamente engraçado ou sofisticado, agora é o que mais há, difícil é escolher. Boa, raparigas, afinal fazemos a força. 

Claro que há quem possa achar os saltos altos mais confortáveis do que os rasos (conheço vários casos) e mulheres para quem usar stilettos não é sacrifício nenhum. Mas para mim era. Seria, se alguma vez me tivesse atrevido. Quando fui morar para Coimbra, todo aquele empedrado, as subidas e descidas foram suficientes para me deixar desconfortável com saltos medianos e nada estreitos. No Porto, a necessidade de estar pronta para tudo a que a profissão me obriga fez o resto: nada de alturas, quero tudo raso. E depois, a satisfação: estes são mesmo lindos, não escolhia outros, não quero os saltos altos para nada. E ainda a constatação: os saltos altos não são para mim, não são quem eu sou, usá-los é como entrar no corpo de outra pessoa e eu sou mais eu, não preciso disso para nada, é possível ter todo o estilo do mundo com os pés bem assentes na terra.

A terminar o verão (ou lá o que isto foi)


Comecei o dia de leggins, mas antes de sair de casa já estava cheia de calor. Esteve quente, ontem, pelo menos em Trás-os-Montes, até chegarmos a meio da tarde e começar a trovejar (e chover - ainda que nada que se pareça com o dilúvio do Porto). Tirei-as (as leggins) e fui para a rua de sol quem e folhas caídas no chão. Parecia verão/outono, no boletim metereológico aparecem indicações de 26 graus para o meio da semana, mas aquela coisa não é de confiar, está sempre a mudar, a curto e longo prazo. Assim nos foi enganando durante todo o verão deste ano. Não sei se foi o menos quente dos últimos não sei quantos anos, ou se o que em que choveu mais. Sei que não passei por dias de calor, daqueles em que se abafa, não se aguenta, nem com um vestido bem levezinho e umas sandálias que não se sentem nos pés, em que não se consegue dormir, se vêm à rua depois de jantar tentar apanhar ar, se entra em casa a transpirar. Nem gosto muito desses dias - gosto dos vestidos e das sandálias - mas desespero que são muitas as noites em que não se consegue estar em lado nenhum. Mas este ano não houve disso. Ainda fiz praia durante uma semana, estava tão maravilhosa como já não me lembro, a maré estava alta e o mar do Minho parecia uma lagoa, há anos (décadas?) que não o via assim. Foi em setembro, acho que vai voltar a ser a minha aposta de férias nos próximos anos. Os vestidos frescos ficaram no armário, não vesti metade da roupa de verão que tenho porque sempre que acordava estava a chover, ou parecia que ia chover, ou a previsão era de chuva, e o calor era pouco ou nenhum. Claro que é diferente quando estou a trabalhar. Não posso (não consigo) destapar-me toda só porque é suposto estarmos no verão quando me vou enfiar num edifício de pedra que às vezes gela ou quando sei que posso ter de andar na rua a qualquer momento, não sei durante quanto tempo nem em que circunstâncias. Nas férias é mais fácil. Põe casaco, tira casaco, de repente já estás na praia de biquini. Afinal parece que o tempo não está assim tão mau. Talvez não tenha estado, mas eu não estive todo o tempo de férias, a metros de distância de casa, sempre disponível para lá ir buscar o que for preciso, se for preciso alguma coisa, mas na maior parte das vezes não é. 

Professora, yes I am

Paciente, persistente, insistente, o tom foi de incentivo e firmeza. Para cima, para baixo juntinho, chega ao fim da linha e voltinha - é assim que se faz um "i" minúsculo manuscrito. Nem eu sabia. Sabia fazê-lo, mas não descrever como se fazia. Eram os trabalhos de casa para o fim de semana, é a primeira letra a aprender, ele começou a fazer e não sabiam bem, percebi como tinha de descrever o processo para sair tudo certo, os últimos já ficaram direitinhos. Na data, fui intransigente: os números não ficam encavalitados uns em cima dos outros, é ao lado. Está mal, não é assim, apaga, faz outra vez. "Nunca vou conseguir". Isso é expressão proibida, não quero que digas isso, quero que digas "vou tentar". Ele tentou. Uma e outra vez. E mais outra. Foi o mais difícil, explicar-lhe que os números se começam a escrever ao lado do anterior, e não por cima. Ficava tudo encavalitado, deixou de ficar. Desconfio que vai voltar a ficar, se lhe pedir para fazer outra vez. Mas com o tempo muda. 

Nunca quis ser professora. A minha mãe era, eu achei que não tinha jeito, que não seria feliz com essa profissão, isto quando acreditava que, ao encontrar a minha verdadeira vocação, tinha a satisfação e realização pessoal e profissional garantida. Podia ter escolhido outras profissões, ajeitava-me em várias áreas, da ciência às humanidades, mas os números cansavam-me, preferi desistir da arquitetura. Julgo que apenas se a tivesse seguido saberia se também a sentiria como vocação. A que escolhi sim, senti-a assim. Mas garantia de realização de tudo e mais alguma coisa não é, como nenhuma é, julgo eu. Quanto a lecionar, a julgar pelas confusões com os concursos (que já há uns 20 ou 30 anos angustiavam a minha mãe), não me parece que pudesse ter feito de mim alguém mais feliz, mas afinal tenho jeito. Ou então tenho jeito para ser mãe a ajudar a fazer os trabalhos de casa. Para já, o meu maior medo caiu por terra, é quase sempre assim, o que nos aflige por antecipação nem chega bem a acontecer, por norma até acontece outra coisa que não prevíamos e que (talvez precisamente por isso) dá bem mais trabalho a resolver e a pacificar-nos. 

Para cima, desce apertadinho, curva, pintinha. Perdi a conta às vezes, mas detetei as dificuldades e, enquanto ele desenhava a letra já sem indicações (aquilo deve ter-lhe ficado a martelar na cabeça, a determinado ponto não foi preciso dizer mais), preparei os trabalhos de casa para segunda-feira. Se não os trouxer da escola, faz os que eu já defini. Se trouxer, pode ser que faça os dois. Não quero que ele seja nenhum génio, nem sou nenhuma doida preocupada com as notas que ele vai ter daqui a 12 anos, o que mais me preocupa é que ele seja feliz, mas ele é desatento e trapalhão por preguiça, precisa de, nos bocadinhos em que é mesmo preciso, ter a cabeça concentrada no que está a fazer. Pelo caos que encontro no ATL não vou ter ali ajuda nenhuma, preciso de ser eu a fazer também o trabalho de casa. O tempo parece-me sempre pouco, nunca chega, mas há-de ficar um bocadinho elástico, com o tempo chego lá. 

Primeiro ano da escola? Que nervos (mas sem lanche ou atividades, ainda que mais velha e feliz)


Não me sinto a envelhecer, mas sim, é algo assustador: o miúdo já vai para a primária, trabalhos de casa, chegar mesmo a horas, preparar a mochila, convencê-lo de que a casa precisa de espaço as coisas da escola, arrumar brinquedos e material escolar de forma funcional numa casa que não cresce, não desesperar quando o que apetecer é deitar tudo ao lixo porque sabemos que aquilo se vai voltar contra nós (eles vão-se lembrar daquele brinquedo com que nunca brincaram, que andou sempre perdido, mas que sabem que sabem que têm e que um dia vão querer - e vão-nos pedir ajuda para procurar). 

Não vai ser fácil convencê-lo que não pode continuar a brincar em cima da mesa da sala, porque os horários vão ser mais apertados e continua a ser preciso fazer o jantar, comer, tomar banho, agilizar tudo, ter a certeza de que a mochila está pronta, se amanhã é dia de ginástica ou de música, procurar lápis e borrachas e peças de brinquedos debaixo do sofá quando já se está a morrer de sono. Ainda por cima, saber que os próximos quatro anos vão passar num instante e, qualquer dia, ele está um adolescente a dizer e fazer coisas muito parvas. Será pior do que as birras? Se calhar é apenas diferente. Mas nós já estivemos lá nas cólicas, nos choros com motivos que não conseguíamos desvendar, nas primeiras febres, nos vómitos, nas noites sem dormir porque está doente ou porque ainda não saiu da fase do "mama, arrota, muda a fralda, deita, tenta adormecer, voltar acordar para mais mama, arroto, fralda, e depois choro por coisa nenhuma". Bem soube o que fez quem inventou a tortura do sono, não deixar dormir não é coisa que se faça a ninguém, só quem por lá passou sabe a confusão que pode instalar-se nas nossas cabeças, passam-se anos e ainda estamos a tentar descobrir como conseguimos fazer tudo sem muitas asneiras. 

Começa na segunda-feira, mas na segunda-feira ainda não há lanche. O início do ano letivo está marcado há meses, a escola do meu filho inicia-se no último dia do período definido, mas a Câmara não se lembrou do lanche das crianças. Talvez terça e quarta também não haja, não se sabe (vá lá que não se esqueceu dos almoços). Os pais levam, é só um dia ou dois, ninguém se chateia. E nas outras escolas, também é assim? As atividades extra-curriculares, que este ano vão todas ser feitas depois do horário letivo (até às 16h), também ainda não começam para já. O que irá a escola (ou devia ser a Câmara?) fazer às crianças cujos pais só podem ir buscá-las às 17h15, a hora a que as tais atividades vão terminar durante o resto do ano (a partir do momento em que começarem, coisa que não se sabe quando pode acontecer). Para conciliar a vida profissional dos pais com o percurso escolar das crianças (ou vice-versa), não deviam estar asseguradas com elas atividades até às 17:30, pelo menos? É que a essa hora talvez eu conseguisse estar na escola para o ir buscar. 

Um quarto de hora mais cedo faz diferença, pode até fazer toda a diferença se for essa a hora a que saio do trabalho. "Ele pode ficar no recreio, mas sem vigilância. Quer dizer, se acontecer alguma coisa nós vamos ver, mas não estamos a tomar conta". Pois, uma criança que ainda não fez seis anos, no recreio, sozinho, à espera que o vão buscar depois de ver os colegas irem para casa ou para o ATL. Cenário fantástico. Mas é no recreio exterior?, pergunto. "É no recreio, a senhora conhece a escola?". Conheço, o recreio é na rua, se for desse que me está a falar ele ficará à chuva, nos dias em que chover, e no Porto não chove pouco. Matricule-se então a criança no ATL, e pague-se o dito cujo, o mês completo, por 15 minutos que seja, mais não sei quanto só pela inscrição. Veremos depois se se farão atividades de tempos livres depois das outras atividades (extra-curriculares?) ou só haverá apenas uma grande confusão de crianças cansadas a precisar e a querer ir para casa. Ainda há quem se questione sobre os motivos da quebra da natalidade. Não é preciso grande teoria. Basta ver a vida dos outros.    

Um dos meus receios, com a entrada na escola, nem é gerir horários. É uma angústia velha, já não me faz mossa. A minha aflição é não saber ajudar a fazer os trabalhos de casa. Há coisas de que já não me lembro. Coisas tão simples como a caligrafia, aquelas letras todas desenhadas que, por acaso, eu até fazia muito lindas. O tempo que eu demorei, anos mais tarde, a tentar tornar a minha letra menos infantil, mais cool, a tentar desviar-me o mais possível do que me tinham ensinado. As letras desenhadas são complicadas de fazer, demoram tempo. Pior do que isso, quando andamos no ciclo ou no secundário ficam completamente "out", são foleiras que se fartam, ninguém consegue passar por essa fase com essas letras sem levar com umas valentes bocas (um bocadinho daquilo a que agora se chama bullying, raio de língua, não se encontram traduções fiéis para determinadas palavras? design, por exemplo, tem o mesmo problema: não é desenho, é design). A tal letra que trabalhei enquanto estudava, essencialmente para tentar pertencer ao lote das miúdas fixes (a malta porreira tem letra de adulto, não tem letra de primeira classe) ficou a minha letra até hoje. A desenhada foi-se.

Começa na segunda-feira. Estive lá ontem. A sala fica ao lado do sítio onde passou dois anos de jardim de infância durante os quais sempre teve a ambição de ir brincar para a primária. Não quis entrar em lado nenhum nem cumprimentar ninguém. Admitiu que estava a ficar nervoso. Isso é bom, reconhecer o que sente em vez de engolir ou fazer de conta que se é muito forte e que nada nos afeta, dizer "eu já sou grande" e pensar que se pode conquistar o mundo. Dizer que se está nervoso não é ser picuinhas. É ser verdadeiro. E identificar o que se sente: perceber que este friozinho na barriga são nervos, este aperto no coração quando se pensa nisso, são nervos. Vão voltar muitas vezes ao longo da vida. Eu também tenho, e sim, é por causa da primária. Não tem mal nenhum. A partir do momento em que sabemos como estamos, o resto vai-se fazendo e construindo todos os dias.

Estas crianças fazem de nós gente mais rija, nem eu sei bem quanto. Não são só os choros, também são os banhinhos em casa de banho ou quarto bem quentinho, seres que não se podem largar logo enquanto se lavam, quando conseguem virar-se, quando rebolam na cama, quando se começam a sentar mas ainda não ficam estáveis, quando começam a gatinhar e a andar aos tropeções e quando começam a correr e... nunca mais, na verdade. Mas este salto de cinco anos (no meu caso) trouxe-me de volta umas férias em que voltei a conseguir usufruir da praia. Sim, estive esticada na toalha umas horas, cheguei a passar pelas brasas, fiz caminhadas, não passei todo o tempo com as mãos na areia a construir castelos e escavar buracos, ou dentro de água gelada a tentar fazer de conta que me estava a divertir. Também saltei de dunas sem saber como, que quando era mais nada era pouco dada a este tipo de arrojos e atividades físicas, e defendi três penaltis num jogo de futebol em que fui guarda-redes. Também marquei um golo na cara do miúdo, mas não foi nada de grave. Se envelhecer também é isto, envelhecer é bom. 

Saldos, outra vez, bons negócios e horários por cumprir

O Facebook da loja anuncia a contagem final para os saldos. Ainda falta um mês, mais coisa menos coisa, mas contagem final dá ideia de muito bons preços. Na montra, há papéis com a palavra saldos em todo o lado e quase posso garantir que vi um a dizer "até 70%". Não procuro nada em particular, mas entro seduzida pelo marketing. Encontro uma peça a menos de 20 euros (20 euros era, aliás, o preço inicial), o que nem é mau, tendo em conta a loja que é, as marcas que vende e os respetivos preços. A funcionária aparece ao meu lado sorridente, contente até. Diz-me "hoje estamos com uma promoção de 30% em tudo". Eu fico uns segundos a pensar: Mais 30% sobre os preços de saldo marcados ou o que está marcado já são os 30%? A primeira opção até seria lógica, pelo entusiasmo da funcionária e pela informação dada verbalmente quando já havia papéis a falar de saldos em todo o lado, mas pareceu-me demasiado boa para ser verdade. Perguntei. Confirmou-se. Era 30% em tudo. Grande coisa, quando se fala em 50 e 70% e contagem final...  30% não é nada em peças que custam um balúrdio. Ficam apenas a custar um balúrdio mais pequenino. Só compra quem quer, claro. Mas se perdi o meu impulso e/ou poder de compra para pagar acima de determinado valor, acho que também desapareceram as minhas paixões à primeira vista que até se revelam amores duradouros. Uma coisa há-de estar relacionada com a outra. Mas, sobretudo nos saldos, fico pasmada com o preço da roupa. O que fazem ao que não vendem? Tentam vender na estação seguinte como se fosse novo (sim, tentam, há artigos que me ficam no olho e sei que o fazem)? Mas e se não vendem? E se nunca vendem? Será que vendem sempre, que há sempre alguém que compra. Sempre que entro em lojas em saldos onde já está tudo amontoado ou onde os preços continuam significativamente altos fico com a certeza de que a roupa e o calçado estão estupidamente caros e com a dúvida sobre o destino do que não se vende. 

Umas botas de 180 euros, mais coisa menos coisa, por 70 euros, são um bom negócio? Aparentemente sim. Mas, caramba, continuam a ser 70 euros. Prefiro (ou não tenho outra hipótese que não seja) dar 20 por algo que custava 69 e que vou ter de aprender a gostar do que aterrar de cabeça numa das tais paixões. Podia juntar vários 20 euros e comprava melhor? Podia. Mas não preciso apenas das botas, tenho uma criança que cresce muito e faz-lhe falta roupa nova todas as estações. De toda a forma, acho quase escandaloso que algo custe tanto dinheiro. E os horários? Passo por lá às 13h e está fechada, às 13h30 está fechada, às 14h fechada, às 14h30 fechada. Já estou a falar de outra loja do Porto e as passagens foram em dias diferentes. Numa zona de comércio e serviços, onde muita gente aproveita a hora de almoço para ir às compras, não consigo compreender estas novas lojas onde está afixado um horário contínuo que não é cumprido. Nem que elas não entendam o lucro que podiam ter se estivessem abertas, sobretudo quando estão mesmo ao lado dos restaurantes onde vai almoçar quem trabalha por perto. Também não gostos das mais antigas, que assumidamente fecham para almoço. Mas nestas, pelo menos, sabemos com o que podemos contar. Nas outras é uma questão de sorte. 

LOOK OF THE DAY: Rosa e verde (Yes, I am going crazy)

Sou mulher de básicos, extravagantes discretos (como este vestido ou este, que são apenas uma gota num oceano monocolor e escuro) e muitos pretos, cinzas, azuis petróleo e brancos, alguns vermelhos. De vez em quando canso-me. E ouso naqueles sapatos naquele tom de cor-de-rosa que acho lindo, mesmo que depois seja o cabo dos trabalhos para os conjugar com o resto de um armário aborrecido. E também me atrevo numas calças verde água, mesmo que depois só consiga vesti-las com brancos e acabe por vesti-las muito pouco. Hoje o dia acordou cinzento, eu olhei para as calças de ganga e concluí que precisava de um dia de descanso - isto de ter um verão sem calor faz falta, a malta tem vestidos e não os pode vestir porque não está tempo para isso. Arrisquei, fiquei um bocado doida, misturei o rosa e o verde, camisola branca porque mais do que isso era demais. Blusão de ganga para o caso de arrefecer. O sol abriu, o calor continua sabe-se lá onde. Há que experimentar coisas diferentes com o que há lá por casa, até chegarmos à fase em que os senhores das marcas de roupa vão perceber que têm de reinventar todas as suas coleções por causa das alterações climáticas. Nem sequer estou a falar em roupa ecológica. A questão é que, se o verão já não existe, faria algum sentido pensar em roupa de meia estação que inclua, por exemplo, camisolas de mangas compridas (o que é feito das mangas, agora tudo é sem mangas, mesmo no inverno?), parkas com um forro nem demasiado quente nem demasiado frio, porque aquela coisa do casaco só para tapar a chuva que não precisa de aquecer porque é verão está completamente 'out'. Do que sempre ouvi falar foi do aquecimento global. Por aqui estamos em pleno verão desarrefecido (a palavra não existe, mas é mesmo assim que ele está). A maior parte da roupa que uso por estes dias continua a ser a que teria usado na primavera, se esta primavera não tivesse parecido inverno. Por isso é que aproveitei os saldos de verão para apostar numas botas pelo tornozelo - mesmo que a primavera pareça inverno e chova todos os dias, já não faz muito sentido usar botas até ao joelho. Agora é esperar que a compra super espetacular (69,90 euros de bota vieram ter aos meus pés por uns brilhantes 20 euros) não seja frustrada pela meteorologia.  

Umas sapatilhas e um jardim feito por nós para festejar os 37

Ele percebeu que eu queria umas sapatilhas novas, apesar das dicas que fui deixando na Internet sobre umas jóias muito giras que ando a namorar. Gosto de desconfiar que ele passou na loja e estava fechada. Se calhar estou enganada. Mas umas sapatilhas fazem muito mais falta do que um colar ou um anel e se é de sapatilhas que eu gosto, se é isso que eu uso mesmo e que, de certeza, não deixarei apodrecer no armário, então é isso que eu devo receber pelo aniversário, ainda que seja mais de uma semana antes do chegar aos 37. Fui eu que as escolhi mas não tenho problema nenhum com isso. São um modelo masculino, aliás. As femininas eram demasiado cor-de-rosa, azul bebé e já não havia tamanhos que me servissem. De qualquer modo era a prateleira do outro lado que me seduzia. "Qual é o número mais pequeno que tem?" "Traga, vou experimentar". Amor à primeira vista. Um número acima do meu, mas não se nota, acho eu. E fiquei a saber que o mesmo número dos modelos femininos é maior do que o dos modelos masculinos. Não faz muito sentido, mas deve ser daquelas coisas em que homens e mulheres são diferentes. A mim, tanto me dá, trouxe as sapatilhas de que gostava e há um ano seria incapaz de comprar ou receber qualquer coisa que não fosse preta ou cinzenta ou lisa, o que significa que algo importante mudou em mim. Não é fútil falar nisto, pelo simples facto de que o que mudou em mim foi por dentro. Descontraí-me. Isso é importante para quem está sempre tensa. Despreocupei-me com o que podem pensar. Isso é importante para quem se preocupa com isso. Segui os meus instintos, escolhi o que gosto e não o que pode ser mais fácil de combinar porque é mais neutro e não sai fora do preto/cinzento/azul marinho da minha zona de conforto. Estas coisas importam. Não são mudanças de visual. São mudanças interiores. Se a podia fazer sem umas sapatilhas? Podia, mas desde a adolescência que nos afirmamos pelo que vestimos. Em todo o caso, não foi por isso que o fiz. foi porque quis, não tenho mais nada a explicar.

O mais bonito disto tudo é que a minha verdadeira prenda de aniversário é o jardim que sempre quis. Só não tem baloiços porque já não tenho idade para isso. Ou talvez tenha. Mas não deu tempo para esse detalhe. Tem o jardim, que é o que eu queria. Foi-se o matagal, tenho um jardim com relva (não te iludas, hei de conseguir tirar dali as ervas daninhas, ou pelo menos não vou desistir para já), e flores, e hei-de ter árvores. E, porque o meu filho decidiu, vou ter uma festa de anos para inaugurar o jardim. Quem nunca teve um e sempre o quis tem de ceder. Eu nem queria grandes festas. Mas temos um jardim para apresentar ao mundo, para celebrar. Foi feito à custa do nosso suor. Sobretudo do suor de quem ainda me quis oferecer as sapatilhas. Eu vi o trabalho todo, também dei cabo de mim a cavar e a plantar, ainda que ele achasse que fiz tudo da maneira mais difícil e menos prática. Fiz como soube, até não poder fazer mais. Todas as segundas-feiras o corpo acusava o cansaço e a cabeça começava a desenhar o que seria preciso fazer no fim de semana seguinte. Agora temos de fazer a festa.   

Coaching parental, acho que te odeio

Devo ter sido das mães de primeira viagem mais nabas de todos os tempos. Não li nada a não ser as diferentes fases da evolução da gravidez, não tive aulas pré-parto, não aprendi a acalmar as cólicas, acho que nem sabia que os bebés tinham disso. Se é que têm, porque uma vez, ainda eu não tinha recuperado de todo o choro, cansaço e exaustão do que era suposto serem as cólicas do meu, ouvi uma mãe cujo bebé chorava numa festa de anos alegar que as cólicas eram uma invenção. Ela não foi mais além, mas o que me pareceu que queria dizer era que as cólicas foram inventadas para justificar a inabilidade de certas mães - as outras, que não ela - para lidar com o choro dos bebés, ou seja, com os próprios bebés, com os próprios filhos.

Li muito pouco sobre as fases de crescimento e evolução dos bebés, nos primeiros meses nem ler consegui, tanto era o tempo que um bebé com muitas cólicas e muito choro me absorvia. Podia ter lido antes, mas para além de estar bastante preocupada a trabalhar como uma formiga freelancer para poupar para a licença de parto a que tinha direito como se apenas ganhasse o salário mínimo, achei que as coisas se resolviam de outra maneira. Pensava eu que o mimo, a paciência e o colo eram o remédio de todos os males. De certa forma são. Eu não contava era com o cansaço, as noites sem dormir, o acordar de duas em duas horas, o quase não ter tempo para tomar banho ou para comer. A dada altura, a exaustão dá cabo de tudo o resto. Não há quem aguente dar mimo, colo e ter paciência quando está em privação de sono. 

Eu não li nada, mas leram por mim. A única coisa que registei de todo um livro sobre como lidar com um recém-nascido é que, se o embrulhassemos numa mantinha de determinada maneira, ele acalmava. Ainda hoje acho que foi sorte. Umas vezes acalmava, outras não. O mesmo com os remédios anti-cólicas: a dada altura já não sabia se faziam efeito, mas não conseguia deixar de lhos dar com medo que piorasse. Que seja, às vezes é preciso placebo para nos sentirmos mais calmos. E os outros pais de crianças da mesma idade que não, que dormiam, que os bebés eram muito calmos, não davam dores de cabeça a ninguém. Pois sim, uns tempos mais tarde, para aí aos nove meses (ou mais) do meu filho, quando o meu há muito já tinha passado a fase das cólicas e se tornava num bebé bem disposto e sossegado (nem os dentes deram muito trabalho, ao mesmo isso, bastaram-me as cólicas a partir do terceiro dia do nascimento), venho a saber que a tal criança super calma dos outros pais, com a mesma idade do meu, ainda era acalmada à custa daquele líquido cor-de-rosa/avermelhado doce. Não dava trabalho nenhum, não era? Fiquei a gostar muito pouco de pais perfeitos, para quem está tudo bem, cujas vidas são um paraíso desde que têm filhos. Há por aí muitas mães do Ruca. 

O meu filho tem cinco anos, quase seis, vai entrar em setembro na escola primária e, não parece, mas tenho algum medo. Algum. Parece-me normal. Não estou apavorada, não estou a achar que não saberei lidar com eventuais problemas e dificuldades, estou apenas com a consciência de que as coisas vão mudar, que ele está a ficar grande e eu também. 

Quase todos os dias passo os olhos por especialistas absolutamente surpreendentes sobre a existência das crianças, que dão conselhos que mudam a vida de não sei quantas famílias e hoje, domingo, começo o dia a ouvir uma psicóloga que escreveu mais um livro de coaching parental ou lá o que lhe queiram chamar. Não tenho nada contra psicólogos. Mas este tipo de livros já me fartam. Porque nenhum livro consegue chegar à especificidade de cada criança. E quem realmente precisa de ajuda só vai ficar mais confuso se comprar um livro destes para ler, ou se começar a ler vorazmente todos os artigos de opinião de pediatras que se multiplicam na internet e nas revistas. 

É o que eu acho, mas eu sou só uma das mães de primeira viagem mais nabas que já existiu. Ainda assim, tive todos os instintos que não se explicam, toda a cumplicidade, toda a habilidade para lidar com tudo o que vai surgindo ao longo de cinco anos de crescimento (mesmo com as cólicas, mesmo com as birras). Não sou nenhuma mãe especial. A única coisa que me torna diferente é que o meu filho chorou tanto, mas tanto, quando era bebé, e eu tentei tanto, mas tanto e sem sucesso nenhum sossegá-lo com sussurros e cantorias e miminhos ao ouvido que, quando ele volta àquele choro sonoro que deixa toda a gente aflita, eu mantenho-me calma, quase sempre não consigo dizer nada.  

Sou apenas mãe. Uma mãe que acha que somos melhores do que a sociedade nos quer fazer querer. Que tem tempo mesmo não tendo tempo, mesmo trabalhando fora de casa, mesmo chegando a casa exausta e a ter de continuar o trabalho no meio de roupas, loiça e refeições. Uma mãe que, de tanto lhe buzinarem aos ouvidos (o bebé chora tanto, deve ser isto, ou aquilo, não seria melhor...), percebeu cedo que muitos dos "problemas" são fases, passam sem fazermos nada por isso na maior parte dos casos. Quando não passam só porque sim, então trabalhemos para resolver a questão. Mas sem livros. 

Não sei que dia é hoje, mas hoje sou a super mulher

Ainda hoje é quarta e já me parece sexta-feira. Pior do que isso, vou estar a trabalhar no fim de semana e a minha sexta-feira não vai ser sexta, vai ser quarta. Estou, portanto, muito pior do que parece. Já trabalhei 12 e 13 horas por dia mas, quando saía do trabalho (mesmo quando o fiz em casa) não tinha mais nada com que me preocupar. Não há leite? Amanhã compro. Ou depois. Quando der. Não há jantar? Não faz mal, desenrasca-se qualquer coisa (a maior parte das vezes atum e salmão fumado, tanto que cheguei a um ponto de enjoo). Há muita roupa para lavar? Não sei, nem reparei... E, depois, os filhos (o filho, neste caso), tanta roupa minúscula para lavar e passar a ferro, benditas fraldas descartáveis, a criança chora, toca a parar tudo, quero ir à casa de banho, ele não pára, preciso de tomar banho, ele não adormece... Depois tudo melhora mas ainda são precisos os jantares, mesmo que nos baldemos à sopa, mesmo que estejamos tão desesperados que só nos reste forças para uma pizza, e a atenção, e a brincadeira e o dorme, por favor, estamos todos cansados. Trabalhamos 10 horas e nada de sofá, disso sinto falta. Do resto já nem sei, nem me lembro bem, só não vou pelo atum e pelo salmão fumado todos os dias porque ele não gosta e, vá lá, tenho alguma consciência e sei que tenho de lhe dar uma alimentação variada, escusam de chamar já os serviços sociais. A roupa já quase não se passa a ferro, mas no verão é mais difícil, as t-shirts ficam mais à mostra, se estiverem muito engelhadas é capaz de se tornar demasiado óbvio. De resto é preciso aspirar e limpar o pó e arrumar, mas há muito mais vida para além disso. Ninguém vai fazer por mim, eu farei quando tiver disposição para isso (às vezes basta estar irritada ou chateada com alguma coisa, mas tem de ser uma neura específica, se não for essa já não consigo, afasto-me do cotão como se nada estivesse no chão, faço de conta que os móveis não têm pó, que o chão da cozinha não está a ficar nojento). O miúdo continua a deixar os brinquedos e os recortes e os cadernos e as canetas e as cadernetas espalhadas na sala, por mais que o abasteça de caixotes onde seja fácil enfiar tudo sem perder tempo com grandes arrumações. Mas, há umas duas ou três semanas que a tampa de uma das caixas serve de stand de automóveis e que a caixa lá está, vazia, e os brinquedos todos espalhados. Sim, podia ser mais persistente e insistente e resistente e irredutível, mas há mais vida para além disso, não tenho a minha casa como um museu, cada vez me faz mais confusão entrar em casas onde está tudo no sítio certo, onde parece que não vive ninguém. A maior parte das que conheço têm coisas fora do sítio, os mais estranhos objetos guardados nos mais inusitados locais, porque é ali que dá mais jeito, e se a casa é nossa, tem é de ser prática. Claro que, no meio do caos, desaparecem coisas por uns dias ou semanas ou meses. Ainda hoje a super-cola se escondeu sabe-se lá onde. Ninguém pegou nela, ninguém sabe dela, só pode ter sido a própria a pregar-nos uma partida. Por exemplo, tenho (tinha?) um relógio fantástico, insubstituível e com valor afetivo que anda desaparecido quase desde o dia da mudança para esta casa. Isso já foi quase há três anos, o desgraçado nunca mais deu ares da sua graça. Dou muito valor a quem trabalha o dia todo fora de casa e ainda chega a casa com capacidade para trabalhar o resto do tempo todo até se ir deitar, bem tarde, porque o trabalho de casa não é coisa que se despache como os trabalhos de casa da escola. Eu também trabalho quando chego a casa. Às vezes até faço o trabalho de casa ao mesmo tempo que o trabalho do trabalho. Mas para além dos jantares, das loiças e das roupas, não me sobra muito tempo para deixar todo o dia a casa a brilhar com os brinquedos arrumados e os casacos nos armários e os sapatos arrumados e tudo no sítio. Lamento, não sou a super-mulher, tolo de quem nos andou a fazer crer que era possível sermos sem ter empregada ou apoio familiar por perto. Ou melhor: tolo de quem nos fez crer que, não conseguir fazer tudo, sobretudo quando não se tem empregada e apoio familiar por perto, não faz de nós verdadeiras super-mulheres. Que às vezes não sabem bem em que dia da semana estão. Mas isso é porque têm muito em que pensar no turbilhão dos seus super-poderes.

Nevoeiro, saldos e botas pelo tornozelo

Vão começar a inundar-nos com "previews" da próxima coleção de outono-inverno e nós ainda nem sequer tivemos tempo para dar uso a mais metade da roupa de verão que temos no armário. Nem às sandálias. Pelo tempo que faz e que tem feito, tenho até a impressão de que sou detentora de sandálias até ao fim da vida. A julgar por estas condições metereológicas, nunca vou conseguir deixar velho tanto calçado daquele que deixa os dedinhos à mostra. O cenário não seria assim tão "dramático" se não estivesse a fazer um horário diferente do meu, a entrar consideravelmente mais cedo e a acordar inevitavelmente com nevoeiro, daquele que ainda é molhado. E se não fosse intolerante ao friozinho e ao nevoeirozinho e à chuvinha nos pés. 

Todos os dias vejo as previsões do tempo e lá me aparece, ao longe, um dia ou dois em que vai fazer um calor de morrer, mas no dia seguinte ou no outro a seguir já lá não está, já é só mais um dia de céu com nuvens e temperatura amena. A mim o calor a valor amolece-me mas dá-me pica, é só um bocadinho mais de mim, uma pessoa que não é bem uma pessoa, é quase só uma contradição. E, ainda que contraditória e sempre cheia de dúvidas (corto ou não corto o raio do cabelo - se estivesse calor, pelo menos ajudava a tomar a decisão de uma vez por todas), sei que me está a fazer falta o calor. 

Também já me convenci, também a propósito dos SALDOS, que não vale a pena ter muita roupa de verão. As alterações climáticas chegaram mesmo e, pelo menos para quem não é acalorado, não vale a pena ter um guarda-roupa cheio de peças fresquinhas, decotadinhas, levezinhas e cheio de vestidinhos e muitas sandalinhas para suportar o calor.  Antes umas botas pelo tornozelo. Estou a exagerar, a coisa não está para isso, mas gastei tanto as minhas de inverno durante o inverno que nunca mais acabava que é disso que estou a precisar (malta, faço anos em agosto, se possível não me façam compras nos saldos, ok, guardem-me uns trocos para eu usar na coleção de inverno).

E, com isto (dois meses de algo que quase nem primavera parece quando já estamos no verão parece ser suficiente), conformei-me. Pode ser que agosto e setembro sejam meses fantásticos. Se não forem, continuarei acomodada com o estilo primavera-verão que finalmente consegui conjugar para me sentir bem comigo e com o que tenho no armário. Sem fazer contas ao que vou vestir daqui por uns dias, se afinal ficar mais frio, ou se finalmente chegar o calor. Só não sei o que faça ao cabelo.